Você sabia que ovos de galinha são usados na fabricação de vacinas contra o vírus da gripe? Sim, inclusive o da Gripe Suína (H1N1). Acompanhe no vídeo a seguir uma reportagem veiculada pelo canal Globo News, que mostra todo o processo de produção dessas vacinas, da granja de ovos em Brotas até o Instituto Butantan em São Paulo:

Imagine você em um futuro não muito distante, entrando na seção de carnes de um supermercado qualquer. Dentre as opções disponíveis, você acaba levando 500 gramas de uma genuína picanha, produzida pelo laboratório "New Age Meat Solutions Inc". No caixa, enquanto seus dedos alisam aquele pacote de carne, vem um pensamento na sua cabeça, imaginando o absurdo que era antigamente, quando existiam açougues, aqueles locais onde, veja só, os animais eram mortos.
Idéia meio viajante, não? Pois bem, pra PETA, uma conhecida organização de defesa dos animais, nem tanto.
Tendo como base os últimos avanços da biotecnologia, vide os representados pelas células-tronco, a PETA anunciou nessa semana um concurso que premiará em um milhão de dólares o primeiro cientista que conseguir, até 2012, produzir em laboratório uma carne de frango que seja comercialmente viável, tanto na qualidade quanto na quantidade. Isso mesmo, carne in vitro. A idéia aqui é estimular o desenvolvimento de uma espécie de carne do século 21, que não envolva o abate de animal algum para que se alcance os pratos.
Além de poupar a vida de bois, porcos, frangos etc, o domínio dessa nova tecnologia traria também benefícios ecológicos ao provocar, teoricamente, o fim das criações de animais para abate, responsáveis, segundo alguns estudos, por boa parte da poluição em nosso planeta. Consideram-se também as vantagens para a saúde pública, onde esse novo produto seria mais seguro em comparação com as carnes geradas pelos meios mais "tradicionais", onde são maiores as condições para o surgimento de inúmeras doenças infecto-contagiosas.
Mesmo assim, segundo reportagem do jornal The New York Times, muitos ativistas não apóiam a idéia da carne in vitro, pois, segundo eles, essa continuaria sendo um alimento capaz de causar doenças cardíacas, diabetes, obesidade e alguns tipos de câncer. O sabor de uma carne suculenta, mesmo que vinda do laboratório, não compensaria as perdas na saúde, alegam.
Mas seria a carne in vitro uma piração saída da mente de vegetarianos que comeram brócolis alucinógenos? De modo algum. De fato, existem centros de pesquisa dedicados a tornar isso uma realidade do dia-a-dia. Um deles fica na Holanda, na Universidade de Utrecht, de onde o professor Bernard Roelen, um dos cientistas envolvidos no tema, avisa: mesmo com grandes investimentos, é praticamente impossível que a meta proposta pela PETA seja atingida antes de 2012.
Bem, se um dia criarem uma picanha in vitro tão saborosa quanto a original, maravilha, serei um dos que deixarão definitivamente de lado aquela outra, gerada pelo boi. Quem sabe em algum churrasco de 2030. Agora, deve ter por aí um povo que não está simpatizando nem um pouco com essa possibilidade, como aquele representado pela ABCZ que, definitivamente, não veria graça alguma em manter o boi apenas como animal de companhia...
E por falar nisso...
New Harvest: site de uma organização sem fins lucrativos, dedicada a promover o debate a respeito de alternativas para a carne convencional. Dentre essas, o desenvolvimento da carne in vitro.

Quando alguém menciona a palavra "pet" é instantâneo que venha em nossa mente a imagem de um cão ou gato. Ou os dois juntos. Posso apostar um osso que o mesmo acabou de acontecer com você. Viu só? Coisas do senso comum. No entanto, outros animais vêm recebendo a denominação de "pet", mesmo que jamais venham a entrar na sala de nossas casas. O cavalo, por exemplo. Por não ser destinado ao abate, dando margem àquele clássico vínculo afetivo junto ao dono, tem sido cada vez mais comum vê-lo incluso na lista das espécies que caracterizam os "pets". Nesse sentido, acredito que até mesmo os frangos, figurinha carimbada nos abatedouros, poderiam participar dessa classificação, dependendo da relação desses com um eventual dono. Duvida? Então acompanhe o relato de uma experiência que tive há um bom tempo atrás, de alguma forma fundamental para que eu me decidisse pelo curso de Medicina Veterinária.
Pré-adolescente, eu estava em uma dessas feiras de animais de estimação que davam um pintinho ou um peixinho dourado como brinde na saída. Naquele dia, talvez devido a uma carência por algo que permitisse um maior contato, preferi levar o pintinho. Mas como era o último dia do evento, e havia um excesso de "brindes" por lá, acabei levando não um, mas nove pintinhos pra casa. Bem, "casa" é um modo de dizer, uma vez que eu morava num típico apartamento classe-média de São Paulo. Minha mãe não deu muita bola pra tudo aquilo, pois sabia que, como em outras ocasiões, aquelas bolinhas amarelas morreriam em questão de dias, uma após a outra, feito peças de dominó que vão caindo umas sobre as outras. Mas não foi bem assim.
Dessa vez, eu estava determinado a criá-los de verdade, fazendo tudo que fosse possível para garantir a sobrevivência deles. Para tanto, o ideal seria encontrar um manual no estilo "De Pintinho a Frango - Dez Dicas Infalíveis Para a Criação em Apartamentos". Na ausência disso, acabei por adaptar aquilo que eu havia pesquisado em algumas revistas sobre a vida no campo que eu tinha em casa, dessas direcionadas para pequenos e médios agricultores. Nelas, descobri que o pintinho precisava basicamente de duas coisas: um abrigo aquecido e boa alimentação. E assim foi. Em uma caixa de papelão, com uma lâmpada sobre eles 24 horas por dia, com ração comprada na casa de aves da esquina, o amarelo-penugem daqueles bichos foi desbotando, dando lugar ao branco das primeiras penas. Cada vez mais franguinhos. Morte mesmo, só no primeiro dia, de dois que já estavam bem fracos, desde lá da feira.
Saudáveis, viraram o xodó da família, recebendo a atenção de todos que iam conferi-los na lavanderia. De maneira alguma eu imaginava o destino final deles numa panela ou dentro de um forno. Isso pra mim seria tão absurdo quanto aquele costume que alguns coreanos têm de comer cachorro. Inadmissível. O meu projeto era criá-los até que ficassem velhinhos, com morte natural seguida por enterro digno e tudo mais. Mas nada disso seria possível naquele espaço do apartamento que, definitivamente, não combinava com sete franguinhos. Sendo assim, depois de três semanas, foram todos morar no quintal da minha avó, onde puderam ciscar à vontade na terra, felizes como alguém que saiu de uma quitinete pra morar numa mansão. Em questão de poucos meses, minha avó ganhou sete novos despertadores, no formato de galinhos.
Apesar de não estarem ao lado de meu prédio, eu ia cuidar deles todos os dias. Coisas da saudade. Adorava observá-los naquela liberdade do quintal, cada qual ciscando ao seu modo. No entanto (ok, chegamos no fatídico "no entanto"), num fim de semana que não tinha ninguém na casa, um ladrão entrou no quintal, levando todos os meus "pets de penas". Doeu bastante a certeza de que eles não seriam encarados como animais de estimação, mas sim meros frangos de abate, alma nenhuma, apenas carne pra matar a fome. Coisas do tal mundo cruel, pode crer.
Nada supriu aquela ausência. Nem mesmo o simpático gatinho siamês que ganhei pouco tempo depois. Adorei o presente, é claro, sendo desses que me faziam voltar correndo pra casa, depois da aula, só pra ficar ao lado do bicho. Mas, mesmo assim, durante muito tempo, senti bastante a falta daqueles galinhos. Definitivamente insubstituíveis, pets ao meu modo.
Ps1: E, finalmente, o Cidadão Vet estréia aqui no Interney Blogs. Pra saber mais sobre o espaço aqui, dê uma olhada em minha singela apresentação e confira também a entrevista que dei para a revista Pet Shop Brasil Business. No mais, dê uma olhadinha nos arquivos daqui e aguarde pelos próximos posts. ![]()
Ps2: Valeu pela imensa ajuda no template, Marmota! (Marmota ajudando num blog sobre animais e veterinária, tudo a ver.
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O mundo nunca foi estático, sobrevivem aqueles que conseguem se adaptar conforme as mudanças. E isso não se aplica somente a nós, seres humanos. Do vírus à baleia, o processo acontece da mesma forma. Falemos dos vírus, organismos que primam por essa facilidade de adaptação. Muitos começam infectando os animais, atingindo, no decorrer do tempo, os humanos. O HIV é um clássico exemplo disso. Em questão de anos, passou do macaco para o ser humano, com conseqüências desastrosas, como bem sabemos.
Nesse mesmo sentido, hoje teme-se pelo vírus da Gripe Aviária que, uma vez adaptado ao homem, poderá provocar um show de horrores no mundo inteiro, pela facilidade de transmissão e a gravidade da doença, freqüentemente fatal. Conseqüências da adaptação, algo que todo ser vivo almeja, pra simplesmente continuar existindo aqui na Terra.
Em relação as doenças infecciosas, o quadro tem ficado cada vez mais preocupante, pela velocidade com que novos microorganismos patogênicos vêm surgindo. Há uma gama de fatores que têm contribuído para isso, sobretudo aqueles que favorecem a migração de agentes infecciosos dos animais para humanos. Nesse sentido, destacamos:
- a globalização, que favorece o trânsito mundial de animais e produtos de origem animal. De carona, podemos ter agentes infecciosos que, em determinadas regiões, podem se adaptar para continuarem ali. Nessa mudança, podem ter seu código genético alterado, vindo a atingir o homem também.
- as mudanças climáticas, que forçam certos animais a mudarem de ambiente. Com isso, novamente, mais uma oportunidade, para demais microrganismos fazerem aquele turismo, patrocinado pelo aquecimento global.
- o desmatamento de áreas florestais, causando igualmente a migração de animais para outras áreas, estreitando o contato com os humanos. Tudo em nome daquele mais novo condomínio "ao lado da natureza" ou então de mais uma enorme área pros boi pastarem.
As conseqüências de tudo isso, no fim das contas, podem chegar até a cidade grande. Mais especificamente, nos postos de saúde e leitos dos hospitais, mais lotados ainda do que já estão.
Adapte-se a isso, se puder.
Pra saber mais:
ONU adverte que propagação de doenças animais representa sério risco: matéria que fala sobre o momento atual, cujas condições vêm favorecendo bastante a disseminação de doenças em locais onde a mesmas não ocorriam.
Brasil corre risco de ter gripe aviária, dizem especialistas: apesar de ser do ano passado, essa matéria ainda pode ser encarada como um alerta, por mencionar a dificuldade de se evitar o acesso de aves migratórias em nosso país, potencialmente infectadas com o H5NI - vírus da Gripe Aviária.
Estudo confirma que HIV surgiu em chimpanzés de Camarões, na África: um clássico, e talvez o maior, exemplo de agente infeccioso presente em animais que, ao se adaptar em humanos, o fez muito bem, infelizmente.

Uma bela parcela da população ainda encara a produção de frangos no Brasil com a mesma desconfiança reservada àqueles homens ultramusculosos: pra aumentar de tamanho em tão pouco tempo, só mesmo com a ajuda de hormônios. Em muitas rodinhas de conversa, dessas onde se dá palpite pra tudo, da escalação ideal da seleção ao provável vencedor do Big Brother, quando o assunto é o frango produzido por aqui, a opinião ainda vigente é curta e grossa: sim, não há a mínima dúvida que aquelas aves crescem rápido por causa do uso de hormônios na alimentação deles. Imagina. Não tem outra explicação.
Tem sim: manejo, seleção genética e nutrição.
Mesmo quando digo isso, na minha posição de médico veterinário que já teve contato com a avicultura industrial, recebo como resposta olhares desconfiados, como se eu estivesse defendendo as boas intenções do programa nuclear iraniano, por exemplo. Existe uma dificuldade de aceitação pra versão real. Afinal é mais fácil acreditar que certos avanços são possíveis apenas se forem adotados métodos inescrupulosos. Basta um toque de mágica, representado pelo hormônio vilão e pronto, temos em 42 dias um frango com o peso ideal para o abate.
Para desfazer essa lenda, informações é o que não faltam. Um simples digitar das palavras "frango" e "hormônio" no Google (a esfíngie do nosso tempo, desde que usada com cautela) já é o suficiente pra encontramos fontes e mais fontes que explicam o absurdo que é a idéia do "frango criado a base de hormônios". Nessas, descobrimos que nenhum criador em sã consciência poderia optar por esse atalho, por razões inúmeras, que vão da inviabilidade econômica do uso de hormônios à impossibilidade desse composto agir de forma eficiente no organismo do frango em 42 dias, tempo médio atual do abate desse.
Pode-se questionar o método atual de criação do frango industrial, baseado num regime intensivo onde procura-se aproveitar ao máximo o potencial genético do mesmo. Algumas associações de defesa dos animais discutem isso, sem apelar para o golpe baixo da fantasia do frango hormonal. Nesses casos, concorde-se ou não, pelo menos o debate fica mais justo. Sem grandes bobagens.
Pra saber mais:
Por que hormônios não são usados na alimentação do frango de corte: artigo escrito pelo Zootecnista Antônio Mário Penz Júnior, da UFRGS.
Trabalho genético explica mito do hormônio do crescimento em aves: matéria da Folha Equilíbrio.
Carne de frango não tem hormônio: comunidade do orkut dedicada ao assunto. Entre uma bobagem e outra, aparece gente lá pra discutir o tema de forma sensata.
Você é o que você come: esse artigo exemplifica bem as bobagens que podemos encontrar pela internet, como nesse trecho: "E o frango é outro vilão. Criado de maneira intensiva, fica confinado e recebe doses enormes de hormônios de crescimento.”
O mito do hormônio da carne de frangos: mais um bom artigo que esclarece a questão. Escrito por Cláudio Bellaver, Médico Veterinário, da Embrapa Aves e Suínos.