Categoria: Crianças

21.08.08

Infância sem bicho, infância incompleta

A meu ver, além dos Direitos Universais da Criança, um elemento não poderia faltar na cesta básica de qualquer pessoa durante a infância: a presença de um animal na vida dela. Salvo raras exceções, é difícil encontrarmos adultos que não se lembrem com carinho daquele bicho que tanto os acompanharam nos primeiros anos de vida. E, pelo que sei, quanto mais boas recordações temos na infância, mais bem resolvidos entramos na vida adulta. Mas, um momento. Não quero pregar aqui que a presença de um pet, por si só, funcione como um antídoto pra solucionar futuras complicações lá na frente. Ninguém recebe melhores condições pra negociar dívidas só pelo fato de ter sido dono do saudoso Rex, por exemplo. No entanto, de alguma forma, certos valores aprendidos no início da vida, por causa da convivência com seus bichos, podem ter um papel significativo na formação do caráter da pessoa. Dentre esses valores, destaco aqui um, que tanta falta sentimos por aí: o senso de responsabilidade.

É muito bonitinho ver a criançada brincar com a bicharada, um correndo atrás do outro pela casa inteira. Concordo. No entanto, a convivência não deve se resumir apenas a isso. Aquele ser engraçadinho, parecidíssimo com o bicho de pelúcia lá da prateleira, não pode ser encarado pela criança como apenas mais um brinquedo que, uma vez usado, volta pro baú. Tampouco como um objeto sujeito ao instinto violento de alguns ditadorzinhos que, sem terem ainda plena consciência de seus atos, acham bacana desferirem eventuais chutes, tapas e apertões no coitado do cachorro ou gato. Dizem que educar uma criança é prepará-la para o mundo. Respeito pelo outro está incluso nesse aprendizado. Se desde o início os pais conseguem transferir esse valor pros seus filhos, convencendo-os a conviverem harmoniosamente com o mascote da casa, creio que uma boa semente foi plantada aí. Compartilhar alegrias e assumir responsabilidades é a base de todo bom relacionamento. Seja lá em qual grau for esse.

Por tudo isso, não basta arranjar um bicho qualquer e jogá-lo nas mãos da criançada, como quem dá um presente comprado por impulso na loja de 1,99 lá da esquina. Há um longo manual de instruções a ser seguido, documento esse que vai sendo revelado no dia-a-dia, que, bem cumprido através de bom senso e aconselhamento constante de um profissional, garantirá futuras alegrias. Conforme a idade das crianças que rodearão esse ser carente de atenção, existirão responsabilidades de vários níveis pra elas, de um simples limpar da sujeira até a fiscalização da carteira de vacinação. E, convenhamos, das várias formas de exercitar o senso de cidadania e humanidade em uma criança, essa, de cuidar bem de um bichinho, seja lá de que espécie e tamanho esse for, é das mais gratificantes.

Enfim, um belo treino de respeito pelo outro, moeda cada vez mais rara nos dias de hoje.

PermalinkEscrito por Cidadão Vet às 12:18:42 Email
Categorias: Comportamento, Crianças, Cães, Gatos, Pets
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08.02.08

Cada qual com seu pet

Quando alguém menciona a palavra "pet" é instantâneo que venha em nossa mente a imagem de um cão ou gato. Ou os dois juntos. Posso apostar um osso que o mesmo acabou de acontecer com você. Viu só? Coisas do senso comum. No entanto, outros animais vêm recebendo a denominação de "pet", mesmo que jamais venham a entrar na sala de nossas casas. O cavalo, por exemplo. Por não ser destinado ao abate, dando margem àquele clássico vínculo afetivo junto ao dono, tem sido cada vez mais comum vê-lo incluso na lista das espécies que caracterizam os "pets". Nesse sentido, acredito que até mesmo os frangos, figurinha carimbada nos abatedouros, poderiam participar dessa classificação, dependendo da relação desses com um eventual dono. Duvida? Então acompanhe o relato de uma experiência que tive há um bom tempo atrás, de alguma forma fundamental para que eu me decidisse pelo curso de Medicina Veterinária.

Pré-adolescente, eu estava em uma dessas feiras de animais de estimação que davam um pintinho ou um peixinho dourado como brinde na saída. Naquele dia, talvez devido a uma carência por algo que permitisse um maior contato, preferi levar o pintinho. Mas como era o último dia do evento, e havia um excesso de "brindes" por lá, acabei levando não um, mas nove pintinhos pra casa. Bem, "casa" é um modo de dizer, uma vez que eu morava num típico apartamento classe-média de São Paulo. Minha mãe não deu muita bola pra tudo aquilo, pois sabia que, como em outras ocasiões, aquelas bolinhas amarelas morreriam em questão de dias, uma após a outra, feito peças de dominó que vão caindo umas sobre as outras. Mas não foi bem assim.

Dessa vez, eu estava determinado a criá-los de verdade, fazendo tudo que fosse possível para garantir a sobrevivência deles. Para tanto, o ideal seria encontrar um manual no estilo "De Pintinho a Frango - Dez Dicas Infalíveis Para a Criação em Apartamentos". Na ausência disso, acabei por adaptar aquilo que eu havia pesquisado em algumas revistas sobre a vida no campo que eu tinha em casa, dessas direcionadas para pequenos e médios agricultores. Nelas, descobri que o pintinho precisava basicamente de duas coisas: um abrigo aquecido e boa alimentação. E assim foi. Em uma caixa de papelão, com uma lâmpada sobre eles 24 horas por dia, com ração comprada na casa de aves da esquina, o amarelo-penugem daqueles bichos foi desbotando, dando lugar ao branco das primeiras penas. Cada vez mais franguinhos. Morte mesmo, só no primeiro dia, de dois que já estavam bem fracos, desde lá da feira.

Saudáveis, viraram o xodó da família, recebendo a atenção de todos que iam conferi-los na lavanderia. De maneira alguma eu imaginava o destino final deles numa panela ou dentro de um forno. Isso pra mim seria tão absurdo quanto aquele costume que alguns coreanos têm de comer cachorro. Inadmissível. O meu projeto era criá-los até que ficassem velhinhos, com morte natural seguida por enterro digno e tudo mais. Mas nada disso seria possível naquele espaço do apartamento que, definitivamente, não combinava com sete franguinhos. Sendo assim, depois de três semanas, foram todos morar no quintal da minha avó, onde puderam ciscar à vontade na terra, felizes como alguém que saiu de uma quitinete pra morar numa mansão. Em questão de poucos meses, minha avó ganhou sete novos despertadores, no formato de galinhos.

Apesar de não estarem ao lado de meu prédio, eu ia cuidar deles todos os dias. Coisas da saudade. Adorava observá-los naquela liberdade do quintal, cada qual ciscando ao seu modo. No entanto (ok, chegamos no fatídico "no entanto"), num fim de semana que não tinha ninguém na casa, um ladrão entrou no quintal, levando todos os meus "pets de penas". Doeu bastante a certeza de que eles não seriam encarados como animais de estimação, mas sim meros frangos de abate, alma nenhuma, apenas carne pra matar a fome. Coisas do tal mundo cruel, pode crer.

Nada supriu aquela ausência. Nem mesmo o simpático gatinho siamês que ganhei pouco tempo depois. Adorei o presente, é claro, sendo desses que me faziam voltar correndo pra casa, depois da aula, só pra ficar ao lado do bicho. Mas, mesmo assim, durante muito tempo, senti bastante a falta daqueles galinhos. Definitivamente insubstituíveis, pets ao meu modo.

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Ps1: E, finalmente, o Cidadão Vet estréia aqui no Interney Blogs. Pra saber mais sobre o espaço aqui, dê uma olhada em minha singela apresentação e confira também a entrevista que dei para a revista Pet Shop Brasil Business. No mais, dê uma olhadinha nos arquivos daqui e aguarde pelos próximos posts. ;)

Ps2: Valeu pela imensa ajuda no template, Marmota! (Marmota ajudando num blog sobre animais e veterinária, tudo a ver. :p)

PermalinkEscrito por Marcelo Hernandes às 12:21:38 Email
Categorias: Animais, Comportamento, Crianças, Pets, Aves
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24.10.07

CRIANÇAS, BICHOS E SADISMO

Não é incomum vermos crianças maltratando animais, sobretudo aquelas mais novas, que ainda estão na fase da descoberta a cada minuto, sem noção do que é certo e do que é errado. Com o tempo, sob a supervisão dos pais e responsáveis, tendem a sensibilizar-se com a dor alheia. Muitas, de modo amplo, da formiga ao elefante. Assim, a crueldade contra animais fica como mais uma breve recordação de infância, no mesmo baú em que estão as fraldas e os chocalhos.

No entanto, algumas continuam crescendo sem compaixão alguma com os bichos. As razões para tamanha frieza podem variar. Por exemplo, pais relapsos que sempre acharam bonitinhas as puxadas de rabo e os chutes que o Júnior dava no coitado do Rex. Sorrisos afetuosos ao invés de reprimendas. Outras vezes, por mais que os pais e responsáveis desaprovem o sadismo, algumas crianças continuam fascinadas com o ato, tornando-o cada vez mais sofisticado. Um vício que, muitas vezes, pode chegar até a vida adulta, tendo como alvo aquele outro integrante do reino animal: o ser humano.

Muitos adultos com personalidade cruel já maltratavam animais de uma maneira peculiar na infância, longe daquele quadro de inocência que ocorre com a maioria das crianças. Não estavam passando por uma fase, mas sim iniciando um padrão de sadismo que iria perdurar pela vida inteira. Muitos psicopatas tiveram como suas primeiras vítimas o cachorro da família ou os gatos da vizinhança. Cobaias no laboratório da tortura.

Não pretendo estabelecer aqui uma relação simplória de causa e efeito, como se houvesse uma fómula 100% eficaz de detectar futuros Jacks Estripadores, bem como covardes que espancam crianças, mulheres, idosos etc. Mas, em todo caso, não custa nada prevenir, orientando aquela criança que depende de você, adulto - estou certo? -, pra enxergar o mundo de maneira mais sensata. Maus-tratos em animais, apenas nos de pelúcia. E olhe lá.

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Já que estamos falando sobre isso:

O Cérebro do Psicopata: matéria da revista Mente e Cérebro que, dentre outros fatores comportamentais, menciona a tortura de animais como um dos sinais que muitos psicopatas exibiram na infância.

Violência Mimética, Adultos, Crianças e Animais: artigo de Sônia T. Felipe sobre o abuso de animais por crianças e suas possíveis conseqüências.

Violência Doméstica e Violência contra Animais. Qual a Ligação? - artigo de Rita de Cássia Garcia, no site da ONG Viva Bicho. Em um lar, adultos que espancam animais provavelmente estarão fazendo o mesmo com suas crianças.

Vídeo educativo desastroso: nesse quadro de um programa infantil palestino, a intenção é nobre, de orientar as crianças a não maltratarem animais. No entanto, isso foi demonstrado através de um mau gosto impressionante (legendas em inglês).

PermalinkEscrito por Marcelo Hernandes às 18:01:31 Email
Categorias: Animais, Comportamento, Crianças, Direito dos Animais, Pets
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