O Palio e a paciência de Wilson
31.07.07
- Alô?
- Oi, Pat, tudo bem?
- Oi, mãe, tudo, diga lá.
- Você pode vir se encontrar comigo na - loja x - do Shopping Butantã, pra eu comprar o presente do André?
- Posso. A que horas?
- Daqui uma hora eu devo estar lá. Ah! Mas pega um dinheiro que eu tenho guardado na minha primeira gaveta na cômoda. Não esquece. Sem ele não dá pra comprar o que eu quero, tô com pouco dinheiro aqui.
- Tudo bem, eu levo. Até mais, beijo.
Pego o dinheiro na tal gaveta (uma nota de cem e outra de cinqüenta reais), me arrumo e vou encontrá-la. Quando chego no Shopping, ao descer do carro, não encontro minha carteira, onde costumo colocar os bilhetes de estacionamento. Procuro no carro todo, vasculho a bolsa, jogo tudo de dentro da bolsa em cima do banco. E nada. Começo a ficar nervosa, pensando na possibilidade de ter deixado a carteira cair na rua, ao entrar no carro (ele estava parado em frente à minha casa).
Não era pelos meus vinte e poucos reais e documentos (mas também seria péssimo perder um monte de coisa), mas mais pelos cento e cinqüenta reais da minha mãe mesmo.
Tento relembrar mentalmente tudo o que fiz desde o momento em que coloquei as notas na carteira. Mas tudo que lembrava era de ter descido as escadas, aberto a porta e o portão e ido em direção ao carro. Torci desesperadamente para que, se a carteira tivesse realmente caído, que
ao menos tivesse sido no trajeto da cômoda ao portão (na parte interna, claro). Assim, ela estaria nas dependências da nossa casa, de qualquer maneira.
Antes de me dirigir à loja, paro num caixa eletrônico (o cartão tinha ficado na bolsa, numa das laterais). Não, não depositaram meu dinheiro ainda, e vejo que trabalhar de graça está se tornando comum. Tem gente ficando rica mesmo com isso. Contrata e não paga, ou só paga depois de muita briga e humilhação, de pedidos e tudo o mais. Enfim. O mundo dos freelas às vezes é esta barafunda.
Vou encontrar minha mãe e digo que não estava com a carteira e com o dinheiro. Não disse que não sabia onde estava, mas sim que a tinha esquecido em casa. Não queria piorar as coisas ali, e eu já estava chateada demais.
Minha mãe diz que tudo bem, que ela ia pagar parte do valor e que eu poderia passar depois para completar. Poderia deixar até isso acordado com a vendedora, Vanessa.
Eu digo que não, que volto mais tarde e pago pelo presente integralmente, não precisa deixar reservado. Tá, tudo bem, que assim seja. Vamos pra casa, então, você parece nervosa.
Olha que lindo isso, Patrícia, quer um pra você? Não, mãe, pelamor, eu quero ir embora. Outra hora voltamos aqui.
Deixa eu dirigir, você está mesmo nervosa, dá pra perceber de longe. Ai, mãe, não viaja, você acha que vou fazer alguma barbaridade? Capotar o carro? Entra logo, vamos.
Entro no carro, ando dez metros, me viro pra perguntar algo pra minha mãe e só a ouço dizer "Paat, cuidaaa", CRAAASH! POW!
Beleza. Em seis anos que dirijo, me gabava por nunca ter me envolvido em um acidente. Fui bater justamente no estacionamento de um shopping.
Desço e vou falar com o rapaz. Ele olha o estrago, eu estou totalmente nervosa. Procuro o documento do carro (onde deixamos o cartão do seguro) e não acho. Mãe, não é possível, eu nunca tirei o documento de dentro do carro. Ela procura em todo o lado e não acha, fica tão nervosa quanto eu.
Combino com a minha mãe de ela ir em casa - que é relativamente perto - e procurar o documento, eu fico ali conversando com o rapaz do Palio.
O rapaz, chamado Wilson, tenta me acalmar. Calma, moça, olha, vamos ali tomar uma água de coco. Moço - aliás, qual é o seu nome? - É Wilson, e o seu? É Patrícia, e desculpa mesmo tudo isso, eu estou realmente sem graça e nervosa.
Tudo bem, isso acontece. Moça, me vê duas águas de coco?
Wilson, eu estou sem minha carteira aqui, aliás, eu estava indo pra casa justamente pra buscá-la, quando aconteceu esta droga toda. Não tenho dinheiro aqui comigo nem pra esta água de coco! Ai, desencana, eu pago... só faltava isso...
Meu Deus, eu bato no seu carro e você me paga uma água de coco... duplamente sem graça agora... bom, mas assim que minha mãe chegar, te pago estes dois reais... é o mínimo que posso fazer... tá, tudo bem, se você faz tanta questão...
Eu e o Wilson conversamos uma meia hora, até minha mãe aparecer com o documento e o cartão da seguradora em mãos. Eu falei tanta bobagem, Deus do céu... coitado dele, terminar uma noite de segunda-feira daquela maneira. Mas ele riu e se mostrou relaxado, não sei se apenas para parecer simpático.
Anotamos os respectivos telefones, endereços, carros e placas, ele pegou o número da nossa apólice e decidimos resolver tudo ao longo da semana, com mais calma e menos nervosismo. Nada seria feito às nove e quarenta da noite de uma segunda-feira, afinal.
Entro no carro, desta vez como passageira, e sinto algo ao lado do banco, quando fui ajustar o cinto. Era minha carteira.
Mãe! Que droga!
Nossa, que foi agora, Patrícia?, que susto!
Eu esqueci de pagar os dois reais do Wilson!
[ E ainda tem gente que amaldiçoa uma sexta-feira 13. Como pode? Uma segunda-feira 30 destas é pra deixar a gente esperto pro resto da semana... ]
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Mas eu ando com cuidado, não me arrisco na banguela…
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Claudia, sim, muito chato isso... mas quem dera todas as pessoas fossem como o Wilson, que se mostrou ponderado, calmo e bem humorado o tempo todo, me fazendo até relaxar um pouco (e se vc me visse no momento da batida, iria ver o quão nervosa eu estava...)
Gente do bem, sabe? Muito bom isso.
Comigo aconteceu parecido algumas vezes. Um monte de coisas ruins acontecem em cadeia, e no final eu estava completamente desamparado e só querendo voltar pra casa. Numa sexta-feira 18, o cúmulo foi um acidente de carro. Numa terça-feira 7, o cúmulo foi o roubo do meu celular. Não tem dia certo pra maldição.
Beijos
João, não tem dia certo mesmo pra acontecer um monte de coisa chata, como uma batida de carro, mesmo que sem gravidade como esta que passei. O bom é saber que também não tem dia certo pra conhecermos pessoas legais e que fazem um acontecimento chato parecer algo beeeem mais palatável.
Brincadeira =)
bjo =)
Janus, não rola não. Já tenho meu marido e estou muito feliz. Se eu estivesse solteira, aí já não sei... quem sabe rolasse?

Hahaha, é mesmo, André! Você passou por situação parecida e também tem um Palio! Hummm... será que isso é algum indício de que caras legais dirigem mais Palios?

"O cara seria igualmente simpático com um homem careca, barrigudo e desdentado. O cara seria igualmente simpático com um homem careca, barrigudo e desdentado. O cara seria igualmente simpático com um homem careca, barrigudo e desdentado."
Agora respire fundo, conte até cem, e fique tranqüilo, esperando que esse Wilson seja o mesmo da canção aqui:
http://www.goear.com/listen.php?v=88fc941
Hahahahaha. Você me faz morrer de rir, Tuca. Acha mesmo que eu trocaria o meu Tuca da Sahara Violeta pelo Wilson do Palio azul? Jamé, não te troco por homem nenhum, seja qual for o meio de locomoção que ele use.
Ju, realmente, uma segunda-feira destas é pior que qualquer sexta-feira 13. Ah, ainda bem que a gente acaba rindo mesmo depois. Mais uma historinha pros netinhos.
Beijos.
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