Da vida e seus desígnios (sim, mais um post sobre o acidente...)
18.07.07
Eu não queria ser mais uma a escrever sobre o fatídico acidente de ontem, e se o vôo tivesse vindo de Vitória, Cuiabá ou Salvador ao invés de Porto Alegre, realmente não escreveria.
Explicando, pra que não pensem que nutro uma paixão maluca por PoA e que é este o motivo de eu pensar em escrever sobre o ocorrido, porque não tem mesmo a ver.
Acontece que o André, meu único irmão, leva uma vida de executivo (apesar de relativamente jovem) e viaja a Porto Alegre com uma certa freqüência, para reuniões de negócios com um grande cliente. E, sem brincadeira, todos os vôos dele de volta pra cá este ano (seis ao todo) foram justamente o 3054.
Quando eu vi a notícia na TV de que um vôo proveniente de Porto Alegre havia caído do outro lado da avenida Washington Luís, já fiquei nervosa. Nem sempre ficamos sabendo das viagens do André pra lá, até porque algumas foram marcadas em cima da hora e ele fora e voltara no mesmo dia, sem nem avisar à minha mãe ou a mim (não, ele não mora mais conosco, já casou e saiu de casa... mas os laços e o contato são estreitíssimos, isso sem contar que o cordão umbilical entre certas mães e filhos têm extensão suficiente para dar a volta ao redor da Lua umas centenas de vezes... é o caso da nossa. Uma típica mãe judia).
Mas enfim. Quando soube, a primeira coisa que fiz foi ligar para o celular dele. Caiu na caixa postal. Mais uns segundos e nova tentativa: caixa postal. De novo: caixa postal.
Não sabia o celular da minha cunhada de cabeça e não o tinha aqui comigo. Não queria de jeito nenhum ligar para a minha mãe para perguntar se ela sabia de alguma viagem do André ontem.
Eu sou uma pessoa nervosa e que sofre por antecipação e acho que todo mundo que me lê já sabe. Pronto. E alguns têm razão pra "tirar sarro" de mim depois, ao vivo ou pelo MSN.
Depois de uns cinco minutos, finalmente ouço o "alô" dele que tanto me tranqüilizou.
Uns dois meses atrás lembro que eu estava em Congonhas, com a minha mãe, o aguardando no desembarque. O vôo estava atrasado e eu ficava com os olhos fixos no painel, mirando o "3054", que mostrava sempre um "atrasado" ao lado.
Estas lembranças vieram todas ontem em mim, de um jeito muito forte.
Vendo as imagens nas redes de TV dos parentes desolados, não consigo passar incólume à dor lancinante de cada um.
Meu namorado tempos atrás fez um pequeno texto muito bom pra ser usado em situações assim, porque sabemos que esta é a tragédia da vez e que possivelmente não se falará em outra coisa nos próximos dias. Assim como foi com a cratera do Metrô em Pinheiros, o acidente da Gol ano passado, o pequeno João Hélio este ano. Aliás, o texto do Tuca foi escrito no auge da revolta da população brasileira com a morte do pequeno João.
Não que não devamos falar. É claro que não tem como fugir.
Mas o que entristece é saber que as coisas não mudam. Esta PORRA (e desculpem o palavrão, mas não encontro expressão melhor agora) de aeroporto ainda não foi fechado POR QUÊ???
O que um aeroporto construído na década de 30 faz ainda funcionando, com milhares de construções em seu entorno, colocando a cada pouso e decolagem a vida de milhares de pessoas das imediações em risco??
Por que as companhias aéreas não param de crescer e baratear suas passagens, mas não se preocupam com as condições de segurança de seus funcionários e passageiros?
Ah, não é responsabilidade delas? De quem é, então? Da "InfraZero" (como acertadamente a chama o Macaco Simão), que já se mostrou incompetente e inapta para lidar com Congonhas e com a crise no setor aéreo?
Leiam os posts que o Ina indica em seu post de hoje, além do dele mesmo, claro.
Semanas atrás a jornalista carioca Lucia Hipólito falava na rádio CBN sobre a crise dos aeroportos, e ela infelizmente foi certeira ao vaticinar que "muito possivelmente um acidente de grandes proporções ainda atingirá o país este ano" e também que "é inadmissível que um país de extensão continental como o nosso não se preocupe em fazer ferrovias e melhorar as estradas, justamente para desafogar os aeroportos um pouco que seja".
Bom, eu queria apenas desabafar aqui por causa do meu irmão, do nervosismo que senti por poucos segundos pela possibilidade, mesmo que remota, de ele estar naquele vôo. Mas acabei desopilando muitas coisas mais.
Lamento profundamente por todos que perderam seus filhos, amores, amigos, pais, irmãos. Que se recuperem do trauma um dia. E toquem suas vidas.
Paz, amor. E um pouco de indignação nossa, sim, que é preciso.
Bom resto de quarta-feira a todos. Pra mim é uma quarta-feira de cinzas, literalmente. ![]()
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Acidente uma ova
Vamos celebrar a estupidez humana parte 2
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Quanto ao "acidente", como disse o Ina, UMA OVA! Será mais um sem culpados?
Não sei se fechar o aeroporto seria solução, pois afogaria o de guarulhos e os demais... mas é preciso diminuir o tamanho dos aviões que pousam lá, adequar a pista, etc, etc...
Agora, pelas notícias, parece que não foi um problema da pista desta vez, mas sim uma imperícia do piloto ou uma falha do avião, que não diminui sua velocidade...
Dei minha primeira risada lendo o post do Donizetti. Estas coisas continuarão acontecendo no Brasil enquanto ele for um país emergente. A vida vale menos aí. O crescimento de passageiros nos últimos anos foi de 60% e de investimentos em infra de 6%.
Os brasileiros são descartáveis. Daí bebe-se nas estradas, os jovens estão sem emprego,as crianças loucas na rua, e você sabe das mazelas do Brasil tão bem quanto eu.
Não é o Lula, é o fato da vida humana ser descartável. Mão de obra barata, tem um monte de brasileiro quando se precisa. Por isso desliguei a Bob Internacional, por isso chorei o dia inteiro.
BOa sorte, Patrícia e faça como o Doni--vá de LAP.
não li esse post sobre o acidente, mas li alguns mais antigos... gostei mesm!
parabens!
abraço!
Aliás, o que teve de gente que se safou do 3054 de 17 de junho não está no gibi. Além de seu irmão, também se safaram o cantor Lobão e o ator Daniel de Oliveira, e mais uma galerinha.
Sobre sofrer por antecipação, imagino como seja a situação. Uma colega de faculdade mora em NY desde 2001 e não preciso dizer como foi no dia 11 de setembro daquele ano. Se bem que ela mesma tratou de ligar e avisar que estava bem e que não foi naquele dia que era para ela. Sofremos muito por antecipação e talvez mais desnecessariamente que o normal. Fiquei a semana toda preocupado com uma grande amiga de uma tia minha (tia essa que sofreu duas perdas significativas em um ano e meio: o marido e a filha mais velha). O motivo? Saber que ela havia voltado à UTI depois de um transplante de fígado. E sem informações, estávamos preocupados, pois sabíamos que ela estava fazendo diálise. Só no fim da semana é que eu soube que não tinha nada de mais no quadro dela, que progride no maior dos sossegos. A ida para a UTI foi para monitorar melhor a evolução e a diálise foi um preciosismo do médico, que preferiu pecar pelo excesso do que pela falta. Logo, os rins dela estão funcionando que é uma beleza.
Voltando ao acidente e o aeroporto de Congonhas, andei pesquisando umas coisas interessantes:
1) Não é nem nunca será o único aeroporto do mundo dentro de uma cidade. O LaGuardia, em NY, tem todo um Queens em seu entorno e quando muito, um pouco d'água a norte, mas bem pouco mesmo, pois mais a norte tem a ilha Riken e mais Queens. Vale lembrar que o Queens é o distrito mais populoso da Big Apple e o Homem-Aranha, ainda que more lá, não é capaz de segurar um avião em queda, salvo se tiver rapidez suficiente para fazer uma teia tão boa quanto as feitas por algumas aranhas, que chegam a segurar passarinhos em vôo.
2) Lembremos que o aeroporto está lá muito antes de a urbanização chegar. De certa forma, caímos em uma semelhança de padrão das reclamações que moradores das imediações do autódromo de Interlagos têm do barulho de lá. Porém esquecem-se que o autódromo já estava lá. O engraçado é que identificar especulação imobiliária a maioria se recusa a fazer...
3) A maioria dos aeroportos americanos não possui as tais ranhuras na pista e nem por isso são menos seguros. Vale lembrar que poucos minutos antes, na mesma pista molhada de Congonhas, um A320 da mesma TAM pousou sem problemas.
Infelizmente, sobre companhias aéreas, palavra de uma pessoa muito próxima que trabalha no setor de turismo: boa parte dos passageiros de um avião não sabe que está voando em uma aeronave que não teve uma revisão assim apurada. Há também suspeitas de defeitos no software do A320. Pelo menos um acidente na França foi causado por isso, pois o avião, que é controlado por uma central, recusou-se a arremeter. Segue o vídeo:
www.youtube.com/watch?v=_EM0hDchVlY
Eu vi semelhanças com o ocorrido em Congonhas, ainda que neste o avião estivesse já no solo:
www.youtube.com/watch?v=TFLDFqZPg9o
Quem vir na câmera que mostra o fim da pista (lá pelos 2min25, notará que antes de se arrebentar, ainda na pista, parece que a turbina esquerda solta uma labareda. E pelo que já li a respeito, um A320 precisa de 1.720 m de pista para parar completamente. Congonhas tem 2 km e, pelo que já li a respeito, ainda que o reversor seja dispensável para o avião pousar com segurança e aviões a jato sejam projetados para pousar sem ele, é obrigatório ser usado para pistas curtas.
Pelo que já li sobre as famosas ranhuras, é preciso esperar a pista assentar para que se possa fazê-las. Isso significa que ela precisa ser desgastada e que nem isso significa que se vá conseguir parar um avião se este não quiser parar.
Outra coisa que também acabou caindo de maneira mais estrepitosa que o Airbus nesta semana foi a credibilidade da mídia, que logo tratou de politizar a coisa, dentro de seu invariável viés de nos querer fazer crer que os problemas do Brasil começaram depois de 2002 e até então éramos uma nação de zerésimo mundo (vamos falar assim, para ficar acima de Primeiro Mundo). Ninguém falou, por exemplo, que já se havia divulgado uma semana antes planos de redução de tráfego em Congonhas. Fora isso, vimos também mostras de preconceito ímpar de ordem social, oriundas, por exemplo, de Diogo Mainardi. O sucessor espiritual de Paulo Francis e David Nasser veio dizer que quem vota em Lula não viaja de avião, quando na realidade até o mundo mineral sabe que mais e mais pessoas de menos posses viajam de avião até pelo fato de o preço das passagens ser próximo do praticado em ônibus. Preferi ficar com a serenidade de Luís Nassif. E, claro, vou esperar pelo que diz a caixa-preta, pois essa, ao contrário de certos meios de comunicação em massa, não mente nem vem com distorções que façam incautos acusarem a outrem sem provas.
Por fim, sobre trens, é algo que é sim preciso fazer. O Brasil já esteve mais a bordo de trens do que de estradas até os anos 50, porém, a mania de querer fazer tudo rápido e grandioso acabou nos tornando uma nação de estradas. Mas nem isso justifica oportunismos midiáticos. Alguém aqui já viu como estão as estações de trem que outrora levavam passageiros? Estão verdadeiras lástimas. E outra: é preciso atrair o público para eventuais viagens de trem fora de contexto turístico oferecendo-lhes bom serviço e, principalmente, velocidade. Trens-bala não se fazem da noite para o dia e, mais ainda, precisam de uma série de coisas, como curvas extremamente suaves (e olha que trem normal já precisa de curvas suaves, uma vez que não vira a 90º
1) áfe, até eu fiquei assustada com essa história do André, agora!
2) as pessoas, além de falar, precisam FAZER alguma coisa.
3) é muito bom saber, assim, por meios públicos, que a senhora prestigia a concorrência!
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