O morro não tem vez

20.09.07

A casa onde moro na companhia da minha mãe, dos nossos oito gatos (sete da casa e um hóspede que vem aqui religiosamente todos os dias, há meses, então já contabilizo), três cachorros e duas maritacas (logo mais explico a situação desta bicharada toda, num post que vai entrar nos próximos dias... desta vez inteiro, viu, Claudia? Haha! :p) fica num bairro que eu considero bom por muitos motivos, mas péssimo por outros.
O primeiro contra é o mais forte e indiscutível: nossa rua já sofreu muitas enchentes, sendo que em algumas chegamos a perder tudo que pessoas normais têm, além das coisas que as pessoas com "Síndrome de Esquilo", como nós, temos, que são toneladas de documentos, bibelôs, fotos, cadernos, agendas e brinquedos que não teriam valor pra ninguém, mas cujo valor sentimental era imensurável, pra gente.
Fizemos um segundo e um terceiro andar na casa, praticamente inutilizando a parte térrea. Inutilizando é um termo péssimo, aliás, já que é nele que ficam meus bens mais preciosos, tirando a minha mãe: meus gatos e cachorros. Fora o carro, que, mesmo eu estando longe de fazer o estilo "apaixonada por carro, como todo brasileiro", como apregoava aquele conhecido comercial, também me é muito caro e útil.
O segundo contra são os vizinhos: uma marmoraria que nos tira da cama às sete da manhã todos os dias, INCLUSIVE SÁBADOS E DOMINGOS (sim, já reclamei, já chamei a Polícia, já acionei o Psiu... e tudo o que tive foi dor de cabeça... desisto... aqui realmente não é um País sério), uma casa que está abandonada e cuja altura do mato no quintal pode facilmente esconder uma manada de elefantes e zebras, fora poças de água parada há anos que nos fazem morrer de medo de dengue. A gente liga, reclama, e não fazem nada, alegando que não têm como entrar na casa. Eles não entram, mas muitos moradores de rua já entraram. Curioso isso.
Não temos metrô aqui perto. Isso também desanima um pouco. Eu adoraria morar a no máximo um quilômetro de uma estação. Está sendo construída uma estação que ficará justamente a esta distância daqui, mas sabe-se lá quando ela será inaugurada.
Bom, estes são os principais pontos negativos.
Agora, vamos às imagens que justificam e muito o meu amor por esta casa:

Árvore 01

Esta árvore já foi o pomo da discórdia entre mim e minha mãe, por motivos que talvez façam eu ser enquadrada como nazi, então deixa pra lá. Um dia eu tomo coragem e conto.
É linda, ainda mais nesta época do ano. Fica bem em frente às janelas da sala e à varanda. Um bálsamo olhar pra ela.
(Vale clicar nela para ver no tamanho grande, no Flickr. :) )

Morro 02

Este morro fica também em frente à minha casa. Ele merece um mini conto, de tantas histórias que ele guarda da minha infância e pré-adolescência.
Ele é enorme, de mata nativa, e infelizmente algumas das maiores e mais frondosas árvores dele foram arrancadas, deixando grandes clareiras. Dá para vê-lo de qualquer janela da minha casa (das que ficam viradas para a rua, claro), e, especialmente da cozinha, eu adoro olhar pra ele enquanto estou cozinhando algo ou lavando louça. Me dá uma sensação ótima, de estar em alguma cidade do interior, na roça, em alguma fazenda. Aconchego, resumindo. :)
Falem sério, não é todo mundo que pode abrir a janela e dar de cara com árvores todas as manhãs aqui em São Paulo, então me sinto mesmo privilegiada. Bem, eu sou do time que, mesmo sendo urbanóide, ama árvores e vegetação, então talvez eu não seja muito boa jurada pra isso.
Semanas atrás, porém, descobri que este morro talvez não exista mais daqui a dois ou três anos. Estão construindo um conjunto de prédios nele, quatro edifícios, parece.
Pode ser que não acabem com o morro todo, que seja só uma parte. Eu torço demais, demais mesmo pra que, ao menos esta parte que é visível pra mim (que é a que aparece nas fotos), seja intocada. Ao que tudo indica, não mexerão mesmo, pois querem fazer estes prédios na parte de cima do morro, que nem aparece aqui nas fotografias (sim, ele é enorme mesmo). Eu vou ficar arrasada se, ao abrir as janelas, der de cara com edifícios e outras pessoas. Não quero isso, nunca quis. Sou meio bicho mesmo. Gosto de pessoas quando eu vou atrás delas, não quando a presença delas me é imposta. Ao menos aqui, no aconchego da minha casa, eu valorizo demais a privacidade.
Talvez por isso eu nem cogite morar em apartamento um dia. Já morei, não quero repetir a experiência.
A não ser que eu ganhasse na loteria e comprasse um destes enormes, com uma varanda com espaço até pra plantas grandes e trepadeiras e sem janelas ao meu redor num raio de cem metros. Como eu sei que é impossível, fico aqui curtindo minhas arvorezinhas...
Pra encerrar, mais uma foto pra vocês me darem razão (ou não... :p):

Árvore parte 2

P.S.: Este texto e, especialmente, as imagens, podem ser também uma pequena homenagem à Primavera, que começa amanhã. ;)

Escrito por Patrícia Köhler
Arquivado em: Comportamento, Cotidiano, Fotografia, Jardinagem, Saudade, Família
9 comentários

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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Luciana · http://www.interney.net/blogs/cintaliga

Então. Bonita mesmo a sua árvore. Eu, que vivo cercada delas, entendo bem do que vc tá falando. Gosto do cheiro, das cores, da sombra... Também amo árvores. Até bem pouco tempo tinha um botton de uma arvorezinha escrito: preserve a mata. Perdi num show. :(
Quanto a vc ser bicho... Claro que é bicho, ora! Com uma plantação de gatos, cachorros e maritacas, qualquer um vira bicho por osmose!
Qualquer dia desses levo minha tartaruga pra passear aí no seu minizoo...
Boa primavera pra vc, Pat. Que ela te traga o colorido que vc merece na sua vida e que vc faça fotos bonitas como essas e compartilhe com a gente, aqui no NOSSO blog, o Cintaliga!
Beijo.



Luluzinha, estou PASSADA por só ter descoberto há poucos dias a existência das suas tartarugas! :p
Ah, eu disse que sou meio bicho mas não é de uma forma assim tãããão animalesca. :p
Amei suas últimas palavras. Me tocaram muito. E feliz dia da árvore atrasado pra você. ;)







PermalinkPermalink 20.09.07 @ 23:54



Comentário de: Tuca Hernandes · http://www.fiapodejaca.com.br

Bem, vale comentar também o fato de você ser que nem a princesa de um castelo, dessas que moram na torre. Bem, isso alguém já comentou por aqui, tempos atrás, mas nunca é demais lembrar, né? :D

Beijos!



Ai, ai... esta casa é mesmo um terror de grande, né? :p
E você não é mais o príncipe montado num cavalo branco (que era a sua Sahara violeta, que foi roubada... :()... agora vem montado num pônei, que é a moto do Marcos. :p
;)

PermalinkPermalink 21.09.07 @ 12:10



Comentário de: cottonboy · http://www.fotolog.com/cottonet86

Sou de cidade pequena (Aracaju) mas como moro aqui no rio a algum tempo já, posso dizer que dei sorte de morar num dos lugares mais tranquilos que tem sem precisar pagar muito ( ou eu poderia morar num dos mega condominios da barra da tijuca). Mas gosto desta casa pq ela eh toda de azuleijo, então sempre fresca a ponto deu ter de ficar analisando o céu quando acordo para saber se está quente ou frio lá fora... e minha rua quase não passa carro e os vizinhos parecem estar num eterno cemitério silêncioso (a não ser quando tem festa de criança no predio vizinho onde funk e xuxa rolam até altas horas... pobres crianças)

enfim... para quem já se mudou 20 vezes em toda a vida (eu tenho 21 anos.. dá uma média de uma mudança por ano com um ano de sobra hahaha) essa eh uma das boas casas que morei. ^^

e ai vc pergunta "que eu tenho a ver com isso?". Nada ne XD mas quis contar HAHAHAHA




Hahahahaha. Você é engraçado, Cottonboy. Olha só, eu já fiz dezenas de mudanças nos meus 30 anos. Há quase sete estou na mesma casa, mas antes disso a média de tempo que a gente ficava em cada casa era um ano e meio. Um transtorno mesmo, ainda mais pra uma pessoa mais tímida e introspectiva como eu, que demora pra fazer amizades. Tive de crescer no tranco, viu? :p





PermalinkPermalink 21.09.07 @ 19:16



Comentário de: Menina Eva · http://coisasdemanauara.wordpress.com

Árvores. Flores. Eu amo flores, eu amo árvores, mas fico me perguntando se nós, seres humanos, temos o direito de fazermos coisas do tipo a praça Batista Campos(Belém), ou o Parque dos Bilhares (Manaus). Lugares lindos, cheios de grama, verde, árvores, flores, ciclovias... e 100% artificiais. Será que não deveríamos deixar as árvores nascerem no lugar em que quisessem??

Feliz dia da árvore. É sempre um prazer ler um texto seu no NOSSO blog. :D



Eva, que lindo te ler aqui no NOSSO blog. ;)
Bom árvores, flores, folhas. Delicinha mesmo. :)






PermalinkPermalink 21.09.07 @ 20:26



Comentário de: Viva · http://www.verbeat.org/blogs/atmosfera

E eu tive o privilégio de conhecer as suas janelas :).




Viva, minhas janelas é que tiveram o privilégio de te conhecer. ;)

(Ah, leitor, eu sou puxa-saco meeeeesmo dos meus amigos, tá? Valem ouro. :))







PermalinkPermalink 21.09.07 @ 22:52




Pat, que delícia ler texto seu no blog de vocês... =)

Sabe que eu moro no meio no mato, né? Então eu gosto de árvores, de flores, dessas coisas todas mas não fico pensando nisso o tempo todo não.

Quanto ao minizoo, é uma delícia ter minizoos em casa. É muito melhor que assistir TV.

Beijos!




Carlinha, eu iria amar morar no meio do mato. E sim, ter minizoos é uma delícia mesmo.
Ah, pra mim qualquer coisa é melhor que assistir TV.:p
Beijos pra você também. ;)




PermalinkPermalink 22.09.07 @ 18:45



Comentário de: André · http://oleitoresseidiota.wordpress.com

Morei a maior parte de minha vida em apartamento. Porém, nos tempos de faculdade, sempre morei em casa. É uma experiência que quero repetir.
Pensemos que é algo mais ecológico. Uma residência em um terreno não faz a pressão sobre o meio-ambiente que fazem 20, 30 ou mesmo mais de 100. Encaixa-se mais harmonicamente à paisagem. Alguém consegue imaginar um edifício de muitos andares em uma bucólica zona rural? Nem eu.

Fora que mesmo com recuo, edifícios são coisas agressivas, como se estivessem estuprando a terra em que estão assentados. E, claro, a maioria sempre naquela base de uma formulinha pronta, tipo o caixote em que vivo. Uma ex-colega de colégio é arquiteta e dá para ver a desilusão dela ao fazer uma planta. É quase como fazer colagem no tempo da escola.
E os conjuntos populares então? A maioria deles é feita no cabo do esquadro. A vida que uma favela tem, uma Cohab nem de longe se iguala. OK, nas Cohabs que andei em minha vida, caminhava-se sossegadamente na rua, mas como são feios aqueles prédios. Favelas mais antigas, cujas casas já são de alvenaria, sempre têm o toque pessoal do morador. Já ouviram falar do Gaudí paulistano, um cara que foi decorando sua casa de perifa com cacarecos, a ponto de ficar praticamente igual às obras do arquiteto catalão? Pois bem, chamou tanto a atenção esse cara que inclusive ele ganhou uma viagem à Barcelona para conhecer as obras do cara em questão. Detalhe: até então, o tiozinho nunca tinha ouvido falar desse mestre. E talvez nunca ouvisse falar se morasse em uma dessas tantas unidades habitacionais umas iguaizinhas às outras e que muito me lembram arquitetura de país comunista.

Já estive na casa da Patrícia e realmente aquela árvore da frente é ótima. O morro com mata também. Provavelmente, há outras aves que não espécies exóticas e invasoras, como pombos domésticos e pardais.
Sobre a marmoraria e o terreiro, nos dias em que estive, não os ouvi. No caso da marmoraria, fico pensando se não existem técnicas mais modernas e silenciosas de cortar o material, que até dessem melhor acabamento.




André, por favor, TRANSFORME este comentário num post, porque merece. Muitos merecem, aliás, mas este especialmente eu adorei.
Sim, eu conheço o Gaudí paulistano, amei as reportagens que vi com ele uns três anos atrás. Tinha gente da arquitetura do Mackenzie envolvida, então eu soube rápido.
Demais mesmo o que o cara fez na casa dele, apenas com material reciclado, vidros, garrafas pet, papelão e demais cacarecos. Ficou o máximo. Confesso que morri de vontade de ir atrás dele, de conhecer a casa e tirar fotos. De tirar o chapéu mesmo.
André, você tem sorte de só ter vindo aqui tarde da noite e a marmoraria ter encerrado as atividades. Quanto ao terreiro, realmente em muitas noites eles ficam silenciosos. Thanks Dog! (sim, pra mim isso é coisa do Cão!, perdoem os adeptos... :p)
;)




PermalinkPermalink 22.09.07 @ 19:45



Comentário de: claudia lyra · http://www.loucaporblog.wordpress.com

A vista de sua janela parece mesmo com a vista de cidadezinhas do interior. Que privilégio! Você ia adorar onde moro. É bem arborizado e com uma linda vista para as Agulhas Negras. É muito bonito.




Claudia, você já postou fotos da vista da sua casa no blog? Porque eu tenho quase certeza que já vi.
Ah, sim, deve mesmo ser lindo o lugar onde você mora. :)







PermalinkPermalink 22.09.07 @ 22:51



Comentário de: Kandy · http://ideiasnajanela.blogspot.com

Linda a vista que você tem das janelas da sua casa, Pat! Puxa, deve dar mesmo uma sensação de aconchego. Eu não tenho isso aqui das minhas janelas. Só vejo um monte de casas empilhadas sem saber onde começa uma e termina a outra. Mas meu pai plantou um ipê amarelo aqui na frente de casa quando eu era pequena. E é ele que compensa tudo...




Kandy, é isso aí. Mesmo que eu não tivesse nada disso que tenho, nem a árvore, nem o morro, eu daria um jeito de deixar algo de contemplativo aqui pra eu olhar. A gente sempre dá um jeito de criar nossas válvulas de escape. Seja com um aquário, seja com vasinhos de plantas, uma samambaia, uma pintura que nos relaxe e nos tire do foco por instantes. Eu piraria mesmo se não tivesse nada disso. Que bom que você tem seu ipê amarelo... ;)





PermalinkPermalink 24.09.07 @ 13:01



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