
Uma bela parcela da população ainda encara a produção de frangos no Brasil com a mesma desconfiança reservada àqueles homens ultramusculosos: pra aumentar de tamanho em tão pouco tempo, só mesmo com a ajuda de hormônios. Em muitas rodinhas de conversa, dessas onde se dá palpite pra tudo, da escalação ideal da seleção ao provável vencedor do Big Brother, quando o assunto é o frango produzido por aqui, a opinião ainda vigente é curta e grossa: sim, não há a mínima dúvida que aquelas aves crescem rápido por causa do uso de hormônios na alimentação deles. Imagina. Não tem outra explicação.
Tem sim: manejo, seleção genética e nutrição.
Mesmo quando digo isso, na minha posição de médico veterinário que já teve contato com a avicultura industrial, recebo como resposta olhares desconfiados, como se eu estivesse defendendo as boas intenções do programa nuclear iraniano, por exemplo. Existe uma dificuldade de aceitação pra versão real. Afinal é mais fácil acreditar que certos avanços são possíveis apenas se forem adotados métodos inescrupulosos. Basta um toque de mágica, representado pelo hormônio vilão e pronto, temos em 42 dias um frango com o peso ideal para o abate.
Para desfazer essa lenda, informações é o que não faltam. Um simples digitar das palavras "frango" e "hormônio" no Google (a esfíngie do nosso tempo, desde que usada com cautela) já é o suficiente pra encontramos fontes e mais fontes que explicam o absurdo que é a idéia do "frango criado a base de hormônios". Nessas, descobrimos que nenhum criador em sã consciência poderia optar por esse atalho, por razões inúmeras, que vão da inviabilidade econômica do uso de hormônios à impossibilidade desse composto agir de forma eficiente no organismo do frango em 42 dias, tempo médio atual do abate desse.
Pode-se questionar o método atual de criação do frango industrial, baseado num regime intensivo onde procura-se aproveitar ao máximo o potencial genético do mesmo. Algumas associações de defesa dos animais discutem isso, sem apelar para o golpe baixo da fantasia do frango hormonal. Nesses casos, concorde-se ou não, pelo menos o debate fica mais justo. Sem grandes bobagens.
Pra saber mais:
Por que hormônios não são usados na alimentação do frango de corte: artigo escrito pelo Zootecnista Antônio Mário Penz Júnior, da UFRGS.
Trabalho genético explica mito do hormônio do crescimento em aves: matéria da Folha Equilíbrio.
Carne de frango não tem hormônio: comunidade do orkut dedicada ao assunto. Entre uma bobagem e outra, aparece gente lá pra discutir o tema de forma sensata.
Você é o que você come: esse artigo exemplifica bem as bobagens que podemos encontrar pela internet, como nesse trecho: "E o frango é outro vilão. Criado de maneira intensiva, fica confinado e recebe doses enormes de hormônios de crescimento.”
O mito do hormônio da carne de frangos: mais um bom artigo que esclarece a questão. Escrito por Cláudio Bellaver, Médico Veterinário, da Embrapa Aves e Suínos.
Posts similares:
Transgênicos NÃO!
Suínos versus porcos
Vc conhece o que come?
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Re: olá, Sandro. Pelo jeito, vc não leu o que escrevi, acertei?
Re: Olá, Fernando. Esse texto foi escrito mais para esclarecer, de forma superficial, esse mito. Para informações mais aprofundadas, sugiro que vc tente entrar em contato com os profissionais e autores citados em cada um dos links que recomendei.
Este post tem 4 comentários aguardando aprovação...