
Para muitos profissionais e instituições da área, o aumento desordenado dos cursos de Medicina Veterinária em nosso país - processo que começou a partir do início da década de 90 - tem lá as suas vantagens:
- aumento significativo da oferta de empregos para quem fez mestrado e/ou doutorado. Afinal, faculdades, além de tijolos, alunos e carnês, são feitas de professores também, concorda?
- geração de mais rendimentos para as empresas que vendem produtos e serviços para médicos veterinários e estudantes. Afinal, pras mesmas, quanto mais consumidores em potencial por aí, melhor. Ou seja, mais gente comprando livros especializados, participando de eventos, palestras etc.
- maior arrecadação para os conselhos e associações de Medicina Veterinária, por causa do óbvio aumento de profissionais inscritos nos mesmos.
Mas, temos também uma enorme - e óbvia - desvantagem:
- maior possibilidade de encontrarmos veterinários desempregados por aí. Ok, tudo bem, as oportunidades podem ter aumentado nos últimos tempos. Mas não a ponto de acompanhar o contigente de veterinários que se forma a cada ano, absurdamente maior se compararmos pouco antes do início da década de 90, quando iniciou-se a festa da abertura dos cursos de veterinária em nosso país.
Para escapar desse último ítem, a saída mais comum é investir em alguma forma de especialização. Mesmo assim, por conta do número cada vez maior de veterinários que se formam a cada ano, tem crescido também a quantidade de especialistas em uma mesma área. E assim, o profissional se vê obrigado a se diferenciar cada vez do restante, especializando-se dentro da... sua especialidade. Nesse ritmo, não estranhe se, dentro de alguns anos, você vir a conhecer um veterinário especializado em dermatologia de poodles toys idosos, por exemplo.
Por conta de tudo isso, a busca pelos concursos para veterinários tem sido cada vez mais comum. Tanto por aquele profissional cansado de investir em alguma especialidade, sem jamais ter visto um retorno financeiro satisfatório com isso, quanto pelo recém-formado que não quer saber de maiores dores de cabeça pra sobreviver decentemente, entre estudos e bicos nas várias clínicas veterinárias de sua cidade.
Para quem, no curto prazo, busca por estabilidade financeira, um emprego concursado continua sendo uma alternativa razoável, pra não dizer a única, nesse mercado cada vez mais competitivo. Bem o problema é que, por conta de tudo que falamos aqui, a relação candidato/vaga tem sido cada vez maior, ano após ano. E, cá entre nós, os salários oferecidos, na maior parte dos casos, não são lá grande coisa.
Como se vê, a exemplo de tantas outras profissões, o vestibular na veterinária não termina, nunca. E, como sempre, quem for bom se destaca, seja lá como for, ainda que isso seja um bocado mais difícil hoje em dia...
Coloquei na coluna aqui ao lado um link com os concursos em andamento para Médicos Veterinários, de acordo com a região. A quem interessar, boa sorte.

Pra quem não está familiarizado com o termo, vivissecção é o ato de dissecar animais vivos para fins de estudo, seja para o treinamento de práticas cirúrgicas, seja para pesquisas. O destino desses, na grande maioria dos casos, é o sacrifício. Durante muito tempo, esse recurso foi considerado mais do que necessário e inevitável nos locais em que era rotina. Afinal, defendiam quase sem contestação, nada melhor como um animal descartável para servir de modelo a várias situações que, usadas em humanos ou em animais de grande valor econômico ou afetivo, seriam de altíssimo risco. Aquele bicho do laboratório? Estava ali pra aquilo mesmo: servir à ciência, doando a vida, como se fosse um suicida inconsciente.
Quem fez faculdade na área de biológicas sabe do que estou falando. Ainda mais no meu curso, Medicina Veterinária, que requer a assimilação de conceitos básicos da biologia, muitas vezes demonstrados em aulas práticas com a participação de cobaias que terminavam no cesto do lixo. Além dos animais de laboratório, presenciei o sacrifício de alguns cães de rua, depois que os mesmos eram usados como objeto de treino em aulas de técnica cirúrgica. Nessas aulas, os mesmos cães poderiam ser adotados, mas só depois de feita a cirurgia-treino. Afinal, a aula prática tinha que acontecer. Isso foi há mais de dez anos, não tenho idéia se o método de ensino continua exatamente o mesmo.
Creio que a vivissecção possa deixar de ser a única metodologia disponível nessas aulas. "Como assim?", diriam alguns. "Como é que um futuro médico veterinário vai conseguir adquirir prática em cirurgia então?". De várias formas, as alternativas estão aí. Não quero defender aqui uma ética panfletária, dessas de fazer escândalo nas portas dos centros de pesquisa. Nada disso. À primeira vista, certos hábitos existem como se fossem a verdade única e incontestável. Mas, como em quase tudo nessa vida, com disposição e boa vontade surgem alternativas pra substituir certos métodos, produzindo o mesmo resultado anteriormente obtido. No caso aqui, sem o sacrifício inútil de animais.
Um exemplo bem simples. A intenção é ensinar o aluno a fazer uma castração numa cadela? Que o mesmo aprenda através de estágios, que pode ocorrer no próprio hospital veterinário da faculdade. Ou então, nas inúmeras clínicas veterinárias que existem por aí. A cada cirurgia, feita por um profissional experiente, o aluno vai adquirindo liberdade de intervenção, até chegar no estágio em que o mesmo toma pra si a responsabilidade total do procedimento. Sem necessidade de descartar aquele bicho, que tem um dono esperando na sala ao lado. Adquiri prática nessa cirurgia desse modo, não por causa daquela aula de técnica cirúrgica, onde uma cadela de rua foi sacrificada no fim. A meu ver, nada como o bom e velho estágio, bem supervisionado, pro aluno aprender de fato. O resto, sacrifício desnecessário.
Sacrifício reduzido: matéria da Fapesp sobre alternativas ao sacrifício de animais no curso de Medicina Veterinária.
Aulas Práticas sem Animais: outra matéria da Fapesp, sobre um trabalho publicado que compara o desempenho de alunos de medicina que tiveram aulas práticas com animais com outros que tiveram o mesmo rendimento no aprendizado sem vivissecção.
Animais em aulas práticas: podemos substituí-los com a mesma qualidade de ensino?: o trabalho do link anterior, na íntegra.
Vidas em alta: matéria que relata o uso de vídeo-aula em algumas disciplinas práticas FMZV (USP), poupando cobaias de sacrifício.
Uso de animais como cobaias, ainda é necessário, dizem os cientistas: matéria da Folha Ciência e Saúde sobre o tema, aproveitando a discussão sobre o Prêmio Nobel 2007 de Medicina.
Interniche Brasil: site de uma associação brasileira que promove alternativas ao uso de animais na educação. Atualidades sobre o tema.
Pro-Test: site de uma associação inglesa que defende a vivissecção como algo fundamental para o avanço da medicina. O outro lado da polêmica.
Ainda Insubstituíveis: entrevista que a Agência Fapesp fez com o veterinário Carlos Muller, pesquisador da Fiocruz, na qual ele defende o uso da vivissecção na pesquisa.
Legislação para Estudo de Animais: matéria que fala sobre a ausência de uma legislação federal consistente, que regulamente a utilização de animais em experimentações científicas.
Morte Desnecessária: entrevista com o veterinário americano Nedim Buyukmihci, presidente da AVAR, que defende o uso racional de animais em laboratórios e salas de aula.
Notícia de um estudante de biologia que se recusa a participar das aulas que envolvem sacrifício de cobaias.
UFRRS deixa de usar animais para treinar estudantes de medicina: matéria da Folha Online - Educação.