
Ontem, ao final do jogo entre Santos e Flamengo, na Vila Belmiro, eu chorei. Não pela vitória do meu time sobre um rival histórico, não pela interrupção na sequência incômoda de três jogos sem vitória, mas pelo choro do Andrade.
Há cerca de um ano eu escrevi um texto sobre o futebol, no qual usava como gancho inicial uma visita feita por mim e minha família ao campo do Flamengo, na Gávea, na qual meu enteado Gabriel coletou autógrafos de vários jogadores do elenco rubro-negro. Quando Andrade, o mais importante integrante daquele grupo a dar autógrafos, apareceu depois da maioria dos jogadores, foi a minha vez de pedir para que minha esposa tirasse uma foto minha, abraçando o velho camisa 6 dos tempos dourados do Flamengo. E ele ontem dirigiu o time, na condição de técnico interino, substituindo Cuca, demitido na última semana por conta de maus resultados e atritos com o grupo. O destino quis que essa partida de ontem significasse um monte de coisas, colocando várias delas em oposição.
O contraste entre a falsa pompa picareta de Vanderlei Luxemburgo (em seu segundo jogo dirigindo o Santos) e o discreto charme de Andrade era gritante. Luxa vestia mais um de seus ternos de treinador europeu, emitia aquela aura furreca de professor-doutor-treinador, um elemento tão estranho ao futebol quanto a grana exacerbada que se ganha hoje em dia. Andrade exibia um agasalho do Flamengo, preto com detalhes vermelhos, sobre uma camisa branca. Não se alterou com jogadores, exibiu a mesma calma e sabedoria dos tempos de jogador.

O time que Andrade armou não tinha nada demais. Mas os jogadores, esses sim, pareciam jogar para ele. Talvez aliviados pela saída do treinador anterior, pela vontade de vencer, ou, simplesmente impregnados por um espírito de outros tempos futebolísticos, os jogadores do Flamengo partiram pra cima do Santos. A vitória, no final, com um gol contra do zagueiro Pará, fez justiça ao que ambos os times exibiram ao longo dos 90 minutos de um jogo não muito bom, mas redentor.
Após encerrado o prélio, Andrade foi entrevistado pelo repórter Eric Faria, da Globo TV, e disse que estava muito feliz por estar treinando o time do Flamengo, algo que ele julgava ser um privilégio para qualquer treinador. E dedicou a vitória aos jogadores e ao amigo Zé Carlos, o Zé Grandão, ex-goleiro do time nos anos 80, morto por câncer aos 47 anos. E chorou.
O choro de Andrade é diferente da volta olímpica da Copa do Mundo. Do palanque da FIFA e dos prêmios de melhor jogador, melhor artilheiro, melhor gandula, melhor roupeiro. O choro dele é o das pequenas coisas. Das circunstâncias, da pessoa que se emociona por uma vida simples - dentro dos padrões estratosféricos do futebol - e que vê um grupo de pessoas seguindo suas orientações ganhar de outro grupo, talvez mais badalado, mais marrento, menos de carne e osso.
Andrade representa, assim como Telê Santana (para o São Paulo), Carlinhos (para o próprio Flamengo) ou, pra ficar num caso muito semelhante da atualidade, Jorginho (para o Palmeiras, já substituido pelo todo-poderoso Muricy Ramalho, que vai embolsar 600 mil reais por mês), o espírito de superação do futebol puro e simples. Sem grana, sem badalação, sem nada que não seja o amor pela camisa, pelo clube, pelos significados, pelos sentimentos, por qualquer coisa que não seja a grana no fim do mês, grana esta que Andrade deve receber em menor quantidade que a maioria dos jogadores em campo.
Esse não é um texto rubro-negro, acredito que todos os torcedores tenham sua implicância com a dimensão mercantilista que o futebol adquiriu dos anos 90 para cá, simbolizada pelas contratações estelares de times como o Real Madrid, cujo orçamento obsceno deve ser maior do que alguns países da América Central. Futebol não é apenas dinheiro ganho, imagem e falas articuladas. Andrade sabe disso, amigos.

Há pouco menos de uma semana eu estive na Gávea. Pra quem não sabe, além de um bairro de classe média-alta carioca, entende-se por “Gávea” o nome da sede do Clube de Regatas do Flamengo. Fomos levar meu enteado Gabriel – um rubro-negro dedicado, de 13 anos – e um amigo dele ao treino do time, às vésperas do jogo em que o Flamengo empataria sem gols com o Botafogo. Ficamos no estacionamento próximo ao campo de treino, esperando os jogadores saírem para que as crianças pedissem autógrafos, nada mais normal. Até que, em meio aos integrantes do atual elenco do time, surge Andrade, hoje um dos auxiliares técnicos do Flamengo. Me emocionei e pedi à minha esposa que encontrasse uma brecha para me fotografar ao lado do velho ídolo rubro-negro. O resultado abre esse texto, que ficou indo e vindo em minha mente, pedindo por publicação.
Andrade era meio-campo do antológico time do Flamengo de 1981, que foi a Tóquio e venceu o Liverpool, na final do Campeonato Mundial Interclubes. Isso aconteceu no dia 13 de dezembro daquele ano, aniversário da minha mãe. Eu tinha 11 anos e me lembro que obtive uma permissão inédita para ficar acordado com meu avô para ver o time jogar. Talvez tenha sido a primeira vez em que eu dormi tão tarde. Em campo, uma constelação de astros, que venceu os ingleses por três gols a zero. A minha intenção não é fazer uma ode ao time que torço, mas compreender o porquê da visão de um Andrade grisalho me desperta essa conexão tão forte com um passado que acredito ser comum a todos.
Sim, você não precisa gostar de futebol a ponto de ver jogos como XV de Jaú x Saad E.C. ou similares para entender alguns detalhes sobre o esporte bretão que justificam plenamente sua relevância mundial. O esporte – quase sempre – foi uma forma ética, controlada e civilizada de guerra e competição entre homens e grupos de homens. Não se espante, o ser humano gosta e precisa de afirmações de força e soberania sobre seus semelhantes. Está na natureza humana e, possivelmente, escrito à base de adeninas, guaninas e demais integrantes do nosso DNA.
As competições em que o mais forte vence – seja em que habilidade for – remontam aos tempos da caverna e podem ser observadas em outras espécies. Portanto, sem falsos moralismos. Futebol, vôlei, basquete, boliche e todos os esportes constituem uma tentativa de superação de metas e oponentes. O grande toque da civilização foi tornar esse desejo de sobrepor-se algo ético e dotado de explicação moral. O esporte é a disputa controlada e dentro de limites, que o tornam inspirador e fonte de ensinamentos que dotam o ser humano de cidadania.
Quando a gente toma ciência do que é esporte, lá pelos primeiros anos de vida, compreendemos que podemos fazer parte daquilo. Toda criança gosta de correr e jogar bola, até que surgem as primeiras competições informais, nas quais os mais hábeis se destacam dos outros. O código para isso é a associação da destreza com a virtude, algo que desestimula os menos hábeis a continuar jogando. Mais tarde, a maturidade dá a esses jogadores de segundo escalão o bom humor e a capacidade de enfrentar a situação em que os mais virtuosos sempre vencem.
A moralidade do esporte diz que o treino e a determinação são as chaves para ser um bom atleta, algo que praticamente inclui todo mundo como potencial praticante de esporte. E têm lugar aqueles conselhos que ouvimos a cada jogada frustrada: “Veja, se você é ruim no futebol, pode ser bom no vôlei ou basquete”. Quem nunca ouviu isso? E quem nunca foi colocado no gol porque não jogava bem na linha? E quem nunca ouviu que só tinha lugar no time de handebol? São metáforas moralmente legais para “você é ruim, não tem lugar no nosso time”.

Os esportes coletivos têm um parentesco evidente com as guerras, principalmente porque eles se apresentam em diferentes âmbitos. Sempre tomando o futebol como exemplo, podemos pensar que há times dentro de um município, disputando o mesmo campeonato. As rivalidades entre bairros e regiões da cidade são colocadas em campo. Sendo assim, times de diferentes procedências dentro de um mesmo lugar se enfrentam como gangues rivais, dentro de regras e determinações que procuram dar igualdade de condições a todos.
Amplie essa perspectiva para campeonatos que congregam os estados de um país e as nações propriamente ditas, todas se enfrentando em busca do objetivo final – a vitória. O futebol talvez seja o esporte em que a moralidade e o bom-mocismo são menos evidentes. O que dizer de jogos entre Brasil x Argentina ou Brasil contra qualquer outro país da América do Sul? Estão em campo todas as diferenças culturais, o português imperial contra as repúblicas bolivarianas ou platinas, todas formadas na mesma época. Os países mais pobres contra o “gigante continental”. E os jogos entre México e Estados Unidos, nos quais os mexicanos têm a chance de dar o troco pela opressão ianque de muitos anos e pela anexação de terras que os americanos promoveram ao longo do século XIX? Quem achar que essas questões não estão em algum pensamento ancestral dos jogadores, estará enganado.

Os jogadores são os protagonistas da guerra. O técnico é o sujeito que imagina a maneira de vencer o oponente. Quando uma torcida vaia um jogador é porque não o julga digno de vestir o uniforme do time. E o que seria o estádio senão o campo de batalha? E a platéia senão os povos que se enfrentam e são afetados diretamente pelos resultados das partidas?
Desde a década de 1990 que o futebol – e os esportes coletivos em geral – vêm sofrendo com a assimilação do dinheiro na engrenagem que mantém a máquina moral funcionando. Salários altos, propostas financeiras tentadoras, campeonatos mais disputados em países europeus; tudo isso faz com que cada vez mais jovens iniciados sejam despachados para o exterior, em busca de algo que a torcida não consegue associar à guerra. Quando há um conflito entre nações, não há espaço para dilemas morais ou de qualquer outra natureza para explicar o porquê deste ou daquele soldado não combater. Todos são voluntários na defesa do bem comum, certo? E no futebol, quando este ou aquele atleta deixa um time por proposta de outro e abandona o uniforme anterior para vestir uma nova farda?
Andrade, o homem da foto inicial, fez isso ao usar o uniforme do maior rival do Flamengo, o Vasco da Gama. Naquele tempo – fim dos anos 80 – ainda havia algo que não permitia duvidar da honra de um jogador. E eles ficavam anos a fio no mesmo time, como se nos dessem a certeza de que eram torcedores e defensores da mesma causa.
O mundo esportivo moderno é regido pelo dinheiro – assim como quase todas as manifestações humanas – e isso, por mais que estejamos acostumados à rotina do esporte, é um elemento estranho ao todo.

De qualquer forma, há vinte e sete anos, eu não sabia de nada disso. Era apenas um pouco hábil jogador de futebol no colégio, porém, um orgulhoso torcedor do meu time e das pessoas que fizeram essa personificação do que ele representa. Andrade, o velho Tromba, camisa 6, foi um dos responsáveis por isso e eu sou grato a ele.

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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