Aprile
09.02.07
Meio difícil falar o que eu senti quando saí do Espaço Unibanco, naquele fevereiro de 1999. Tinha acabado de assistir ao Aprile, em companhia da minha mãe e do Ralph, meu melhor amigo na época. Estava me recuperando da tal crise de mania a qual me referi no post abaixo. Não podia ir a lugares badalados e cheios, por isso comecei aos poucos a tentar voltar à minha rotina. Foi o Ralph quem me sugeriu este programa: ir ao cinema ver um filme de um cineasta italiano, de quem ele já havia assistido um filme anterior e gostado bastante.
Aprile é o tipo de filme que mais me agrada: roteiro bem amarrado e elaborado - mas simples e sem grandes reviravoltas inverossímeis -, personagens que parecem estar ao nosso lado, conversando conosco na poltrona ao lado, humor ora sarcástico ora meio pateta (mas sempre minimamente inteligente), uma sensibilidade como vi em poucos filmes (e um parênteses: cinema italiano é o melhor do mundo pra mim. Fecha parênteses) e questões existenciais das mais diversas, mas que não comprometem o filme, tornando-o enfadonho. Pelo contrário, as reflexões são tão simples e comuns às nossas vidas que nem percebemos os fortes dilemas embutidos nelas. E o humor de Moretti certamente ajuda para que as coisas fluam num ritmo bem gostoso.
A história é simples: Nanni, um cineasta em fase de inspiração minguada e poucos trabalhos, se vê diante da iminente paternidade e começa a se angustiar. Vê que, aos 44 anos, talvez seja tarde para ser o pai presente que ele sempre almejou .
Ao mesmo tempo, tenta voltar às atividades ligadas ao cinema e à propaganda, mas enfrenta dificuldades. Não consegue finalizar um projeto antigo seu, que seria um filme-propaganda sobre um confeiteiro. Neste ínterim, realiza testes e mais testes com atores, chegando até a começar as filmagens para outro filme, mas o abandona no meio.
Paralelamente a isso, a trama nos mostra o dia-a-dia de Moretti e sua mulher Silvia, as engraçadas discussões atrás de um nome para o rebento, a vontade maluca de reconstruir seu passado através de perguntas das mais estapafúrdias feitas à sua mãe e até uma ida a Londres, onde ele discursa no lindo Hide Park – em italiano! – contra Berlusconi, para uma dúzia de perplexos e atentos transeuntes de várias partes do globo.
O filme mostra o nascimento de seu filho Pietro e acompanha seu primeiro ano de vida, que inclui algumas das mais engraçadas e sensíveis crises existenciais de Nanni.
Eu, que sofro de temor e hesitação crônicos em relação à maternidade, tenho uma cópia deste filme e faço questão de assisti-lo pelo menos duas vezes por ano. Ele acaba me imbuindo de esperança e me faz pensar que seja uma jornada bastante válida.
O Biajoni, também fã do Aprile, já fez um post sobre ele, se não me engano. E chegou até a colocar uma das melhores cenas do filme no cabeçalho do seu blog.
Achei uma compilação de trechos do Aprile no youtube. Para quem quiser se arriscar no italiano - pois não há legendas -, está aqui.
Algumas das cenas mais memoráveis estão aí neste filminho: Nanni descendo em sua vespa por algumas ruas sinuosas e estreitas de Roma, com sua emblemática indumentária: uma capa esvoaçante; ele e Pietro numa linda cumplicidade em meio a milhares de recortes de revistas e jornais na sala de casa e até o apoteótico final, que é a tão sonhada realização do filme publicitário sobre o confeiteiro, com toda a equipe de filmagem dançando ao fundo. Inesquecível!
Enfim. Nanni Moretti reúne uma das tríades mais valiosas do mundo pra mim: sensibilidade, humor e neuroses em doses aceitáveis.
É uma das pessoas que eu ainda vou conhecer pessoalmente, podem ter certeza. Mesmo que seja daqui a 20 anos, mas vou.
Posts similares:
desonra
Uma Noite no Museu
Às vésperas da Mostra
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Fevereiro 9th, 2007 às 8:21 pm e
tudo isso!
o filme é lindo.
está no meu top five ever.
elisabetecunha disse:
Fevereiro 9th, 2007 às 9:58 pm e
Vou pesquisar onde posso acha-lo aqui em Salvador!
Tenha um ótimo final de semana!
André disse:
Fevereiro 10th, 2007 às 1:28 am e
E parece que Patrícia Köhler está louca para recuperar o tempo perdido e agora, chega a sua vigésima postagem. Porém, por ora, Luciana tem larga margem de vantagem. Mas confiamos que o equilíbrio será atingido em breve. Bom, desculpa bater na mesma tecla, mas pelo menos prestigio sua produção também. É que ainda não assisti ao filme…
Sandra disse:
Fevereiro 10th, 2007 às 1:48 am e
Jamais desprezando a Luciana, já que a leio via Bloglines…
Eu estava, estou, numa fase ainda difícil para conciliar tudo.. Mas… Preciso falar: LARGA DE SER PREGUIÇOSA, DONA PATRÍCIA!!!!
Vamos agitar essa vida, esse blog, essas idéias!! Quem nasce para ficar parado, só crescendo, sem sair do lugar, é planta!!!!
Tome jeito, tome tento, tome o blog também (a parte que lhe cabe) e volte!! De vez, mulher!!!
(ai, saco.. ando ácida demais!!! mas a vida continua, ok? gente que amamos morre, nasce, sofre, chora, mas a gente precisa tocar a vida). Não saímos do lugar se ficarmos escondidas lamentando a morte da bezerra!
Então, fofa, viva! E deixe-se viver!
Luma disse:
Fevereiro 11th, 2007 às 3:37 pm e
Belo e essencial!! Tem que assistir “Caro Diário”, trabalho anterior. Perceberá um evidente laço de um filme ao outro.
Beijus
Luciene disse:
Fevereiro 11th, 2007 às 3:49 pm e
Preciso ver Aprile mais uma vez. ‘Caro Diário’ e O ‘Quarto do Filho’ são dois de meus filmes favoritos e sinto que fui ver Aprile com muita expectativa. Sei que se o revir agora vou gostar ainda mais.
Do pouco que me lembro, além da expectativa com o nascimento do filho, há toda a crítica, como de costume, a Berlusconi. Adoro ver as personagens de Moretti crtiticarem essa criatura. Aliás, o último filme do diretor a que assisti foi O Crocodilo. Bom, bom, bom.
Yvonne disse:
Fevereiro 12th, 2007 às 12:39 pm e
Patrícia, esse filme é especialíssimo para mim. Adorei demais e vez por outra penso nele em algumas situações. Valeu pelo post de hoje. Beijocas
Deixe seu comentário:



Assine por e-mail