Categoria: Ecologia

25.04.08

Carne In Vitro

Imagine você em um futuro não muito distante, entrando na seção de carnes de um supermercado qualquer. Dentre as opções disponíveis, você acaba levando 500 gramas de uma genuína picanha, produzida pelo laboratório "New Age Meat Solutions Inc". No caixa, enquanto seus dedos alisam aquele pacote de carne, vem um pensamento na sua cabeça, imaginando o absurdo que era antigamente, quando existiam açougues, aqueles locais onde, veja só, os animais eram mortos.

Idéia meio viajante, não? Pois bem, pra PETA, uma conhecida organização de defesa dos animais, nem tanto.

Tendo como base os últimos avanços da biotecnologia, vide os representados pelas células-tronco, a PETA anunciou nessa semana um concurso que premiará em um milhão de dólares o primeiro cientista que conseguir, até 2012, produzir em laboratório uma carne de frango que seja comercialmente viável, tanto na qualidade quanto na quantidade. Isso mesmo, carne in vitro. A idéia aqui é estimular o desenvolvimento de uma espécie de carne do século 21, que não envolva o abate de animal algum para que se alcance os pratos.

Além de poupar a vida de bois, porcos, frangos etc, o domínio dessa nova tecnologia traria também benefícios ecológicos ao provocar, teoricamente, o fim das criações de animais para abate, responsáveis, segundo alguns estudos, por boa parte da poluição em nosso planeta. Consideram-se também as vantagens para a saúde pública, onde esse novo produto seria mais seguro em comparação com as carnes geradas pelos meios mais "tradicionais", onde são maiores as condições para o surgimento de inúmeras doenças infecto-contagiosas.

Mesmo assim, segundo reportagem do jornal The New York Times, muitos ativistas não apóiam a idéia da carne in vitro, pois, segundo eles, essa continuaria sendo um alimento capaz de causar doenças cardíacas, diabetes, obesidade e alguns tipos de câncer. O sabor de uma carne suculenta, mesmo que vinda do laboratório, não compensaria as perdas na saúde, alegam.

Mas seria a carne in vitro uma piração saída da mente de vegetarianos que comeram brócolis alucinógenos? De modo algum. De fato, existem centros de pesquisa dedicados a tornar isso uma realidade do dia-a-dia. Um deles fica na Holanda, na Universidade de Utrecht, de onde o professor Bernard Roelen, um dos cientistas envolvidos no tema, avisa: mesmo com grandes investimentos, é praticamente impossível que a meta proposta pela PETA seja atingida antes de 2012.

Bem, se um dia criarem uma picanha in vitro tão saborosa quanto a original, maravilha, serei um dos que deixarão definitivamente de lado aquela outra, gerada pelo boi. Quem sabe em algum churrasco de 2030. Agora, deve ter por aí um povo que não está simpatizando nem um pouco com essa possibilidade, como aquele representado pela ABCZ que, definitivamente, não veria graça alguma em manter o boi apenas como animal de companhia...

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E por falar nisso...


New Harvest
: site de uma organização sem fins lucrativos, dedicada a promover o debate a respeito de alternativas para a carne convencional. Dentre essas, o desenvolvimento da carne in vitro.

06.03.08

Sem espingardas

guepardo

Quando um rebanho começa a virar o prato principal do cardápio de algum animal selvagem, os fazendeiros, em sua grande maioria, costumam agir de maneira bem simples: matam o predador. Ponto final. E que venha o próximo, dizem, com uma espingarda nas mãos. Mas, pensando bem, o coitado do bicho só está seguindo seu instinto, que é o de se alimentar ao caçar presas que estejam ao seu alcance. Mas, pensando bem, o fazendeiro está seguindo o instinto dele também, que é o de ganhar dinheiro, procurando minimizar eventuais prejuízos. Dessa forma, como resolver essa questão, sem que sangue algum seja derramado, tanto do predador quanto do rebanho?

Na Namíbia, país africano onde guepardos são considerados como uma das principais ameaças ao gado, a associação conservacionista The Cheetah Conservation Fund iniciou uma campanha que propõe a seguinte solução, simples e inteligente, para o fim desse impasse: o uso de cães de pastoreio. Nessa, os fazendeiros são estimulados a adotarem cães da raça "Pastor da Anatólia", conhecidos pela eficiência com a qual defendem seus rebanhos. Dessa forma, através de latidos ameaçadores, funcionam como uma cerca viva, mantendo os assustados guepardos afastados da área. Nada de bala nesses bichos, que atualmente vivem o drama de constarem na lista de espécies ameaçadas pela extinção.

Bem, resta agora esperar para que a idéia dê realmente certo, inspirando outras iniciativas semelhantes ao redor do mundo. As onças daqui, por exemplo, agradeceriam.

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Pra saber mais:


Lista Mundial da Fauna Ameaçada
: organizada pela CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Silvestres em Risco de Extinção), nessa encontramos o guepardo, presente no Anexo I com o seu nome científico - Acinonyx jubatus.

Cães de Pastoreio - Evolução e Técnica: artigo do criador e adestrador de cães Wagner Ávila para o site Dog Times.

Está Sobrando Onça: reportagem feita em setembro de 2000, sobre a caça ilegal de onças por fazendeiros no Pantanal, incomodados com o ataque dessas sobre seus rebanhos. Alguém sabe como está a situação atual por lá?

Vídeo - Guepardo
: trecho de um documentário produzido pelo Discovery Channel, mostra um pouco da vida desse animal.

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29.02.08

Zoonazismo

zoonazismo

Existem aquelas pessoas que, por uma ética particular, não consomem nada que seja de origem animal. São os adeptos da cultura vegan, onde temos o ex-Beatle Paul McCartney como um dos exemplos mais célebres. A maioria, sempre quando pode, faz questão de declarar essa opção publicamente, em voz alta, argumentando que animal algum merece sofrer para servir ao homem. Ao defenderem seus pontos de vista, muitos acabam atraindo novos adeptos para a causa. Até aí, normal. No entanto, para outros, não basta o discurso apenas. Concluem que é preciso partir para a ação, uma vez que animal algum consegue se defender diante da vontade humana. Ao combate então.

Aqui no Brasil, um exemplo clássico foi a série de ataques que a novelista Glória Perez sofreu quando a mesma anunciou, no início de 2005, que faria uma novela - América - cujo protagonista seria um peão de rodeio. Furiosos com a opção de Glória, ativistas da causa animal mais exaltados iniciaram uma campanha contra ela, ao colocarem milhares de mensagens ofensivas na página de recados do orkut da novelista. No ápice da agressividade, alguns resolveram postar fotos do cadáver esfaqueado de Daniela Perez, acompanhadas de mensagens grotescas como: "Veja sua filha furada!", "A Dani, nesta foto, parece uma vaca morta depois de um rodeio!". Haja comprometimento com a causa, não?

Foi um caso emblemático, que mostrou como funciona parte da filosofia desse grupo. Pra eles, a importância de um boi abatido é a mesma de uma pessoa assassinada, seja ela quem for. Aliás, entre os adeptos desse pensamento, um animal jamais é abatido, mas sim "assassinado". E quem de alguma forma faz parte do processo de exploração dos animais, das criações a certos institutos de pesquisa, é um inimigo a ser combatido. Nos EUA, existem grupos que chegam a empregar táticas de guerrilha contra pesquisadores que usam animais em seus experimentos, como a explosão de bombas nas residências dos mesmos. Um terrorismo que, na visão de seus praticantes, é legitimado pela necessidade de defender vidas inocentes, trancafiadas em gaiolas dos laboratórios e biotérios.

No ano passado, o jornalista Hélio Pimentel escreveu um livro que procurou rebater muitas das idéias e métodos empregados por esse tipo de ativismo. Trata-se de "Zoonazismo: Quando os Defensores Atacam", disponível para download, no formato de pdf, gratuitamente. A obra serve como contraponto para a atitude apática de grande parte da imprensa diante desse tema, como se não quisessem comprar briga pelo receio das já clássicas retaliações desses grupos, que não toleram pensamentos contrários aos mesmos. Enfim, os "zoonazistas", termo cunhado por Hélio Pimentel, que distinguiu eles dos vegans da seguinte maneira:

"O vegano discursa contra o churrasco. O zoonazista bota fogo no açougue."

Se o assunto lhe interessa, independente do lado que você estiver, recomendo a leitura de "Zoonazismo". Afinal, é sempre interessante conhecer outros pontos de vista, concorda?

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E por falar nisso:

Pelo Fim do Holocausto Animal - blog de um grupo dedicado a promover campanhas contra a crueldade em animais. Trecho da apresentação, no site do mesmo: "É um grupo formado por pessoas que têm a mesma ideologia: os animais não nos pertencem. Portanto, assim como ocorria com os escravos, há três séculos, os membros deste grupo lutam pelo fim da escravidão animal."

Pea - entidade ambiental que tem como missão "mudar o cruel tratamento que os animais e o ambiente recebem nos dias de hoje".

Instituto Nina Rosa - segundo consta no site desse, "é uma organização independente, sem fins lucrativos, que desde 2000 promove conhecimento sobre defesa animal, consumo sem crueldade e vegetarianismo por meio da educação humanitária."

A Carne é Fraca - documentário produzido pelo Instituto Nina Rosa, que, em tom de denúncia, defende a abolição do consumo de carne.

The PETA Files - blog da associação mais atuante no exterior no ativismo pelos direitos dos animais. (em inglês)

Entrevista com Peter Singer - filósofo, autor do livro Libertação Animal, uma das principais obras de referência entre alguns adeptos mais radicais da causa animal.

PermalinkEscrito por Marcelo Hernandes às 01:25:09 Email
Categorias: Animais, Comportamento, Direito dos Animais, Ecologia, Veganismo
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05.12.07

Knut

Se você esteve aqui na Terra nos últimos doze meses, deve se lembrar do ursinho polar Knut, que completa um ano hoje. Nascido no zoológico de Berlim, ele teve um começo de vida conturbado. Primeiro, recém-nascido, foi rejeitado pela mãe, junto com um irmão que veio a morrer logo em seguida. Depois, adotado pelos veterinários do zoológico, Knut foi alvo de uma campanha liderada por Frank Albrecht, um ativista dos direitos dos animais, que defendia uma alternativa radical para solucionar o problema daquele ursinho: o sacrifício.

Segundo Albrecht, Knut ficaria dependente demais dos seres humanos, o que acarretaria em problemas de comportamento por toda vida. No entanto, essa campanha obteve o efeito contrário, sensibilizando a população para a causa daquele bicho indefeso, que, por sua vez, encontrou os ingredientes perfeitos que o deixaram nos holofotes da mídia: era branquinho, fofinho, órfão e estavam querendo a cabeça dele.

E como não poderia deixar de ser, como cabe a toda celebridade em alta, a imagem de Knut, - irresistível para quem gosta de animais, sobretudo os fofinhos e branquinhos - foi muito bem capitalizada. O zoológico de Berlim ganhou maior projeção mundial, alcançando recordes de visitação, podendo dessa forma ter a sua história dividida em AK (Antes de Knut) e DK (Depois de Knut).

Mais do que um mero urso polar, Knut virou uma marca, devidamente registrada pela administração do zoológico, possibilitando a criação de produtos que vão do tradicional chaveirinho a ringtones inspirados nos sons emitidos pelo ursinho popstar. Nesse contexto, onde todo mundo procura aproveitar um pouquinho daquela luz dos holofotes, fizeram até músicas em homenagem a ele.

Mas hoje, ao completar um ano, Knut já não é mais tão fofinho assim. Nem branquinho. Agora, ele é um urso polar em plena adolescência, com mais de 100 quilos, dono de uma pelagem que escureceu um bocado nessa nova fase. Ele também já não interage diretamente com seus tratadores, como ocorria no começo, pelo risco de ataques.

Mesmo assim, até por causa da simpatia provocada por ele nesses últimos meses, o bicho continua com a popularidade em alta, o que pode ser percebido nas visitas diárias ao seu recinto, ainda tão disputadas quanto na época em que ele tinha aquele jeitão de ursinho de pelúcia. E nesses tempos onde o aquecimento global virou tema obrigatório das rodas de conversa pelo mundo todo, não é de se espantar que Knut tenha se tornado uma espécie de mascote do tema, uma vez que os ursos polares são freqüentemente citados como uma das maiores vítimas do degelo do Ártico.

Com ou sem aquecimento global, é fato que Knut será gradativamente esquecido pela mídia, tornando-se uma espécie de ex-celebridade mirim do mundo animal. Tudo bem, afinal isso nunca fez sentido algum pra ele mesmo, que está mais preocupado em seguir os seus instintos básicos, sobrevivendo com mais garantias do que os seus sofridos primos lá do Ártico.

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E por falar nisso:

Cute Knut and Friends (em inglês): blog criado para acompanhar os passos do ursinho popstar. As atualizações não acontecem há alguns meses já. Será que é pelo fato do bicho ter crescido?

Urso Polar - Informações: conheça um pouco mais sobre esse animais, nesse artigo do site Saúde Animal, assinado por Lúcia Helena Salvetti de Cicco.

Polar Bear International (em inglês): site de uma associação dedicada a proteger os ursos polares. Boa fonte de dados, informações e atualizações sobre a espécie.

PermalinkEscrito por Marcelo Hernandes às 22:20:40 Email
Categorias: Animais, Direito dos Animais, Ecologia, Mídia, Animais Selvagens
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31.10.07

ADAPTAÇÃO E ZOONOSES

O mundo nunca foi estático, sobrevivem aqueles que conseguem se adaptar conforme as mudanças. E isso não se aplica somente a nós, seres humanos. Do vírus à baleia, o processo acontece da mesma forma. Falemos dos vírus, organismos que primam por essa facilidade de adaptação. Muitos começam infectando os animais, atingindo, no decorrer do tempo, os humanos. O HIV é um clássico exemplo disso. Em questão de anos, passou do macaco para o ser humano, com conseqüências desastrosas, como bem sabemos.

Nesse mesmo sentido, hoje teme-se pelo vírus da Gripe Aviária que, uma vez adaptado ao homem, poderá provocar um show de horrores no mundo inteiro, pela facilidade de transmissão e a gravidade da doença, freqüentemente fatal. Conseqüências da adaptação, algo que todo ser vivo almeja, pra simplesmente continuar existindo aqui na Terra.

Em relação as doenças infecciosas, o quadro tem ficado cada vez mais preocupante, pela velocidade com que novos microorganismos patogênicos vêm surgindo. Há uma gama de fatores que têm contribuído para isso, sobretudo aqueles que favorecem a migração de agentes infecciosos dos animais para humanos. Nesse sentido, destacamos:

- a globalização, que favorece o trânsito mundial de animais e produtos de origem animal. De carona, podemos ter agentes infecciosos que, em determinadas regiões, podem se adaptar para continuarem ali. Nessa mudança, podem ter seu código genético alterado, vindo a atingir o homem também.

- as mudanças climáticas, que forçam certos animais a mudarem de ambiente. Com isso, novamente, mais uma oportunidade, para demais microrganismos fazerem aquele turismo, patrocinado pelo aquecimento global.

- o desmatamento de áreas florestais, causando igualmente a migração de animais para outras áreas, estreitando o contato com os humanos. Tudo em nome daquele mais novo condomínio "ao lado da natureza" ou então de mais uma enorme área pros boi pastarem.

As conseqüências de tudo isso, no fim das contas, podem chegar até a cidade grande. Mais especificamente, nos postos de saúde e leitos dos hospitais, mais lotados ainda do que já estão.

Adapte-se a isso, se puder.

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Pra saber mais:

ONU adverte que propagação de doenças animais representa sério risco: matéria que fala sobre o momento atual, cujas condições vêm favorecendo bastante a disseminação de doenças em locais onde a mesmas não ocorriam.

Brasil corre risco de ter gripe aviária, dizem especialistas: apesar de ser do ano passado, essa matéria ainda pode ser encarada como um alerta, por mencionar a dificuldade de se evitar o acesso de aves migratórias em nosso país, potencialmente infectadas com o H5NI - vírus da Gripe Aviária.

Estudo confirma que HIV surgiu em chimpanzés de Camarões, na África: um clássico, e talvez o maior, exemplo de agente infeccioso presente em animais que, ao se adaptar em humanos, o fez muito bem, infelizmente.

PermalinkEscrito por Marcelo Hernandes às 18:09:15 Email
Categorias: Animais, Saúde, Ecologia, Zoonose, Aves
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