Sou uma famópia

29.10.07

Sou um Famópio
Baixei da internet “Histórias de cronopios y de famas”, do Cortázar. Em espanhol, porque em português parece ser impossível.

Primeiro, eu vou transcrever um dos contos do livro. Depois, conto uma historinha minha.

****************

“EL CANTO DE LOS CRONOPIOS
Cuando los cronopios cantan sus canciones preferidas, se entusiasman de tal manera que con frecuencia se dejan atropellar por camiones y ciclistas, se caen por la ventana, y pierden lo que llevaban en los bolsillos y hasta la cuenta de los días.
Cuando un cronopio canta, las esperanzas y los famas acuden a escucharlo aunque no comprenden mucho su arrebato y en general se muestran algo escandalizados. En medio del corro el cronopio levanta sus bracitos como si sostuviera el sol, como si el cielo fuera una bandeja y el sol la cabeza del Bautista, de modo que la canción del cronopio es Salomé desnuda danzando para los famas y las esperanzas que están ahí boquiabiertos y preguntándose si el señor cura, si las conveniencias. Pero como en el fondo son buenos (los famas son buenos y las esperanzas bobas), acaban aplaudiendo al cronopio, que se recobra sobresaltado, mira en torno y se pone también a aplaudir, pobrecito.“

O CANTO DOS CRONOPIOS

Quando os cronópios cantam suas músicas preferidas, se entusiasmam de tal maneira que com frequência se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem pela janela, e perdem o que levavam nos bolsos e até a conta dos dias.

Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas correm para escutá-lo ainda que não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram algo escandalizados. No meio da roda o cronópio levanta seus bracinhos como se sustentasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça de Batista, de modo que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que estão aí boquiabertos e perguntando-se se o senhor cura, se as conveniências. Porém como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas), acabam aplaudindo ao cronópio, que se recobra sobressaltado, olha em torno e se põe também a aplaudir, pobrezinho.

(Júlio Cortázar, Historias de cronopios y de famas. Tradução tosca e fuleira, feita por mim. )

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Meu pai era preguiçoso. Gostava de comer na cama, vendo televisão. Mas em alguns dias, raros dias, ele ia até a cozinha, jogava álcool dentro de uma panela e cortava calabreza em rodelas e tacava fogo na panela, fazendo as gorduras da linguiças explodirem longe. Cortava queijo qualho em cubinhos, lambendo os dedos e espalhando migalhas pelo chão da cozinha.

Minha mãe sempre reclamava quando papai pedia pra ela comprar queijo em bloco. Ela preferia comprar queijo já fatiado, porque detestava ficar com o cheiro de queijo nas mãos. Era ela quem lavava os pratos e esfregava a panela empretecida, após o fogareiro de álcool.

Descobri que sou filha de um cronópio e uma fama.

[Republicação de um texto do dia 15/07/2007]

Escrito por Menina Eva
Arquivado em: Contos, Infância, Família, Livros
3 comentários


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Comentários:


Comentário de: ana p.

Agora sim o texto apareceu!

Nem te conto o suadouro que foi... Estou estragando o CintaLiga.

E eu já tinha visto o texto antes, tenho certeza! Mas continuo achando bunito! :)

Ô, queridíssima.

PermalinkPermalink 29.10.07 @ 22:07



Comentário de: André Marmota Email · http://interney.net/blogs/marmota

Aeee!!! Menina Eva descobrindo os prazeres do Calhau! :P

Andei revirando meus arquivos antigos, tem umas coisas lá que não perderam a validade. E aí eu pensei como Caetano, porque não, porque não?

E eu sempre me achei um cronopio 100%.

Um filho de cronópio com cronópia? Quem leu o livro sabe que isso não existe - todos os cronópios são filhos de famas.

PermalinkPermalink 30.10.07 @ 09:00



Comentário de: gugala · http://www.gugaalayon.blogspot.com

Este livro do cortázar é o máximo mesmo.
O cara é 'fantástico' em todas acepções possíveis da palavra.
bj

PermalinkPermalink 30.10.07 @ 17:36



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