Professeur Joelma
23.01.12
Eu não sei se no resto do Brasil vocês sabem, mas tá rolando uma grande imigração haitiana aqui em Manaus. Tipo, eles vêm (ainda tem acento no "vêm"?) pela tríplice fronteira Peru-Colômbia-Brasil, em Tabatinga, e após terem seus pedidos de refúgio aprovados, normalmente mudam-se para Manaus em busca de emprego.
Eu, particularmente, acho ótimo. Manaus sempre foi muito ilhada, e acho que aprender a conviver com pessoas diferentes (desde o idioma até o tipo físico) é algo positivo pra cidade, que afinal de contas,está aprendendo a ser uma metrópole.
De um modo geral, em Manaus a gente não estava acostumado a ver negros-muito-negros. Normalmente, quem é negro-muito-negro era militar carioca que vinha pra cá transferido. E os haitianos tem um tipo físico inédito por aqui: eles são negros-muito-negros, altos, fortes. Em Salvador, passariam despercebidos, mas aqui em Manaus, é muito fácil olhar e ver que aquela pessoa é de fora.
Enfim. Estava eu na parada de ônibus, e chegam três haitianos. Lindos, lindos, lindos (eu tenho paixão por pessoas morenas e negras, acho lindo, em São Luís e St. Maarten eu pagava mico de tanto olhar pras pessoas). Altos, esguios, dentes brancos, mãos enormes. #MeAbana
Aí, quando eles sentaram, eu gastei um pouco do meu francês: "Salous!". Não era jogando charme, sou mulher fiel e séria, mas gosto de fazer as pessoas se sentirem bem vindas na minha cidade.
Eles riram, surpresos (ninguém deve falar com eles em francês, né?), e começaram a perguntar "Comme ça va", e eu disse "Ça va bien", e depois "ma français ces´t fini". Eles entortaram de tanto rir, e um deles: "Mas o meu português não acabei".
Em suma, enquanto esperavam o ônibus, esse moço conversou comigo, dizendo que aprendeu português muito rápido ouvindo música. E eu disse que ele estava falando muito bem mesmo, com vocabulário muito bom, que eu queria saber qual música ele ouvia. Ele me põe o celular pra tocar -bem alto, na parada lotada - "A lua me traiu", da Banda Calypso. E comenta:
- Essa mulher, melhor cantora bresileira. Joelmá.
E eu:
- Je ne suis pas d´accord...
E ele:
- Pourquoi non?
E eu:
- Ela grita.
E ele:
- Que nada! Ela melhor professora português.
E começou a cantar junto com a Joelma no celular, "Fiquei sozinha, louca por você..."
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Natal tem todo ano
18.12.11
Eu sou apaixonada pelo Natal. Sempre fui, procurando nos arquivos deste blog de dezembro, sempre tem texto sobre o Natal.
Mas esse ano tá diferente. É que eu ando muito cansada, muito ocupada, muito estressada mesmo. O ano não deu a pausa natural de dezembro, eu continuo tendo aula na faculdade, continuo trabalhando (MUITO MAIS DO QUE O NORMAL). Não teve aquela pausa pra olhar pros lados e "olha só, luzinhas e enfeites".
Tem sim, luzinhas e enfeites, por todos os lados. Mas eu ando tão nervosa com isso. Tudo é da China, entendem? Qual a graça de papai noel de plástico da china? Nenhuma. Qual o encanto de pisca-pisca de led da China? Zero!
Algum funcionário da prefeitura de Manaus teve a bela ideia de fazer árvores de natal de PET. Ugh... Reciclagem é legal, mas não basta cortar as garrafas, gente, há que buscar a harmonia, há que esforçar-se na estética.
No mais, o que eu continuo gostando do Natal não são as comidas nem os presentes, não é o plástico verde e vermelho. Eu continuo achando formidável essa ideia etérea de um Deus-Menino. Celebrar o nascimento de uma criança, e pensar que afinal, todo nascimento de todas as crianças mereciam ser comemorados, com luzinhas e presentes, caso fosse possível.
Eu amo o Natal, amo tanto. Mas não o associo a consumo e despesas, em momento algum.
Coisas muito grandes pra esquecer
04.12.11
Nós dois sentados em um sofá na Universidade.
Sexta-feira, seis e meia da tarde.
Eu com restos de maquiagem vermelha no rosto, os pés pintados de preto, cansada depois de uma pequena apresentação didática.
Você com um compromisso em alguns minutos, trabalho pra fazer.
Eu tinha um sanduíche de queijo na bolsa.
Nós dividimos. Conversamos sobre alguma coisa simples e tola, não lembro mais o quê.
Você me abraçou, eu pus a cabeça no seu ombro, segurei sua mão.
Eu te desejei tanto... um calor subindo pro rosto, mas sabia dos seus compromissos e da minha necessidade de ir para casa. O conforto do seu corpo, a alegria de uma semana particularmente ruim estar terminando tranquilamente.
Você disse que estava "tão feliz". Eu disse que aquele era um momento tão bobo que nem lembraríamos depois. Perguntei: "Tem algum modo de fazer esse momento parar?" Você disse: "Batendo uma foto!"
Eu ri, disse que não era bem isso que eu tinha em mente. Mas depois refleti, e percebi que era mesmo a melhor maneira de fazer aquele momento durar pra sempre.
É uma das nossas melhores fotos. Escrevo para não esquecer.

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3 comentários
Mais um texto para um senhor Galante, porque ele merece
20.11.11
E você veio, me encontrou devastada e árida, e ainda assim você me abraçou, me ouviu e me fez ouvir suas histórias engraçadas de jogador de videogame.
E você encarou minhas ressalvas esquisitas, namorar escondido da mãe de uma baita mulher adulta, o medo de ser vista em público, eu chorando por causa de um ex-namorado particularmente difícil, na sua frente.
E você me acompanhava no caixa eletrônico, na loteria, na loja da tortas que nós adorávamos e no Clube do DVD, no shopping e na rua do Bate-Palma, e eu, no meio da minha miopia, tive que enxergar que você era bom bom bom demais, bom como as pessoas das histórias que eu gosto de ler, bom como os personagens do filme que eu penso em realizar.
E você sendo bom do jeito que você é, me conquistou e é tão gostoso te ver de verdade e saber que você não desistiu de tentar. Eu percebo que as coisas boas eu guardo pra comentar contigo, os textos que leio e os gatinhos engraçados da internet, a notícia boba do jornal e a discussão sociológica da formação social do Brasil segundo Darcy Ribeiro, de quem eu só li um livro e ainda tento resumir pra ti, como se eu fosse a única fonte de saber, a sua biblioteca de alexandria - mas é claro que eu não sou - e quando você vem perguntar as coisas Eva de que época era o Racine Eva o neoclassicismo Eva o Realismo, e eu não sei, e digo que não sei,
e você faz a mesma pergunta de outro jeito, se recusando a ficar sem resposta, e eu corro pra internet pra ver se o Google me diz algo, eu faço isso por sua causa, porque você é um homem bom, bom, bom do jeito que todos deviam ser.
E ontem eu percebi que cada dia do seu lado é um dia completamente novo, que as fronteiras da rotina podem ser diluídas com o amor, esse amor bonitinho que nasceu no meio dos escombros, que me fez voltar a ser uma pessoa, que me trouxe pra perto de mim mesma, e que no meio disso tudo me apresentou você, tão bom tão bom, tão bom pra mim.
Qual o tempo necessário para superar um sofrimento?
05.11.11
Depois de anos - ANOS MESMO, não é força de expressão - abri meu antigo e-mail do Yahoo, aquele, aquele e-mail que eu tinha medo de abrir, aquela caixa de entrada que atualizei freneticamente em dias passados e enterrados (mas não esquecidos, porque não dá pra esquecer).Aquela que fazia meu coração pular quando recebia e-mail novo, que eu havia configurado para que mensagens de determinado remetente ficassem coloridas de verde, minha cor favorita.
Aquela inbox que eu classifiquei, fiz pastas com nomes estranhos do tipo CUIDADO ISSO DÓI, e finalmente abandonei porque doía, doía, doía.
E eu a abri de novo hoje.
E eu descobri que passar mais de quatro meses sem abrir o yahoo mail faz com que o Yahoo desative sua conta e apague seus e-mails e congele seus contatos e mande suas lembranças pro quinto círculo de Dante.
Quatro meses. O Yahoo não entende nada de dor de cotovelo.
(Leitores mais antigos, reparem que este texto não é em itálico.)
Prova de Concurso público
11.09.11
- De novo, Eva?
- Sim, de novo. Até o dia em que eu passar pra um cargo no qual eu trabalhe duas horas por semana, ganhe dez mil dólares mais casa, vestimenta e alimentação, eu vou continuar fazendo concurso!
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Hoje, fui fazer a prova do Exército brasileiro (#BraçoForteMãoAmigaOmbroMusculosoPeitoPeludo). Sou administradora formada, e quero muito trabalhar utilizando aquilo que aprendi na Universidade Federal do Amazonas (#InUniversaScientiaVeritas*). Ganhar oito mil como tenente do exército e morar em Salvador por uns tempos também é uma perspectiva fascinante.
Pois bem, eu sou rata de concurso. Já fiz mais de vinte provas, pra diversos cargos, Executivo, Legislativo e Judiciário. Federal, Estadual e Municipal. Vestibulares, Técnicos e Nível Superior. Cama, mesa e banho.
E refletia hoje, durante a prova, sobre o monte de manhas de concurso que desenvolvi.
Normalmente, os concursos são de manhã. Em época de horário de verão, eu preciso acordar às quatro, sair às cinco, chegar ao local de prova cinco e meia pra iniciar a prova às seis da manhã - em Brasilia, oito horas. (#VenhaForteQueEuSouDoNOrte) Então, minha mãe, uma mulher que merece a canonização, normalmente prepara mingau. Uma panelinha INTEIRA de mingau. #ComeTudinhoPraFicarFortinho
Quando sói do exame ser pela parte da tarde, o esquema é mais complicado. Eu tenho que sair às dez, para iniciar a prova às onze...e terminar lá pelas quatro da tarde! Todas as vezes que fiz o ENEM vivi esse problema. Almoçar às nove da manhã me enjoa, então eu providencio um English Breakfast (saudade de Belfast). Ovo frito, um bife e tomate dentro de dois pães franceses. Ou três. #VivaAProteína
E eu tenho o kit-concurso. Eu sou a rainha da frescura. Em cima da minha mesa, o regulamentar é ter a identidade e três canetas bic pretas (ESFEROGRÁFICA DE CORPO TRANSPARENTE BLÁ BLÁ BLÁ). O extra-regulamentar:
- Garrafa de água (ÁGUA DA MINHA CASA É A MELHOR DE TODAS #NãoAmebaNão)
- Barrinha de cereal (#FicaQuietoEstômago)
- Chocolates ou bombom** (#GlicoseEstimulaMentes)
- Lenços de papel (excesso de coriza, falta de papel higiênico #NuncaSeSabe)
- Um todinho ou, visto que estou levando a dieta a sério, uma caixinha de água de coco (#LevezaEFrescor)
Fico pensando: os fiscais devem me odiar.
Além disso, não gostei da prova do exército. Estou acostumada a fazer provas do CESPE/UNB. Os gabaritos do CESPE são bolinhas. Bolinhas são fáceis de pintar, é só fazer três voltinhas com a caneta e voilá, bolinha preenchida.
Os gabaritos do exército são quadrados. Dá muito trabalho pintar qadradinho. Você pinta o meio, os cantinhos ficam brancos. Vai pintar o cantinho, sai do limite. Pede outra folha de respostas, o tenente-fiscal te olha feio. Não quero mais quadradinhos. #TorturaNuncaMais
Fora que eu ficava escutando o celular do Tenente-fiscal dentro do bolso dele, dando sinal de mensagens. No meio da prova tocou, e o toque era da Lady Gaga. #BabadoForte
Gabaritos, só na quarta-feira. #Oremos #Partiu
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* Lema da UFAM: A ciência é a verdade universal.
** No Amazonas, bombom significa Halls, Freegels, Mentos, essas coisas ardidinhas. Não cabe debate sobre o conceito.



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