In Natura
08.03.07
Curioso como a gente muda algumas manias e características nossas que julgávamos imutáveis, ao longo da vida.
Eu, desde criança, sempre fui muito vaidosa. Fui destas menininhas que, aos dois anos de idade, já escolhiam o que queriam vestir e calçar.
Na adolescência isso se agravou, e eu jamais saía de casa, mesmo que fosse para ir à padaria, sem estar com os cabelos escovados e uma roupa pelo menos apresentável. E um batonzinho, mesmo que daqueles "cor de boca".
Pois de um bom tempo pra cá, eu não dou muita importância a isso. Não ligo de ir à locadora trajando calça de moletom cinza, blusa de moletom vermelha com estampa do Mickey, e papete com meia.
Comecei a achar isso até sexy. Sim, é legal ver uma menina que, mesmo sem maquiagem, um vestido decotado ou pernas à mostra, continue tendo seu charme e beleza.
Lembrei de algo ocorrido tempos atrás, em que a roupa não fazia a menor diferença. Até porque a temperatura caíra vertiginosamente em Sampa, não me encorajando a tirar o moletom velho que já estava me aquecendo há horas.
Precisei sair, ir ao supermercado. Notei alguns olhares meio curiosos, e achei até engraçado. Enquanto andava por seções à procura de azeite, óleo, frutas, leite, ração de gato e papel higiênico, deparava com pessoas que até viravam o pescoço para me acompanhar. Como pode?
Tudo bem, talvez eu tenha exagerado no "tô nem aí", ainda mais levando-se em conta que o supermercado em questão fica próximo ao Morumbi. Minha calça estava realmente surrada e minha blusa de moletom, com algumas marcas de velhice nos punhos e gola. Minhas meias rosa contrastavam ainda mais com o resto da roupa. Meus cabelos, embora não estivessem desgrenhados, tampouco estavam penteadinhos ou presos com fivelas. No rosto, nada mais que um rímel transparente, que uso apenas para deixar os cílios bem separados.
Na fila, antes da indefectível pergunta, já respondo: "não, não tenho o cartão Mais", e já fui colocando as compras na esteira. A atendente foi simpática ao embalar as compras, até sorriu duas vezes pra mim.
Quando saio e estou caminhando rumo ao carro, ouço um assobio. Fingi que não ouvi nada e continuei caminhando, sem olhar para lado nenhum. "Certamente não é comigo", pensei. Mais cinco ou seis passos e novo assobio, desta vez acompanhado por um "Ei, gatinha, é com você mesmo! Não vai nem olhar pra trás, não?". Quando abri o carro e coloquei as compras dentro, o dono dos galanteios chegou ao meu lado e disse: "nossa, que "mina" difícil você, hein? Posso te conhecer?". Levei um susto enorme com a abordagem, e tratei de inventar uma desculpa qualquer e entrar no carro.
O menino não tinha mais do que 18 ou 19 anos, e era até bonito (mas claro, com uma abordagem daquelas, sem chances, mesmo que eu estivesse solteira e ele fosse o Brad Pitt).
Isso me fez ficar toda corada e pensando que, não importa que 500 pessoas nos olhem torto por causa de nossa aparência, provavelmente uma ou duas não darão a mínima para isso.
Pena eu não pensar assim na minha adolescência, pois o tempo que perdia para escolher a blusa que melhor combinasse com a calça ou saia, poderia ter sido usado de maneira mais útil.
Claro que sou vaidosa, sim, até hoje (aliás, quem me vê com certa freqüência deve até me achar meio fresquinha, já que sempre tento combinar cores, tecidos e proporções não apenas das roupas, mas inclusive da maquiagem e das bijuterias (discretas, mas das quais raramente abro mão). Este episódio do moletom foi isolado, não é algo que aconteça sempre.
Mas saber que mesmo sem uma grande produção ainda sou capaz de atrair olhares, não deixou de me fazer feliz. Pra quem está prestes a entrar na famigerada casa dos 30 – e nas preocupações que isso implica, aliás – foi mesmo um elogio que veio num momento oportuníssimo. ;)
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Comentários:
Em meu caso, talvez esteja sendo o oposto. Era muito mais despreocupado quando mais jovem do que agora. OK, tudo bem que estudando longe de casa e em uma faculdade marcada pela cultura bicho-grilo, andar desleixado não tinha nada de mais mesmo. Aliãs, era meio que a roupa social andar com aquela camisa puída e com rombo na axila, bermuda amarrotada e chinelão, mesmo em festas. Roupa comprida só mesmo em dia de frio (e olha que já peguei - 2ºC em Bauru em 2000).
Porém o tempo passa, o trabalho surge e também perdemos um pouco daquela fé no ser humano e com isso, o conforto vai dando lugar à aparência pura e simples. Se bem que um pouco daquilo manteve-se em meus 28 anos. Manifesto isso em meus tipos de balada preferidos: forró e rock. Lá estava eu no show dos Jenniffers deste sábado usando minha indumentária preferida. E em 2005, lá estava eu no chique Via Funchal também nessa indumentária dançando ao som de Falamansa. E regularmente, lá estou nos forrós da vida.
Porém, talvez um momento marcante em minha carreira de jornalista foram os torneios de pesca que cobri. Com um calor daqueles, não peça a um repórter cobrir o evento vestindo a bonita camisa do Fernandinho. O lance é a velha combinação bicho-grilística e, quando muito, um coletinho de fotógrafo, pois é comum se trabalhar em eu-quipe. Porém, o mais engraçado de tudo é que, como é normal esses torneios terem forte participação da prefeitura do município-sede, lá vamos entrevistar o prefeito do município vestidos desse jeito. E, mais interessante ainda, é ver o alcaide respondendo-nos normalmente e muitas vezes, respondendo coisas que repórteres com coisas de estética mais anglicizada não conseguiriam. De certa forma, é uma ligeira volta daqueles tempos sociedade alternativa de outrora.
Porém, eis que voltamos à realidade e notamos a volta do julgamento do livro pela capa. Já li que apenas 20% das mulheres gostam de homem com barba. É, pelo visto minha solteirice vai ganhar uma serenata do Barão Vermelho: solidão amiga do peito...
Mas solteira e o cara sendo o Brad Pitt, mesmo com essa abordagem bizarra, eu pagava pra ver qual era, viu!
Foi gozado seu comentári osobre o cara. A gente ee boba e sempre acha o cara um bosta, mesmo que fosse o Brad Pitt.
Um jeito bem mulherzinha de dizer feliz dia das mulheres, sim?
(sumi dos comentários pq ando mto atarefada, mas sempre leio vcs, viu?) Bjos
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