Magdalena Zornek Köhler (03/06/1917 - 21/04/2007)
23.04.07
Minha avó materna faleceu sábado. Ela estava com Mal de Alzheimer há três anos, sendo que passou os últimos dois acamada, se alimentando apenas por sonda e alheia a tudo. Nestes três anos, não foram raros os momentos de quase desespero vindos de suas cuidadoras mais próximas: minha mãe, eu e uma tia. Cheguei a entrar em algumas comunidades do Orkut destinadas a cuidadores de portadores de Alzheimer, e vi que realmente é impossível manter a sanidade quando o paciente grita por horas seguidas e dorme menos que quatro horas por dia, fazendo com que a rotina da casa mude totalmente.
Claro que me refiro aqui às famílias como a minha, que mantém os pacientes em casa por falta de recursos financeiros para colocá-los em uma clínica boa. Lembro que dois anos atrás até achamos uma que poderíamos pagar. Com bastante esforço, mas caberia no orçamento. O problema é que a clínica ficava super longe da minha casa, o que impossibilitaria qualquer visita durante a semana, coisa que minha mãe não queria. Enfim, chegamos a uma solução que, se não foi a melhor, foi a única viável: trazer uma tia para a minha casa, que poderia cuidar dela de forma integral de segunda a sexta.
Foi um fim-de-semana triste, pesado, estranho. Mas, ao mesmo tempo, de alívio. Alívio por não ver mais a minha avó sofrendo e gritando de dor nas escaras que jamais curavam. E ver todos os dias uma pessoa estar tão perto da morte, faz mal, muito mal. Não é hipocrisia não, até porque eu não considero a morte um assunto tabu e lido com ela até de maneira saudável. O ruim é você ver uma pessoa com sonda no nariz, com um terço do seu peso normal, com os olhos voltados para o nada e dizendo coisas ininteligíveis.
Mas na verdade eu não queria falar – somente - de morte, mas também falar de mães. Vendo minhas tias, meu tio e minha mãe chorando tanto ontem velando a mãe deles (e ao lembrar da morte da minha avó paterna cinco anos atrás e do quanto meu pai chorou também), pensei que realmente não importa com quantos anos nossas mães faleçam, este momento sempre será de dor.
Foi quando, pensando nisso, lembrei de uma crônica da Martha Medeiros, uma das minhas escritoras preferidas. (Muita gente não gosta dela, mas quando pergunto o que elas já leram da escritora e dizem que "quase nada" (eu sempre entendo este quase como nada mesmo), eu nem presto muita atenção no resto da argumentação. O estilo "não comi/vi/bebi/li/ouvi e não gostei" nunca combinou comigo).
Deixo aqui então uma crônica de outra pessoa que eu gostaria muito, mas muito mesmo, que tivesse sido escrita por mim. As palavras dela fazem eu perceber o quanto cada lágrima vertida pelos filhos da minha avó tem sentido. E servem como uma homenagem antecipada ao dia das mães. E à minha avó. Bom descanso, Oma*! ![]()
* Oma significa avó em alemão e é a forma como todos os netos e bisnetos se referem a ela. Acho que ela nunca escutou a palavra avó - ou mesmo a carinhosa "vovó" - vinda de nós. ![]()
O mundo não é maternal
É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de cálculo.
Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso.
O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividados por vinte anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito.
Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.
O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.
O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com fero será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas.
Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem-dotados e cobra caro pelo seu tempo.
Mãe é de graça.
Martha Medeiros
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Um beijo para voce e sua mae, que cuidaram tao bem da sua Oma.
bjs
Vamos lá...
Breve, mas não menos amorosa: força! e que bom que finalmente, ela vai descansar.
Fica bem.
Beijos mil.
Adorei o texto da Martha Medeiros. Obrigada por tê-lo publicado.
Abraços,
ps- o texto da Martha Medeiros é maravilhoso; me emocionei.
Puxa, me deu uma saudade das minhas avós.
Não é fácil lidar com o tema, mas nas mãos de pessoas sensíveis, as idéias chegam. Perfeitas.
Um beijo
Meg
Muita força pra você. Chore enquanto for necessário. Uma hora a dor passa, fica só um pouquinho. E depois ela volta. Ela passa. Ela volta. E fica nessa. Só que cada vez que a dor volta, ela volta mais saudade do que dor. Uma hora fica só a saudade, que também dói bastante, mas não é triste como ver quem a gente ama sofrer.
Enfim, o que dizer nessa hora? Você está nas orações - minhas e de muita gente, garanto. Sua Oma está lá no Céu, comendo brigadeiro.
=) Um sorriso e um abraço bem forte para você.
Quero expressar uma outra opinião. Eu não sei por que isso acontece, mas tanto os seus textos quanto os da minha adorada amiga Luciana prendem a atenção de uma tla forma que juro achar feitiçaria(mas das boas!) entro aqui todo dia, pra ler um somente e acabou relendo varios e varios textos, choro tudo de novo, rio tudo de novo, revivo todas as sensações que tive ao ler pela primeira vez, virei "addict to it!", agradeço pelas inspirações e por todo resto!
obrigado,
Bernardo Salles!
Acho que posso ter uma idéia de como foi, porque minha avó também desenvolveu Alzheimer nos últimos anos de vida, e toda a família cuidou 24h dela até terminar.
Só resta, realmente, pensar que ela esteja descansando num lugar melhor e tudo mais...
E é realmente uma pena meu primeiro comentário por aqui ser nessa situação.
De qualquer forma só queria dizer que gosto da maneira como você escreve.
Continue o bom trabalho, e um grande abraço para você e sua família.
Um beijo pra você e pra sua família. E que a dor nos torne pessoas melhores.
Beijos.
Choro todo santo dia mas temos sorte. Sua casa de "convalescência" é a 15 quadras da minha casa, ela está sendo cuidada com muita atenção, além da que poderámos dar. O governo USA leva todo seu dinheiro de pensão mas cobre a diferença.
Imagino como é a sensação mista de "descansou" e "nunca mais" do corvo do Poe. Meu pai morreu aos 59 anos e até hoje choro.
Caí neste post, citado pela Claudia, no É a mãe!, mas já havia visitado seu blog, anteriormente... Gostei muito do seu texto! Sensível, verdadeiro, tocante.
Adoro a gaúcha Martha Medeiros. Li vários dos seus livros de crônicas e 2 romances: Divã [Objetiva, 2002] e Selma & Sinatra [Objetiva, 2005].
bjo,
Clélia
Sei o quanto é difícil este momento... Desejo força para todos vocês e deixo registrado o meu contentamento por ver o quanto se dedicaram a sua vó. Beijos. =ó
espero que vc diga se caminho bem!!
Às vezes acho que sou o único que nunca a tratou como coitada ou incapaz por causa de sua idade avançada. Sempre que a visitava, fazia piadas, tentava puxar um papo, por mais quieta que ela fosse e por mais que nos anos mais recentes quisessem fazer com que eu acreditasse que ela não era a pessoa lúcida que sempre foi.
E falo isso porque chegava lá e perguntava o que ela contava. Normalmente, ela me respondia algo como "nada, estou aqui sentada". Chegava a conversar mais um pouco e era capaz de ela me responder um "quer o quê? Que eu pule?". Muitos em minha família me recriminaram quando contei à minha avó que eu tinha síndrome do pânico. Diziam que eu devia evitar de falar essas coisas para ela, por causa da idade, por causa de supostos problemas de cabeça, etc. Porém, ela foi a que melhor compreendeu em minha família, apesar de sua pouca escolaridade e não-leitura de jornais e livros. Chegou e me perguntou: "é problema de nervos?". Respondi que sim. Ela retrucou: "você está se tratando?". Falei que sim. Ela inclusive lembrou daquele dia em que cheguei surtado à casa dela. Sim, isso mesmo, a mais velha da família não fez celeuma alguma. Sabia que minha avó não era nem nunca foi gagá. O teste era simples: soltava um "parla, bestia!", ao que ela respondia de bate-pronto "bestia sei tu".
Sabe, eu era uma pessoa dedicada à velhinha. Fiz questão de que ela fosse à minha formatura da faculdade e fiquei chateado quando ela não foi à minha formatura de colegial. Mas tudo bem, ela, na época com 87 anos, estava no Recife e não ia querer que ela deixasse de passar o Natal com aquela parte da família. Mais que fazer questão de que ela fosse à minha formatura de faculdade, só paguei o baile de formatura por causa dela. Sinceramente, como até sugeri à comissão de formatura, preferiria que fôssemos a Fortaleza. E também ficava chateado quando ela ficava p da vida comigo, muitas vezes não por minha causa, mas quando alguém punha tudo a perder, seja por birita, seja por arrogância natural potencializada por C2H5OH.
Fico pensando também em como vai ficar a família agora que ela se foi. Afinal, de alguma forma era quem nos reunia. No meu caso em especial, sinto-me até livre para procurar emprego em outra cidade que não São Paulo (desde que, é claro, seja uma cidade minimante civilizada, como Curitiba, e não um enclave neandertal, como Bauru). Sim, fiz questão de não procurar empregos em outras cidades justamente por causa da minha avó. Queria visitá-la de rotina, não precisando me deslocar do ponto A ao B em distâncias de centenas ou milhares de quilômetros.
Fico também pensando que, com a morte dela, é também a hora de reavaliarmos a maneira como tratamos nossos velhos. Fico aqui pensando se não haveria a chance de minha avó viver mais e melhor se não a ficassem tratando com ressalvas quanto à idade. Fico aqui pensando que, se as filhas não ficassem com proibições, ela ainda continuasse preparando comida e até andando sozinha na rua. Proibiram-na de fazer comida porque uma vez ela esqueceu o gás aberto (mas já vi gente muito mais nova esquecer o gás aberto). Proibiram-na de andar sozinha na rua por causa de tombos que ela levou (esqueceram-se de que velhos em média levam um tombo por ano e que sua ossatura sempre foi forte, jamais tendo uma fratura em quase um século). E isso, sinceramente, é pedir para que nossos velhos definhem progressivamente.
Ainda que quieta e não apreciar brincadeiras, minha avó tinha seus momentos de espirituosidade. Uma vez, perguntaram a ela sobre o fato de sua coluna estar se envergando. Ela respondeu que ia envergando, envergando, até cair no caixão.
Fico também pensando como seria se minha avó morasse em outros lugares com baixo índice de velhinhos deteriorados, como Belém do Pará e outras. Aliás, fico pensando o quanto que os velhinhos paulistanos são submetidos a deteriorações de agentes externos (seja poluição, seja lar mesmo).
E fico pensando como quero que ajam comigo quando eu for velho. Com certeza não aceitaria que ficassem cheios de cuidados para cima de mim, pois aí é pedir para ficar dependente mesmo. Alguns de vocês têm essa impressão de que quando um velho morre, é um termômetro do que se deve ou não fazer com nossos idosos?
Enfim, é isso. Até havia escrito outra coisa, mas o servidor do Interney fez o desfavor de dar pau na hora em que enviava.
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