
O universo das HQ’s tem uma regra de ouro não revelada: o vilão é sempre mais interessante que o herói. Motivos não faltam para isso, talvez o mais evidente seja a capacidade do vilão revelar o lado mais podre e asqueroso do ser humano, seja através daqueles pensamentos e atitudes que chutam as noções de correção para escanteio ou, simplesmente, pelo uso indiscriminado da maldade. Por alguns momentos – porque o herói sempre vence no final – o vilão domina a história usando (perdão pela redundância) toda a sua vilania e todos nós soltamos contidos risos atávicos de satisfação, que deveriam ter ficado em alguma encruzilhada da nossa evolução.
O que me motiva a adentrar esse assunto é, claro, o novo Batman, que acabei de ver no cinema. Mais que isso: o que me assustou no longa de Christopher Nolan foi a capacidade de transcender o âmbito cinematográfico e, por conseguinte, deixar de lado toda a pirotecnia tão comum aos filmes de ação, para penetrar nos subterrâneos que sustentam a história do Batman. Entenda: a pirotecnia está toda lá, em efeitos especiais de tirar o fôlego, mas eles são secundários aqui. Aliás, adianto que qualquer análise desse espetáculo sob a ótica restritiva de tópicos como roteiro, direção e mesmo capacidade dramática dos atores será sempre insuficiente. Batman – The Dark Knight não é apenas cinema. Nolan conseguiu, provavelmente inspirado pelo roteiro que ele mesmo escreveu e pela total compreensão das noções básicas do dilema do herói x vilão, encerrar discussões sobre o assunto e escancarar a sutileza dos traços dos quadrinhos num debate terrível sobre a mente humana. Exagero? Não, não mesmo.
Filmes de heróis foram péssimos ou maravilhosos. X-Men, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Hulk, Hellboy, Quarteto Fantástico, Superman, até mesmo filmes sérios e metafóricos como Corpo Fechado (Unbreakable – 2000), dirigido por M. Night Shyamalan. Os outros episódios cinematográficos do próprio Homem-Morcego foram desastrosos, aqueles dirigidos por Joel Schumacher e Tim Burton, uma sucessão de equívocos e visões moderninhas com transgressão estética confundida com mau gosto. Exceto pelo anterior, Batman Begins, também dirigido e escrito por Nolan, trazendo o surpreendente Christian Bale no papel do milionário Bruce Wayne, o velho morcegão caminhava para uma injusta carreira na tela grande.
Pois bem, temos então Batman – O Cavaleiro das Trevas. A história traz nosso herói mascarado às voltas com seu maior inimigo, o Coringa. É dele que quero falar e não tem nada a ver com a atuação de Heath Ledger. Antes, porém, é preciso dizer que Ledger teve seu maior momento no cinema na pele do terrível criminoso desfigurado. Nenhum papel vivido pelo jovem ator australiano – precocemente morto no inicio desse ano – foi tão arrebatador quanto esse. Dizem os rumores que a overdose de tranqüilizantes que o matou num quarto de hotel foi uma conseqüência da atuação e pesquisa de Ledger para encarnar o Coringa. O próprio ator disse em entrevistas que usou várias fontes de inspiração para encarnar o maior rival do Batman, inclusive as performances de John Lydon à frente dos Sex Pistols e do P.I.L.
O que precisa ser dito é que a alquimia dos quadrinhos criados por Bob Kane e Bill Finger para a DC Comics, a visão de Nolan ao dirigir o filme e escrever o roteiro e, sim, a atuação de Ledger, proporcionaram um painel terrível das mais escuras facetas humanas.
O Coringa nunca foi um bandido comum. Ele nunca cometeu seus crimes visando lucro ou algo no gênero. Sua maldade é ilimitada, sua visão da humanidade é a mesma que um cientista tem de suas cobaias, e ele se vale de uma isenção – proporcionada por sua condição mental, digamos, alterada – para brincar de machucar quem ele quiser. Há quem diga que o Coringa não é um mero louco, mas alguém terrivelmente são, a ponto de desenvolver um estado de percepção, digamos, superior ao resto das pessoas.

Ao longo do filme ele manipula pessoas, fatos, se vale da influência e do medo que gera nos criminosos comuns e vislumbra com exatidão o alvo que precisa ser atacado. Ele é um agente do caos – como o personagem se define em certo momento – e não pretende parar. Na verdade, o Coringa propicia reflexão sobre a própria natureza do herói e a coloca em xeque, a partir do momento que as regras morais que são seguidas por Batman – e não por ele, Coringa – são os verdadeiros mecanismos que engessam a sociedade.
Em miúdos: o Batman precisa do Coringa e vice-versa. Por isso a idéia maior não é destruir o herói mascarado, mas atacar os valores e erodir lentamente a sociedade que ele defende. Levar o caos aonde existe ordem. Batman, por sua vez, não se dá conta de que precisa de gente como o Coringa para existir. Enquanto criminosos comuns são perseguidos e presos em Gotham City – uma metáfora sinistra da sociedade americana do século XXI criada pelos governos Bush – pela ação da Justiça (personificada pelo promotor Harvey Dent – vivido por Aaron Eckhart), o Batman assume uma condição secundária no cenário, apenas ajudando a polícia e talvez combatendo o crime de uma maneira mais rápida e eficiente. Aliás, convém lembrar da atuação de Gary Oldman no papel do Comissário Gordon. Ele é o homem comum no olho do furacão. Entre bandidos, corrupção e reviravoltas mil, Gordon é o policial que ainda acredita em valores, que vai pra rua prender os ladrões e tenta voltar pra casa toda noite. Oldman – que viveu um policial viciado em drogas em O Profissional, de Luc Bresson – está soberbo, assim como Morgan Freeman, Michael Caine, o elenco de apoio é um desfile no tapete vermelho de Hollywood.
Quando entram em cena a corrupção e a falta de ética, Batman, Gordon e Dent se vêem incapazes em lidar com a situação, pois eles mesmos são vítimas em potencial da mesma inversão de valores que tentam combater. Batman/Bruce Wayne se vê às voltas com o sacrifício de sua vida normal para combater o crime e Dent tem sua vida modificada para sempre por não se corromper. A partir disso, surge outro inimigo do tradicional do Batman, o Duas Caras. Por trás disso tudo, se valendo de uma inteligência privilegiada, o Coringa manipula a todos como marionetes.

Em poucos filmes de heróis se viu um desnudamento tão grande da psique humana. Talvez em alguns momentos da saga X-Men, pela própria dualidade entre mocinhos e bandidos proposta pela trama de Stan Lee, tenha sido tão “normal” ser mau e tão “chato” ser bom. Em Batman, talvez tristemente, ser “mau” é praticamente ser humano e isso é assustador. Não se engane com toda a linguagem corporal exagerada e genial do Coringa de Ledger. Está tudo ali.
Batman – The Dark Knight é um passeio audacioso no lado escuro da alma e extrapola o âmbito dos filmes de heróis coloridos e justos.

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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