
Já foi dito acertadamente que os livros e filmes de ficção científica falam do presente e não do futuro. Talvez sejam a mais fidedignas fontes de observação da sociedade que os produz, em qualquer época. Essa máxima fica ainda mais evidente quando vemos os filmes do alemão Roland Emmerich na telona do cinema.
Dessa vez, não satisfeito em detonar o mundo com alienígenas (Independence Day, 1994), monstros mutantes (Godzilla, 1998), alterações climáticas drásticas (O Dia Depois de Amanhã, 2004), Emmerich resolveu, literalmente, não deixar pedra sobre pedra em 2012. As imagens são impressionantes, o elenco é o melhor que ele já reuniu (John Cusack, Amanda Peet, Danny Glover, Oliver Platt, Thandie Newton, Chiwetel Ejiofor, Woody Harelson, entre outros) e as pequenas histórias pessoais que entrelaçam as hecatombes sísmicas estão bem mais convincentes dessa vez, além da própria trama, que se mostra muito mais eficaz do que todas as outras desenvolvidas por Emmerich, que também assina o roteiro, ao lado do colaborador Harald Kloser.
![]()
Seguinte: astrônomo indiano e geólogo americano investigam alterações no comportamento do Sol, que poderão causar desastres catastróficos em pouco tempo. As estimativas dos estudos apontam para 2012, o ano em que o calendário dos maias encerra sua contagem. Tem início uma operação mundial para salvar o máximo de pessoas e da cultura humana, uma vez que o desastre é certo e vai, segundo Danny Glover, interpretando uma versão madura e pragmática do presidente Obama, "vai acabar com o mundo como o conhecemos".
Emmerich sempre recorre aos mesmos temas em seus filmes, o que nos leva à frase sobre os filmes e livros de ficção científica sempre nos falarem do presente e nunca do futuro. A humanidade, vitimada pelos agentes da destruição, sejam eles de qualquer natureza, significa o povo americano. O drama, seja na escala mundial ou pessoal, retrata sempre a superação de um indivíduo desfavorecido, seja pela condição social, pela profissão desacreditada, pela raça, enfim, uma pessoa americana que não compactua com o tal american dream e que, ainda assim, é capaz de resgatar o verdeiro espírito americano, amante da liberdade, da igualdade e pró-fraternidade. Sabemos, vocês, eu e a torcida do meu querido Flamengo, que não é assim. Quando observamos personagens como o cientista judeu frustrado e o piloto negro rejeitado pela NASA (vividos por Jeff Goldblum e Will Smith em Independence Day) e os comparamos com o cientista negro frustrado (sim, outro) e o escritor frustrado branco que precisa dirigir limusines para sobreviver (Chiwetel Eliojofor e John Cusack) de 2012, notamos a presença do mesmo espírito. A capacidade destes americanos menos favorecidos, detentores de uma fibra e garra de não se abate nunca, é a metáfora da América vencendo toda e qualquer intempérie, na defesa do mundo livre.

Se entrarmos no cinema com estes pensamentos racionais e razoáveis sobre subtexto e reais intenções, nunca nos divertiremos assistindo os efeitos especiais vertiginosos criados pela bagatela de 260 milhões de dólares. E eles são absolutamente sensacionais e capazes de tirar o fôlego. Há cenas - como a alardeada queda do Cristo Redentor após um terremoto e um tsunami - que perdem de goleada para outras - que não contarei para não estragar o divertimento de meus queridos leitores.
2012 é superior a todos os filmes recentes sobre o fim do mundo, incluindo aí Armaggedon, O Núcleo, Impacto Profundo e as próprias obras anteriores de Emmerich, já citadas acima. Vale uma bela ida ao cinema, com um bom saco de pipocas (doce, no meu caso) e um copão de refrigerante. Pouco tempo depois, toda a sua trama será esquecida e arquivada em seu cérebro, preocupado com coisas mais importantes da vida, porém, por 158 minutos, você não será capaz de pensar em nada a não ser na próxima tragédia natural que aparecerá na tela. Bom divertimento.
Vou dividir algo muito sério com vocês, leitores. E pessoal também. Em 1985, eu chorei quando vi Apollo Creed ser morto a socos por Ivan Drago, durante a primeira luta de Rocky IV. De verdade. Não adianta fazer cara feia de Carriers Du Cinema ou atitude blasé de indiezinho que não conhece o poder da guitarrinha dedilhada de "Eye Of The Tiger". A morte de Creed é uma tragédia para o esporte e para qualquer pessoa ingênua de 15 anos, dos anos 80. Eu era assim.
Digo isso porque revi Rocky IV numa noite de Reveillon em 2006 e me lembrei. Ao contrário do que muita gente pensa, essa noite não é necessariamente e inapelavelmente feliz para todo mundo. Eu estava no grupo anônimo dos não muito felizes e via, com certa satisfação, um velho filme da minha adolescência. Há metáforas poderosas na série Rocky. Pude notar isso, vinte anos depois de chorar (pouco, é verdade) pela morte de Apollo.
É uma tragédia, pois a luta era uma exibição entre um boxeador soviético (sim, existia ainda a velha URSS) e um ex-campeão de boxe americano. Um eslavo comunista e um negro americano. Duas indesejáveis personas do mundo oitentista, juntas na mesma arena, sob a batuta de Ronald Reagan, então presidente dos USA, do tipo W.Bush, ainda que um pouco menos burro.

Do lado de fora está Rocky Balboa, ítalo-americano, outra minoria indesejável, para o sistema WASP da América do Norte. No palco, antes da luta, está James Brown, sim, o Godfather Of Soul, o Haaaaaaaaardest Man In Showbusiness, fazendo uma apresentação de "Living In America", com sua banda completa. E, pouco depois, Apollo jaz no ringue, logo no segundo assalto, porque Rocky atende a seu pedido de não interromper a luta, custasse o que custasse.
Rocky, o primeiro de uma série de cinco longas, foi feito em 1977 e ganhou o Oscar de melhor filme e melhor roteiro (escrito pelo próprio Sylvester Stallone). Nele, como uma música de Bruce Springsteen, é contada a história de um americano zé mané, burro, de bom coração, que trabalha como cobrador de um agiota e que luta como amador nas horas vagas. Por uma reviravolta do destino, Rocky Balboa tem a chance de enfrentar o campeão mundial, Apollo Doutrinador. Apollo é o modelo do empreendedor bem sucedido. Cuida de sua carreira, usa terno, tem sua negritude esbranquiçada como uma aula de etiqueta da Motown dos anos 60. Mas é o campeão. A luta é dura, os dois caem. Há uma revanche, na seqüência, que Stallone ganha.
A metáfora que há em Rocky é para com a própria América. No primeiro filme, vemos que ela é boa gente, ainda que burra. No segundo, temos sua persistência colocada à prova, diante das tentações materiais da fama e fortuna pelas quais Rocky passa e se submete. Temos a evolução do estado em Rocky III, a preparação para o fim do comunismo em Rocky IV, com a derrota de Ivan Drago em Moscou, pelas mãos de Rocky, com direito a discurso pacifista no final e aplausos de um sósia de Mikhail Gorbatchev num palanque. Rocky V, de 1990, pós-muro de Berlim, é a volta dos USA ao seu próprio umbigo, resolvendo problemas internos, personificados pela decadência de Rocky, as dificuldades de adaptação de seu filho adolescente e a traição de seu pupilo, sucumbindo ao dinheiro fácil de um empresário picareta, que lembra muito o velho Don King, que empresariava dez entre dez lutadores de boxe na aurora dos anos 90, quando Tyson caminhava pela Terra.

E temos Rocky Balboa, o filme, de 2006, o fecho da série, o segundo melhor longa, perdendo apenas para o primeiro episódio. Aqui Rocky está aposentado, sessentão, perdeu a mulher para o câncer e seu filho único tem vergonha dele. No comando de um restaurante, o Adrian’s, Rocky entretêm os clientes com histórias do seu tempo de ringue, num ambiente cheio de fotos e posters dos tempos idos. É a crítica à internet, ao mundo virtual, pois, através de uma simulação de computador, Rocky é colocado no ringue com o atual campeão, Mason Dixon, um esportista movido a grana e que é acusado de lutar burocraticamente. Colocados os dados de ambos no computador, a simulação aponta vitória de Rocky por nocaute no segundo assalto. A chance para uma inusitada volta aos ringues para a despedida oficial tem lugar.
Ainda que possa parecer absurdo, o roteiro de Rocky Balboa – escrito pelo próprio Stallone – é digno de um filme de Clint Eastwood. Não há qualquer esforço em esconder a velhice e as limitações de Rocky, que mostra-se totalmente fora de moda em todos os momentos. Detalhe sentimental pessoal quando ele ouve “Ooo Baby Baby”, de Smokey Robinson, e entabula uma reflexão bronca sobre a velhice das pessoas, das coisas e do mundo. Não se engane, Rocky Balboa é um filmaço.

Todo esse texto pode ser um monte de bobeira de gente trintona meio desocupada ou até pode fazer um certo sentido. Não me importo muito com os Estados Unidos, talvez somente com sua música, mas ver aquela queda de Apollo no ringue de Las Vegas em 1985 é tão sinistro e sintomático como ver a queda do World Trade Center da nossa adolescência. Não pelo impacto ou pela tristeza. Mas pela certeza de que o impossível está acontecendo e, droga, nada podemos fazer.


Atenção: texto machista adolescente abaixo.
Fui ver "Ele Não Está Tão A Fim De Você" no cinema. Sabia que se tratava de um filme de mulher pra mulher, ainda que Ken Kwapis, que já dirigiu episódios de ER, The Office, entre outras séries interessantes da TV americana, ocupasse a cadeira de diretor. Também sabia que o filme era baseado no livro "He's Just Not That Into You: The No-Excuses Truth to Understanding Guys", de Liz Tuccillo e Greg Behrendt, na verdade, um guia comportamental sobre o que as mulheres devem fazer quando um cara não está exatamente disposto a se relacionar "seriamente" com elas.
As aspas para "seriamente" se justificam porque o conceito de relacionamento sério é algo extramamente difícil de se definir. Por isso, deixo de lado essa introdução e parto para o real motivo do texto: foi o primeiro filme em que pude ver minhas duas atrizes favoritas e objeto de fantasias mil juntas, na mesma tela, no mesmo momento, ambas lindas, talentosas e exuberantes: Jennifer Connelly e Scarlett Johanson.
Não se trata de futilidade, o ser humano precisa de fantasia e de pensar ser possível encontrar uma dessas mulheres na rua, nem que seja para dar uma boa conferida clássica. Até então, pelo menos recentemente,Brad Pitt, George Clooney, Matt Damon, Ben Affleck e os demais galãs do momento haviam protagonizado filmes coletivamente e as mulheres se vangloriavam disso. Há algum tempo víamos Robert Redford e Paul Newman nos soberbos Golpe de Mestre e Butch Cassidy and The Sundance Kid, mas, Scarlett e Jenny juntas, foi a glória.
As duas são inteiramente diferentes e extramente interessantes. Scarlett, do alto de seus 24 aninhos, é uma atriz em ascensão evidente, ganhando mais e mais destaque na mídia mundial. Suas participações em Match Point, Scoop e Vicky Cristina Barcelona, três bons filmes de Woody Allen conferiram a ela uma aura cult, que já se insinuava desde sua presença em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Jennifer, por sua vez, do alto de seus incompletos 39 anos, tem uma beleza mais clássica - em oposição à casualidade de Scarlett - e valoriza seus olhos azuis e sua cabeleira negra sempre que pode. Aliás, os aficcionados por louras que me perdoem, mas olhos claros e cabelos negros sempre constituirão uma combinação imbatível.
No tal filminho sobre relacionamentos sérios - engraçadinho, mas meio bobo em alguns momentos - Scarlett é Anna Taylor e Jennifer Connelly é Janine Gunders. Ambas se envolvem num triângulo amoroso com Bradley Cooper. Bradley é Ben Gunders, marido de Janine, um sujeito boa pinta, legal, ético e que se vê no dilema dos sonhos dourados perenes eternos de todo homem mais ou menos normal: escolher entre as duas. Pressionado pela situação inicial, na qual Scarlett lhe dá um dos maiores e mais intensos moles de todos os tempos numa fila de supermercado, o bonitão resolve confessar que é casado e que prefere não pular a cerca. Ótimo, ponto para ele, quer dizer, bem... Afinal de contas, quando chegar em casa, uma Jennifer Connelly de cabelos molhados do banho e dentro de uma camisolinha está esperando por ele. Mas Ben vai cedendo, muito mais pelo fato de seu casamento ter problemas do que pela beleza e simpatia de Scarlett. O sujeito chega a dispensá-la duas vezes antes de ceder a seus encantos e, sim, pular a cerca. Não contarei o fim do filme, mas um sujeito como esse já entra para a galeria dos maiores fdp's sortudos e desgraçadamente abençoados de todos os tempos cinematográficos.
Minha esposa Maria é minha maior leitora. O que será de mim? Talvez nada, afinal de contas, já tive que participar da exibição de filmes com Clooneys, Pitts e - pasmem - Tom Wilkinson no elenco. Sim, minha esposa tem uma queda pelo veterano ator inglês. O que eu posso fazer?
E você? Quem prefere nesse duelo?

Diga-me, você veria um filme inspirado totalmente na “obra” da blogueira Clarah Averbuck? Pagaria – ainda que fosse meia-entrada – para ver quase duas horas de uma versão pequeno-burguesa e inconseqüente de sociopatia light, travestida de marginalidade e “busca pela liberdade de expressão”?
Eu não. Mas fui mesmo assim, principalmente porque a atriz escolhida para o papel chama-se Leandra Leal, certamente um dos maiores nomes da dramaturgia nacional. A menina vai longe, se tudo der certo.
Quanto ao filme de Murilo “Unibanco” Salles, podemos dizer que ele constitui um curioso exemplo de bom trabalho sobre um tema inócuo, o que, aparentemente, tira muito do brilho da empreitada.
Lá pelo inicio da década de 2000, a Internet começou a ser popularizada e uma de suas revoluções foi o advento dos blogs. Com eles, praticamente todo usuário da Grande Rede passou a contar com o poder de emitir opiniões e tê-las publicadas em diários – os tais weblogs, depois chamados de blogs – cuja leitura estava ao alcance de todos. Daí vem a história de Clarah Averbuck, uma gaúcha que iniciou-se no ofício dos blogs nessa época, mais precisamente em 2001, quando mudou-se para São Paulo e iniciou as postagens do diário virtual "brazileira!preta". Logo depois ela lançaria seu primeiro livro, “Maquina de Pinball”, no qual narra seu cotidiano na cidade grande, sempre sob o ponto de vista pessoal e versando sobre amor, ódio, solidão e frustração.
Mais dois livros vieram, “Das Coisas Esquecidas Atrás Da Estantes” e “Vida de Gato”, consolidando a figura da moça como uma espécie de ícone desse universo virtual. A adaptação de “Pinball” para o teatro por Antonio Abujamra em 2003 abriu caminho para a idéia de trazer um mix das histórias de Clarah para o cinema, levada adiante por Elena Soarez e Melanie Damantas, que escreveram o roteiro para Murilo Salles produzir e dirigir Nome Próprio. Ok. E daí?
O filme tem dois méritos bastante louváveis, além da atuação prodigiosa de Leandra Leal: a estética anti-Globo, cheia de silêncios, escuros, vocabulário nada moderado e cenas de sexo implícito – mais reais que as explicitas – e uma aura politicamente incorreta. E, além disso, um time de atores praticamente desconhecidos do grande público, todos com cara de amadores e iniciantes, conferindo ao filme outra aura, a de filme independente.
Assusta, no entanto, a seriedade com que as narrativas umbiguistas de Clarah Averbuck são tratadas por esse pessoal "das artes". Longe de ser um fenômeno ou uma voz a ser ouvida, a blogueira e sua vida passam por uma análise nada isenta por parte do roteiro e tem seu modus vivendi quase glorificado e legitimado, ainda que isso tudo pareça contundente e cru na tela. A Camila de Leandra Leal vive uma marginalidade falsa, experimenta e procura suplantar limites irreais e clama por uma dúbia liberdade de expressão. Todo o suposto arrojo da personagem – que pode ser confundido com má índole, prostituição e mau-caratismo explícitos – é produto de uma sociedade paralela e extremamente tolerante com os desvios sociais e psicológicos, na qual os jovens experimentam toda sorte de drogas e enchem a cara de bebida alcoólica, não como reflexo de suas vidas miseráveis, mas para glorificar o status “marginal”, algo que é mantido com um código de comportamento e conhecimento superficiais da realidade.

É irritante ver uma jovem mulher escrevendo num computador à base de anfetaminas reclamando do namorado que a pôs para fora do apartamento dele porque ela transou com outro, em vez de vê-la procurando um emprego ou algo assim. A alienação atinge um nível desconfortavelmente grande, afinal de contas, a vida dessas pessoas parece existir e fazer sentido apenas nos sites da Internet. Diante da vida real, toda a maquiagem e esperteza somem num redemoinho de erros.
Enquanto clama por uma liberdade de escrita, exercida através da descrição nada ética de suas aventuras em seu blog, Camila não hesita em trair amigos, namorados, leitores e abusa de todos – e talvez dela também – para satisfazer apenas a si mesma, deixando de lado qualquer possibilidade de coexistência.
A pesquisa de Leandra Leal para o papel deu-se com a própria Clarah, mas talvez o trabalho da atriz e sua dedicação ao filme e ao personagem seja muito mais legítima e verdadeira que as palavras de Averbuck. O charme do filme tem muito de sua razão de existir na tênue fronteira que coloca o sofrimento de Camila/Leandra/Clarah em dúvida o tempo todo e na irritação que tanta alienação travestida de marginalidade pode causar em pessoas que não vêem o mundo sob a ótica de um monitor.
Prepare seu estômago e procure ir acompanhado para poder meter o malho em muitas situações ao longo do filme.

O universo das HQ’s tem uma regra de ouro não revelada: o vilão é sempre mais interessante que o herói. Motivos não faltam para isso, talvez o mais evidente seja a capacidade do vilão revelar o lado mais podre e asqueroso do ser humano, seja através daqueles pensamentos e atitudes que chutam as noções de correção para escanteio ou, simplesmente, pelo uso indiscriminado da maldade. Por alguns momentos – porque o herói sempre vence no final – o vilão domina a história usando (perdão pela redundância) toda a sua vilania e todos nós soltamos contidos risos atávicos de satisfação, que deveriam ter ficado em alguma encruzilhada da nossa evolução.
O que me motiva a adentrar esse assunto é, claro, o novo Batman, que acabei de ver no cinema. Mais que isso: o que me assustou no longa de Christopher Nolan foi a capacidade de transcender o âmbito cinematográfico e, por conseguinte, deixar de lado toda a pirotecnia tão comum aos filmes de ação, para penetrar nos subterrâneos que sustentam a história do Batman. Entenda: a pirotecnia está toda lá, em efeitos especiais de tirar o fôlego, mas eles são secundários aqui. Aliás, adianto que qualquer análise desse espetáculo sob a ótica restritiva de tópicos como roteiro, direção e mesmo capacidade dramática dos atores será sempre insuficiente. Batman – The Dark Knight não é apenas cinema. Nolan conseguiu, provavelmente inspirado pelo roteiro que ele mesmo escreveu e pela total compreensão das noções básicas do dilema do herói x vilão, encerrar discussões sobre o assunto e escancarar a sutileza dos traços dos quadrinhos num debate terrível sobre a mente humana. Exagero? Não, não mesmo.
Filmes de heróis foram péssimos ou maravilhosos. X-Men, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Hulk, Hellboy, Quarteto Fantástico, Superman, até mesmo filmes sérios e metafóricos como Corpo Fechado (Unbreakable – 2000), dirigido por M. Night Shyamalan. Os outros episódios cinematográficos do próprio Homem-Morcego foram desastrosos, aqueles dirigidos por Joel Schumacher e Tim Burton, uma sucessão de equívocos e visões moderninhas com transgressão estética confundida com mau gosto. Exceto pelo anterior, Batman Begins, também dirigido e escrito por Nolan, trazendo o surpreendente Christian Bale no papel do milionário Bruce Wayne, o velho morcegão caminhava para uma injusta carreira na tela grande.
Pois bem, temos então Batman – O Cavaleiro das Trevas. A história traz nosso herói mascarado às voltas com seu maior inimigo, o Coringa. É dele que quero falar e não tem nada a ver com a atuação de Heath Ledger. Antes, porém, é preciso dizer que Ledger teve seu maior momento no cinema na pele do terrível criminoso desfigurado. Nenhum papel vivido pelo jovem ator australiano – precocemente morto no inicio desse ano – foi tão arrebatador quanto esse. Dizem os rumores que a overdose de tranqüilizantes que o matou num quarto de hotel foi uma conseqüência da atuação e pesquisa de Ledger para encarnar o Coringa. O próprio ator disse em entrevistas que usou várias fontes de inspiração para encarnar o maior rival do Batman, inclusive as performances de John Lydon à frente dos Sex Pistols e do P.I.L.
O que precisa ser dito é que a alquimia dos quadrinhos criados por Bob Kane e Bill Finger para a DC Comics, a visão de Nolan ao dirigir o filme e escrever o roteiro e, sim, a atuação de Ledger, proporcionaram um painel terrível das mais escuras facetas humanas.
O Coringa nunca foi um bandido comum. Ele nunca cometeu seus crimes visando lucro ou algo no gênero. Sua maldade é ilimitada, sua visão da humanidade é a mesma que um cientista tem de suas cobaias, e ele se vale de uma isenção – proporcionada por sua condição mental, digamos, alterada – para brincar de machucar quem ele quiser. Há quem diga que o Coringa não é um mero louco, mas alguém terrivelmente são, a ponto de desenvolver um estado de percepção, digamos, superior ao resto das pessoas.

Ao longo do filme ele manipula pessoas, fatos, se vale da influência e do medo que gera nos criminosos comuns e vislumbra com exatidão o alvo que precisa ser atacado. Ele é um agente do caos – como o personagem se define em certo momento – e não pretende parar. Na verdade, o Coringa propicia reflexão sobre a própria natureza do herói e a coloca em xeque, a partir do momento que as regras morais que são seguidas por Batman – e não por ele, Coringa – são os verdadeiros mecanismos que engessam a sociedade.
Em miúdos: o Batman precisa do Coringa e vice-versa. Por isso a idéia maior não é destruir o herói mascarado, mas atacar os valores e erodir lentamente a sociedade que ele defende. Levar o caos aonde existe ordem. Batman, por sua vez, não se dá conta de que precisa de gente como o Coringa para existir. Enquanto criminosos comuns são perseguidos e presos em Gotham City – uma metáfora sinistra da sociedade americana do século XXI criada pelos governos Bush – pela ação da Justiça (personificada pelo promotor Harvey Dent – vivido por Aaron Eckhart), o Batman assume uma condição secundária no cenário, apenas ajudando a polícia e talvez combatendo o crime de uma maneira mais rápida e eficiente. Aliás, convém lembrar da atuação de Gary Oldman no papel do Comissário Gordon. Ele é o homem comum no olho do furacão. Entre bandidos, corrupção e reviravoltas mil, Gordon é o policial que ainda acredita em valores, que vai pra rua prender os ladrões e tenta voltar pra casa toda noite. Oldman – que viveu um policial viciado em drogas em O Profissional, de Luc Bresson – está soberbo, assim como Morgan Freeman, Michael Caine, o elenco de apoio é um desfile no tapete vermelho de Hollywood.
Quando entram em cena a corrupção e a falta de ética, Batman, Gordon e Dent se vêem incapazes em lidar com a situação, pois eles mesmos são vítimas em potencial da mesma inversão de valores que tentam combater. Batman/Bruce Wayne se vê às voltas com o sacrifício de sua vida normal para combater o crime e Dent tem sua vida modificada para sempre por não se corromper. A partir disso, surge outro inimigo do tradicional do Batman, o Duas Caras. Por trás disso tudo, se valendo de uma inteligência privilegiada, o Coringa manipula a todos como marionetes.

Em poucos filmes de heróis se viu um desnudamento tão grande da psique humana. Talvez em alguns momentos da saga X-Men, pela própria dualidade entre mocinhos e bandidos proposta pela trama de Stan Lee, tenha sido tão “normal” ser mau e tão “chato” ser bom. Em Batman, talvez tristemente, ser “mau” é praticamente ser humano e isso é assustador. Não se engane com toda a linguagem corporal exagerada e genial do Coringa de Ledger. Está tudo ali.
Batman – The Dark Knight é um passeio audacioso no lado escuro da alma e extrapola o âmbito dos filmes de heróis coloridos e justos.

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
| Next >
| Dom | Seg | Ter | Qua | Qui | Sex | Sab |
|---|---|---|---|---|---|---|
| << < | ||||||
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 | |||||