Pro Dia Nascer Feliz
22.02.07
(Dedico este texto à Luciana, que tenta, dia após dia, passar bons valores aos seus alunos e fazê-los não desistir dos seus sonhos.)
Semana passada fui assistir ao documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. A minha vontade é de que todos os brasileiros que freqüentam escolas de primeiro e segundo grau pudessem ver.
O filme começa com a história de Valéria, uma menina de 16 anos moradora de Manari (PE), uma das cidades mais pobres do país.
Estuda, trabalha e tem sonhos de um dia ascender de alguma forma. Sabe que sua vida cheia de obrigações pode ser um entrave para que isso ocorra. Ela é mais articulada do que a esmagadora maioria dos alunos do meu curso de Jornalismo, numa faculdade particular burguesa de São Paulo. Não teve como não chorar ao vê-la declamando seus poemas e também ao se dizer fã ardorosa de Vinícius e Manuel Bandeira.
Ao longo dos 90 minutos de filme, vemos adolescentes, jovens e adultos estudantes de colégios paupérrimos de periferias e também de outros particulares do Rio e São Paulo. O abismo entre as realidades é gritante, e nem precisa me avisar que estou cometendo clichês ao escrever isso. Eu sei. Mais do mesmo.
O filme me fez lembrar da minha própria condição de estudante entre a 5ª e a 8ª série. Eu era muito, muito pobre. De dividir cama com mãe e jamais ter dinheiro para "luxos" como lanches em cantinas de escola.
Aos 13 anos entrei para um colégio particular num dos bairros mais ricos aqui da capital (onde minha mãe trabalha até hoje e motivo pelo qual eu tenho direito à bolsa de estudo) e posso dizer sem errar que foi um dos maiores equívocos da minha vida. Misturar ricos e pobres é sempre muito arriscado. Fui alvo de muitas piadinhas ao longo do ano escolar ("Nossa, você não tem mais roupas, não? Usa a mesma calça a semana toda!", "Ai, nem adianta chamar a Patrícia pra ir ao lugar X, ela nunca tem dinheiro pra nada") e praticamente não fiz amizades. Aquilo minou minha auto-estima a ponto de não querer mais levantar da cama para ir ao colégio.
Eu queria demais voltar pro meu colégio estadual, mesmo sabendo que o ensino era totalmente aquém daquele que eu estava "usufruindo" (ou ao menos tentando).
Me identifiquei muito com a menina poetisa, já que minhas redações eram sempre as de nota mais alta e as mais elogiadas pelos próprios alunos. Eu estava lá, perdida, num colégio estadual de periferia, sonhando em um dia ter uma vida melhor. Como a cativante Valéria, eu também ‘deveria ter uma péssima impressão da vida, se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver’.
Obviamente que, mesmo eu tendo estudado na periferia, São Paulo sempre será diferente de Manari. A realidade dela é muito mais dura do que a minha foi. Seu colégio fica a vários quilômetros de casa e a viagem de ônibus que ela e outros alunos fazem (quando o veículo não está quebrado!) leva algumas horas. A persistência, no caso dela, é mais do que admirável, é um exemplo.
Não vou comentar muito sobre o "núcleo rico" do filme, sobre os adolescentes um tanto acéfalos que foram retratados como a média geral dos freqüentadores dos colégios particulares. Aquilo me entristeceu demais. Prefiro crer que o diretor pegou os piores exemplos, para chocar mesmo, fazer um belo contraponto.
Leitores queridos, vejam este filme. Debatam. Eu estou aqui, hoje, num blog que entrou para um Portal, por simplesmente não ter desistido do que eu queria. Por mais que fosse duro não ter dinheiro para muita coisa e me desanimar perante vários períodos de vacas anoréxicas, eu alimentava esperanças. Um jeito meio Joseph Climber de encarar a vida, sabe? ![]()
Para encerrar, uma frase do Millôr que eu gosto muito: "Rapazinho, estuda depressa, pois burro aos 30 é burro à beça". ![]()
ps: na foto acima do texto, a sonhadora e persistente Valéria. ![]()
Arquivado em: Cinema, Comportamento, Cotidiano, Emoção, Escola
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Maria Cristina Mirizola
As Nossas Escolhas - Atualizado
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Mas agora, lendo o seu texto tão bonito, dedicado a mim que nem mereço tanto amor e amizade, eu posso te responder com facilidade, querida, que o nosso blog é todo feito de Emoção, e não há temática que mais me agrade do que essa, acredite.
Obrigada por dividir esse espaço LINDO e LILÁS comigo.
Eu poderia dizer que queria que você tivesse sido minha aluna, mas acho que preferiria ter sido sua amiga, como sou agora.
Um abraço grande e a promessa de que verei o filme.
R: Luluzinha, nosso espaço LINDO E LILÁS está tão, tãão... liiiindo e lilás, né?
Sim, nossa temática é esta barafunda mesmo: emoção, sentimento, cotidiano, poesia, revolta, alguma denúncia, sensibilidade, humor, mágoa. Enfim, humanas, demasiadamente humanas.
Ah, ser sua aluna deve ser um privilégio mesmo, que eu certamente adoraria poder ter vivido.
E sim, veja o filme assim que estrear aí!
A-DO-REI a casa nova e linda e lilás de vocês duas!!!
Agora, vamos ao post. Aqui, na roça que eu vivo não chegam esses filmes lindos, salvo raríssimas exceções trazidas pelos bravos professores de Jornalismo e Pedagogia das faculdades aqui. Então eu vou ficar na vontade por um bom tempo =( Mas a história me lembrou muito do "A Invenção da Infância" - esse tem aqui!
Uma coisa que me incomoda nesse país é não ter incentivo por mérito nas escolas. Aqui no prédio trabalha um guri que é uma graça. Pois esses dias ele me falou tanto de física quântica que eu até entendi. E quase morri triste porque ele poderia ser o melhor professor de física da vida de muita gente, um baita pesquisador, tudo isso, se tivesse acesso à uma universidade decente. Mas não morri triste por ele, morri triste pelo monte de criança com professor ruim de física que tem por aí (eu, inclusive).
E esperança é a única coisa que a gente tem. E, como eu já disse pro Ale, pro Ina, pro André, nem preciso desejar sucesso pra vocês. Sucesso é consequencia de quem tem talento e trabalha duro! Coisa que sobra em vocês!
Beijão.
R: Carlinha, que bom que você gostou do novo visual! Sou suspeita pra falar, eu sei, mas achei que ficou liiiiindo!
Muito bom o caso que você descreveu aqui. Bom assim, no sentido de definir bem esta situação.
Também tive professores muito, mas muito despreparados nos meus anos de colégios públicos. Caso de dar dó em certos momentos. Como numa vez em que uma professora de Português - veja bem! - do antigo 1º colegial corrigiu em uma redação minha a palavra "desperdício", trocando-a, em letras vermelhas, por "dIsperdício".
Chamei-a num canto e disse que eu havia escrito certo. Ela não aceitou, me fazendo levar um dicionário meu na aula seguinte. Foi uma situação deveras constrangedora.
Enfim, assunto pra debatermos à exaustão e ainda assim, percebermos que poucas mudanças realmente efetivas serão tomadas.
E muito obrigada pelas suas palavras carinhosas de boas-vindas!
Beijo!
R: Ricardo, concordo. E adoro esta máxima do Lobato. Acho muito sábia.
beijos
R: Olá, Lucia. Realmente é um filme pra se falar e falar e divulgar muito. Considerei um serviço de utilidade pública. Obrigada pelo comentário e pelo link.
Ps: Ficou lindo tudo isso aqui. Ainda mais com texto novo seu na estréia. Adorei, pra variar. Ah, e daqui por diante pode deixar que me esforçarei pra comentar nos textos da Lu também, ao invés de elogiá-los apenas pra você, no messenger ou a viva voz. Sucesso pra vocês duas, que merecem!
R: Tuca, que bom que você gostou do nosso novo visual! Como eu respondi à Lu e à Carla, achei muito, muito lindo. Ficou tão feminino, né?
Eu também saí do cinema com estas indagações. Ficar aqui e tentar melhorar alguma coisa ou me mandar pra Europa daqui a um tempo pra estudar e trabalhar lá? Não sei. Queria muito poder ter perspectiva de que a situação mude aqui, mas a verdade é que meu ceticismo não permite isso... ando deixando as utopias de lado.
Obrigada pelas palavras de incentivo! Te amo.
Vamos lembrar também de um detalhe que infelizmente vem acometendo as escolas públicas: a formação de verdadeiras milícias entre seus estudantes. Fala-se de um tal de PCE (Primeiro Comando Estudantil). E isso, educação nenhuma resolve e quem falar que resolve é um demagogo de mão cheia, daqueles que fala em educação como uma forma de dizer que não vai fazer nada quanto à violência. De certa forma, talvez seja melhor te acusarem de pobre do que ser um pobre roubado por outros pobres. Pelo menos, no primeiro caso, podemos considerar um calejamento para a vida. Já no segundo, é só desfalque financeiro mesmo.
O outro problema que vem acometendo a escola pública é a maldita progressão continuada que, como sabemos, despejou uma geração de ANALfaburros funcionais. Porém, vamos deixar a culpa apenas em parte (e vou dizer até uma parte menor do que parece) na tal PC. Afinal, cada vez mais creio que o problema do brasileiro não é falta de acesso à leitura, mas sim o não querer ler, o fazer questão de ser ignorante. Já vi biblioteca boa no meio de uma Cohab. Sou daqueles que recusa qualquer determinismo, até por ser filho de pais que foram pobres, ter parentes que foram pobres e todos venceram na vida por seu esforço e vontade de estudar.
Talvez no teu caso, a chacota (essa coisa que neguinho americanizado quer porque quer que chamemos de bullying) nem tenha sido tanto pelo financeiro, mas sim por um conjunto de fatores. Alunos que tiram notas altas tendem a ser isolados. Alunos tímidos também. Em meu caso, era um aluno mediano, mas tímido ao extremo. Também fui alvo preferencial de certas pessoas. Sofri um tanto, mas hoje agradeço por isso. Ajudou-me muito na faculdade, ainda mais pensando que eu estava longe de casa. Fui isolado no começo e caí na de falsos amigos, mas lá estava eu firmão, insensível, uma verdadeira rocha em um deserto de areia. Não levava desaforo para casa e não tava nem aí para as futilidades e isolacionismos de certas pessoas.
Excluído por excluído, acabei me tornando amigo de excluídos. E com isso fui seguindo minha vida e depurando toda e qualquer sorte de falsário ou sociopata que pudesse se aproximar de mim. Foi também oportunidade de também melhorar a mim mesmo, despir-me de preconceitos (e como a gente tem preconceitos quando sai de um colégio, independente de público ou privado) e me tornar mais tolerante. O resultado disso é que aprendi a passar ao largo em tudo. Não dependia de uma panelinha para ser alguém, mas estava em um grupo de amigos por gostar de estar em um grupo de amigos. Amigos que até hoje me procuram. Saí com um deles para o Sarajevo na semana retrasada.
Sobre usar a mesma calça a semana toda, sou um que faz isso. E depois de mais um dia de trabalho, eis que ouvi durante o expediente uma colega que é mãe falando do que acontece no colégio do filho e que qualquer um que esteve em escola que exige uniforme sabe: que uma mesma indumentária para todos os alunos não funciona porra nenhuma em seu suposto propósito de não estigmatizá-los, até porque eles se mostram de outra forma, seja com relógios, seja com celulares, seja com tênis, seja com o que for. Fora que te torna alvo fácil para meliante em qualquer lugar da cidade. Fora que uniformes mudam de tempos em tempos e podem ser considerados suspeita de obter dinheiro dos alunos de outros meios que não mensalidades.
Por isso, creio que não devemos em momento algum esconder dos filhos a realidade das coisas. A desigualdade é intrínseca ao ser humano. Se dermos R$ 100 para duas pessoas, mesmo que pertençam a igual estrato social, vão gastá-los de formas completamente diferentes. Não poria meu filho no mesmo colégio em que estudei, justamente por ver que eles tentam esconder a realidade das coisas, achando que uniforme e rigor absoluto irão mudar as pessoas, quando na realidade apenas acabam por revelá-las ainda mais. E se você vai estudar longe de casa é que acaba vendo quem é aquele que entranhou aqueles lances de instituições que jogam para o público (pais): quando em uma situação em que jogam a responsabilidade da formação em suas mãos (leia-se faculdade e longe dos pais) são os primeiros a despirocarem de tudo. Serão os que mais vão faltar, os que irão se entupir de maconha e birita e menos pensarão em se alicerçar. Cansei de ver isso acontecer, assim como cansei de ver outras tantas coisas.
Não vi o filme, portanto, não posso dizer muito, mas penso aqui comigo se ter pego apenas adolescentes acéfalos para representar o plantel vindo de colégio particular não é uma forma de manipulação tão ruim ou pior que aquela da Globo em suas novelas e minisséries quando ou não possui personagens evangélicos ou, quando esses existem, são invariavelmente hipócritas. devassos, promíscuos ou com vestimentas caretas (como se não existissem católicos e espíritas, só para pegarmos as religiões queridinhas da emissora do Jardim Botânico, tão ruins ou piores que os evangélicos de sua teledramaturgia). E aí seria o pior tipo de manipulação, pois envolve viés reativo, pois a da Globo já estamos acostumados.
Sobre a mina ser mais articulada que os alunos de seu curso de jornalismo, é aquela velha história de que ser articulado é algo que se tem desde o berço. Vide o nosso campeão de boxe Popó, que tem grau de escolaridade bem baixo, mas nem por isso deixa de falar lé com lé e cré com cré. Ainda voltando aos alunos de jornalismo de hoje, fico pensando quantos que estão no curso por puro oba-oba. Quem sou eu para acusar este ou aquele? Mas noto um certo grau de ANALfaburrice funcional tanto entre os integrantes da comunidade de Orkut "Trabalho para Jornalistas", da qual sou um dos mediadores, quanto também no Comunique-se, em que cheguei a alertar o ombudsman dessas pessoas que fazem com os dedos no teclado aquilo que deveriam fazer com o símbolo químico do cobre em cima da latrina. E isso se pensarmos que são jornalistas, que têm obrigação de ler e decodificar textos letra por letra e palavra por palavra. Porém, como outros brasileiros, reclamam de um texto longo por ele ser longo e ficam com papinhos de pedirem para o autor resumir ou mesmo ficar. Pergunto-me se são capazes de assimilar o significado de qualquer coisa mais comprida que um letreiro de ônibus.
Educação tem disso, de ter esperança sempre. Pretendo ler os textos da Luciana por aqui, mas sinto que vocês duas tem isso. Se não for para acreditar, para sonhar é melhor nem começar a pensar em trabalhar em educação.
(e feliz casa nova, vizinha!)
:-)
eu sou pobre...ou talvez nem tanto..naum chego a passar por uma vaca anoréxica mas tudo bem!!!
"Pô kara a cada dia eu percebo q as vezes é melhor tu ser pobre e ter orgulho futuramente q foi com teu próprio esforço q tu consegue as coisas do q ser baita de um patricinha que ganha tudo e que nasceu num berço de ouro"
Por isso gente nunca desista dos seus sonhos só pq vc é pobre ou coisa parecida ...
Prova e "caga" na kara dos outros que tem tudo...q vc mesmo sem ter isso consegue ser igual ou até melhor do eles!!!
Ex:Meu irmão estudou em um colégio público a vida inteira e foi alvo de milhares de folgamentos e mesmo assim passou na UFRGS(Universidade federal do rio grande do sul)...e mostrou pros "amigos" dele q o importante naum era o tipo de colégio: particular ou público e sim a vontade q ele tinha de mostrar e provar pros outros q ele era capaz...
jasanttos@terra,com.br
Queria parabenizar a grande moça que é a Valéria, isso mesmo continue assimlutando para atingir seus objetivos. Você vale ouro.
Só quero ressaltar minha alegria por todas as palavras de carinho destinadas a mim.Eu sou a valeria que aparece no filme ' a menina do sertão'.
Sintam-se a vontade para me adicionar no msn ou orkut:valeriapoesia@hotmail.com
Xeroo
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