Pat Pimentinha
27.02.07
Quando eu tinha uns 11 anos de idade, estava andando com uma colega de classe pelo pátio da escola, sorvendo aos poucos o chocolate quente que nos serviam nos dias muito frios.
Um menino passa correndo, dá um esbarrão em mim que quase me derruba e me faz virar o chocolate todo - que estava realmente muito quente - no pescoço e na minha roupa. Todas as crianças em volta viram e, como era de se esperar, deram risada.
Olhei atônita pro menino, que virou para trás e sabia que havia feito besteira. Ele me olhou apenas uns segundos, esboçou uma risada e prosseguiu sua corrida implacável em busca de algum outro colega.
Eu não tive sequer um minuto de dúvida. Caminhei célere rumo à moça que servia os chocolates, expliquei a situação e pedi mais uma caneca. A cara que ela fez não foi das melhores, mas ela me cedeu.
Saí pelo pátio à procura do menino, de quem seria capaz de reconhecer o rosto mesmo hoje, vinte anos depois (rancorosa, eu? Imagina, intriga da oposição!). Ele continuava brincando com seus colegas e não foi tão difícil assim achá-lo. Assim que o reconheci, cheguei perto dele e o chamei, batendo com os dedos em suas costas. Ele se virou e, dois segundos depois, havia levado um banho de chocolate quente, no rosto, pescoço e camiseta.
Eu disse: “E então? Vai rir agora disso?”, escutando ao fundo as gozações típicas da molecada dos seus 11, 12 anos: “iiiahhhhhhhhhh, vixeeeeeeeeeeeee..., eu não deixava, meu!” e coisas parecidas. Confesso que senti um pouco de medo de uma possível retaliação, mas ele foi milhões de vezes menor do que o sentimento de vingança. Foi algo inexplicável. Naquele momento eu percebi que era, sim, uma pessoa muito justa e que iria ainda me ferrar na vida algumas vezes por isso. Por este lado meio justiceira e de menina pacata que perde as estribeiras, transformando-se momentaneamente numa heroína (ou maluca, sabe-se lá).
Daquele episódio até hoje, já vivenciei ao menos umas cinco situações como esta, incluindo uns tapas e pontapés que dei num menino com o dobro do meu tamanho, que havia feito algumas gozações do meu irmão mais velho (que era muito baixinho), arrancando risos das crianças presentes e lágrimas do meu irmão.
Alguns me chamavam de Mônica, e não era mesmo à toa. Baixinha, invocada e que batia em alguns meninos folgados quando preciso.
Não me ufano disso, não. Sei do meu lado destemperado que precisa ser controlado em alguns momentos. Mas, de qualquer forma, ainda assim acho melhor do que permanecer calada e guardar mágoas por muito tempo. Sei lá, isso sempre me angustia, e de vez em quando prefiro resolver as diferenças a morrer de cólera. O único momento em que me controlo de verdade para não perder o controle é no trânsito, cada vez mais beligerante nas grandes cidades e onde algumas discussões, mesmo as mais tolas, resultam em morte.
Hoje eu faço de tudo para me conter, mas em situações como a descrita no meu último post, ainda brigo pelos meus direitos.
Enfim, complicado. Do estágio Mônica ao Monja Coen há um looongo caminho, mas pelo menos acho que já passei da metade. :)
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Comentários:
Beijos
R: João, eu sou uma pessoa zen! Zen paciência, que já correu o risco de ficar zen dentes algumas vezes por isso.

Mas sabe, brincadeiras idiotas à parte, eu costumo ser pacata, sim. Só em algumas ocasiões é que me altero, mas juro que tento melhorar isso!
Beijos!
Sou a favor de demonstrações de cólera, desde que as mesmas atendam pelo menos o propósito de aliviar a raiva da pessoa. Mas, sei lá, complicado isso. Pois uma coisa é perder as estribeiras na infância, mesmo que isso signifique fazer o justo da ocasião, com o pessoal do colégio, na rua, etc. Outra, é fazer o mesmo na vida adulta, onde qualquer discussão besta pode virar motivo pra um desfecho trágico. Como ocorre bastante no trânsito, mencionado por vc.
Sou calmo - demais até - como você bem sabe. Sendo assim, talvez eu não seja a melhor pessoa pra opinar sobre isso. Ou seria?
R: Tuca, claro que opiniões de pessoas calmas como você são de extrema utilidade. Ah, eu prometo melhorar neste sentido, não sendo tão inconseqüente nos meus acessos de raivinha. Como dizia Melvin Udall, o personagem magistralmente interpretado por Jack Nicholson em Melhor Impossível, "você me faz querer ser uma pessoa melhor".
R: "Barraqueiras", Lu? Ai, deste jeito você carboniza nossa película!
Gostei da história. Queria te ver jogando chocolate quente no guri haha.
1) Tendo a srta 11 anos na época do fatídico episódio, podemos crer que era naquele tempo em que era a pobretona no meio dos abastados?
2) Hoje em dia você tem tomado aquelas pílulas que evitam que o Bruce Banner fique nervoso?
3) E se encontrasse o tal menino hoje, o que faria com ele?
Vai ter mulher aqui me chamando de machista, entre outras (ainda que eu ache que nada é mais parecido que um homem com poder do que uma mulher com poder e que os pais-gonçalos da vida que ainda idealizam que o comportamento da mulher é assim tão diferente na essência que o do homem fiquem pu-ti-nhos da vida, es-can-da-li-za-dééééééééééér-ri-mos, quebrem o salto ou borrem o rímel ao lerem tais coisas), mas mulher barraqueira tem um lance diferente do homem barraqueiro. Mulher barraqueira em geral, quando faz seus barracos, embute um componente de ódio irracional ao sexo oposto pelo simples fato de esse alguém ser do sexo oposto. Mulher barraqueira é do tipo que quando alguém a deixa sem argumentos, parte para o comportamento-ônibus de dizer que o que fazem com ela é resquício de uma sociedade patriarcal e blablablablá. Mulher barraqueira, em geral, tende a querer parecer poderosa (tipo aquelas mulheres-estereótipo-de-eu-sou-fodona-e-falo-mesmo-as-coisas-para-chocar-e-tão-somente-isso) e para afirmar tal posição, tende a se juntar com caras beeeeem pais-gonçalos (pai-gonçalo, ao contrário do que alguns podem estar pensando, é uma gíria carioca para homem heterossexual que é joguete em mão de mina. O famoso cara que tem sempre a última palavra: sim, benzinho. Pais-gonçalos famosos: Leonardo Boff e Jô Soares, esse último PG se for mesmo confirmado que aqueles lances de achar homem bonito não significam outra coisa). Mulher barraqueira pode até dizer "eu odeio os homens" em um tom irônico apenas para fazer parecer que não os vê apenas como bonecos infláveis com cérebro e que só lhe servem para enterrar a mandioca. Sou sim favorável que as mulheres exijam sim seus direitos, mas, como em qualquer ser humano, independente de sexo e sexualidade, fazer as coisas com classe faz toda a diferença. E classe, com certeza as barraqueiras não têm. Se não, não seriam os tipos prediletos para programas mundo-cão, preferencialmente com aquele timbre de voz típico de muié-do-povo.
Voltando ao episódio em questão, também me contenta saber que isso bota uma pá de cal daquelas em qualquer bobagem pai-gonçalística de que as mulheres para se imporem num mundo machista, precisam agir igual aos homens e com isso, perdendo sua feminilidade (aliás, queria saber que incrível estereótipo é esse que os pais-gonçalos querem que as mulheres se encaixem sem levar em conta que cada ser humano é diferente).
Noto também que as gerações femininas mais jovens cada vez mais estão diminuindo aquele abismo que havia entre o dito comportamento feminino e o dito comportamento masculino. Vejo isso pelas minhas quatro priminhas do Recife que passaram férias aqui em São Paulo em janeiro. Com idades entre 7 e 17, fazia aquelas brincadeiras de tecelão que fazia com meu irmão quando éramos crianças e elas não estrilavam nem um pouquinho. Meu irmão também brincava com a menorzinha daqueles lances bem violentos, como brincar de luta, dar mata-leão, entre outras, e ela nem aí, entrava no clima de tão violento entretenimento na boa. As mais velhas também não estrilavam com as piadas que eu fazia e só não riram com "O Cara Tussiu" porque eram bebês ou nem nascidas quando o Jaspion fazia das suas. Não se escandalizavam com palavras tidas como grosseiras (e olha que já vi mancebas em minha faixa etária se escandalizando com a inocente expressão "catar uma mina"). Enfim, o que tenho a dizer é que noto cada vez uma maior defasagem entre o que os psicólogos e outros ditos especializados no comportamento humano feminino e como é o comportamento real médio do plantel feminino hoje em dia. Talvez seja até mais fácil no futuro para um cara cavalheiro catar uma fulana, se a impressão de que elas cada dia menos estarão susceptíveis a preferir trastes a caras decentes se confirmar.
Enfim, escrevi um tanto, mas é isso que quero dizer. Só espero que quem leia tal comentário o faça letra por letra, palavra por palavra, significado por significado e caso queira responder, não pule para conclusões ou queira dizer que eu disse algo que nunca disse, pois aí só estaria demontrando ANALfaburrice funcional.
essa relação que vc define como entre a mulher-barraqueira e o Pai Gonçalo (adorei o termo) é o que Freud descreve quando fala da Histérica e do Obsessivo.
Se eu estivesse estudando psicanálise agora, como era pra fazer, e não comentando em blog, eu ia poder falar mais sobre isso. =P Fazendo um resumo bem resumidinho, é assim: a histérica (daqui por diante chamada M
Maysa
BH
A próxima história poderia ser a famosa invasão-dos-grilos-de-Recife-no-vôo-de-volta, heheheh.
Abs
Lembremos que já tivemos mulheres comandando países dos mais diversos e nem por isso as coisas mudaram para melhor como os PGs querem que creiamos.
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