Nava

05.12.06

Queridos sete ou oito leitores: peço desculpas pelo sumiço e por fazer um copy and paste de um texto hoje. As chuvas em São Paulo andam castigando demais a cidade e, quem me lê de outros tempos e desde o finado Striptease Cerebral, sabe que moro numa região que sofre bastante com as seqüelas das enchentes. Muito trabalho, pouca cabeça e um fim de ano atribulado demais. Não vejo a hora de sentar aqui com calma, visitar meus blogs queridos e tantos outros que estou há semanas para retribuir visitas (desculpem, mesmo). Nem respondi aos comentários dos meus últimos textos. Enfim… logo mais eu volto e escrevo e leio tudo o que quero e preciso. Além da falta de tempo e cabeça para sentar aqui e escrever, há um motivo forte para eu colocar a crônica a seguir, do meu querido e mais do que admirado Luis Fernando Verissimo (o texto é dele, sim, não recebi num arquivo mala de powerpoint, mas acabei de tirar de um livro seu). Sábado à noite fiz uma das coisas que mais amo na vida: entrei em um sebo podendo comprar alguns livros (isso faz muita diferença! :P). Dentre outras maravilhas, achei duas pérolas a preço de banana: o livro “A Festa”, do Ivan Ângelo (que o blogueiro popstar e Samurai do Amor nas horas vagas Alexandre Inagaki vive me recomendando a leitura) e também este do Veríssimo do qual retirei este texto a seguir. O livro é “A mãe do Freud”, e eu estava já há anos num périplo sem fim atrás dele. Lembro que o dei de presente a um amigo especial, uns cinco anos atrás, na certeza de que facilmente o encontraria novamente. Hunf, dulcíssima ilusão, pois além de não achar em livrarias ou sebos, cheguei a ligar na editora, sediada em Porto Alegre, e perguntar se haveria um jeito de mandar uma edição pra São Paulo, logicamente que com todas as despesas do envio pagas por mim. Nem isso adiantou, pois falaram que o livro estava mesmo esgotado. Enfim… imagine a minha alegria desmedida ao esbarrar com este livro por módicos 12 reais. Ele é todo delicioso, da capa à contra-capa. A crônica fala sobre suicídio. Na verdade é a melhor coisa que já li sobre este sempre polêmico tema. A lucidez destas palavras me mesmerizam a cada leitura. Quem tiver o mínimo interesse por este assunto, leia, por favor. O título e o teor do texto são claras alusões ao Pedro Nava, escritor mineiro de muito sucesso e prestígio, que se suicidou em 1984, aos 80 anos. Salvo textos curtos, não li nada do Pedro Nava, mas passei um bom tempo lendo sua biografia hoje cedo. Depois, em momento mais oportuno, eu dou meus pitacos sobre escritores, depressão, suicídio, assuntos que muitas vezes estão interligados, infelizmente. Aqui está a crônica, boa leitura e ótima semana pra vocês. Não sei quando escrevo novamente, pode ser que minha partner Luciana monopolize o blog por uns dias .

Nava

O suicídio é a única questão filosófica, disse Camus. O homem é o único animal que resolve se matar. Que resolve se resolver. O suicídio é ao mesmo tempo um gesto de desistência e de rebeldia. O homem sabota os desígnios que seus tecidos tinham para ele. Se adianta, denuncia a trama na metade, conta o fim da história antes que ela acabe, corta essa. O suicídio é antinatural. Não estava previsto na criação. É um desafio ao sistema. O suicida não está sob nenhuma jurisdição salvo a da sua vontade. É como a masturbação: só cortando as mãos. O suicídio é o supremo paradoxo humano, porque é o último. Não é, como na piada, a autocrítica levada longe demais. O homem se mata para se preservar. Para se desagravar. Para dar uma lição nos outros cujo efeito nos outros ele não vai ver. O suicídio é uma usurpação. O suicida improvisa o próprio cadáver antes que o tempo o faça. É uma extrapolação. Nossa função não é esta. Estamos aqui para ser, sem perguntas. O corpo não é nosso, só temos o usufruto. A vida é a despeito de nós. Este coração pulsando, esta fome, pertencem a outra ordem, que não é da nossa conta. O suicídio é uma intromissão indébita nesse processo lento e obscuro das células e dos astros. Já que não o desvendamos, o explodimos. A gente não vive, a gente é vivida. Não somos as nossas células se decompondo, somos o que contempla a própria degeneração, perplexo. Não somos o cérebro nem a mão que leva a arma ao cérebro, mas somos, finalmente, definitivamente, o que puxa o gatilho. Mas por que um homem de 80 anos se suicida? Num homem de 80 anos o suicídio é quase tão escandaloso quanto uma aventura amorosa. Não se faz. Aos 80 anos um homem já devia ter a sua perplexidade ajustada, num lado, como uma hérnia inoperável. Já devia ter passado por todas as rupturas perigosas - do desespero, da auto-indulgência - que fazem os moços se matarem. Pode se suicidar de impaciente, mas a impaciência também é coisa de moço. Pensei que houvesse uma glândula, algum dispositivo, que na velhice nos reconciliasse com esta coisa que acontece em nós, e da qual não sabemos a metade, que é uma vida finita. Não há. Merda, não há.

Luis Fernando Veríssimo

Escrito por Patrícia
Arquivado em: Comportamento, Livros
1 comentário


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Comentários:


Comentário de: Luciana Email · http://www.interney.net/blogs/cintaliga

Inagaki disse:
Dezembro 5th, 2006 às 4:51 pm e
Obrigado por resgatar este texto que eu desconhecia completamente, Pat. E,por Tutatis, que frase brilhante esta: “a vida é a despeito de nós”.

Carla disse:
Dezembro 6th, 2006 às 12:21 pm e
A única escolha que a gente não faz é ter que viver em escolhas, como dizem os existencialistas.

Suicídio é interessante. Não o ato em si, mas a idéia toda. Belo texto. Sorte com as coisas aí.

Bjo.

Lucia Malla disse:
Dezembro 6th, 2006 às 6:27 pm e
Pat, espero q estejas bem depois de tanta chuva nessa paulicéia desvairada.

Sobre a crônica: não sei se concordo com a afirmação de que só os homens se suicidam. Talvez apenas nós saibamos o porquê de tal ato, o significado, etc. mas devemos lembrar que animais altruístas (em geral que vivem em grupos) também se “sacrificam” para que outros sobrevivam bem. Mas os animais não decidem se matar racionalmente, há algo mais instintivo no ato, algo relacionado com a sobrevivência da espécie como um todo. Altruísmo genuíno. Algo q os humanos em geral não pensam ao cometer suicídio. O suicídio humano é um ato muito mais pessoal, ligado a causas íntimas e subjetivas. (Mas obviamente, isso tudo são minhas viagens, já que não sou psiquiatra, psicóloga ou etóloga.)

Beijos.

Tuca disse:
Dezembro 7th, 2006 às 2:40 am e
O mais desconcertante é perceber que os suicidas, em sua grande maioria, são pessoas interessantíssimas, do bem, cuja perda amplia a vantagem no placar a favor dos idiotas que continuam por aqui. Nunca ouviremos a notícia de um Paulo Maluf ter cometido suicídio, por exemplo. Infelizmente, quem é sensível, angustiado é, salvo poucas e sorridentes exceções…

E viva a psiquiatria!

Kandy disse:
Dezembro 7th, 2006 às 3:32 am e
Eu adoro o LF Verissimo, mas confesso que ainda não tinha lido este texto dele. Obrigada por dividi-lo conosco, seus muitos leitores (é, Patrícia, somos muitos, você nem sabe! Lá na editora muita gente lê você, sabia?). Nunca parei para pensar no suicídio assim, como fez o autor. Mas o primeiro pensamento que me vem à cabeça não é o clichê “ato covarde” ou “desesperador”. Quem se suicida não cabe mais em si mesmo, seja pela tristeza, pela dor, pela decepção. E quando sentimentos assim são maiores que nós, em proporções gigantescas, a morte é confortante. É, talvez seja isso…

Menina-Prodígio disse:
Dezembro 7th, 2006 às 5:33 pm e
Patsy,

eu li o texto do Veríssimo, achei tão diferente dos textos comuns dele. Dá pra sentir o choque dele com o suicídio - a coisa mais sem explicação do mundo é a morte, mas a morte por suicídio é ainda mais estranha e dolorosa.

Gostaria que nossos sebos aqui de cima tivessem a mesma diversidade e opção, mas a maioria dos livros presentes em sebos aqui são livros didáticos usados, tratados insossos sobre a história do Amazonas e livros de literatura que foram leitura de vestibular - dos quais os nobres vestibulandos se livraram depressinha, pena.

P.S.: Nada a ver com este post, mas com um anterior: já viu a continuação de “No Vermelho?” Eu já imaginava que era bom demais pra ser obra de uma ong anti-Natal consumista e capitalista, mas fiquei com RAIVA quando vi do que se trata. Raiva pura e simples: eu gostei do filme, da arte, da idéia, e estou me sentindo VIOLENTADA. Vá ver você também.

Yvonne disse:
Dezembro 10th, 2006 às 10:30 pm e
Patrícia, lindo texto que de uma certa maneira resgatou a admiração que eu sentia pelo Pedro Nava e que ficou abalada com o suicídio dele. Sim, eu sou meio intolerante com relação a esse assunto. Bom, no mais espero que as chuvas tenham melhorado aí nessa cidade também maravilhosa. Beijocas

pecus disse:
Dezembro 11th, 2006 às 1:53 pm e
O blog vai bem. Nada como quatro mãos pra manter a pressão.

Gabs disse:
Dezembro 14th, 2006 às 5:49 pm e
Coisa mais linda, forte e verdadeira esse texto.
Mais um texto BRILHANTE de Veríssimo…

Eita familiazinha porreta essa, vai dizer?

Te amo, Pat

Beijos

PermalinkPermalink 01.05.07 @ 18:05



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