Categoria: Relacionamentos

A Irritação com Nome Próprio

15.09.08 | por Cel | Categorias: Blogosfera, Cinema, Comportamento, Relacionamentos

leandra

Diga-me, você veria um filme inspirado totalmente na “obra” da blogueira Clarah Averbuck? Pagaria – ainda que fosse meia-entrada – para ver quase duas horas de uma versão pequeno-burguesa e inconseqüente de sociopatia light, travestida de marginalidade e “busca pela liberdade de expressão”?

Eu não. Mas fui mesmo assim, principalmente porque a atriz escolhida para o papel chama-se Leandra Leal, certamente um dos maiores nomes da dramaturgia nacional. A menina vai longe, se tudo der certo.

Quanto ao filme de Murilo “Unibanco” Salles, podemos dizer que ele constitui um curioso exemplo de bom trabalho sobre um tema inócuo, o que, aparentemente, tira muito do brilho da empreitada.

Lá pelo inicio da década de 2000, a Internet começou a ser popularizada e uma de suas revoluções foi o advento dos blogs. Com eles, praticamente todo usuário da Grande Rede passou a contar com o poder de emitir opiniões e tê-las publicadas em diários – os tais weblogs, depois chamados de blogs – cuja leitura estava ao alcance de todos. Daí vem a história de Clarah Averbuck, uma gaúcha que iniciou-se no ofício dos blogs nessa época, mais precisamente em 2001, quando mudou-se para São Paulo e iniciou as postagens do diário virtual "brazileira!preta". Logo depois ela lançaria seu primeiro livro, “Maquina de Pinball”, no qual narra seu cotidiano na cidade grande, sempre sob o ponto de vista pessoal e versando sobre amor, ódio, solidão e frustração.

Mais dois livros vieram, “Das Coisas Esquecidas Atrás Da Estantes” e “Vida de Gato”, consolidando a figura da moça como uma espécie de ícone desse universo virtual. A adaptação de “Pinball” para o teatro por Antonio Abujamra em 2003 abriu caminho para a idéia de trazer um mix das histórias de Clarah para o cinema, levada adiante por Elena Soarez e Melanie Damantas, que escreveram o roteiro para Murilo Salles produzir e dirigir Nome Próprio. Ok. E daí?

O filme tem dois méritos bastante louváveis, além da atuação prodigiosa de Leandra Leal: a estética anti-Globo, cheia de silêncios, escuros, vocabulário nada moderado e cenas de sexo implícito – mais reais que as explicitas – e uma aura politicamente incorreta. E, além disso, um time de atores praticamente desconhecidos do grande público, todos com cara de amadores e iniciantes, conferindo ao filme outra aura, a de filme independente.

Assusta, no entanto, a seriedade com que as narrativas umbiguistas de Clarah Averbuck são tratadas por esse pessoal "das artes". Longe de ser um fenômeno ou uma voz a ser ouvida, a blogueira e sua vida passam por uma análise nada isenta por parte do roteiro e tem seu modus vivendi quase glorificado e legitimado, ainda que isso tudo pareça contundente e cru na tela. A Camila de Leandra Leal vive uma marginalidade falsa, experimenta e procura suplantar limites irreais e clama por uma dúbia liberdade de expressão. Todo o suposto arrojo da personagem – que pode ser confundido com má índole, prostituição e mau-caratismo explícitos – é produto de uma sociedade paralela e extremamente tolerante com os desvios sociais e psicológicos, na qual os jovens experimentam toda sorte de drogas e enchem a cara de bebida alcoólica, não como reflexo de suas vidas miseráveis, mas para glorificar o status “marginal”, algo que é mantido com um código de comportamento e conhecimento superficiais da realidade.

leandra1

É irritante ver uma jovem mulher escrevendo num computador à base de anfetaminas reclamando do namorado que a pôs para fora do apartamento dele porque ela transou com outro, em vez de vê-la procurando um emprego ou algo assim. A alienação atinge um nível desconfortavelmente grande, afinal de contas, a vida dessas pessoas parece existir e fazer sentido apenas nos sites da Internet. Diante da vida real, toda a maquiagem e esperteza somem num redemoinho de erros.

Enquanto clama por uma liberdade de escrita, exercida através da descrição nada ética de suas aventuras em seu blog, Camila não hesita em trair amigos, namorados, leitores e abusa de todos – e talvez dela também – para satisfazer apenas a si mesma, deixando de lado qualquer possibilidade de coexistência.

A pesquisa de Leandra Leal para o papel deu-se com a própria Clarah, mas talvez o trabalho da atriz e sua dedicação ao filme e ao personagem seja muito mais legítima e verdadeira que as palavras de Averbuck. O charme do filme tem muito de sua razão de existir na tênue fronteira que coloca o sofrimento de Camila/Leandra/Clarah em dúvida o tempo todo e na irritação que tanta alienação travestida de marginalidade pode causar em pessoas que não vêem o mundo sob a ótica de um monitor.

Prepare seu estômago e procure ir acompanhado para poder meter o malho em muitas situações ao longo do filme.

A Quitanda das Vaidades

15.09.08 | por Cel | Categorias: Comportamento, Cotidiano, Relacionamentos

quitanda

Ontem eu zapeava pelos canais fechados e me espantava com a pobreza da programação que a maioria do povo tem à disposição em suas televisões.

O humor com validade vencida do Casseta & Planeta Urgente, o filme reprisado do SBT, a inacreditável novela mutante da Record e, bem, o Superpop da Rede TV, com Luciana Gimenez à frente. Passei pelo programa na hora em que o funk carioca rolava solto, com um agrupamento de seres lamentáveis tomando o palco, “cantando” e dançando as “músicas”. O indefectível MC Creu e suas dançarinas – Mulher Jaca e Mulher Moranguinho – ,o MC Frank e sua dançarina – a Mulher Melão – o grupo Malhafunk e a sobrinha de Gretchen, Caroline Miranda, ao lado do MC Lips.

Sim, meus senhores e senhoras, eu anotei esses nomes, claro. Não me estranha, entretanto, o conceito hortifrutigranjeiro que se assenhorou das novas musas da mídia classe B/C. A tal Mulher Melancia, ex-dançarina do MC Creu, já está no seu décimo-segundo minuto de fama (em tese só faltam três minutos para que ela suma de vez) completa o balcão da quitanda das vaidades. Melancia, melão, moranguinho, jaca e, numa expansão de mercado, há também uma certa Mulher Filé, cujas informações maiores são desconhecidas. A tal sobrinha de Gretchen, que jura ser virgem aos 18 anos de idade e desenvolvendo uma versão “funk” das coreografias eternizadas por sua tia nos anos 80, é a mais interessante da quitanda.

Mas não pode abrir a boca ou pensar (sic). A tal “canção” que ela “interpreta” ao lado do tal MC Lips é “Meu Selinho”, vem com uma letra sacana de duplo sentido, fazendo analogia entre o “selinho” que é beijo e que é o preferido da “moça” e aquele que denota a virgindade propalada por ela, este, o preferido de MC Lips, que, apesar da disposição em conquistar a rebolativa morena, não me pareceu muito chegado.

Triste, nada menos que isso.

A certeza de que essa escrotização da beleza feminina é algo setorial e (esperamos) passageiro fica maior quando me deparo, umas doze horas depois, com as presenças de Joss Stone e Ana Ivanovic na programação aberta, proporcionada pela Sky.

Me pergunto se a maioria das pessoas que é fã da quitanda das vaidades tem noção da existência da bela tenista sérvia, número 1 do ranking mundial ou da cantora pop inglesa, que esteve recentemente no país. Concluo que não. Ivanovic que suou o vestidinho branco para vencer a francesa Nathalie Dechy hoje, pela terceira rodada do Torneio de Wimbledon – é uma pequena princesa balcânica. “Pequena” talvez não seja o termo exato, pois a sérvia, de 21 anos, possui interessantes 1,85m de altura e exibe um biotipo moreno irresistivelmente belo, além de parecer uma menina comum.

ivanovic

Claro, Ivanovic já faturou cerca de cinco milhões de dólares desde que começou a carreira, o que a destaca das “meninas comuns” que vemos por aí. Ela é mais interessante – aos olhos desse que vos escreve, pelo menos – que a russa Maria Sharapova, mas isso já é outra discussão. Joss Stone também tem beleza espantosa, simpatia cativante (comprovada in loco no show que ela deu no Vivo Rio) e alguns milhões na conta bancária, tendo em vista as vendagens de seus três discos, The Soul Sessions; Mind, Body & Soul e Introducing Joss Stone, lançados entre 2003 e 2007. Joss apareceu para o mundo com 16 anos e hoje, com a mesma idade de Ana Ivanovic, é uma jovem pra lá de bem sucedida. E o que elas têm a ver com os padrões de beleza da televisão brasileira? Nada, aparentemente, né?

joss

A relação é clara, mesmo que não pareça. Qual a diferença dos modelos de inspiração para a juventude planetária? As meninas da Quitanda das Vaidades e a dupla Ivanovic-Stone? Quem é mais interessante para as jovens? Mesmo que todas elas – mais e menos vulgares – atraiam o público masculino por diferentes motivos e mesmo fim, todas elas atraem o publico feminino pela mesma razão. São exemplos de vitórias pessoais que se tornaram publicas e são marteladas pela mídia em seus diferentes canais.

Muitas meninas brasileiras da classe média podem achar que rebolar num programa de televisão, posar para revistas masculinas e faturar um milhão de reais num Big Brother Brasil é o máximo em termos de objetivo para toda uma vida. É uma carreira que acaba tão cedo como, por exemplo, a carreira de Ivanovic, lá pelos trinta anos de idade. E as meninas do Primeiro Mundo? Também devem achar o mesmo, oras. O ser humano é igual em todo o planeta, pelo menos em essência e convicções. A certeza que ficou dessa pequena ponderação sobre mulheres é que nós – os homens – estabelecemos o padrão de beleza variável de acordo com várias circunstâncias e fatores. Os que desejam um contato mais objetivo com a mulherada devem preferir a mesma objetividade que as mulheres-fruta apresentam em suas aparições.

Os que ainda pensam em etapas intermediárias podem preferir Ivanovic ou Stone, principalmente pelo fato delas serem virtualmente impossíveis e as fantasias mais legais são aquelas que permanecem assim por um bom tempo, talvez pra sempre. Quem não gostaria de jantar com Ana Ivanovic e vê-la se interessando por fatos corriqueiros do cotidiano ou descobrindo afinidades de gosto? Ou quem acharia dispensável levar Joss Stone ao cinema para assisitir um desses filmes de mulherzinha e vê-la se emocionar com uma cena qualquer? Garanto que um número enorme de sujeitos mundo afora adoraria fazer esses programas com as moçoilas. Assim como há uma multidão igualmente maior que preferia uma bela salada de frutas bem rápida, sem tempo para pensar qual fruta foi servida. Há gosto, tempo, vontade e disposição pra tudo.

carol

Agora, cá entre nós: fica difícil convencer a esposa de que esse texto tem pretensões puramente sociológicas, não é? Talvez a presença de gente como Brad Pitt, George Clooney e até um certo Tom Wilkinson no imaginário feminino nos dê a chance desses passeios no mundo da fantasia. Do contrário, estaríamos perdidos e mal pagos. Não acha?



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

Novembro 2009
DomSegTerQuaQuiSexSab
<< <   
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930     

cerebro1

powered by b2evolution free blog software


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]