From Me To You

19.10.07

Um dia qualquer de fevereiro de 2006: um moço lê um comentário meu feito no blog do Rodrigo Ghedin. Gosta do que lê e resolve entrar no blog da autora das palavras, meu finado Striptease Cerebral (que os deuses do Vale do Silício o tenham).

Ele cai num post que falava da minha bipolaridade, as crises que já tive, o período de remédios e até a internação ocorrida alguns anos atrás, à base de toda a sorte de drogas alucinógenas, alienantes e, por que não dizer, anestesiantes cerebrais.

Por uma (in)feliz coincidêndia, ele tinha passado pouco tempo antes por um problema bastante semelhante que acometeu o pai dele, fazendo com que ele se identificasse muito com o post e deixasse um dos melhores comentários ali (e olhe, recebi muitos, perdi a conta).
Dias depois eu retruibuo a visita e, de cara, já caí num texto muito engraçado, uma crônica qualquer da qual agora não me lembro, mas que me cativou.

Li, comentei e salvei o blog nos favoritos, para voltar lá com mais calma. No dia seguinte voltei e passei no mínimo quarenta minutos lá, lendo crônicas mais antigas (e quem, como eu, assina o feed de mais de 100 blogs, sabe que despender tanto tempo assim em um único blog - ainda mais um recém descoberto -, só se a identificação for enorme mesmo), morrendo de rir. Humor irônico, inteligente e até umas piadas por vezes cretinas, mas, por isso mesmo, muito a ver comigo. Aquele humor que não poupa nada nem ninguém (inclusive e principalmente a si próprio), que eu valorizo muito.

Mais comentários. Outro dele no meu blog. Outros meus no dele. Justamente eu, que muuito raramente comento em blogs! Adoro ler, mas sou muito mais voyeur mesmo.
Em seguida veio o périplo que certamente é o adotado pela maioria dos casais surgidos na web 2.0: adicionar como "amigo" no Orkut (eu passei vários dias como stalker do perfil dele, sem coragem para adicionar ou mesmo para deixar um singelo scrap de "oi"), passar umas semanas com troca de scraps engraçadinhos e, em seguida, partir para o MSN. Conversamos mais algumas semanas até nos encontrarmos pessoalmente, ficarmos juntos e começarmos a namorar. Sim, tudo quase numa tacada só, que o Tuca não é destes de deixar a garota ligando pras amigas com paranóias do tipo: "Ai, estamos saindo há três meses e ele ainda diz que precisamos nos conhecer melhor. O que você acha disso, Ju/Ka/Lu/Ana/Bia??".

E hoje, passados dezoito meses – período mais conhecido como “um ano e meio“ – desde o primeiro beijo, sinto que tem tanta coisa ainda pra gente viver... termos nossos gatos (um terá de ser o Darth Vader - gatinho preto que ele faz questão de adotar um dia, só pra batizar com este nome nada meigo), morar um tempo em Barcelona, Madrid, Lisboa, Roma, Londres ou algum lugar na Austrália ou na Califórnia (ai, me deixem sonhar. ;)), juntarmos nossos mouses (e livros, roupas e CDs) e, a maior empreitada na vida de qualquer casal, termos a Sofia (nossa filha, trazida ao mundo só daqui a no mínimo três anos, se os deuses e nosso bom senso quiserem). Que, vale ressaltar, será gerada e criada por uma mãe cheia de dúvidas em relação à maternidade, que até hoje tem medos, paranóias e um monte de encanações a respeito de colocar mais um cerumanozinho neste planeta de recursos cada dia mais escassos.

E, além disso, sua frio só de pensar em passar os genes defeituosos da família Köhler, cheia de gente com depressão e até doida de pedra (fora a bipolaridade presente também na parte paterna do Tuca).
É, esta decisão talvez seja a mais difícil na vida de muita gente. Na minha, pelo menos, é um eterno embate.

Mas ao mesmo tempo que coloco na baçança, de um lado, a parte ruim dos genes e os recursos escassos do planeta e, do outro, o quanto eu e o Tuca teríamos de valores legais pra passar, o quanto a Sofia poderia ser uma mulher extremamente bacana, uma cientista, uma psicóloga, uma escritora (ai, filha, não, fuja disso, aqui é furada), uma menina maluquinha que se transformaria numa mulher cheia de coisas legais e ideais, então eu acabo vencendo meu lado mais niilista e pensando de forma bem mais condescendente na possibilidade de ter um filho. E só o Tuca mesmo pra me fazer pensar nisso, porque antes dele eu praticamente tinha abortado (com trocadilho) esta idéia.

O Tuca é meu amigo de boteco, restaurantes, cinemas e passeios sem rumo de moto, de ficar batendo papo madrugadas afora, de tomar cerveja em pé e ainda assim sem reclamar muito (isso é somente com ele e muito de vez em quando mesmo, que eu sou chata e estou velha), de descer a serra apenas pra dar uma volta pela orla de Santos num domingo frio e cinzento, com um sol tímido surgindo entre as nuvens vez ou outra (alguém mais aprecia praia neste cenário, como eu? É de uma melancolia única, eu vejo uma beleza imensa nisso), de ir ao Mercado Municipal de moto só pra encarar aquele sanduíche ignorante de mortadela que eles têm, de sair de moto, de carro, de ônibus, a pé, de bicicleta, de nave espacial, de ir ao Consulado Mineiro só pra uma cerveja e uma porção de qualquer coisa, porque eu estou cabisbaixa e ele quer me animar.

O Tuca é pra mim o que a Helen Hunt foi para o Jack Nicholson no filme Melhor Impossível, me fazendo querer ser uma pessoa melhor a cada dia. Mais humana, mais condescendente, mais confiante, menos cética e incrédula no ser humano. É um processo difícil e a passos lentos, mas ele tem conseguido alguns avanços. E eu nem sei de que forma agradecer senão apenas escrevendo este post de pé quebrado, mas de coração.

P.S.: *, este texto foi pra você e espero que você goste. Feliz 18 meses, namorido! Que venha a quarta temporada (levando em conta que as nossas temporadas têm, em média, seis meses. :P)! ;)

* Tuca na blogosfera, Má (de Marcelo), na intimidade. ;)

Escrito por Patrícia Köhler
Arquivado em: Comportamento, Relacionamentos, Amor, Emoção, Esperança, Romance, Família
11 comentários

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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Tuca · http://www.fiapodejaca.com.br

(suspiro)... ;) Fico imaginando aqui, daqui uns anos, a Sofia lendo esse texto, com um sorrisão daqueles. Esse e outros tantos que ainda virão, do meu, do seu, do nosso teclado.

Te amo, linda. Bem-vinda à quarta temporada. :D


PermalinkPermalink 19.10.07 @ 19:40



Comentário de: ana p.

Puxa vida... fazia tempo que eu não via uma declaração tão simples e tão cheia de sentido!

Lindo mesmo vocês dois, mesmo sem conhecer! :)

Parabéns e espero que todos aqueles planos que vocês têm sejam realizados, claro que com muita suadeira, né! ;)

PermalinkPermalink 19.10.07 @ 19:46



Comentário de: Luciana · http://www.interney.net/blogs/cintaliga

Um minuto de silêncio pra eu chorando com o post do Tuca!
Lembrei de quando você me contou que o Tuca tinha pedido você em namoro, segurando a sua mão. Foi tão lindo você contando que tenho certeza que foi infinitamente mais lindo quando aconteceu...
O Tuca é um querido - O seu querido! - e antes eu perguntava para as outras pessoas como ele era. Depois de conhecê-lo vi que você estava em boníssimas mãos, porque ele é carinhoso e atencioso contigo - e super tranquilo! - e você merece e precisa de alguém assim.
A Sofia vai ser uma linda da tia Lu e vai gostar de bichos e letras que nem vocês dois. ;)
Beijo para o Tuca e pra você, Patinha.

PS - Eu sou madrinha desse casamento! E da bebê também! :P

PermalinkPermalink 19.10.07 @ 20:08



Comentário de: vivian martins

Realmente tinha tempo q não via um texto tão simples e ao mesmo tempo tão bonito,Eu tbm gosto dessa paisagem, mas não só na praia, eu acho muito bonita em qualquer lugar...

PermalinkPermalink 19.10.07 @ 21:18



Comentário de: Lucia Malla · http://umamallapelomundo.blogspot.com

Aaaaa!! Q linda declaração!!! O amor está no ar, e isso é lindo.

E vou confessar: eu adoro vcs dois. Um casal supimpa q merece uma vida supimpa, num futuro supimpa, com Sofias e Darth Vaders - supimpas. Parabéns aos dois pela data especial! :)

PermalinkPermalink 19.10.07 @ 22:03



Comentário de: claudia lyra · http://www.loucaporblog.wordpress.com

Sabe, Pat: quando fiquei sabendo que vocês dois eram namorados, eu fiquei super feliz, porque eu adoro ler vocês dois e achei, só pelos textos, que tinha tudo a ver. Aí, vi vocês de perto e confirmei a minha primeira impressão. Adoro vocês, amiga! Então, só tenho uma coisa a dizer: CASA COM O TUCA, GURIA!!!!


PermalinkPermalink 19.10.07 @ 22:50



Comentário de: alex castro

lindo!

PermalinkPermalink 19.10.07 @ 23:44



Comentário de: Ricardo · http://rickbandeirante.wordpress.com/

Olha, isso é o que na minha terra se chama de um belíssima declaração de amor. Parabéns e muitas "temporadas" juntos.

PermalinkPermalink 20.10.07 @ 06:32



Comentário de: Kandy · http://ideiasnajanela.blogspot.com

Nossa, essa é a primeira vez que choro com um post. E não consigo parar! Choro porque é lindo, porque gosto muito de vocês e vê-los felizes me emociona (porque a felicidade anda tão escondida hoje em dia), choro porque mexe muito com a minha sensibilidade constatar que o amor é, sim, possível, que as pessoas têm o que merecem (e vocês merecem só momentos bons como os descritos no post), enfim, eu não paro de chorar. Mas que fique registrado que é de alegria. A Sofia não poderia ter pais melhores. ;-) Parabéns!

PermalinkPermalink 20.10.07 @ 13:57



Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/

Patricia:

Entendo melhor sua empatia com as outras bipolares da vida. Seu texto me surpreendeu; exatamente por sua simplicidade.
Sou mãe bipolar de famílias cheias de bipolares, do tempo que esta desordem não tinha nome. Fui mãe aos 39 anos, não porque não quisesse filhos. Esta foi a quarta gestação e a única que veio a termo. Gostaria de ter sido mãe mais jovem para evitar complicações da idade. É o período da gravidez e pós-parto que são o perigo: de estado de graça para a depressão logo ali.
Desejo felicidades aos dois. Aos três.

PermalinkPermalink 21.10.07 @ 09:35



Comentário de: Nelson Moraes Email

Eu, que já vi os dois juntos (pena que foi por pouco tempo, mas vi), sei que um faz bem à outra, a outra faz bem ao um e os dois fazem bem a quem estiver por perto. Felicidades, e que a vida os conserve assim, lindos e fazendo de cada temporada uma comédia romântica, e não um melodrama.

:o*

PermalinkPermalink 25.10.07 @ 05:36



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