De Fagner a Wagner, em cinco segundos
09.10.07
Quando eu lembro de algumas situações vividas em primeiros encontros, sinto a face ruborizar até hoje, mesmo que sejam coisas vividas há oito, dez ou doze anos.
Alguma sexta à noite deliciosamente quente de fevereiro de 2002: eu e um homem uns bons anos mais velho, um grande amor e hoje em dia grande amigo, andando pela Teodoro Sampaio. Ele, economista e músico e amante de Beatles e rock do bom, mesmerizado com as vitrines de todas aquelas lojas de instrumentos musicais. Eu, estudante de Letras e enfiando a cara em cada sebo que aparecia.
Eis que eu solto a frase que poderia ter posto TUDO a perder, não fosse ele a pessoa maravilhosa e única que é:
- Ai, olha, sei que estamos falando de rock e suas variantes, mas vou confessar, eu gosto de Fagner.
(Ele me olha com a expressão da tão famosa Marmota que ganhou até vídeo no youtube, com música incidental e tudo. Se eu falasse que tinha jogado um filho recém-nascido na Lagoa da Pampulha, seu desapontamento e espanto teriam sido menores, juro.)
- Nossa! Eu ouvi bem?? Você gosta do... do Fagner?? Aquele do "Quem dera ser um peixe??"
Situação certa:
- Hein? "Quem dera ser um peixe"? Do que você tá falando? Você ouviu errado, eu disse que gosto de Wagner. WAGNER! Com dábliu. O compositor alemão... adoro Debussy também.
(Cara de intelectual, pra combinar com o livro do Goethe e as muitas apostilas de latim e tradução que eu levava).
Situação errada - e obviamente adotada por mim:
- O quê? Eu ouvi bem?? Você gosta do... do Fagner?? Aquele do "Quem dera ser um peixe??"
- Er... sim. Ele mesmo. Mas pô, você usa de exemplo uma música pavorosa, que até eu detesto. Mas vai dizer que você não acha Canteiros e Deslizes duas músicas lindas?
- Nunca, credo. Brega demais. Mas tudo bem, gosto é gosto e não vamos falar disso.
Gentêdocéu! Que constrangimento. Fiquei com cara de pastel por vários segundos, só pensando: "Perdeu, playboy".
Mas o que aconteceu é que a gente morreu de rir e começou uma sessão "coisas inconfessáveis" que durou o tempo todo do trajeto feito malemolentemente a pé entre o alto da Teodoro à estação Trianon-Masp do metrô, numa das melhores noites da minha vida, nestas em que a cumplicidade entre duas pessoas chega quase no limite.
Até hoje morro de rir lembrando daquela cena. Mas, claro, a minha sinceridade, não tivesse sido exposta à pessoa que foi, poderia realmente ter colocado uma pá de cal ali.
Tenho mil gafes e situações vexaminosas pra contar, mas claro que muitas não valem um post nem pra minha família ler, que dirá colocar no blog.
Se eu pudesse voltar no tempo e estar naquela sexta-feira quente de 2002, eu teria falado exatamente a mesma coisa, sem querer esconder meu lado brega. Foi o excesso de sinceridade que nos proporcionou um papo ótimo e muitas risadas, afinal.
Ademais, a máscara cairia facilmente assim que eu ouvisse, em algum lugar, os primeiros acordes de Canteiros ou Deslizes e já começasse a cantarolar...
Melhor não pegar ninguém desprevenido, com a certeza de ter levado gato por lebre... :p
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Música, Relacionamentos, Amizade, Amor, Gente, Humor, Papelão, Diálogo
10 comentários
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Comentários:
Mas sinceridade é o que há!
Oi, Marília! (Agora a gente se conhece pessoalmente!
Sim, divertidos e necessários na nossa vida estes momentos.
Mas o pior sou eu, que gosto de Bon Jovi!
Beijo. (bom ler texto teu, viu?)
Carlinha, você não é tão desorientada assim. Do alto da Teodoro à estação Trianon-Masp é mesmo uma beeela caminhada. A gente andou mais de uma hora, certamente. Mas quando a companhia é boa (mesmo que seja a nossa própria), isso é o de menos. E eu sou uma bela andarilha, sabia?
Ah, eu gosto do Bon Jovi também!
(Ai, agora perco de vez meus poucos leitores! Hahaha!)
(Bom ler comentário seu, viu?
André, taí, uma ótima pergunta a sua! Djavan é um letrista que parece pegar músicas obscuras e desconhecidas em idiomas de outros países e colocar num programa de tradução... totalmente dadaísta... e realmente quase ninguém se envergonha ao falar que é fã. Que coisa.
Não basta ser namorado, tem que ouvir Balão!

Ah, eu tb curto o Fagner... e eu gosto do quem dera ser um peixe...
PS - Sem contar os trocadilhos infames que ele fez com a música, lembra?
Lu, que lembrança esta sua! Hahahahaha! Pois é, não basta ser namorado, tem que pagar mico.
Ah, eu canto a Quem dera ser um peixe (é outro nome, mas este é certamente o mais conhecido), mas só escondida. E não espalha, isso fica entre a gente, ok?
Por causa dessa lembrança que você evocou, vou ter que encarar mais dez meses de terapia para, quem sabe, superar esse trauma: eu, naquele carro, noite movimentada em plena Avenida Paulista, tendo que ouvir todas as músicas daquela banda cover dos Timbi-sei-lá-o-quê. Foi demais... Até hoje a minha testa continua amassada, de tanto tentar esconder a cabeça, em vão, naquela mochila...

Ainda bem que eu amo a Pat.
Ai, que draaaaama, Tuca! Você já viveu coisas piores ao meu lado, como me ouvir cantar a plenos pulmões Evidências, do Chitãozinho e Xororó, no caraoquê da Choperia Liberdade. Se lascou, lindo... sua vida daqui pra frente será sempre recheada destes momentos "sou brega sim, mas não espalha que eu nego".
É, ainda bem que você me ama meeeeesmo. Só com muito amor pra agüentar certas coisas, eu sei...
Te amo também, muitão.
a) Fagner é legal. Canteiros é linda. Tem uma outra que fala "desse teu suor salgado", e aquela outra que fala "da virgem do poema, a linda Iracema",sendo que Iracema é virgem do ROMANCE, mas a gente perdoa. E o Fagner tem bem mais técnica vocal do que a overmusa Joelma.
b) Agora imagina a cara dos meus amigos quando eu digo que, assim, de uma maneira geral, rock pra mim é só Beatles e mais ninguém. "Como assim? E Nirvana, Placebo, Soundgarden?" E eu, ingênua: "Quem?"
c)Eu preciso fazer minha série de posts "Djavan analisado". Eu adoro Djavan, adoro as letras, adoro quando ele toca violão, adoro a voz dele. E acho a maior graça quando o pessoal do Virunduns sacaneia com ele.
d) A música do peixe chama-se "Borbulhas de amor", e é uma versão de "Burbujas de amor", de Juan Luiz Guerra, um cantor de merengue natural da República Dominicana. Juan Luiz Guerra é um dos artistas latinos mais famosos DO MUN-DO, e também compôs a música "Bachata Rosa", que foi estropiada em português por ele próprio, sob o título "Romance Rosa", sendo tema da novela "de corpo e alma".
e) Balão rulez!
Evinha, Fagner é legal, sim. Ah, eu sabia que a Borbulhas de Amor é uma versão de uma música em espanhol ou castelhano, mas foi bom saber quem é realmente o cantor/autor original!
Eu também adoro o Djavan! Mas reconheço que muitas letras dele não dizem absolutamente nada com nada.
Ah, Balão rulez, sim!
Paulo, eu gosto dois dois também! Vou de Adoniran a Mozart sem problema ou medo de ser chamada de "eclética sem gosto musical definido".
Nossa, ALah Rica! Que lembrança! Hahahaha!
(O dia da leitura do conto do Allen e das suas engasgadas com as risadas vale um post também, não?
P.S.: preciso falar da minha cara no chão sabendo da sua presença aqui?
Ainda bem que essa não sou eu!

Besito.
OBS.: A-DO-RO cantar Evidências no caraoquê!
Tata, eu sei que a pessoa não é você, nem precisa afirmar. Você é uma pessoa sensata e jamais pegaria no pé do namorado por causa de um pagodinho sendo que sabe de cor a letra de um Exaltasamba da vida! Hahahahahahaha!
(Mooooorro de rir com estas coisas.
Ah, demorô então de um dia a gente ir em algum caraoquê (este da Choperia Liberdade do qual falei num comentário mais abaixo é ótimo, você já foi?) e arrasar com os ouvidinhos dos nossos incautos namorados, cantanto os agudos do Xororó!
Obrigada pelo espaço,e se quiser responder fique a vontade.
Abraços,
Manoela
Olá, Manoela. Menina do céu, você quase me fez perder a respiração com este comentário! Este é o segundo maior parágrafo que já li sem ponto final NENHUM, só perde pra muitos do Saramago no Ensaios sobre a Cegueira.
Ah, eu não falei em nenhum momento mal do Fagner, nem no post e nem nos comentários (aliás, muito pelo contrário), então acho que houve um belo erro de interpretação de texto aí da sua parte.
Abraços pra você também.
P.S.: espero que o comentário sobre o Djavan tenha pausas pra eu respirar ao longo da leitura. Ou que ele seja feito num espaço SEU.
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