O casamento do meu melhor amigo

21.11.06

Ontem um grande amigo me ligou, uma pessoa, aliás, que foi meu melhor e maior confidente durante anos a fio, e que apenas seu último romance fez nossos encontros rarearem.
O Ralph e eu temos tantas, mas tantas afinidades, que simplesmente todos os nossos amigos em comum sempre falavam que nossa amizade/irmandade um dia iria virar algo mais. Mas isso nunca aconteceu. Não sei se por falta de vontade minha, dele, ou de ambos. O fato é que a gente sempre canalizou todos esses inumeráveis pontos em comum para o lado da amizade e companheirismo.
Não fiquei chateada quando ele engatou um namoro sério com uma moça alguns anos mais velha que ele, tempos atrás. Pelo contrário. Eles têm muitas afinidades também, e parece que aquele clima “cheio de dedos” que havia entre nós, entre eles passou longe, o que de certa forma deixa claro que talvez fosse pra ser assim mesmo. A tão falada “química” deve ter rolado forte entre eles.
Nos últimos meses, nos vimos pouco e sempre em ocasiões mais ou menos “profissionais”: o lançamento de um livro do Lourenço Diaféria cujas fotos que o ilustram foram tiradas por ele, a exibição de um curta-metragem seu, uma comemoração pela publicação dos meus poemas…
Mas eu não reclamava e até achava legal. Afinal, quando nos víamos era uma festa e os papos não venciam. Inclusive ele comentava sobre seu namoro sempre com um brilho nos olhos e meio empolgado, e eu dava a maior força.
Até que ontem ele me ligou com a fatídica notícia:
- Oi, Patrícia. Quero muito te ver pra entregar o convite do meu casamento!
Na hora fui tão natural que até eu me espantei. Disse algo como: “Que legal… então o lance vingou mesmo! Quem diria…”.
Quando pus o telefone no gancho, me dei conta de que talvez, ou muito provavelmente, não veja o Ralph tão cedo, e que nossas confidências e idas a shows e ao cinema, se existirem, não terão mais o mesmo sabor.
Mas procurei não pensar muito nisso, me arrumei e fui ao seu encontro. Conversamos muito, rimos, tomamos café juntos, trocamos impressões sobre os livros que estamos lendo no momento, enfim, um encontro como os milhares de outros que sempre tivemos. Com a abissal diferença de que agora ele me entregava um convite lindo, caseiro, com uma foto em p&b (tirada por ele, claro) na parte de cima, um convite totalmente estilo Ralph, e que, simbolicamente, me dizia: “aqui está, seu melhor amigo e confidente passará a rir, se confessar e até chorar nos ombros de outra mulher.”
Quando nos despedimos, demos um abraço bem apertado e eu lhe desejei toda a sorte e felicidade do mundo no seu casamento, já que pra mim ninguém merece isso mais do que ele. E não falei isso sem sentir, não. Foi do fundo do coração.
Voltei pra casa com um aperto no peito e uma estranha sensação. Feliz, mas ao mesmo tempo me sentindo como uma criança que perdeu seu brinquedo favorito, a boneca que tem até nome e com quem a gente passa horas tagarelando.
Na verdade sei que minha amizade com o Ralph não vai morrer nunca, mesmo que nos vejamos bem pouco, ou quiçá percamos contato. Mas dizem que amizade verdadeira, de laços fortes, não morre. E sei também que esta sensação de perda existe em parte porque todos nós queremos que nossos futuros maridos e esposas sejam, antes de tudo, nossos maiores amigos.
E é ótimo que pensemos assim. Relações que comecem pela amizade acima de tudo, têm mais chances de serem sólidas. E o Ralph foi e é ainda pra mim meu maior amigo.
Mas tenho certeza de que o “príncipe montado num cavalo branco” (feministas xiitas, me fuzilem), com que - quase - toda garota sonha, vai aparecer pra mim um dia, para eu fazer a minha história também. E que seremos, acima de qualquer coisa, grandes amigos e confidentes.
Desejo ao Ralph e à Marta um casamento de sonhos e uma amizade que seja até superior às palavras do Padre. Amém.

PS: Texto escrito em 2003. O meu príncipe apareceu, sim, embora nesta nossa história, ele tenha aparecido montado não num cavalo branco, mas em uma moto Honda Sahara violeta, lindona. E é, como eu planejava, além de namorado, meu maior amigo.

Escrito por Patrícia Köhler
Arquivado em: Relacionamentos, Amizade
2 comentários

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Comentário de: Luciana · http://www.interney.net/blogs/cintaliga

Yvonne disse:
Novembro 22nd, 2006 às 1:23 pm e
Patrícia, uma amizade verdadeira como a sua e do Ralph nunca morre. Que bom que ele encontrou a sua amada e você o seu príncipe. Beijocas minha linda.

Yvonne, acho que amizades assim não morrem mesmo. No máximo, como diz o poema (cujo autor me foge à memória), “desencantam”.

Beijos!

Menina-Prodígio disse:
Novembro 22nd, 2006 às 2:48 pm e
Amizade que acaba, é porque nunca começou de fato.
Eu já perdi um amigo assim, quando ele começou a namorar outra moça - e eu, sentindo a mesma sensação de “mexeram no meu queijo”, não fui muito bem compreendida.

Menina-Prodígio, eu imagino o que você sentiu e passou, mesmo. Também já enfrentei situações semelhantes. Pior é quando a namorada não aceita a amizade do namorado com mais ninguém, e às vezes sente ciúmes de pessoas que não sentem *nada*, além de amizade e carinho, pelo ‘objeto’ de tamanho zêlo. Triste. E é óbvio que isso acontece também com homens em relação a amigos de suas namoradas/mulheres.


Marmota disse:
Novembro 22nd, 2006 às 10:10 pm e
Oi Pat! Também tenho uma amiga dessas confidentes, que costuma trocar muitas idéias comigo… Ela está prestes a casar (com um cara que é meu amigo também) há pelo menos cinco anos… Talvez quando o casamento deles acontecer, eu consiga entender esse aperto que vc sentiu. Beijo grande!

Oi, André… espero que o rumo da história de vocês seja bom e que permita preservar a amizade com sua amiga. Aliás, com os dois.
Beijo, querido.

Tuca disse:
Novembro 23rd, 2006 às 12:23 am e
Tudo que muda a dinâmica de uma amizade, no sentido de roubar aquele espaço de tempo que antes estava ali, reservado pra conversas e confidências, é desconcertante, pelo menos no início. Dói um bocado pra se habituar. O ladrão desse espaço pode vir, além de um relacionamento, na forma também de um novo emprego que o amigo conseguiu, desses onde o mesmo não tem tempo pra quase nada. Saudamos a conquista do outro, mas, lá no fundo, lamentamos também pelo fim de um ciclo, quem sabe o início de um longo distanciamento. Resta torcermos, nesse triângulo, para que a nova parte nos aceite, sem disputas. Enfim, que imperem coisas bacanas como conciliação, harmonia, etc…
Beijos,
Te amo!!!
Má (no seu blog respeito seu “codinome”, mas aqui - pelo menos neste post -, desculpe, te chamo de Má. Espero que isso não te envergonhe, e prometo não chegar a chamar de ‘mô’, ‘môzinho’, ‘chuchu’, ‘amore’ e demais formas fofuchas que algumas namoradas usam… rs), acho que você sintetizou bem a idéia do que eu quis passar. É bem por aí mesmo.
Beijos, te amo muito, môzi… ôps, namorado!

Tuca disse:
Novembro 23rd, 2006 às 12:39 am e
Príncipe? Uau. Agora, toda vez que eu estiver no caminho pra sua casa, vou me sentir cavalgando pelas pradarias da avenida Rebouças, entre as carruagens da Wolksvagen, Ford, etc… rs
E olha só, você mora na torre de um castelo, lembra?

Hahahahaha! Adorei! Mas olha só, cuidado com as pradarias da Eliseu de Almeida, os radares multam carruagens e cavaleiros acima dos 60 km/hora!

Se bem que cavalo acima dos 60 km/hora, só se for o Pégasus!


Carla do Brasil disse:
Novembro 23rd, 2006 às 1:49 pm e
Um dos melhores amigos começou a namorar na minha última fase laço-sufocante (antes da atual). E um dia ele me chamou pra almoçar, e apareceu sem a moça. Eu perguntei a troco de que ele não tinha trazido a moça e ele disse “namoradas vão, namoradas vem, você é minha amiga e amigos não vão nem vem”.
Hoje eles são casados. E eu fiquei amiga da moça, quase mais amiga dela que dele (se é que é possível). E foi uma das coisas mais lindas que há.
Eu tenho muito ciúme dos meus amigos, mais que dos meus amores. Mas vê-los felizes, como no teu caso, me deixa muito, muito feliz.
Bjos

Carlinha, a respeito da sua observação “E eu fiquei amiga da moça, quase mais amiga dela que dele (se é que é possível)”, digo que sim, é muito possível! Vários anos atrás uma menina começou a namorar um ex-namorado meu, com quem eu ainda tinha bastante amizade. No começo eu senti (e soube) que ela tinha muito ciúme de mim, embora eu realmente não desse motivos (afinal, apenas abraçar a pessoa e perguntar como vai a vida é ofensivo?). O tempo foi passando e ela, ao perceber que eu realmente não era e jamais quis ser uma ‘ameaça’ à paz do casal, foi cada vez mais baixando a guarda. Resumo da ópera: ficamos amicíssimas, e hoje em dia tenho muito mais contato e amizade com ela do que com ele. Detalhe: o namoro deles acabou depois de quase dois anos e ela acabou enfrentando a mesma situação com a namorada subseqüente… ou seja, o ciclo recomeçava. rs
Estas faces da vida e dos relacionamentos humanos me encantam, sabe? Apesar de olhares enviesados que já recebi em certas ocasiões, ainda acabo achando graça de tudo, no fim.


Kandy disse:
Novembro 26th, 2006 às 8:34 pm e
Sei bem o que você sentiu. Eu tenho mais amigos homens que amigas mulheres e já passei por essa situação muitas vezes. Fui ao casamento de quase todos. Algumas das moças me trataram (e ainda me tratam) muito bem. Outras desferiram golpes vocabulares cuja mensagem subliminar era “fique longe do meu namorado/marido”. E aí, a amizade esfria, porque tenho verdadeiro horror de causar brigas e desentendimentos ainda que sendo vítima na história. E tem sido assim. Então, quando olho para os amigos solteiros que tenho hoje, com quem saio para visitar museu, ir ao teatro, almoçar, ir ao cinema, já sei que vou passar por situação semelhante um dia…

Glaucia disse:
Novembro 29th, 2006 às 5:16 pm e
Troço dificil esse. Sofro sempre, todas as vezes que tenho de me despedir de um amigo. Seja por qualquer razão… E o pior é que sabemos que muitas vezes, o destino nos leva para caminhos diferentes e aquela pessoa que te faz tanta companhia hoje, será aquela com quem você só falará no Natal amanhã. Chamo isso de ciclo da vida… alguns amigos nascem, crescem, florescem em você em todo o esplendor e depois caem e morrem. O consolo é para aqueles, que sempre plantam amigos…assim o ciclo continua. Alguns morrem, mas outros nascem. Alguns parecem morangos mofados, enquanto naquele momento, outros estão viçosos e cheirosos… Cabe a nós observarmos tudo com a sebedoria do jardineiro, que se alegra pelas rosas, sem se preocupar com os espihos…
Ai! Adorei o tema. Vou escrever no meu blog. Depois passa lá pra ver!!!
BJSSSSSSSS

PermalinkPermalink 01.04.07 @ 16:48



Comentário de: LELE Email

é muito dificil dizer sobre o assunto, mas tambem ja passei por isso um dia, mas ao contrario de sua historia a minha era ou melhor é amor de verdade, pois msm os anos terem passado ainda sinto algo muito mais forte que uma simples amizade, apesar dele ainda me considerar sua melhor e grande amiga.

PermalinkPermalink 06.07.07 @ 23:26



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