Janela da alma

24.10.06

Na minha faculdade existe uma funcionária que é deficiente visual. Trabalha lá há muitos anos, embora eu não saiba exatamente qual função exerce.
Primeira consideração: ela é chata.
Segunda consideração: ela é MUITO chata.
Terceira consideração: achar chata uma pessoa portadora de algum tipo de deficiência é uma heresia?
Esta mulher afasta qualquer um… é sempre ranzinza, reclama de tudo e de todos e também é falsa ao extremos, sempre fazendo intriguinhas com colegas de trabalho.
Como eu sei de tudo isso? Bem, convivo com funcionários que são colegas dela há muito tempo, e isso é unanimidade entre eles.
Também tenho oportunidade de estar ao lado dela por alguns momentos, ao longo dos semestres, e as conversas são sempre as mesmas: o tempo está ruim, a vida está ruim, a menina foi indicada para algum cargo apenas porque é bonita, a comida do restaurante é ruim, o perfume de fulana é enjoativo, a voz de sicrano é chata, as pessoas não gostam dela (e tem como?).
Engraçado que algumas pessoas chegam a mudar de calçada quando a vêem andar pelas ruas ali próximas à faculdade. É uma atitude instintiva, como se ela realmente pudesse enxergar a presença delas ali. Um dia eu até falei para o rapaz ao meu lado: “Nossa, Chico, também não é pra tanto, ela não vê a gente!”, ao que meu colega disse: “Ah é?, você que pensa!”. Menos de cinco segundos depois a moça diz, já bem próxima a nós: “Chico, vem cá, quanto tempo!”. Fiquei com a cara no chão. Ela SENTE a presença das pessoas, é impressionante isso.
Ontem esbarrei com ela na rua e fiquei com vontade de me fantasiar de moita. À menina que estava ao meu lado, apenas disse: “Ufa, a Meire não me viu”. Minha colega riu, como se dissesse “Ué, mas claro, como veria?”. Ela quis saber o porquê da minha aflição. Eu não quis falar, mas ela insistiu.
Expliquei a situação e minha colega disse: “Nossa! Pecado falar mal de quem não enxerga”. E eu: “Mas você prestou atenção às coisas que te falei? Ela é falsa, é reclamona, nada está bom, é pessimista e sempre acha que há alguma conspiração contra ela, mesmo sendo funcionária há mais de dez anos da instituição”. Minha amiga insistiu: “Não importa, é pecado falar mal de quem não enxerga. Deus castiga!”.
Pois bem: é pecado falar mal de quem não enxerga, mas não é pecado um deficiente falar mal dos outros colegas de trabalho, da voz das pessoas, do perfume delas, do gosto musical, da comida, do tempo, da vida.
Faça-me o favor! Nem levei a discussão adiante, bater boca com fanáticos religiosos sem nenhum tipo de base mais ética não leva a nada.
Há deficientes visuais e auditivos ótimos, assim como há os malas. Da mesma forma com as pessoas ‘normais’, que não são portadoras de nenhuma necessidade especial.
Achar que o fato de alguém não enxergar - ou não falar, não escutar, não andar - lhes dá passaporte para qualquer tipo de atitude, mesmo sendo deletéria às pessoas, isso sim, é falta grave.

Escrito por Patrícia
Arquivado em: Cotidiano, Indignação
1 comentário


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Comentários:


Comentário de: Luciana · http://www.interney.net/blogs/cintaliga

Sandra disse:
Outubro 25th, 2006 às 12:02 pm e
Sabe como isso chama, querida? Revolta. Ela se revolta com a vida por tê-la “roubado” a visão, então expele veneno sobre todos a fim de aplacar a dor e tentar mostrar que não é por que as pessoas enxergam que elas são boas ou melhores que ela. Como os outros não possuem deficiência física ela busca deficiência no comportamento, no modo de agir, de pensar, para diminuir a diferença que ela sente. Vou mais fundo… Ela tem um enorme preconceito. Contra ela mesma. E isso, ninguém vai tirar.
Evite, fuja, não fale nada de sua vida. Ignore porque ela NÃO quer ajuda.

Beijos.

R: Nossa, San, nem Freud (o de Viena, não o ex-secretário do Lula) faria melhor!

Vou pensar mais a respeito das suas observações… especialmente quando, inadvertidamente, esbarrar com ela de novo.

João M. disse:
Outubro 25th, 2006 às 12:22 pm e
É revolta, concordo com a Sandra.

R: João, também acho que seja revolta… mas será que é SÓ revolta mesmo, ou talvez ela, mesmo enxergando, tivesse este jeito mala de ser? Bom, aí só ela nascendo de novo, e sã, pra sabermos… fica tudo na especulação…

Tuca Hernandes disse:
Outubro 25th, 2006 às 12:34 pm e
Essa mulher me fez lembrar de uma menina que conheci quando eu era moleque. Ela não tinha as duas mãos. Com uma personalidade forte, quem sabe para mascarar a deficiência, fazia questão de ser agressiva com todos ao redor. Dificilmente alguém reagia, uma vez que a falta das mãos era encarada como vale-escrotidão. Dessa forma, todos a temiam, justamente por acharem covardia demais qualquer tipo de reação. Tenho curiosidade pra saber o que aconteceu com ela, se virou uma hitlerzinha, ou se adaptou sem punhadas nos outros.

R: Tuca, espero que ela tenha melhorado de personalidade, senão… coitados dos que convivem com ela… deve ser desgastante e até triste.


Carla do Brasil disse:
Outubro 25th, 2006 às 2:01 pm e
É assim que as pessoas geralmente vêem o diferente: ou como TUDO DE RUIM ou como TUDO DE BOM. Não percebem que o deficiente é gente, como ele, e tem qualidades e defeitos, como ele…

Trabalhei um tempo em escola especial e cansava de ouvir: “Ah, mas seus alunos devem ser uns anjos, crianças com Down são tão carinhosas.” São? Alguns são, alguns não são. Igualzinho na escola regular.

Só que, talvez para se redimir do tempo em que se escondia os deficientes para não “ofender” a sociedade, as pessoas não conseguem perceber que o fato de não enxergar, ter um cromossomo a mais, não ouvir, não ter um pedaço do corpo não mexe com a personalidade. Há os bacanas, há os malas. E coitado de quem tem que conviver com os malas!

R:Carla, é isso mesmo. Seu comentário resumiu tudo o que eu acabei levando muito mais linhas pra explicar. :P

Luciana disse:
Outubro 25th, 2006 às 2:32 pm e
Casa muito bem esse texto com aquela velha história de que “morreu, virou santo”. Ora, ora. Pra mim não é heresia, não. Heresia é sentir pena, é passar a mão na cabeça por causa da deficiência - acho que isso deve irritar a moça mais ainda até. Saber que ela é tão chata e mesmo assim a perdoam porque é cega.
É que nem meus alunos: uns aplicadíssimos, mas tão chaaaaaaatos; outros, bagunceiros e displicentes de mão cheia, mas simplesmente adoráveis.

R: Lu, fico aqui pensando nos seus alunos, e no quanto seria complicado, pra mim, poder julgá-los apenas por comportamentos x erros de ortografia… acho que ficaria numa eterna sinuca de bico, entre os aplicados chatos (ou pelo menos certinhos demais) e os displicentes e bagunceiros adoráveis.


pecus disse:
Outubro 25th, 2006 às 2:45 pm e
Patrícia, que legal o cintaliga. Pior cego não é o que não quer ver, mas o que é chato.

R: Pecus, que bom que gostou do blog! E nem preciso dizer que ri muito aqui com a sua observação e a ligeira mudança da frase manjada…

anna v. disse:
Outubro 25th, 2006 às 6:14 pm e
Também já passei por isso. E no início me sentia mal mesmo por achar a pessoa mala. Depois vi que não tinha nada a ver. Como em qualquer grupo de pessoas, tem uns que prestam, outros que não.

R: Anna, exato. Nos sentimos mal por culpa, talvez? Tipo: “pô, pelo menos eu enxergo (ouço, falo, ando, etc), ele/a não”. Será que é isso? Hum, vou pensar um pouco… pois gostaria de me livrar TOTALMENTE de tais culpas idiotas (bom, idiotas no caso de estarmos lidando com pessoas realmente chatas como a do meu post…;)

Leila disse:
Outubro 25th, 2006 às 6:37 pm e
Ha ha ha, adorei o comentário do Pecus.

Patrícia, já atualizei o link.

R: Leila, também ri muito… aliás, o Pecus e o Flávio Prada sempre me fazem rir demais.

Ah, sim, e obrigada pela atualização!

Mariana disse:
Outubro 25th, 2006 às 7:55 pm e
Na minha classe da facul tinha uma menina cega que era uma das melhores da sala. Ela até chegou a ganhar um prêmio na cidade dela como melhor aluna no colegial.
Ou seja, não é pq a pessoa não enxerga, não escuta ou não anda que é pior que quem enxerga, escuta e anda.. uma coisa não tem nada a ver com a outra

ah, adorei a foto do blog, onde é?
R: Olá, Mariana. Sim, sim… deficiências versus caráter/personalidade são coisas realmente sem ligação.
Menina, sabe que não sabemos onde esta foto foi tirada?
Isso é padrão (um dos) do Wordpress, segundo a sócia-fundadora do blog, Luciana.

Selph disse:
Outubro 26th, 2006 às 1:27 am e
É… pra cegueira, falta de fala e audição ainda há contornos… já pra chatice…

R: Sim, Selph… pra chatice, só se afastando…

Yvonne disse:
Outubro 26th, 2006 às 1:23 pm e
Patrícia, eu sou muito sorvete na testa. É impressionante a minha burrice em certas ocasiões. Quando li o post mudamos e não casamos, eu não entendi nada. Só agora lendo um comentário seu no blog da Leila é que eu fui me dar conta de que vocês tinham mudado, rsrsrs. Ainda bem que li todos os posts que estão maravilhosos.
Querida, a babaquice é universal e democrática. Ataca todas as frentes. A mulher pode ser cega, mas já carrega dentro de si o gene. Não liga não, continua não gostando dela.
Beijocas carinhosas
Yvonne
P.S.: Depois, com vagar acerto o link no meu blog.

R: Yvonne, este negócio de ser “sorvete na testa” tem um nome mais bonito e eufemístico: portador de DDA!

Acho que é um mal que acomete boa parte dos blogueiros, pelo menos pelo que constatei de uns anos pra cá.

Ah, não se apresse em nos linkar corretamente… faça no seu tempo. Você nos lendo já tá bom demais. :-)

Beijocas!

Alessandra disse:
Outubro 27th, 2006 às 9:44 pm e
Pois Patricia, sabe que eu acho que a gente só vai estar tratando portadores de deficiência como iguais no dia em que a gente tiver a capacidade de chamar um de filho-da-puta sem culpa. Claro, ele tem que ser um filho-da-puta. Mas eu, sinceramente, se tivesse alguma deficiência ou dificuldade de locomoção, ia detestar que as pessoas fossem sempre boazinhas comigo. Isso se chama con-des-cen-den-cia e é ofensivo. Melhor ser um filho-da-puta que um coitado tratado como criança.

R: Alessandra, que comentário ó-ti-mo. Verdade… no dia em que deficientes sejam chamados de filhos-da-puta (desde que façam jus mesmo a esta expressão, claro, como você bem lembrou) sem culpa, acho que as coisas estarão mais igualitárias, pra ambos os lados…
E eu também preferiria mil vezes ser tratada com ‘indiferença’ a ser tratada como uma inútil ou incapaz…

Glaucia disse:
Outubro 30th, 2006 às 2:38 pm e
Porque será que as pessoas usam tudo que “não tem jeito” como desculpa?
A morte, a deficiência, o grau de parentesco torna as pessoas mártires e simplesmente apaga todos seus erros e defeitos?
Nunca compactuei com essa premissa e acho que as pessoas são o que são, vivas ou mortas, parentes ou desconhecidos, deficientes ou normaizinhos…
O resto é hipocresia.

Viva disse:
Outubro 30th, 2006 às 3:02 pm e
No meu coral tem uma deficiente visual que é a pessoa mais bem humorada que eu já vi. Aliás, ela é a primeira a fazer piadas sobre sua condição.
Como a Yvonne disse, a chatice é democrática. Acomete pobres e ricos, brancos e pretos, deficientes ou não.

André disse:
Janeiro 11th, 2007 às 3:54 am e
Sugeri este texto para um fulano que insiste em acreditar que tudo é culpa do sistema machista e patriarcal (assim como temos comunistas que põem no capitalismo corrupto a culpa pela topada que deram com o dedão do pé em uma pedra em um bosque). No caso, o cara quer porque quer me convencer de que a Cicarelli foi totalmente usada nessa história do bloqueio do YouTube (em resposta a uma hipótese que levantei de que a ex do Ronaldinho possa ter feito uma sofisticada manipulação em que Tato Malzoni possa ter sido boi de piranha). Pô, e falamos do ser mulher, condição que nada tem a ver com qualquer tipo de deficiência, mas que como qualquer condição, não é salvo-conduto para qualquer outro lance, como ser chata, manipuladora, etc.
Pior de tudo é ser acusado de coisas das mais diversas simplesmente por abordar algo que envolva alguém de um grupo que supostamente seria alvo de preconceito de todos os homens, agravando ainda mais se forem heterossexuais, caucasianos e crentes em uma fé abraâmica. Pô, sou homem, heterossexual, caucasiano e cristão (aliás, configuração que creio sofrer mais preconceito que muitos tidos como discriminados por aí;), mas nem por isso estou impedido de ser ter amizades e em certa altura até esquecer do que possuem entre as pernas. Assim como não me impeço de ter contato e ser amigo de homossexuais (aliás, creio que o homem heterossexual que é amigo de homossexuais, principalmente se esses forem do sexo masculino, é visto com uma desconfiança daquela tanto por homens quanto mulheres). Assim como não me impeço de ter contato e ser amigo de judeus(ias) muçulmanos(as), wiccanos(as), ateus(éias) e por aí vai.

Sabe qual foi a pessoa que vi se posicionar mais contra cotas contra negros? Uma senhora retinta, muito inteligente e que faz pós em assistência social. Ainda sobre esse assunto, meu pai conta que na empresa em que ele trabalhava, uma multinacional, lá pelos idos dos anos 60 ou 70, contrataram um cara baseando-se em seu fenótipo. Meu velho conta que o cara era mais preconceituoso que qualquer pessoa que lá houvesse e rodou em pouco tempo, fora fechar portas para qualquer outra ação afirmativa. O que foi ótimo para os afrodescendentes competentes, sendo que um ex-colega dele com raízes nessa parte do Velho Mundo hoje encontra-se em cargo altíssimo, é bastante competente e muitíssimo simpático.
Sinceramente, cada vez mais tenho a convicção de que quando se coitadiza algum setor da sociedade, integrantes mais malandros desse setor irão se aproveitar da vista grossa e do relativismo a que submetem o coletivo em que se enquadram para levar vantagem em tudo e, caso flagrados fazendo uma merda qualquer, apelarão para o setor ao qual pertencem e acusando quem fez o flagra de opressor e outras. Um exemplo simples de coitadização está na maneira como tratamos nossos menores infratores. Aliás, há uma belíssima quantidade de malandros que sacaram serem inimputáveis e estão fazendo barbaridades. Outro exemplo de pessoas que lucram com a coitadização a eles dirigida está o governo de Israel, que insiste em acusar de nazista e anti-semita qualquer um que a ele se oponha.

Outra coisa que não suporto é, como disse a colega que dá aula para crianças portadoras de síndrome de Down, querer dizer que um filho deficiente é uma bênção para os pais que o têm. Caramba, todo filho, independente de como for, pode ser uma bênção, assim como pode ser uma maldição se trilhar um caminho errado e fazer seus pais chorarem.
Uma vez conversei com a Pat a respeito de assassinatos em periferias pela perspectiva de quem conhece um pouco que seja as bocadas da vida e não usa óculos de lentes cor-de-rosa. Na maioria absoluta das vezes, o(a) assassinado(a) estava envolvido(a) em umas fitas podres nas quais poderia se envolver qualquer um, independente de classe e lugar geográfico em que o domicílio em que assiste estivesse.

Ah sim, em tempos: Lampião, assassino de mão cheia e chefe de quadrilha, era caolho. Há famiglie mafiose cujo capo está em uma cadeira de rodas. Será que o fato de serem deficientes é salvo-conduto para fazerem o que fazem ou fizeram?

PermalinkPermalink 05.04.07 @ 16:00



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