
Em boa parte dos municípios do estado de São Paulo, a coisa funcionava assim: depois de 3 dias no canil público, caso não fossem resgatados pelos donos ou adotados por alguma alma caridosa, os cães e gatos recolhidos das ruas eram sacrificados, seja lá em que condições esses estivessem. Agora, segundo uma lei sancionada pelo governador José Serra na semana passada, as coisas mudaram. Sacrifício mesmo, somente quando o animal estiver em alguma das seguintes situações:
- ser portador de doença grave ou infecto-contagiosa incurável que coloque em risco a vida da população.
- tiver histórico de mordeduras em pessoas. Nesses casos, a eutanásia ocorrerá no caso de ninguém o adotar depois de 90 dias de permanência no canil público.
Quanto aos cães e gatos saudáveis, a única injeção usada será a de anestesia, para a cirurgia de castração.
Algumas prováveis conseqüências dessa lei:
- maior contratação de veterinários pelos órgão oficiais: o raciocínio aqui é simples. Menos animais sacrificados nos canis públicos = Maior número de cães e gatos que aguardarão pela adoção = Necessidade maior de profissionais qualificados para o cuidado desses.
- intensificação das campanhas de adoção de cães e gatos: quanto mais animais adotados, menos gastos para as prefeituras com ração, espaço, cuidados veterinários etc. Óbvio, não?
- maior discussão a respeito da posse responsável: cães e gatos, em 99,9% dos casos, alcançam as ruas por causa da irresponsabilidade de seus donos. Se a pessoa não tem condições de manter um animal, paciência, que não o tenha. Simples assim.
No mais, sorte dos bichos paulistas.
Lei nº 12.916, de 16 de abril de 2008: texto original da lei mencionada no texto aqui.

Pra quem não está familiarizado com o termo, vivissecção é o ato de dissecar animais vivos para fins de estudo, seja para o treinamento de práticas cirúrgicas, seja para pesquisas. O destino desses, na grande maioria dos casos, é o sacrifício. Durante muito tempo, esse recurso foi considerado mais do que necessário e inevitável nos locais em que era rotina. Afinal, defendiam quase sem contestação, nada melhor como um animal descartável para servir de modelo a várias situações que, usadas em humanos ou em animais de grande valor econômico ou afetivo, seriam de altíssimo risco. Aquele bicho do laboratório? Estava ali pra aquilo mesmo: servir à ciência, doando a vida, como se fosse um suicida inconsciente.
Quem fez faculdade na área de biológicas sabe do que estou falando. Ainda mais no meu curso, Medicina Veterinária, que requer a assimilação de conceitos básicos da biologia, muitas vezes demonstrados em aulas práticas com a participação de cobaias que terminavam no cesto do lixo. Além dos animais de laboratório, presenciei o sacrifício de alguns cães de rua, depois que os mesmos eram usados como objeto de treino em aulas de técnica cirúrgica. Nessas aulas, os mesmos cães poderiam ser adotados, mas só depois de feita a cirurgia-treino. Afinal, a aula prática tinha que acontecer. Isso foi há mais de dez anos, não tenho idéia se o método de ensino continua exatamente o mesmo.
Creio que a vivissecção possa deixar de ser a única metodologia disponível nessas aulas. "Como assim?", diriam alguns. "Como é que um futuro médico veterinário vai conseguir adquirir prática em cirurgia então?". De várias formas, as alternativas estão aí. Não quero defender aqui uma ética panfletária, dessas de fazer escândalo nas portas dos centros de pesquisa. Nada disso. À primeira vista, certos hábitos existem como se fossem a verdade única e incontestável. Mas, como em quase tudo nessa vida, com disposição e boa vontade surgem alternativas pra substituir certos métodos, produzindo o mesmo resultado anteriormente obtido. No caso aqui, sem o sacrifício inútil de animais.
Um exemplo bem simples. A intenção é ensinar o aluno a fazer uma castração numa cadela? Que o mesmo aprenda através de estágios, que pode ocorrer no próprio hospital veterinário da faculdade. Ou então, nas inúmeras clínicas veterinárias que existem por aí. A cada cirurgia, feita por um profissional experiente, o aluno vai adquirindo liberdade de intervenção, até chegar no estágio em que o mesmo toma pra si a responsabilidade total do procedimento. Sem necessidade de descartar aquele bicho, que tem um dono esperando na sala ao lado. Adquiri prática nessa cirurgia desse modo, não por causa daquela aula de técnica cirúrgica, onde uma cadela de rua foi sacrificada no fim. A meu ver, nada como o bom e velho estágio, bem supervisionado, pro aluno aprender de fato. O resto, sacrifício desnecessário.
Sacrifício reduzido: matéria da Fapesp sobre alternativas ao sacrifício de animais no curso de Medicina Veterinária.
Aulas Práticas sem Animais: outra matéria da Fapesp, sobre um trabalho publicado que compara o desempenho de alunos de medicina que tiveram aulas práticas com animais com outros que tiveram o mesmo rendimento no aprendizado sem vivissecção.
Animais em aulas práticas: podemos substituí-los com a mesma qualidade de ensino?: o trabalho do link anterior, na íntegra.
Vidas em alta: matéria que relata o uso de vídeo-aula em algumas disciplinas práticas FMZV (USP), poupando cobaias de sacrifício.
Uso de animais como cobaias, ainda é necessário, dizem os cientistas: matéria da Folha Ciência e Saúde sobre o tema, aproveitando a discussão sobre o Prêmio Nobel 2007 de Medicina.
Interniche Brasil: site de uma associação brasileira que promove alternativas ao uso de animais na educação. Atualidades sobre o tema.
Pro-Test: site de uma associação inglesa que defende a vivissecção como algo fundamental para o avanço da medicina. O outro lado da polêmica.
Ainda Insubstituíveis: entrevista que a Agência Fapesp fez com o veterinário Carlos Muller, pesquisador da Fiocruz, na qual ele defende o uso da vivissecção na pesquisa.
Legislação para Estudo de Animais: matéria que fala sobre a ausência de uma legislação federal consistente, que regulamente a utilização de animais em experimentações científicas.
Morte Desnecessária: entrevista com o veterinário americano Nedim Buyukmihci, presidente da AVAR, que defende o uso racional de animais em laboratórios e salas de aula.
Notícia de um estudante de biologia que se recusa a participar das aulas que envolvem sacrifício de cobaias.
UFRRS deixa de usar animais para treinar estudantes de medicina: matéria da Folha Online - Educação.

Qualquer estímulo que provoque o interesse da leitura em uma criança é válido. Estímulo positivo, é claro. Não adianta ameaçá-la com o fogo do inferno de Herodes pra que ela leia algo, de forma que melhorem aquelas notas em Língua Portuguesa. Quem assim age, provavelmente estará gerando mais um desses adultos que farão uma expressão de nojo pra todo e qualquer livro, por toda a vida. Quanto mais agradável forem as primeiras leituras, melhor, futuros leitores à vista. Pensando nisso tudo, existe nos EUA uma associação que procura incentivar a leitura das crianças com o auxílio de cães.
Não, um cachorro feroz não fica rosnando pra criança enquanto a mesma não chega até a última página de um determinado livro. Muito pelo contrário. No projeto da R.E.A.D. (Reading Education Assistance Dogs), presente em livrarias, bibliotecas e escolas, a criança lê para um cão mais do que amistoso, que não sairá do lado dela, ouvindo-a pacientemente até o ponto final. Dessa forma, ela vai ganhando confiança para continuar a leitura, ao perceber que aquele bicho especial está ali, prestando atenção em tudo que ela diz, por mais incompreensível que aquelas palavras sejam pra ele. Cumplicidade.
Alguém pode alegar que os pais podem servir melhor ainda como interlocutores, pela maior interatividade possível. Para quê recorrer a um cachorro então? Sei lá, talvez seja o caso de perguntar isso pra crianças como a menininha do vídeo abaixo: