Bat Macumba

24.02.07

Timbalada

Semanas atrás eu estava em casa há mais de duas horas sentada no micro tentando um pouco de paz para escrever um texto. Um barulho inimaginável me impedia. Parecia que o Olodum estava no meu quintal.
Era madrugada de segunda pra terça, quase uma da manhã. O barulho me tirava a concentração desde as onze da noite.
O terreiro na esquina da minha rua estava a pleno vapor desde o sábado anterior. A impressão que dava é que havia pelo menos 115 percussionistas. Eu conversava com meu namorado pelo MSN e dizia que não sabia mais o que fazer. O barulho não era barrado nem pelo vidro fechado da janela (e estava uma noite quentíssima, o que já significava um belo sacrifício) e nem pela música que saía pelas caixinhas de som do meu quarto.
Ele, uma pessoa um milhão de vezes mais ponderada que eu, me dava as soluções: “liga pro Psiu, está aqui o telefone deles”.

E eu: “não, desculpa, vou chamar a Polícia, o Psiu não vai fazer nada”.

Tuca: “não, liga pro Psiu primei...

(Eu já falando com o atendende do 190)

Tuca: “cadê você? ligou pro Psiu?”

...

...

Eu: “oi, voltei, estava falando com a polícia, eles estão vindo aqui. mas não vão poder fazer nada, como eu previa. frouxos. disseram que só fazem algo se eu for lá reclamar. se for denúncia anônima, eles não podem fazer nada além de dar uma advertência. mas já falaram que se eles quiserem tocar até as seis da manhã, não vão poder impedir. eu mereço...”

Tuca: “liga pro Psiu, pelo menos tenta...”

Mais de trinta minutos se passam. Nada do barulho parar.
Tento voltar pro meu texto, em vão. O barulho me atrapalha, e penso na minha mãe, que levantaria às seis da manhã no dia seguinte, e cujo sono é tão leve quanto o meu. Muita sacanagem. Meu sangue começa a entrar em ebulição.
Volto ao MSN: “Tuca, não dá mais pra agüentar, eu vou lá”

Tuca: “não faz isso, são quase DUAS da manhã, você é maluca?”

Eu já estava quase ganhando a rua quando ele escreveu esta frase, pois assim que dei o recado, desci as escadas da minha casa com “sangue nos zóio”, como se diz na periferia nos casos de ira como a minha.
Chego em frente ao terreiro e bato palmas, inútil e ingenuamente, já que obviamente o barulho dos 115 atabaques em meio aos gritos dos “Preto Velho” não deixariam ninguém escutar nada.
Noto que o portão da casa está ligeiramente aberto, e o puxo pela fechadura. Uma moça me vê e pergunta, meio gritando: “Olá, boa noite, bem-vinda!!”, numa animação que só via nos atendentes da Blockbuster.

Eu: “Não quero entrar, quero fazer uma reclamação”.

Hostess do Terreiro: “Reclamar?? Do quê?”

Eu: “Deste barulho infernal que vocês estão fazendo há mais de três horas! Aliás, há quase três noites!”

H d T: “Olha, não posso fazer nada, porque o responsável pela casa “não está em terra”!”

Eu: “Pois peça pra ele descer AGORA do plano em que está e vir se explicar comigo.”

H d T atônita: “Mas, mas...”

Eu: “Mas nada. Vocês não têm o direito de tirar o sono das pessoas de madrugada em plena terça-feira!”

A hostess do terreiro se aproxima com um negro enorme vindo atrás, me encarando. Eu não vacilo ou volto atrás:
“Olha, eu não tenho NADA contra a religião de vocês, estou reclamando do barulho. Vocês poderiam ser evangélicos, espíritas, budistas, cientologistas, o que fosse. Fazer este barulho de madrugada é o que eu acho inadmissível com os vizinhos.”
A Hostess do terreiro se desculpa e diz que isso não irá mais acontecer. Que era uma festa de inauguração do terreiro (devia ser uma rave, pois a tal festa já durava três noites) e que tinha de ser feita numa segunda-feira.
Eu, lembrando-a de que já estávamos há mais de duas horas da TERÇA-FEIRA, vou embora e digo que agradeceria de coração se eles realmente respeitassem a vizinhança, ao menos durante a semana.
O negro que saiu à rua junto com ela não disse nada, apenas me olhava com cara de quem teve de pagar dois pedágios ao ter sido trazido de volta à terra.
Podia ter me trazido uma lembrancinha! “Estive no (plano tal) e lembrei você.”
Chego em casa e vejo umas dez mensagens do meu namorado no MSN.

Eu: “oi, voltei. fui lá”

Tuca: “você é maluca. você nem sabe com quem está se metendo...”

Eu: “ah, eu fui lá reclamar do barulho. só isso. estou no meu direito. que mal podem me fazer?”

Este episódio aconteceu faz mais de um mês e, de lá pra cá, embora com vários problemas, continuo viva e com saúde. Todos que ficam sabendo do caso, no entanto, ressaltam que eu “sou maluca por reclamar de barulho num terreiro”.
Não sei, meu ceticismo me impede de acreditar que façam mesmo algo de ruim comigo ou com a minha família, pelo menos se for através da religião deles.
Alguém aqui reclamaria do barulho como eu fiz (mesmo que de forma menos “agressiva”)? Ou deixaria pra resolver estas diferenças “em outro plano”? Ou no dia do Juízo Final? :)



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Comentários:


Comentário de: Carol Costa · http://www.interney.net/blogs/guindaste

Se não ficarem quietinhos, diz que vai baixar a Pomba Gira e que a sua anda da pá virada.

PermalinkPermalink 24.02.07 @ 23:34



Comentário de: Sandra Email · http://sandrapontes.com/

Sabe... Quando a gente não conhece quem escreve, só existe a suposição. Quando a gente sabe a cor dos olhos, o jeito de mexer no cabelo, os trejeitos aos falar, imagina direitinho a cena. Foi isso que aconteceu agora. Eu te vi, em toda sua indignidade, peitanto o pai-de-santo, lá do além!!!!
hahahahahahahahahahahahahaha

PermalinkPermalink 24.02.07 @ 23:36



Comentário de: Cintaliga Email

Você mora ao lado de um terreiro, eu moro ao lado de uma Assembléia de Deus... :) Eles cantam os hinos deles... às vezes o pastor dá uns gritos, mas nada que ultrapasse a meia-noite. Teve gente que já se mudou do prédio em que moro por causa deles, mas a gente já sabia que seria assim quando se mudou pra cá e além do mais temos motivos sentimentais demais pra viver aqui, por isso não nos mudamos.
Eu acho que não ia lá reclamar como você fez não, mas te admiro por isso. Só não faça de novo, certo? E evite os supermercados à noite também. Obrigada.
Luciana

PermalinkPermalink 24.02.07 @ 23:49




Eu fui, por 20 anos, vizinha de uma Igreja Metodista. A gente sempre teve um relacionamento bacana, mas música alta me incomoda muito. E eu aprendi com meus pais - principalmente com minha mãe - a reclamar MESMO quando o pessoal passava dos limites. As vezes chamava a polícia, as vezes íamos até lá. Dependia muito do meu ânimo, do frio, etc. Uma vez meu pai foi até lá (eram três da manhã num domingo) e o pastor disse que "iria orar pelo descanso do irmão". Meu pai agradeceu a oração e disse que o silêncio já ajudaria bastante.

Também tem os vizinhos festeiros. Uma vez meu pai foi reclamar do barulho e ficou na festa. Virou lenda em casa, mas criou uma pequena encrenca ;)

Eu ligo sim, reclamo. Se for de direito, por que não? Pode ser quem for, ninguém tem o direito de interromper ou impedir meu sono de beleza. Sem dormir, não adianta nada comprar aqueles cremes maravilhosos de morango, champagne e chocolate do post abaixo!

PermalinkPermalink 25.02.07 @ 02:13




hahahaha É bem o que a Sandra falou: eu te vi claramente indo ao terreiro reclamar, como se fosse um filme! rs... E olha, sinceramente, vá de novo se fizerem de novo. Vc sabe que sou umbandista, certo? E posso te dizer com todas as letras que não importa se são entidades ou divindades, ou em que plano espiritual estão, o direito dos outros deve SEMPRE ser respeitado. Em meu terreiro mesmo, os trabalhos terminam por volta das 21h30.

PermalinkPermalink 25.02.07 @ 14:31



Comentário de: André Email

Hilária a história da rave no terreiro. Como outros aqui, imaginei toda a cena, mas, claro, fiquei preocupado com essa história. Olhe atentamente as encruzilhadas de suas cercanias, fora os terrenos baldios, para ver se ninguém ficou p da vida contigo...

PermalinkPermalink 25.02.07 @ 15:59



Comentário de: elisabetecunha Email · http://elisabetecunha.wordpress.com

Menina, e vc nem mora na Bahia,né?
Aqui cada esquina é um batuque...
PSIU!!!!!
abraços baianos!

PermalinkPermalink 25.02.07 @ 19:38



Comentário de: Tuca Hernandes Email · http://www.fiapodejaca.com.br

Ei, psiu!

Tomara que o nosso ceticismo continue sem razão pra arrependimentos. Que eu continue como o único encosto presente na sua vida... :)

PermalinkPermalink 27.02.07 @ 12:41



Comentário de: juliana Email · http://perguntas

gostariade saber se vcs fazem trabalhos,
queria uma maozinha para conquistar uma pessoa com a qual mantenho um relacionamento e queria que evoluisse para algo mais serio, caso vcs façam ou conheçam alguém que façam queria saber oque precisa e por quanto sairia, desde já agradeçoa a atenção, obrigada!

PermalinkPermalink 16.04.07 @ 13:54



Comentário de: Olza

Oi,

Tou aqui, quarta de madrugada procurando uma solução pros vizinhos barulhentos. Cara, até me inspirei um bocadinho, mas não o suficiente. :( Putz, vizinhos fazendo festa na maior altura. Como rola muita gente na porta da casa juro que rola vergonha de ir lá. Eu queria ligar, mas não consigo um site que eu dê endereço e eles me dêem telefone. :(

Mas que merda.

PermalinkPermalink 01.11.07 @ 00:19



Comentário de: JC

Olá pessoal... Adorei esse forum. Encontrei, quando procurava algo par, justamente reclamar de um BATUQUE furioso aqui na minha vila. O dito cujo terminou agora. Chamei a polícia as 00:30, disseram que viriam quando tivesse viatura. Certamente não tem viatura até agora..hhehe Mas td bem, vou esperar o próximo prá chamar ele de novo, mas ai, vou ligar prá eles, já com as razões que encontrei nesse forum (sessão até 21:30), ou então, o CódigoCivil... Vão ter que me ouvir... Abraços....

PermalinkPermalink 08.12.07 @ 02:01



Comentário de: Flavia · http://ladyrasta.wordpress.com/

Chorei de rir com o post, principalmente com a história da rave. Eu com TPM sou capaz de quase qualquer coisa (já arrumei encrenca com a PM no Skol Beats potque me confiscaram um gloss da Mac novinho quase fui presa - detalhe - NO fim do semana do PCC), encrenca com motoboy na 23...Quando esse "sangue nos zóio" aparece, eu fico com medo de mim...
Ah! E eu frequento terreiro (mas o meu é "civilizado", não adepto de raves, e tem uns 15 min de batuque só, antes das 10 já tá tudo quietinho. A lembrancinha do além também foi divertida!
bjs
Flavia

PermalinkPermalink 01.07.08 @ 16:35



Comentário de: Anita

O seu relato é um pouco parecido com o meu, aqui também inauguraram um centro de macumba e os vagabundos tocam a noite toda.Já chamei a polícia várias vezes mas de nada adiantou, penso em dar um tiros em direção ao terreiro e abater pelo menos uns cinco para ver se eles respeitam as normas de convívio social.Também fiz uma reclamação junto ao ministério público e está em andamento.Bem não se preocupe a única coisa que pode te acontecer é ter distúrbios associados à falta de sono, esses imbecis não podem fazer nada akém disso.

PermalinkPermalink 17.01.10 @ 10:27



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