Vou dividir algo muito sério com vocês, leitores. E pessoal também. Em 1985, eu chorei quando vi Apollo Creed ser morto a socos por Ivan Drago, durante a primeira luta de Rocky IV. De verdade. Não adianta fazer cara feia de Carriers Du Cinema ou atitude blasé de indiezinho que não conhece o poder da guitarrinha dedilhada de "Eye Of The Tiger". A morte de Creed é uma tragédia para o esporte e para qualquer pessoa ingênua de 15 anos, dos anos 80. Eu era assim.
Digo isso porque revi Rocky IV numa noite de Reveillon em 2006 e me lembrei. Ao contrário do que muita gente pensa, essa noite não é necessariamente e inapelavelmente feliz para todo mundo. Eu estava no grupo anônimo dos não muito felizes e via, com certa satisfação, um velho filme da minha adolescência. Há metáforas poderosas na série Rocky. Pude notar isso, vinte anos depois de chorar (pouco, é verdade) pela morte de Apollo.
É uma tragédia, pois a luta era uma exibição entre um boxeador soviético (sim, existia ainda a velha URSS) e um ex-campeão de boxe americano. Um eslavo comunista e um negro americano. Duas indesejáveis personas do mundo oitentista, juntas na mesma arena, sob a batuta de Ronald Reagan, então presidente dos USA, do tipo W.Bush, ainda que um pouco menos burro.

Do lado de fora está Rocky Balboa, ítalo-americano, outra minoria indesejável, para o sistema WASP da América do Norte. No palco, antes da luta, está James Brown, sim, o Godfather Of Soul, o Haaaaaaaaardest Man In Showbusiness, fazendo uma apresentação de "Living In America", com sua banda completa. E, pouco depois, Apollo jaz no ringue, logo no segundo assalto, porque Rocky atende a seu pedido de não interromper a luta, custasse o que custasse.
Rocky, o primeiro de uma série de cinco longas, foi feito em 1977 e ganhou o Oscar de melhor filme e melhor roteiro (escrito pelo próprio Sylvester Stallone). Nele, como uma música de Bruce Springsteen, é contada a história de um americano zé mané, burro, de bom coração, que trabalha como cobrador de um agiota e que luta como amador nas horas vagas. Por uma reviravolta do destino, Rocky Balboa tem a chance de enfrentar o campeão mundial, Apollo Doutrinador. Apollo é o modelo do empreendedor bem sucedido. Cuida de sua carreira, usa terno, tem sua negritude esbranquiçada como uma aula de etiqueta da Motown dos anos 60. Mas é o campeão. A luta é dura, os dois caem. Há uma revanche, na seqüência, que Stallone ganha.
A metáfora que há em Rocky é para com a própria América. No primeiro filme, vemos que ela é boa gente, ainda que burra. No segundo, temos sua persistência colocada à prova, diante das tentações materiais da fama e fortuna pelas quais Rocky passa e se submete. Temos a evolução do estado em Rocky III, a preparação para o fim do comunismo em Rocky IV, com a derrota de Ivan Drago em Moscou, pelas mãos de Rocky, com direito a discurso pacifista no final e aplausos de um sósia de Mikhail Gorbatchev num palanque. Rocky V, de 1990, pós-muro de Berlim, é a volta dos USA ao seu próprio umbigo, resolvendo problemas internos, personificados pela decadência de Rocky, as dificuldades de adaptação de seu filho adolescente e a traição de seu pupilo, sucumbindo ao dinheiro fácil de um empresário picareta, que lembra muito o velho Don King, que empresariava dez entre dez lutadores de boxe na aurora dos anos 90, quando Tyson caminhava pela Terra.

E temos Rocky Balboa, o filme, de 2006, o fecho da série, o segundo melhor longa, perdendo apenas para o primeiro episódio. Aqui Rocky está aposentado, sessentão, perdeu a mulher para o câncer e seu filho único tem vergonha dele. No comando de um restaurante, o Adrian’s, Rocky entretêm os clientes com histórias do seu tempo de ringue, num ambiente cheio de fotos e posters dos tempos idos. É a crítica à internet, ao mundo virtual, pois, através de uma simulação de computador, Rocky é colocado no ringue com o atual campeão, Mason Dixon, um esportista movido a grana e que é acusado de lutar burocraticamente. Colocados os dados de ambos no computador, a simulação aponta vitória de Rocky por nocaute no segundo assalto. A chance para uma inusitada volta aos ringues para a despedida oficial tem lugar.
Ainda que possa parecer absurdo, o roteiro de Rocky Balboa – escrito pelo próprio Stallone – é digno de um filme de Clint Eastwood. Não há qualquer esforço em esconder a velhice e as limitações de Rocky, que mostra-se totalmente fora de moda em todos os momentos. Detalhe sentimental pessoal quando ele ouve “Ooo Baby Baby”, de Smokey Robinson, e entabula uma reflexão bronca sobre a velhice das pessoas, das coisas e do mundo. Não se engane, Rocky Balboa é um filmaço.

Todo esse texto pode ser um monte de bobeira de gente trintona meio desocupada ou até pode fazer um certo sentido. Não me importo muito com os Estados Unidos, talvez somente com sua música, mas ver aquela queda de Apollo no ringue de Las Vegas em 1985 é tão sinistro e sintomático como ver a queda do World Trade Center da nossa adolescência. Não pelo impacto ou pela tristeza. Mas pela certeza de que o impossível está acontecendo e, droga, nada podemos fazer.
Na sexta-feira passada, dia 22 de maio, Arthur Dapieve publicou mais uma de suas colunas no Segundo Caderno do jornal O Globo. Leio o que este sujeito escreve há quase 20 anos e o tenho em grande conta como profissional e mente pensante dentro do espectro cada vez menos esclarecido do jornalismo cultural.

Dapieve falava sobre o lançamento do novo disco do argentino Fito Paez, No Se Si Es Baires O Madrid (Não Sei Se É Buenos Aires Ou Madri), gravado ao vivo na Espanha, cheio de convidados daquele país. Entre observações sobre uma ou outra música e sobre como novos arranjos haviam dado fôlego para o trabalho do argentino, Arthur não escapou de mencionar uma de suas músicas favoritas: "Un Vestido y Un Amor". Digo que é uma das favoritas do jornalista porque ele já a mencionou antes, lá pelo fim da década de 1990, numa crônica em que tece comentários sobre determinadas canções de amor. Ali (como na sexta-feira próxima passada) Dapieve menciona o singelo verso do argentino, "eu não procurava nada e te vi", como a epítome do ato de se apaixonar, ou seja, a verdadeira paixão - aquela com credenciais para durar talvez a vida toda - vem inesperadamente, sem que a busquemos. A gente simplesmente é arrebatado e pronto. Voltaremos a isso mais abaixo.

Em 2006 eu escrevi meu primeiro (e até agora único) livro, Vestido de Flor. Foi a realização de um sonho pessoal muito antigo e abortado inúmeras vezes, pelo simples fato de que é muito difícil escrever um livro e, mais ainda, publicá-lo. Durante um bom tempo eu pensei que havia escrito o Vestido de Flor para exorcizar a experiência que ele narra, algo como uma catarse, um esguicho mental, algo que me aliviasse. Estava eu errado e resolvi contar o motivo.
Fito Paez e Dapieve estão diretamente ligados à realização do Vestido, de diferentes formas. A música de Fito, que ouvi primeiro na voz de Caetano Veloso, no disco Fina Estampa, foi recorrente na escrita do livro, seja pelo título ou pela circunstância que ela trata. A presença de Dapieve ainda é mais intensa, principalmente pela camaradagem dele em assinar uma singela contracapa para o livro, na qual o compara com filmes como Antes Do Amanhecer ou Antes Do Por Do Sol. Bondade dele, mas, deixando a humildade de lado, talvez haja grandes semelhanças mesmo...
A grande personagem desse livro, no entanto, não é mencionada na história, não era conhecida por mim quando eu o escrevi, não me inspirou a fazê-lo ou nada disso. Ou tudo, por uma via transversa inconsciente, vá saber. O que quero dizer é que o Vestido de Flor me fez conhecer minha esposa e vivenciar a experiência que Fito Paez descreve em sua música e Dapieve celebra em sua crônica.
Quando lancei o livro, em 19 de março de 2007, recebi alguns amigos queridos na Livraria da Travessa de Ipanema. O relógio já se aproximava das 22:00h quando recebo a ligação no celular de uma pessoa que se atrasara, perguntando se ainda podia aparecer para pegar seu exemplar. Concordei. Afinal de contas, Maria Estrella foi uma pessoa com quem havia conversado muitas vezes desde que o livro ficara pronto. Ela lançara alguns meses antes um belo livro sobre a Rádio Fluminense FM, também celebrado por Arthur Dapieve em sua coluna e que fora recebido pelo Portal Rock Press para ser resenhado.
Maria fora gentilíssima quando entrei em contato com ela para obter informações sobre preços de gráficas, folhetos, enfim, me deu várias direções a seguir e fez questão de enfatizar que iria ao lançamento do Vestido de Flor. Fosse quando fosse. Achei gentil da parte dela, principalmente porque eu ainda não tinha certeza de onde ou mesmo se faria isso. Portanto, era encantador saber que ela seria a última pessoa a quem eu daria um exemplar autografado do meu querido filho literário naquela noite.

Quando Maria entrou na Livraria da Travessa praticamente vazia, senti exatamente o que Fito Paez queria dizer em sua canção. Eu não procurava nada e a vi. Me apaixonei imediatamente e procurei disfarçar com uma atitude simpática, solícita, secretamente resignada diante da aparente improbabilidade em me relacionar com ela mais tarde. Na época, tanto ela quanto eu tentávamos fazer funcionar relacionamentos em nossas vidas, sem muito sucesso, diga-se de passagem. Assinei o livro para Maria e a vi ir embora, sem saber que o futuro e o destino haviam vindo com ela pela livraria e me fizeram uma visita. Dez dias depois, após telefonemas, e-mails e contatos, começamos a namorar e posso afirmar que nos casamos em alguns dias. A cerimônia oficial só viria meses depois, mas era apenas para que os outros soubessem do que já tínhamos ciência.
Eu já contei essa história para os amigos mais chegados mas, sabe-se lá, senti vontade de escrevê-la e torná-la acessível a todos aqueles que pensam ser impossível se apaixonar e ver esse amor durar. No nosso caso, para sempre, desde sempre, todo dia. Quando menos esperarem vocês verão. Garanto-lhes que vale a pena o tempo empreendido.

PS: para mais alguns detalhes sobre o Vestido de Flor, visitem o www.myspace.com/vestidodeflor . Acho que ainda está tudo lá. Se quiserem adquirir um dos poucos exemplares restantes, deixem um comentário com seu e-mail.
Eu estava na Praça da Apoteose em 1988 vendo o show do Supertramp. Era o último da noite, após exaustivas e insossas apresentações de Lulu Santos e Marina Lima. Sabíamos todos que a banda inglesa viria sem a presença de Roger Hodgson, o "vocalista da voz fina", o sujeito que alcançava agudos extremos e não parecia nem se cansar.
O Supetramp vinha na turnê de lançamento do disco Free As A Bird, o segundo sem a presença de Hodgson (Brother Where You Bound, de 1985 fora o primeiro trabalho sem Roger) mas minha curiosidade não era pelos discos mais recentes. Eu queria ouvir "The Logical Song", "Hide In Your Shell", "School", dentre tantos sucessos da banda, mas sabia que Mark Hart, guitarrista e vocalista dublê de Roger não daria conta do recado - o que realmente aconteceu.
O tempo passou, minha admiração pelo Supertramp só fez aumentar e meus questionamentos sobre a crítica musical ganharam vulto. A banda sempre fora alvo fácil de detonações infinitas, principalmente porque seu som tinha nascedouro no rock progressivo inglês dos anos 70, agravado pelo fato de Roger e Rick Davies (o vocalista da voz grossa) serem compositores pop de mão cheia, o que dotava as composições do Supetramp de um notável acento radiofônico, sem abrir mão do instrumental virtuoso. Mais que um guilty pleasure, ouvir a banda sempre foi um dos caminhos mais fáceis para aquele momentum da vida em que tudo parece dar certo e que é lembrado como tempo perfeito, sem problemas.
Com essa impressão adentrei o Vivo Rio na sexta-feira, dia 5 de setembro para ver o segundo show de Roger Hodgson na Cidade Maravilhosa, dez anos depois de sua primeira vinda. O clima era de expectativa e certa apreensão pois o homem vinha divulgando seu DVD Take The Long Way Home - Live In Montreal, no qual recria várias canções do Supertramp em versões acústicas, todas de bom gosto inquestionável, mas insignificantes diante da perspectiva de ouvir os arranjos originais com banda.
Minha esposa, mais fã dos ingleses do que eu, estava previamente aborrecida com a idéia de ver Roger desperdiçando sua voz numa balela unplugged, impressão que sumiu ante a primeira visão da banda no palco, montada especialmente para as apresentações no Brasil. Lá estavam o baterista Bryan Head, o baixista Jesse Siebenberg e o versátil Aaron McDonald, responsável por harmônica, saxofone e teclados. E Roger, todo de branco, olhar doce, expressão tranquila, tentando falar português com anotações do tamanho de uma folha de papel A4. Parecia uma espécie de monge, de ser tranquilo e razoavelmente elevado. Ele que ficara inativo por quase toda a década de 1990, após sofrer fraturas sérias nos dois pulsos em 1988, época de lançamento de seu segundo disco solo, Hai Hai.
A primeira canção já fez os corações tremerem: "Take The Long Way Home" apareceu gloriosa, do alto de seus 29 anos de idade, com atmosfera perfeita e execução idem, no esquema "estamos reproduzindo fielmente os arranjos do Supertramp e não estamos nem aí para mais nada". E nesse esquema vieram "Give A Little Bit", "Hide In Your Shell" e duas canções solo do homem, as supertrâmpicas "In Jeopardy" e "Lovers In The Wind". O povo logo viu que estava diante de algo grandioso e provavelmente inesquecível.
Supertramp e Roger Hodgson se separaram em 1983, após o lançamento do fabuloso disco Famous Last Words. Nesse ano a banda deu continuidade à fileira de hits que o álbum anterior, Breakfast In America (1979) iniciou, principalmente com a execução maciça de "It's Raining Again" e "My Kind Of Lady". Desentendimentos criativos e pessoais entre Rick Davies e Roger decretaram a saída deste e o início de uma respeitavel carreira solo. In The Eye Of The Storm (1984) foi lançado imediatamente após a saída do Supertramp e causou mal estar entre as duas partes. O disco era totalmente voltado para a sonoridade da banda e, se fosse misturado com Brother Where You Bound (disco do Supertramp de 1985), teríamos um excelente álbum, na melhor tradição dos grandes trabalhos deles. Todo esse clima adverso, a substituição vocal por Mark Hart e a ação do tempo acabaram afastando Roger das canções que ele tocou no Vivo Rio. É a turnê de reconciliação do homem com ele mesmo, com suas lembranças e seus coelhos na cartola. É uma turnê extremamente pessoal, daquelas que levam multidões a cantar.
No Rio não foi diferente. Após as cinco primeiras músicas, os 2 mil felizardos presentes ao Vivo Rio caminharam pelos caminhos de ida e volta para casa, propostos pelo nome da canção. Gente de classe média, na faixa dos 30/40 anos, alguns com filhos, transmitindo lembranças e legados, como deve ser. Roger e sua banda revisitaram 15 canções de todas as fases do Supetramp, indo dos sucessos "Dreamer", "The Logical Song", "Breakfast In America", passando por surpresas como "Easy Does It", "Child Of Vision", "Don't Leave Me Now" e chegando ao momento mágico do show, quando Roger sentou-se ao piano de cauda que dominava o centro do palco e disse: - A próxima canção que eu vou tocar foi escrita há bastante tempo e pensei numa orquestra quando bolava o arranjo. É a primeira vez que toco essa música desde que saí do Supertramp.
Trememos, eu e Maria, minha esposa. Ela na Ilha do Governador, eu em Copacabana, ao longo dos tempos, cantamos, dublamos e tocamos todos os instrumentos do Supertramp de forma imaginária e "Fools Overture" sempre foi um momento máximo. A suite progressiva de 1977, com instrumental futurista mesclado com piano e saxofone sempre foi um ponto alto. Ao primeiro acorde da canção, imediatamente vi uma das minhas certezas - a de que nunca veria essa música ao vivo - cair por terra. A execução perfeita, a sustentação de McDonald à parafernália de efeitos especiais, entre eles o famoso dircurso do Primeiro Ministro inglês Winston Churchill, no qual ele diz que os ingleses lutarão nos campos e cidades, tudo foi perfeito e o próprio Roger Hodgson se espantou com o efeito causado na multidão.
Após o intervalo protocolar, a banda volta para revisitar "School", outro highlight da infância, na qual eu me transformava num virtuoso solista ao piano e a comemoração final com "It's Raining Again", uma das músicas que mais clamam por uma dança à dois nesse mundo.
Dessa vez, em 2008, dancei "It's Raining Again" com minha esposa, algo que sempre quis e só descobri na hora que Roger sorria diante da multidão que dançava à sua frente. Talvez em algum momento da década de 1980, eu sempre soubesse que a dançaria da maneira correta e com a pessoa certa. Dito e feito. E, ainda agora, espero, Roger Hodgson sorri.
Set List
1) Take the Long Way Home
2) Give a Little Bit
3) In Jeopardy
4) Hide in Your Shell
5) Lovers in The Wind
6) A Soap Box Opera
7) You Make Me Love You
8) Easy Does It
9) Sister Moonshine
10) Breakfast in America
11) Along Came Mary
12) The Logical Song
13) The More I Look
14) Child of Vision
15) Lord Is It Mine
16) Don't Leave Me Now
17) Dreamer
18) Fool's Overture
BIS
19) School
20) It's Raining Again

Quando eu tinha uns 14, 15 anos de idade, descobri o som dos artistas mineiros. Entenda por “artistas mineiros”, Beto Guedes, 14 Bis, Lô Borges, Milton Nascimento e derivados. O que se mostrava como descoberta, na verdade, era uma constatação daquelas primeiras experiências musicais que temos ainda na infância. No meu caso, lembro-me de ter 8, 9 anos e passar férias de julho e janeiro em Petrópolis – cidade da região serrana do Rio – e lá, na varanda da casa ou no rádio AM/FM da Brasília da minha mãe ou do meu avô, as programações de Tamoio FM e Mundial FM sempre tocavam canções desses artistas. Quando os reencontrei alguns anos mais tarde, a sensação de “dejá ouvi” foi total.
Escrevo sobre eles porque estou constantemente “redescobrindo” o valor desses caras e parece um processo que não tem fim. Há sempre alguma canção deles sendo reouvida ou um verso reinterpretado. Acredito que os bons artistas devam sempre possuir obras passíveis de adaptação aos nossos momentos, capazes de nos lembrar de nós mesmos. Pessoalmente, acho esse o maior feito de que um compositor é capaz. Portanto, no inicio da adolescência, lá estava eu, ouvindo os mineiros e fazendo a primeira grande turma de amigos no colégio. Era o início do segundo grau, das reuniões nas casas da Denise, da Fabiana ou da Fernanda, no Leblon ou Jardim Botânico, sempre marcadas por longas sessões musicais.

Aqueles momentos de descoberta musical coletiva, de olhares de cumplicidade e percepção simultânea de significados são inestimáveis. Até aquela época, meu idioma pop era o inglês de Queen e Police, as minhas primeiras bandas do coração. Ser capaz de furar um bloqueio cultural burro que enaltecia os produtos gringos e desdenhava da MPB era um feito e tanto. Havia espaço para o rock nacional dos anos 80, igualmente importante, mas ouvir os mineiros era, como disse acima, um reencontro com uma criança de 9 anos da qual eu já sentia falta em 1985/86. Imagine hoje.
Lembro nitidamente de me apaixonar por uma colega da mesma sala do Santo Agostinho e dedicar a ela “Amor de Índio”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, inúmeras vezes. Essas declarações de amor eram leves e secretas como o olhar e o movimento das nuvens. Intencionalmente, claro. No meu caso especifico, os mineiros eram cúmplices e parceiros, serviam, na verdade, como meus porta-vozes, representantes junto a um poder maior.
Todos os discos disponíveis desses artistas foram adquiridos na finada Copadisco ou na filial Figueiredo Magalhães das Lojas Americanas. O carinho especial pela obra de Beto Guedes e Milton Nascimento permanece intacto, apesar de constatar tristemente que eles estão esgotados criativamente, ainda que esses sujeitos não precisem de novos sucessos ou discos para manter seu encanto. O público deles – e de todos os mineiros – está interessado no reencontro coletivo, é como um efeito especial que nos coloca frente a frente conosco, em diferentes momentos. Lembro-me de fazer fitas cassete com essas músicas, me imaginar em paisagens vistas da janela lateral do quarto de dormir ou embarcando num trem azul com o sol na cabeça.
Dos discos desses sujeitos eu tenho amor incondicional por Contos da Lua Vaga, Amor de Índio e Sol de Primavera, todos de Beto Guedes; Flor Lunar, Encontro das Águas e o primeiro do 14 Bis, além do Nascente, do Flávio Venturini, do Via Láctea e do “disco do tênis” do Lô Borges, pra não mencionar os dois volumes do Clube da Esquina e a discografia do Milton Nascimento até o Sentinela (1980).

O tempo passou e muitos momentos de reencontro com os mineiros vieram, num deles, por volta de 1989, conheci a obra de Pat Metheny, apresentada por um colega da Caixa Econômica Federal (meu primeiro emprego, como estagiário), que me mostrou um disco chamado First Circle, mineiro até os ossos, mas feito nos Estados Unidos. Metheny, o futuro senhor Sonia Braga, ainda tinha pelo menos um disco totalmente mineiro, chamado Still Life (Talking), com uma canção chamada “Last Train Home”, que poderia ser trilha sonora de uma viagem na mitológica Ponta de Areia, a estrada de ferro que ligava Minas à Bahia, na qual jamais passei da maneira convencional, mas que me é tão familiar como qualquer rua que tenha me visto nascer.
O tempo passa e eu estou cada vez mais sentimental em relação à música. Daqui a pouco será quase antiético escrever sobre ela, tamanha a intensidade da minha relação com artistas como os citados aqui.

Sobre se apaixonar e dedicar letras, um dia escrevi que queria uma fita cassete com “Os Outros” do Kid Abelha, dada por alguma ex-namorada arrependida e que tivesse me feito sofrer muito. Pois bem, voltando no tempo dessa suposição, essa namorada certamente teria em seus guardados, se tudo desse certo, um papel com a letra de “Amor de Índio”. Coisas da adolescência, meus caros. Um dia eu falo sobre as namoradas que não sabem que as namoramos.
Há pouco menos de uma semana eu estive na Gávea. Pra quem não sabe, além de um bairro de classe média-alta carioca, entende-se por “Gávea” o nome da sede do Clube de Regatas do Flamengo. Fomos levar meu enteado Gabriel – um rubro-negro dedicado, de 13 anos – e um amigo dele ao treino do time, às vésperas do jogo em que o Flamengo empataria sem gols com o Botafogo. Ficamos no estacionamento próximo ao campo de treino, esperando os jogadores saírem para que as crianças pedissem autógrafos, nada mais normal. Até que, em meio aos integrantes do atual elenco do time, surge Andrade, hoje um dos auxiliares técnicos do Flamengo. Me emocionei e pedi à minha esposa que encontrasse uma brecha para me fotografar ao lado do velho ídolo rubro-negro. O resultado abre esse texto, que ficou indo e vindo em minha mente, pedindo por publicação.
Andrade era meio-campo do antológico time do Flamengo de 1981, que foi a Tóquio e venceu o Liverpool, na final do Campeonato Mundial Interclubes. Isso aconteceu no dia 13 de dezembro daquele ano, aniversário da minha mãe. Eu tinha 11 anos e me lembro que obtive uma permissão inédita para ficar acordado com meu avô para ver o time jogar. Talvez tenha sido a primeira vez em que eu dormi tão tarde. Em campo, uma constelação de astros, que venceu os ingleses por três gols a zero. A minha intenção não é fazer uma ode ao time que torço, mas compreender o porquê da visão de um Andrade grisalho me desperta essa conexão tão forte com um passado que acredito ser comum a todos.
Sim, você não precisa gostar de futebol a ponto de ver jogos como XV de Jaú x Saad E.C. ou similares para entender alguns detalhes sobre o esporte bretão que justificam plenamente sua relevância mundial. O esporte – quase sempre – foi uma forma ética, controlada e civilizada de guerra e competição entre homens e grupos de homens. Não se espante, o ser humano gosta e precisa de afirmações de força e soberania sobre seus semelhantes. Está na natureza humana e, possivelmente, escrito à base de adeninas, guaninas e demais integrantes do nosso DNA.
As competições em que o mais forte vence – seja em que habilidade for – remontam aos tempos da caverna e podem ser observadas em outras espécies. Portanto, sem falsos moralismos. Futebol, vôlei, basquete, boliche e todos os esportes constituem uma tentativa de superação de metas e oponentes. O grande toque da civilização foi tornar esse desejo de sobrepor-se algo ético e dotado de explicação moral. O esporte é a disputa controlada e dentro de limites, que o tornam inspirador e fonte de ensinamentos que dotam o ser humano de cidadania.
Quando a gente toma ciência do que é esporte, lá pelos primeiros anos de vida, compreendemos que podemos fazer parte daquilo. Toda criança gosta de correr e jogar bola, até que surgem as primeiras competições informais, nas quais os mais hábeis se destacam dos outros. O código para isso é a associação da destreza com a virtude, algo que desestimula os menos hábeis a continuar jogando. Mais tarde, a maturidade dá a esses jogadores de segundo escalão o bom humor e a capacidade de enfrentar a situação em que os mais virtuosos sempre vencem.
A moralidade do esporte diz que o treino e a determinação são as chaves para ser um bom atleta, algo que praticamente inclui todo mundo como potencial praticante de esporte. E têm lugar aqueles conselhos que ouvimos a cada jogada frustrada: “Veja, se você é ruim no futebol, pode ser bom no vôlei ou basquete”. Quem nunca ouviu isso? E quem nunca foi colocado no gol porque não jogava bem na linha? E quem nunca ouviu que só tinha lugar no time de handebol? São metáforas moralmente legais para “você é ruim, não tem lugar no nosso time”.

Os esportes coletivos têm um parentesco evidente com as guerras, principalmente porque eles se apresentam em diferentes âmbitos. Sempre tomando o futebol como exemplo, podemos pensar que há times dentro de um município, disputando o mesmo campeonato. As rivalidades entre bairros e regiões da cidade são colocadas em campo. Sendo assim, times de diferentes procedências dentro de um mesmo lugar se enfrentam como gangues rivais, dentro de regras e determinações que procuram dar igualdade de condições a todos.
Amplie essa perspectiva para campeonatos que congregam os estados de um país e as nações propriamente ditas, todas se enfrentando em busca do objetivo final – a vitória. O futebol talvez seja o esporte em que a moralidade e o bom-mocismo são menos evidentes. O que dizer de jogos entre Brasil x Argentina ou Brasil contra qualquer outro país da América do Sul? Estão em campo todas as diferenças culturais, o português imperial contra as repúblicas bolivarianas ou platinas, todas formadas na mesma época. Os países mais pobres contra o “gigante continental”. E os jogos entre México e Estados Unidos, nos quais os mexicanos têm a chance de dar o troco pela opressão ianque de muitos anos e pela anexação de terras que os americanos promoveram ao longo do século XIX? Quem achar que essas questões não estão em algum pensamento ancestral dos jogadores, estará enganado.

Os jogadores são os protagonistas da guerra. O técnico é o sujeito que imagina a maneira de vencer o oponente. Quando uma torcida vaia um jogador é porque não o julga digno de vestir o uniforme do time. E o que seria o estádio senão o campo de batalha? E a platéia senão os povos que se enfrentam e são afetados diretamente pelos resultados das partidas?
Desde a década de 1990 que o futebol – e os esportes coletivos em geral – vêm sofrendo com a assimilação do dinheiro na engrenagem que mantém a máquina moral funcionando. Salários altos, propostas financeiras tentadoras, campeonatos mais disputados em países europeus; tudo isso faz com que cada vez mais jovens iniciados sejam despachados para o exterior, em busca de algo que a torcida não consegue associar à guerra. Quando há um conflito entre nações, não há espaço para dilemas morais ou de qualquer outra natureza para explicar o porquê deste ou daquele soldado não combater. Todos são voluntários na defesa do bem comum, certo? E no futebol, quando este ou aquele atleta deixa um time por proposta de outro e abandona o uniforme anterior para vestir uma nova farda?
Andrade, o homem da foto inicial, fez isso ao usar o uniforme do maior rival do Flamengo, o Vasco da Gama. Naquele tempo – fim dos anos 80 – ainda havia algo que não permitia duvidar da honra de um jogador. E eles ficavam anos a fio no mesmo time, como se nos dessem a certeza de que eram torcedores e defensores da mesma causa.
O mundo esportivo moderno é regido pelo dinheiro – assim como quase todas as manifestações humanas – e isso, por mais que estejamos acostumados à rotina do esporte, é um elemento estranho ao todo.

De qualquer forma, há vinte e sete anos, eu não sabia de nada disso. Era apenas um pouco hábil jogador de futebol no colégio, porém, um orgulhoso torcedor do meu time e das pessoas que fizeram essa personificação do que ele representa. Andrade, o velho Tromba, camisa 6, foi um dos responsáveis por isso e eu sou grato a ele.

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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