Categoria: Música

Os 63 Melhores Discos Internacionais (1999-2009)

15.11.09 | por Cel | Categorias: Música

63

Demorou, mas saiu. Ao concluir essa lista de melhores discos internacionais desta década, pude perceber que a quantidade de trabalhos interessantes e que mereciam estar entre os álbuns abaixo era bem grande. Surpreendente, principalmente para um crítico ferrenho dos rumos que a música pop tomou nos anos 00.

Uma olhada mais atenta à lista traduzirá uma decepção grande com as bandas de "rock" formadas e catapultadas ao sucesso nesses dez anos. O rockinho decalcado de anos 80 dos Strokes, a suposta revisitação punk-blues do White Stripes, o cabecismo inatacável do Radiohead, tudo isso passou longe dos escolhidos. Além disso, procurei colocar nomes que você não verá em nenhuma outra lista de melhores discos da década, ainda que a presença deles aqui seja justíssima.

Dessa vez não atribuirei valor nenhum aos discos. Ao contrário das categorizações da lista de melhores nacionais da década, aqui só teremos os trabalhos, ordenados pelo ano de lançamento, começando em 1999 e chegando a 2009.

Os comentários sobre os escolhidos também estão menores principalmente para agilizar a leitura dos discos, concentrando o espaço para discussões, reclamações, tapas e beijos nos comentários. Sintam-se à vontade!

vinil

Fountains of Wayne - Utopia Parkway (1999)

Segundo disco da banda de New Jersey, sob o comando de Adam Schlesinger. Canções sobre amores,carros, desilusões, shows de rock e tudo mais que nos interessa e diz respeito. A sonoridade traz o melhor que o powerpop é capaz de produzir. Uma beleza.

Ben Folds Five - The Autobiography of Reinhold Messner (1999)

Terceiro e último disco de Ben Folds à frente de seu "five", na verdade, o baixista Robert Sledge e o baterista Darren Jessee. É também o trabalho mais arrojado do trio, trazendo as maravilhosas canções "piano driven" de Folds ousando em território experimental. Depois ele embarcaria numa carreira solo simpática, mas nunca capaz de alcançar seus melhores momentos com sua banda.

Avalanches - Since I Left You (2000)

Composto em sua totalidade por samplers e colagens, esse primeiro disco dos australianos do Avalanches parece executado por seres humanos. Da abertura que emula cocktails numa piscina da Ilha da Fantasia (com a faixa-título) até o final da viagem, esse disco é um passeio numa Disneyworld sonora para quem cresceu nos anos 70 e 80. Maravilhoso.

avalanches

Phoenix - United (2000)

O primeiro trabalho dos franceses do Phoenix não é o seu melhor (condição que cabe mais apropriadamente ao último disco deles, Wolfgang Amadeus Phoenix, desse ano, também incluído na lista), mas traz uma banda na determinada missão de soar como uma formação setentista. Para gauleses supostamente sem tarimba nos mistérios do soft rock e do powerpop, o Phoenix cravou nesse disco uma das melhores canções da década, com "Too Young".

Lambchop - Nixon (2000)

Uma dúzia de músicos no palco, tocando canções sombrias que misturam a languidês do soul setentista com acepipes country obscuros. Assim é o Lambchop, cujo líder, Kurt Wagner, detém um dos registros mais graves do rock. Músicas como "You Masculine You" ou "Grumpus" comprovam a excelência dessa estranha banda de Nashville.

A-Ha - Minor Earth, Major Sky (2000)

Depois de sete anos sem lançar um disco, os noruegueses do A-Ha vieram repaginados e mantendo a competência dos anos 80. Minor Earth, Major Sky é um discaço, com a voz perfeita de Morten Harket ainda mantendo a mesma versatilidade de 1984 e composições belíssimas, com destaque para a épica "Summer Moved On". O segundo melhor disco do trio, perdendo apenas para Scoundrel Days, de 1986.

a-ha

Coldplay - Parachutes (2000)

O primeiro disco da banda de Chris Martin traz uma das melhores sequências da década, começando com "Don't Panic" e chegando à sexta música, "Trouble". Melancolia, arranjos soturnos, pianos que pegam uma estrada alternativa da highway cabeçona do Radiohead e uma garra de banda iniciante credenciam Parachutes para a lista. Ninguém poderia supor que Martin se tornaria uma das maiores malas do showbiz.

Sea and Cake - Oui (2000)

Sam Prekop sempre foi o cérebro do Sea and Cake e esse quinto disco da banda de Chicago trazia um forte acento eletrônico, no sentido Stereolab do termo, principalmente pelo fato do baterista John McEntire ter produzido dois álbuns da banda anglo-francesa. De qualquer forma, ainda que diferente dos trabalhos anterioes, Oui traz belas canções, principalmente as duas que abrem o disco, "Afternoon Speaker" e "All The Photos", que produzem efeitos ainda melhores se ouvidas interligadas.

U2 - All That You Can't Leave Behind (2000)

Este é o último grande disco do U2 e significa um retorno à sonoridade mais simples que a banda praticava no final dos anos 80. Não que este seja um trabalho revisionista, mas o produtor Brian Eno soube recolocar o U2 nos trilhos após a empreitada camp de Pop, disco de 1997 da banda. Composições belas como "Beautiful Day" e "Elevation" também se inserem entre as melhores já produzidas pela lavra de Bono, Edge, Adam Clayton e Larry Jr.

u2

Modest Mouse - Moon and Antarctica (2000)

O quarto disco da banda de Isaack Brock é, ao mesmo tempo, sua estreia numa grande gravadora e seu melhor trabalho. O Modest Mouse conseguia nesse disco dar foco à sonoridade indie-progressiva que perpetrava desde o início da carreira em 1993. Além disso, canções mais curtas e falando de morte ou medo, como "Tiny Cities Made Of Ashes" ou "The Stars Are Projectors" são belos exemplos de como muita gente querida nos meios independentes nunca deixou de ouvir rock progressivo.

Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2001)

O grande trabalho do Wilco, a grande mutação da banda de pop/alternative country num combo guitarreiro obscuro. Mesmo que YHF não tivesse uma mitologia própria, principalmente pela persistência da banda em lançá-lo contra a vontade da gravadora, Jeff Tweedy e seus asseclas mostram-se insuperáveis. A beleza triste e empoeirada de canções como "Ashes Of American Flags" ou "I Am Trying To Break Your Heart" constrastam com a ingenuidade de "Heavy Metal Drummer", num disco praticamente perfeito.

Bob Dylan - Love and Theft (2001)

O bardo dando provas de vida. Dylan manteve nesse disco a classe e a competência de Time Out Of Mind, seu trabalho anterior e reafirmou o belo entrosamento com o produtor Daniel Lanois. Com a rouquidão de um velho lobo misterioso, Dylan assume sua porção blues em momentos iluminados como "Mississippi", "Summer Days" e "Tweedle Dee, Tweedle Dum" e abre caminho para uma discreta reinvenção estética em seu trabalho.

dylan

My Morning Jacket - At Dawn (2001)

O segundo disco desses moleques do Kentucky, comandados pelo maluquete Jim Jones é o mais próximo que outro artista conseguiria chegar da persona folk de Neil Young. Não bastasse o timbre vocal de Jones ser praticamente idêntico, canções como "Lowdown" também mostram que a banda é capaz de forjar uma sonoridade própria, livrando-se do rótulo de mero copydesk. A sensação de que estamos ouvindo um disco de 1973/74, no entanto, é irresistível.

Weezer - Green Album (2001)

A banda de Rivers Cuomo retornava de um hiato de cinco anos, no qual boatos davam conta de seu fim, agravado pelo fato de Cuomo ter, inclusive, retornado à universidade. O fato é que o Green Album, terceiro disco do Weezer, trazia toda a fórmula vencedora da estreia, em 1994, ou seja: produção de Ric Okasec (dos Cars), canções nerds sobre o amor numa América na qual os valentões sempre vencem, duas
colheres de riffs do Van Halen, romantismo cinquentista de gosto duvidoso, uma armação de óculos do Devo e duas porções de new wave de boa procedência. O resultado está em canções como "Island In The Sun" ou "O Girlfriend".

Ryan Adams - Gold (2001)

Nessa época, Ryan Adams era apenas o ex-líder do Whiskeytown, tentando mantes o nível de Heartbreaker, sua aguardada estreia como artista solo. Gold ainda é seu melhor disco, aquele que trouxe um equilíbrio pop entre as canções do passado alt-country de Adams, mas que também mostrou a capacidade do moço como bom compositor de canções como "The Rescue Blues" ou "La Cienega Just Smiled".

ryan adams

Death Cab For Cutie - Photo Album (2001)

O DCFC é uma banda de Seattle mas nada tem em comum com as formações grunges que vieram de lá. Sob a batuta de Ben Gibbard e Chris Walla, este terceiro disco traz canções de rara beleza como "Movie Script Ending", "We Laugh Indoors" e a inspiradíssima "Blacking Out Of Friction", todas aliando lirismo e um instrumental que traz muito de grupos diferentes como Weezer e Big Star.

Daft Punk - Discovery (2001)

O segundo disco da dupla francesa mostra um outro lado da moeda revisionista, jogada ao alto na estreia do Daft Punk, Homework. Se nesse disco eles buscam a redenção da dance music eletrônica por meio de teclados amadores num estúdio nos fundos da casa, em Discovery eles ampliam essa busca para os grandes ambientes, as grandes pistas de dança. Ainda conseguiram revestir o disco com uma aura
setentista que faria inveja a baluartes daquele tempo como a Electric Light Orchestra, que também poderia ser autora da multiplatinada "One More Time".

Paul Westerberg - Stereo (2002)

O ex-líder dos Replacements só acertou a mão em sua carreira solo neste quarto disco. Dava a impressão que Westerberg seria um popstar dos anos 90 a julgar por sua participação na trilha do filme Singles - Vida de Solteiro e seu primeiro disco, 14 Songs. Previsão errada, Paul só encontrou seu passo nesse Stereo, um mix de riffs dos Stones, com folk de Neil Young e composições belas como "High Times" e "Eyes Like Sparks".

paul westerberg

Flaming Lips - Yoshimi Battles The Pink Robots (2002)

Quase uma ópera psicodélica moderna, esse disco da banda do maluquete Wayne Coyne alcança uma sonoridade que nem eles conseguiram igualar nos trabalhos seguintes. Misturando ecos de Pink Floyd com ideário de séries japonesas de quinta categoria, há lugar em Yoshimi para tudo, até para um plágio descarado de "Father And Son" (de Cat Stevens) em "Fight Test", o grande hit do disco. Ainda assim, um álbum sensacional.

Bill Ricchini - Ordinary Life (2002)

Um pós-adolescente entra no porão de sua casa na Filadélfia e, sob a influência de Nick Drake e Eliott Smith, resolve gravar um disco. Essa é a bula para o entendimento inicial desse Ordinary Life, um trabalho triste, melancólico e, acima de tudo, belo. Ricchinni toca todos os instrumentos, entre eles xilofone e trumpete, e consegue passar uma noção que está secundado por uma banda. Destaque para "Like an X-Ray", "Julie Christie" e a melhor do disco, "Rain Parade".

Supergrass - Life on Other Planets (2002)

O quarto disco do Supergrass foi seu último álbum realmente criativo. E também o mais interessante, ainda mais que sua estreia ou o homônimo disco de 1999. Em LOOP, o Supergrass honra sua herança mod e atinge o status de "primeira divisão" do rock inglês, além de desvincular-se do decadente britpop - um movimento que ele apenas tangenciou. Com músicas enguitarradas e a voz de Gaz Coombes em bela forma, músicas como "Grace" e "Seen The Light" são os destaques por aqui.

supergrass

Bruce Springsteen - The Rising (2002)

O Boss reencontrou a boa verve de sempre neste disco deliberadamente simples. Não que isso desmereça The Rising, pelo contrário. Aqui Bruce fala do 11 de setembro e critica o governo Bush ("Lonesome Day", "My City Of Ruins"), mas também retoma sua veia pop mais desencanada ao homenagear Smokey Robinson em "Waiting On A Sunny Day", uma pequena gema encravada nesse belo feixe de músicas sinceras e pungentes.

Queens of the Stone Age - Song for the Deaf (2002)

Não que o QOTSA seja uma banda superestimada ou que Josh Homme, o sujeito que inventou o stoner rock com seu Kyuss nos anos 90 seja por demais endeusado. O fato é que esse disco do Queens traz uma solução para a ausência de rock "pesado" e com pegada razoavelmente pop, igualmente pervertido e "de macho", que o stoner nunca conseguiu solucionar, muito menos outros gêneros como o grunge, por exemplo. Aqui, com a ajuda de Dave Grohl e Mark Lanegan em canções bem feitas como "No One Knows", o QOTSA mostra ao que veio.

Solomon Burke - Don't Give up on Me (2002)

Muita gente pensa que sabe o que é soul. E este homem, amigos, é um de seus baluartes. Relegado a um injustíssimo segundo plano nos anos 80 e 90, Burke foi citado por Nick Hornby em Alta Fidelidade e, talvez por coincidência, pouco após a adoção do livro como um bíblia para machos sensíveis dos anos 00, King Solomon voltou a gravar material relevante. Aqui ele recebe composições de Van Morrison, Elvis Costello, Brian Wilson e Bob Dylan, além de contar com Daniel Lanois na guitarra e Joe Henry na produção. Resultado: imperdível.

solomon burke

Pernice Brothers - Yours, Mine and Ours (2002)

Os Pernice Brothers ainda são um segredo para muita gente. Joe Pernice tem uma voz que poderia figurar entre as melhores do pop/rock contemporâneo, além de ser um excelente compositor. Nesse disco ele aparece com sua banda rezando na cartilha do powerpop perfeito setentista, seja ele de Elvis Costello ou do Badfinger, trazendo
gemas como "Weakest Shade Of Blue" ou a comovente "Baby In Two", uma perplexa canção sobre separação, cheia de humor negro. Mestres.

Camera Obscura - Biggest Bluest Hi-Fi (2002)

Esse grupo escocês, assim como seus amigos do Belle And Sebastian, procura revisitar o pop alegrinho dos anos 60 e 70. O Camera Obscura, no entanto, é muito mais consistente e tem ambições maiores quando lança discos. Os vocais de Tracyanne Campbell parecem com os de Tracey Thorn quando apareceu para o mundo a bordo do Everything But The Girl, lá nos anos 80. Neste disco, produzido por Stuart Murdoch (do Belle And Sebastian), o Camera Obscura oferece um feixe de dez
belezinhas agridoces das quais "Eighties Fan" e a linda "I Don't Do Crowds" são imbatíveis.

Los Lobos - Good Morning Aztlan (2002)

Os velhos lobos do leste de Los Angeles não são mexicanos, gente. Eles são, sim, inspirados pela irresistível mistura de texmex, rock, soul e r&b dos anos dourados da música americana. Mesmo que o mundo pense que eles são os autores de "La Bamba", os lobos são uma bandaça. Nesse disco, cujo título quer dizer "bom dia, México", há espaço para verdadeiros colossos mestiços como "Maria Cristina", "Done Gone Blue", "Luz de Mi Vida" e a soberba "Tony and Maria".

los lobos

Raphael Saadiq - Instant Vintage (2002)

Este é um dos principais responsáveis pela manutenção do soul nos dias de hoje, preservando-o da invasão do hip-hop cafetão e de "divas" como Beyoncé. Saadiq compõe como se estivesse em Detroit, 1966, sem, no entanto, deixar de lado tudo de bom que a evolução do groove negro pode trazer desde o chamado new jack swing do início dos anos 90 e mesmo do smooth soul oitentista. Como o nome já diz, Saadiq
não só absorve esses elementos, como também procura criar canções e arranjos à moda antiga.

Howie Day - Australia (2002)

A estréia de Howie Day é um belo exemplo de como é possível ser um
"singer/songwriter" nos Estados Unidos sem apelar para o modelito criado por Dave Matthews. A praia de Howie está no flerte com bandas inglesas, principalmente com a fase mais convencional do Radiohead e gente como Jeff Buckley ou Richard Ashcroft. Australia é um disco belíssimo, cheio de canções esmeradas, nas quais a guitarra criativa e os vocais derramados de Howie se fazem presentes. Ouça "So Sorry", "Ghost" ou "She Says" e comprove.

Beck - Sea Change (2002)

Beck precisou levar um fora da namorada e entrar em depressão para criar um disco realmente belo, no sentido lírico do termo. Em Sea Change ele se volta para o folk contemplativo de gente como Nick Drake e não procura inserir nenhuma mistureba musical ou sampler esperto para dar vida ao disco. Sea Change é um disco de fossa, sem qualquer alegria, feito com paixão e sem qualquer apelo comercial. E
muito bonito.

sea chance

Jayhawks - Rainy Day Music (2003)

Esse foi o último disco lançado pelos talentosos Jayhawks, mantendo a aura alt-country de grandes trabalhos nos anos 90, principalmente Hollywood Town Hall (1992) e Tomorrow The Green Grass (1995). Mas, muito mais presente aqui é a capacidade de criar melodias pop a cargo de Gary Louris, principalmente em "Save It For A Rainy Day" e "Tailspin", remetendo a nomes como Buffalo Springfield, Byrds e CSNY.

Josh Ritter - Hello Starling (2003)

A voz parece de um jovem Bob Dylan e a roupagem folk eletrificada podem enganar os mais incautos e fazê-los pensar que estão ouvindo algo do início dos anos 70. Josh Ritter é um bom compositor e cantor, capaz de escrever belezuras como "Kathleen", na qual ele diz que "All the other girls here are stars but you're the Northern Lights" ou "if you like to come along, I'll be yours for a song". Há outras belas
canções como "Man Burning" ou "Rainslicker", todas impregnadas de lirismo.

Paddy McAloon - I Trawl the Megahertz (2003)

Disco solo do líder do Prefab Sprout, composto e concebido quando Paddy enfrentava uma cegueira parcial, que ele não sabia se seria permanente. A idéia foi passar a sensação de apenas ouvir vozes no rádio, sons meio desconexos e misturá-los com reminiscências sonoras da memória. O produto é belíssimo, quase parecido com melodias de Cole Porter (compositor com quem Paddy era comparado nos primeiros
anos do Prefab) ou Gershwin. Disco atemporal e atípico, dono de beleza idem.

paddy mcaloon

Shins - Chutes Too Narrow (2003)

O Shins foi meio desprezado pela imprensa fútil por não compactuar com a estética-Strokes de rock. Pelo contrário, a banda de James Mercer volta suas baterias para o folk psicodélico setentistas, quase como se fosse um Grateful Dead adolescente ou mesmo um Eagles turbinado e inconsequente. Canções exuberantes como "Kissing The Lipless", "So Says I" ou "Pink Bullets" comprovam o talento dos rapazes.

Josh Rouse - Under the Cold Blue Stars (2003)

O terceiro disco de Josh Rouse é quase conceitual sobre as relações entre homem e mulher e foi composto inspirado nos pais dele. Assim como nos anteriores Dressed Up Like Nebraska (1998) e Home (2000), Josh mostra um talento como arranjador e compositor, muito parecido com gente como Paddy McAloon nos anos 80. O approach de Rouse é acústico, com eletricidade na medida certa, ainda retendo um certo acento country - algo que ele perderia a partir do quarto trabalho, o subsequente 1972. Aqui os destaques vão para a faixa-título, "Miracle" e "Men And Women". Soberbo.

Belle and Sebastian - Dear Catastrophe Waitress (2003)

Esse disco marcou o reencontro do B&S com sua verve de pop/rock fofinho e articulado com o indie britânico obscuro dos anos 80. Talvez pela produção de Trevor Horn, talvez por composições legais como "If You Find Yourself Caught In Love", "Piazza, New York Catcher" ou "Step Into My Office Baby", além de uma insuspeita referência ao Thin Lizzy em "I'm a Cuckoo". Um disco legal de uma banda que mostrou-se com mais fôlego do que se supunha.

belle and sebastian

Grant Lee Phillips - Virginia Creeper (2004)

Neste disco o ex-dono e mentor do Grant Lee Buffalo conseguiu atingir o ápice. Com um instrumental predominantemente acústico para emoldurar sua abençoada voz, Phillips compôs canções como "Monalisa", "Calamity Jane" ou a sublime "Always Friends" e reafirmou sua condição como grande nome do rock americano seja nos anos 90 ou nos 00. Virginia Creeper é um disco que poderia ser irmão gêmeo de Automatic For The People, do REM. Uma beleza.

Sondre Lerche - Two Way Monologue (2004)

Esse jovem cantor e compositor norueguês é, talvez, a maior revelação dessa década 00. A sensibilidade melódica de Lerche abarca influências que vão de Elvis Costello, Nick Drake, Paul McCartney, passando por Beach Boys no meio do caminho. Este é seu segundo disco, cheio de canções belas, com participações de bambas como o irlandês louco Sean O'Hagen (dos High Llamas) nor arranjos de cordas. Destaque para as magníficas "On The Tower" e "It's Too Late".

Elliott Smith - From a Basement on the Hill (2004)

Esse disco foi lançado quase um ano após a morte de Elliott. Ele marca uma tentativa do cantor e compositor de seguir independente, após dois discos lançados pela Dreamworks. O que se ouve aqui é uma obra inquietante, dolorida, mas cheia de doçura melódica decalcada do melhor de Beatles, Big Star e Beach Boys. Um disco que honra os melhores momentos de Elliott nos anos 90.

elliott smith

Josh Rouse - Nashville (2004)

O quinto disco de Rouse é também o seu melhor trabalho até hoje. Misture a melancolia de um casamento em ruínas com reflexões sobre possibilidades e lembranças dos bons tempos e você tem Nashville. Ao contrário do que o título possa insinuar, não estamos diante de um disco country, mas de pop perfeito, com espaço para composições superiores como "Winter In The Hamptons" (com a assombração dos Smiths) e a dilacerante "Streetlights", cheia de violinos celestiais.

Rilo Kiley - More Adventurous (2004)

A banda da gracinha Jenny Lewis tem neste disco o seu melhor trabalho. Partindo de uma mistura eficiente de pop, rock e revisitações ao cânon do Fleetwood Mac, o Rilo Kiley propõe desde canções para dançar juntinho ("I Never", com vocais impressionantes de Jenny e um belíssimo trabalho guitarrístico de Blake Sennett) a
rockinhos como "It's a Hit" ou a faixa-título, com um pé no country. Light mas eficiente.

LCD Soundsystem - LCD Soundsystem (2005)

Quem não se impressionou com a insistente e sensacional "Daft Punk Is Playing In My House"? Você nem precisa ser um adepto das pistas de dança para reconhecer a impossibilidade em mexer alguma parte do corpo ao ouvir a faixa de abertura do primeiro disco do LCD Soundsystem. James Murphy, o cérebro por trás do nome, é um sujeito que venera o pós-punk inglês de bandas como PIL ou A Certain Ratio e
mistura essa influência com a dance music dos anos 80/90. Resultado, bem, você já sabe.

lcd soundsystem

Paul McCartney - Chaos and Creation in the Backyard (2005)

A associação de Macca com o produtor Nigel Godrich (Radiohead) não serviu para modernizar a música do ex-Beatle como se supunha na época, mas para dar a McCartney a oportunidade de empacotar suas canções de forma distinta. Vejamos o exemplo de "It Never Happened Before", típica balada beatle, envolta por pianos e arranjos de cordas como há muito o cânon de Macca não apresentava. Além disso,
números mais rapidinhos como "Jenny Wren" confirmam o Chaos and Creation in the Backyard como o melhor trabalho do ex-Beatle nessa década.

Paul Weller - As is Now (2005)

O Modfather atingiu um nível em sua carreira que só um desastre o impede de fazer bons discos. Esse As Is Now é um retorno às suas raízes musicais, bem como uma visita ao blues rock inglês de gente como Traffic e Humble Pie. Além disso, Weller ainda traz em sua banda regular monstros como o guitarrista Steve Cradock e o baixista Damon Minghella (ambos do Ocean Colour Scene) e imprime uma pegada que
pode lembrar os tempos dourados do The Jam. Destaque para a beleza do arranjo de "From The Floor Boards Up".

Richard Hawley - Coles Corner (2005)

Esse veterano guitarrista low profile de Sheffield, amigo e colaborador de Jarvis Cocker (Pulp) poderia ser chamado de "último romântico" do rock inglês. Hawley, no entanto, se limita a fazer grandes discos, totalmente calcados na estética Scott Walker de pop, ou seja: vocais graves, instrumental rico e belo e músicas que
falam de corações partidos, injustiças sentimentais e toda sorte de desventura amorosa. Nesse disco, quase temático sobre sua cidade natal, Richard atinge seu momento dourado.

richard hawley

Ry Cooder - Chavez Ravine (2005)

O homem responsável por discos como Buena Vista Social Club e Mambo Sinuendo - apenas para mencionar seus trabalhos nos últimos dez anos, iniciou aqui uma trilogia de discos sobre o imaginário da California dos anos 50/60. O caminho, no entanto, nada tem a ver com as praias dos Beach Boys, mas com o cotidiano dos descendentes de mexicanos que habitavam os bairros pobres, entre eles Chavez Ravine, cuja comunidade foi removida para a construção de um estádio de baseball.
Todas as lembranças da infância e adolescência de Cooder, um habitante da região, vem à tona em múltiplas formas, num painel belo e sentimental.

Depeche Mode - Playing the Angel (2005)

Desde Violator (1990) o Depeche Mode lança discos relevantes e renovadores, ainda que dentro do mesmo padrão dark estabelecido ali. Com Playing the Angel, essa estética mantém-se melhor do que nos trabalhos anteriores e se sustenta com muito mais facilidade. O clima é pesado, triste, apocalíptico e você, ainda assim, não quer escapar das paisagens sonoras descritas em músicas como "John The Revelator",
"Precious" ou "Lilian", todas dignas da carreira dos então 24 anos de carreira do Depeche Mode.

Neil Young - Prairie Wind (2005)

O melhor disco de Neil Young na década é pertencente ao escaninho de obras feitas por sua persona folk, a mesma que assume o controle em Comes A Time, Harvest ou Harvest Moon. Sendo assim, o clima é calmo, contemplativo e capaz de remeter o ouvinte a algum ponto dos anos 60 ou 70, ao ouvir os ecos de Buffalo Springfield aqui e acolá através do álbum. Tranquilo e simples.

neil young

Al Green - Everything's OK (2005)

O reverendo Al Green empreendia aqui o segundo capítulo de sua volta aos discos chamados "seculares" (iniciada com I Can't Stop, de 2003), livres da temática gospel que marcara sua produção nos anos 80 e 90. A sonoridade obtida aqui é praticamente a mesma que cravou o nome de Green no panteão da soul music, digna dos melhores momentos dos estúdios da Stax em Memphis, fato explicado pela presença de Willie Mitchell na produção. Canções como "Be My Baby", "I Wanna Hold You" e a faixa-título fazem todos os aspirantes a soulmen comerem poeira.

Mars Volta - Frances the Mute (2005)

O segundo trabalho do Mars Volta consegue, ainda que com certa dificuldade, sintetizar o leque de influências que a banda possui. Entre rock progressivo, funk, metal, latinidades e outros tantos gêneros, o Mars Volta tornou-se sinônimo de genialidade entre a crítica especializada, que nunca ouviu um disco do King Crimson em toda a sua existência e conjura o rock como uma cria do disco preto do Metallica. Dito isso, em France the Mute, Omar Rodriguez-Lopes e Cedric Bixler-Zavala mostram boa forma ainda que as presenças de John Frusciante e Flea tornem tudo meio parecido com um disco do Red Hot Chili Peppers vetado por alucinação coletiva.

Oasis - Don't Believe the Truth (2006)

A banda de Manchester renasceu com este disco. Em baixa desde o incompreendido Be Here Now, lançado em 1998, o Oasis esboçava um retorno ao seu nicho mais simplificado de canções, ou seja, aquelas bem parecidas com os mixes de Beatles, Stones e Who que fizeram sua fama no meio da década de 1990. Exemplos não faltam, principalmente os hits "Lyla" e "The Importance Of Being Idle", que deram fôlego a uma carreira que vinha cambaleante e que encerrou-se (até segunda ordem) neste ano.

oasis

Yusuf Islam - An Other Cup (2006)

O "artista conhecido anteriormente como Cat Stevens" fazia com este disco a sua primeira aparição na seara da música pop desde Back On Earth, de 1978. Nesses 28 anos, Yusuf deixou a música em segundo plano e dedicou-se a uma vida sabática, sob a religião muçulmana. Seu retorno foi saudado em todo o mundo, principalmente porque sua verve e sua voz mantiveram-se intactas. As composições folk com letras
surreais ou falando de esperança e amor também voltaram e, de quebra, ao lado de hits medianos como "Midday", Yusuf/Cat ainda mandou uma simpática cover de "Don't Let Me Be Misunderstood", famosa com os Animals nos anos 60.

Pipettes - We Are the Pipettes (2006)

A idéia por trás das Pipettes era emular a sonoridade dos girl groups
sessentistas, principalmente aqueles que foram produzidos por Phil Spector. Ao contrário de artistas como Amy Winehouse, que apareceram para a mídia regurgitando sonoridades alheias dizendo-se donos delas, as Pipettes preferiram cair na farra ao som de melodias irresistíveis como o hit "Pull Shapes" ou "It Hurts To See You Dance So Well". Pra se esbaldar.

Keane - Under the Iron Sea (2006)

O segundo disco do trio inglês é mais interessante do que toda a produção do Coldplay pós-Parachutes, principalmente porque o Keane teve coragem de assumir-se como uma banda sem guitarras, calcada apenas no piano competentíssimo de Tim Rice-Oxley e na competência do registro vocal de Tom Chaplin. Canções como "Is It Any Wonder", "Leaving So Soon", "Nothing In My Way" e "Frog Prince" são exemplos
também da capacidade da banda em forjar belas melodias pop.

keane

Prince - 3121 (2006)

Prince sempre teve sua carreira colocada em risco por sua prolixidade, algo que ele nunca soube controlar direito. Com álbuns triplos, duplos, sem nome, com nome, ele ressurgiria em 2004 com o bom Musicology, mas seria com 3121 que ele seria capaz de lembrar seus melhores momentos na virada dos anos 80/90. A inspiração
continua sendo a encruzilhada entre Hendrix e Funkadelic/Parliament e o velho nanico de Minneapolis se mostra capaz de incendiar pistas de dança com grooves respeitáveis como "Lolita", "Black Sweat" e "Fury".

Muse - Black Holes and Revelation (2006)

Este disco confirmou a expectativa em torno do Muse, que se mostrara uma alternativa respeitável ao caminho proposto pelo Radiohead. Pegando uma via paralela ao Coldplay, o Muse propôs uma receita muito mais rica e ampliou seu espectro sonoro para o progressivo dos anos 70 - algo também feito pelo Radiohead - mas com um acento pop inegável. Além disso, a capacidade vocal de Matthew Bellamy, cérebro e guitarrista do grupo, concede o diferencial ao Muse. Em Black Holes and Revelation está a famigerada "Knights of Cydonia", a música mais anos 70 feita nos anos 00 e um hit nos Guitar Heros da vida.

REM - Accelerate (2007)

Após um bom tempo lançando discos vacilantes e indignos de seu passado de glórias, a banda de Athens, Georgia, retornou à urgência do passado e saiu-se bem com um trabalho eminentemente rock, cheio de guitarras, melodia e vocais derramados. Longe de soar revisionista, o REM em Accelerate é uma banda como fome de bola, capaz de fazer inveja a seus contemporâneos, perdidos nas burocracias musicais e na falta de tesão/inspiração. Belo disco.

rem

Nicole Atkins - Neptune City (2007)

Em sua estréia, Nicole Atkins recebeu o simpático rótulo de "pop-noir", ou seja, música elegante, soturna, cinematográfica, mas com capacidade de assimilação e domínio da mágica fórmula das estrofes-refrão-repete refrão. Com a produção de Rick Rubin e à frente de sua banda, The Sea, Atkins traz belas canções como "Maybe
Tonight" e a faixa-título. Um disco que passou batido mas que merece uma audição dedicada.

Bob Dylan - Modern Times (2007)

Romântico, dilacerado, sincero, moderno, crítico, todos esses adjetivos cabem numa análise desse que é, provavelmente, o melhor disco de Dylan desde Blood on the Tracks (1973). Em Modern Times vemos um artista inquieto com sua época e sua capacidade de adaptação a ela, recordando de outros tempos mas sem perder tempo com nostalgia barata. O que talvez faça desse disco um dos pontos altos numa carreira tão profícua quanto a de Bob Dylan é a verdade que as observações de um homem que viveu mais de cinquenta anos influenciando e sendo influenciado no showbiz podem trazer para uma época efêmera como a nossa.

Rufus Wainwright - Release the Stars (2007)

O bardo gay retornou à boa forma com esse belíssimo trabalho, produzido por Neil Tennant, dos Pet Shop Boys. Não que seus dois discos gêmeos, Want One e Want Two tenham sido ruins, mas pecaram pelo exagero e pela extravagância de arranjos e flertes com a música operística. Em Release the Stars, Rufus retoma sua capacidade de compositor, aliada à sua interpretação passional e faz de canções como "Slideshow" e "Sanssouci" momentos arrepiantes.

rufus

Wilco - Sky Blue Sky (2007)

Após dois discos de estúdio e um registro duplo ao vivo, o Wilco se permitiu retornar a um rock mais básico, mas nunca fácil ou pobre. Pelo contrário, Jeff Tweedy calcou suas canções na encruzilhada do country rock sessentista de Byrds e CSNY e revisitou de leve a trilha pouco conhecida da mistura de country com soul, que gente como Dan Penn levou adiante e influenciou tanta gente. Comprove ouvindo "Impossible Germany" ou "You Are My Face".

Glen Campbell - Meet Glen Campbell (2008)

Este é um daqueles mavericks da canção pop. Com fama incontestável ao longo dos anos 60/70, Glen Campbell é dono de uma das vozes mais belas da música pop e a emprestou para interpretações definitivas ao longo dos tempos, principalmente em canções como "By the Time I Get to Phoenix", "Where's the Playground Susie" ou "Wichita Lineman". Este disco procurou trazer a figura de Glen para os anos 00, ainda que seu repertório seja centrado em canções de bandas oitentistas como U2 ("All I Want Is You"), sessentistas como o Velvet Underground ("Jesus"), atemporal como John Lennon ("Grow Old With Me") ou noventistas como o Travis ("Sing"). A voz de Glen e a participação de gente legal como Jason Falkner (ex-Jellyfish) e Robin Zander (Cheap Trick) dominam.

Phoenix - Wolfgang Amadeus Phoenix (2009)

O quarto disco do Phoenix é o que marcará o encontro da banda francesa com sua identidade. Se até aqui ele procuravam - com honestidade e devoção - a conexão perfeita entre os anos 70 e alguns elementos musicais dos anos 80, ela veio sob forma absolutamente original. As canções fluem, caso de "Lisztmania", "1901" ou "Girlfriend", todas absolutamente irresistíveis.

phoenix

Cheira a Nirvana Adolescente - Os 20 Anos de Bleach

12.11.09 | por Cel | Categorias: Música

kurt

No mês de junho de 1989 eu trabalhava na Agência Copacabana da Caixa Econômica Federal. Na verdade, eu era estagiário da Caixa e adorava a rotina de trabalhar seis horas por dia e ganhar uma bolsa-salário simpática, algo que se configurou como o grande propulsor da minha mania perene de comprar e ouvir discos. No mesmo mês, bem longe de Copacabana, Kurt Cobain entrava no estúdio de Jack Endino para gravar o primeiro disco de sua banda, Nirvana. Ele passara um bom tempo tocando nas festinhas de Olympia e Aberdeen, ambas cidadezinhas próximas a Seattle, ao lado de seu parceiro Chris Novoselic. Finalmente Kurt conseguira os pouco mais de 600 dólares para gravar o primeiro disco de sua banda. Pausa.

Essas primeiras linhas do texto servem para situar você, leitor, no tempo e no espaço. Se eu, com meus 39 anos de idade, consigo lembrar do que fazia há 20 anos, talvez você, nascido depois - ou não - de 1989, tenha memórias diferentes, mitificadas ou tomadas emprestadas do senso comum. Mesmo porque é fácil glorificar uma banda de rock como o Nirvana, principalmente pelo que ela representou para a música pop. Não é exagero dizer que o trio formado por Cobain, Novoselic e DaveGrohl (que substituiu o baterista original, Chad Channing) arrombou a porta da festa mercantilista do pop/rock oitentista e trouxe uma realidade alternativa verdadeira para as mesas dos analistas de marketing daquele tempo. Se isso foi bom ou não, é irrelevante. Se pensarmos que as paradas mundiais estavam sob o controle de Bon Jovi, Vanilla Ice ou Milli Vanilli, ver um disco como Bleach subindo na preferência de mais gente do que o escopo das college radios americanas poderiam comportar é algo assustador. Mesmo assim, a porrada na lata do estabilishment mercantil fonográfico viria em 1991, com Nevermind. Mesmo que este viesse sob a chancela da DGC Records, uma gravadora major, seu impacto na cultura pop não pode
ser diminuido pelos cultores do novo cronológico a qualquer preço.

early days

Dito isso, voltemos para Cobain entrando no estúdio com 600 doláres. Em 1989 o Nirvana não era mais do que três nerds desajustados. Esse tipo de gente, quase sempre, não adaptados a uma realidade, emputecidos por isso e cheios de frustrações e desejos inalcançáveis, são responsáveis por discos de rock com alma e verdade. Com o Nirvana não foi diferente e, depois de 20 anos, o resultado dessas gravações com Jack Endino retorna ao mercado com um tratamento "deluxe" promovido pela gravadora da banda na época, a Sub Pop. A edição comemorativa de Bleach traz o álbum remasterizado pelo próprio Jack Endino, mas, mesmo que o disco se apresente com uma sonoridade muito mais ampla e pesada que o abafado registro original, não dá pra fazer muitos milagres a partir de uma gravação chinfrim de 600 dólares num estúdio meia-boca. Endino soube tirar o proverbial leite de pedra ao repaginar Bleach para os anos 00, quase 10. O grande twist dessa edição, no entanto, é a inclusão de um show inteiro da banda, gravado em Portland, em fevereiro de 1990, quando o Nirvana excursionava pelos buracos das vizinhanças, promovendo 1Bleach. Isso é História, amiguinhos.

Se você é um fã da banda, sabe exatamente o valor que Bleach tem para o imaginário coletivo nirvânico. Mesmo porque, é muito legal ouvir o Nirvana como uma bandinha qualquer, lutando por um lugar ao sol, sem nem desconfiar que seu mix de metal e punk, acrescido da veia de compositor pop de Kurt Cobain, seria a válvula de escape de toda uma geração de músicos independentes que batalhavam no underground mais subterrâneo dos USA. Se você não é fã da banda, mas sabe do que se trata, essa versão turbinada de Bleach pode te levar a uma reavaliação de conceitos. Aqui estão presentes, com cara de novinhas, "About A Girl", "School", a supimpa cover de Shocking Blue em "Love Buzz, entre outras, num mosaico meio preto e branco, meio cinza, meio qualquer cor. Quando as faixas ao vivo entram, vemos o quanto a banda
acelera e coloca peso guitarrístico nas canções, algo que Endino quase não conseguiu pegar por 600 pratas em seu estúdio. As versões live da maioria das faixas do disco ganham a companhia de ilustres aparições de canções como "Sappy" (talvez a melhor música do Nirvana que quase ninguém conhece), "Molly's Lips" (uma cover dos escoceses do Vaselines) e composições que eram novinhas como "Been A Son" e "Dive" e que viriam a integrar a coletânea de raridades a ser lançada só em 1992, Incesticide, a reboque do estouro de Nevermind.

bleach

Bleach é o testamento de uma banda pós-adolescente, talvez símbolo de uma época que Cobain e seus amigos nunca mais tenham vivido. Mais ainda: uma lembrança de espontaneidade e sinceridade das quais a fama e a agenda o privaram até o dia em que ele resolveu acabar com tudo. Sentimentalismos à parte, este disco é um artefato totalmente livre de qualquer mesquinharia da indústria musical. Pode-se dizer que o tempo o preservou numa bolha protetora.

60 Melhores Discos Internacionais (1999-2009)

04.10.09 | por Cel | Categorias: Música

Strokes, Radiohead, Justin Timberlake, Madonna, Arctic Monkeys, Killers, White Stripes, Raconteurs...Gosta desses artistas? Acha que eles fizeram alguns dos melhores álbuns dos últimos 10, 11 anos? Bem, a lista que está no forno e deve ser postada no fim do mês de outubro vai te mostrar novas e diferentes possibilidades.

Fique ligado, você não vai se decepcionar. Ou vai.

Este blog volta no fim de outubro, até lá, gozarei de merecidas férias.

Muse Inspirador

22.09.09 | por Cel | Categorias: Música

muse1

Desde que surgiu em 1997, o Muse sempre foi alvo de comparações. No início da carreira, quando produziu os dois primeiros discos, Showbiz e Origin Of Symmetry, a banda era uma espécie de Radiohead mais pop. A partir do terceiro trabalho, Absolution, o trio incorporou elementos de rock setentista que estavam em desuso na ordem do dia. Absolution, lançado em 2003, era coalhado de detalhes progressivos e nuances de hard-glam rock, levando o Muse a ser comparado com grupos como Queen.

O sucesso alcançado nesse terceiro disco levou a banda a Black Holes And Revelations, o quarto trabalho, no qual esses insights setentistas deixaram de ocupar o segundo plano para incorporarem-se definitivamente ao som da banda. Agora, ao lançar seu quinto disco de inéditas - descontando o registro ao vivo de HAARP - o trio comandado pelo multi-tarefas Matt Bellamy - que canta e toca piano como se fosse um Freddie Mercury e concebe melodias na guitarra que fariam frente ao trabalho de Brian May - atingiu o seu ápice. The Resistance é um disco monstruoso, enorme, acachapante, apesar de não ter um só elemento original em seu arcabouço.

A ambiência é totalmente diferente do que qualquer banda de rock está fazendo hoje em dia. O Muse não hesita em optar pelo exagero e descartar a estética punk requentada de "menos é mais", empreendida por gente como, digamos, o Arctic Monkeys. The Resistance é um mosaico de sons, citações, influências melodramáticas, afetações glam, tudo empacotado num formato de ópera-rock, como não se via há um bom tempo.

muse2

Ao contrário de bandas que enveredam pela seara dos sons grandiosos e "progressivos", mas que procuram camuflar ou repaginar o estilo - como Mars Volta ou Porcupine Tree - o Muse abraça a solenidade, a pompa e a mitologia do disco conceitual, do exagero e se sai muito, muito bem. The Resistance tem cara de filme B de sci-fi, daqueles em que a sociedade é ditatorial, o governo é onipresente, o mundo é cinza, mas há alguém, um homem que se insurge e luta contra a opressão. Ou, talvez, o governo é aparentemente justo, o mundo é colorido - mas falso - e alguém, um homem, se insurge para desmascarar a armação. Você pode imaginar o que quiser, a música é feita como se o rock ainda estivesse em seus tempos ingênuos em que gerava mitos e acreditava nos maniqueísmos de "bom e mau" ou "certo e errado" para refletir a sociedade.

Como o rock é, a exemplo de toda arte, essencialmente, produto da realidade que a produz, o Muse quer mostrar uma mensagem bastante interessante: não há uniformidade, ao contrário do que pode parecer. As bandas de rock bem sucedidas não precisam se render ao formato "divulgação na internet-guitarras chupadas dos Strokes" para existir e obter sucesso de público e crítica.

muse

A abertura de The Resistance, com o single "Uprising", mostra que a possibilidade de fundir glam rock e technopop de grupos como Depeche Mode é elemento essencial para a banda. A levada sinuosa e dançante aponta para danças extra-terrestres num happy hour na cantina de Star Wars. A faixa-título, logo em seguida, já mostra que o clima mudou e pianos de europop oitentista emolduram o canto derramado de Bellamy numa levada que poderia ser classificada como uma fusão de Pet Shop Boys e Queen. "Undisclosed Desires", a terceira faixa, é uma abdução das batidas de um Timbaland para o mundo de Admirável Mundo Novo. A produção - a cargo da banda - amplia o tom de "Supermassive Black Hole" (faixa do disco anterior) e confirma a pista de dança como uma das muitas influências do Muse. "United States Of Eurasia" vem em seguida e desmancha as luzes da dança num tema obliterado de totalitarismo a la 1984, com citações explícitas ao Queen (que já experimentou tema semelhante em "Radio Ga-Ga"), sejam vocais ou guitarrísticas. Ao fim da canção, o Noturno de Chopin é tocado por Bellamy ao piano, em meio a efeitos especiais estranhos. "Guiding Light" dá continuidade à grandiosidade, dessa vez com instrumental baladeiro dos anos 80 e vocais se equilibrando entre o sentimento verdadeiro e a canastrice. O disco mergulha novamente no hard rock sinfônico em "Unnatural Selection" e segue assim pela faixa seguinte, "MK Ultra", para desaguar numa canção "piano driven", com batidas alegres, que poderiam ser um lado B esquecido de Let's Dance, de David Bowie. "I Belong To You", no entanto, é assaltada pela dramaticidade de um cabaret espacial e, em meio a clarinetes e oboés sintetizados, se transforma em "Mon Coeur S'Ouvre A Ta Voix".

As três últimas faixas de The Resistance formam uma suite progressiva clássica, com o sintomático nome de "Exogenesis Symphony", dividida em "Part I: Overture", "Part II: Cross Polinnation" e "Part III: Redemption", todas cheias de pianos apocalípticos, mitologia de heróis e ambiência de novelas de ficção científica.
Resumindo a ópera (rock): o Muse fez não só o seu melhor disco, como foi capaz de reafirmar sua capacidade de se valer de referências malditas e/ou ridicularizadas e torná-las verdadeiras novamente, sem parecer irônico ou blasé.

Num mundo em que as pessoas não têm quase noção de arte ou capacidade para desvincular a novidade da cronologia, entrar no clima de The Resistence é um convite para uma bela imersão num escapismo que parecia sepultado pelo pragmatismo e pelo politicamente correto. Bravo.

uprising

O Professor de Música

10.09.09 | por Cel | Categorias: Música

holland

Eu nunca tive uma aula de música no colégio. Lembro de ter algo no gênero quando estava no maternal ou no CA, não sei ao certo. A partir de 1977, no entanto, eu não tive uma aula de música sequer. E eu acho que deveria ser obrigatório aprender música nas escolas do mundo, não só pela oportunidade de manter contato com uma forma tão bela de arte como pelo aspecto educacional, de nos dar mais e mais elementos para formarmos nossa personalidade e caráter. Certo? Sim.

Essa conversa sobre as aulas de música não surgiu do nada. Dois fatores recentes me levaram a essa consideração. A exibição de Mr.Holland - Adorável Professor há uns dias me levou novamente às lágrimas, dessa vez acompanhado por Maria, minha esposa, que nunca vira o filme com a atenção devida. Se você nunca viu, a história é mais ou menos essa: Richard Dreyfuss (que foi indicado ao Oscar pelo papel) é Glenn Holland, um compositor americano, fã de jazz e Beatles, que é obrigado a trabalhar como professor de música na América dos anos 60. Ele não lida bem com a idéia, pois, em sua visão, ensinar música seria um trabalho menos nobre do que compor sinfonias. Aliás, Holland passa o filme todo rascunhando uma tal de American Symphony, na qual pretende misturar tudo o que gosta de ouvir.

holland1

Com o passar do tempo, Holland percebe que pode influenciar as pessoas positivamente através da docência, ele começa a gostar de seu trabalho, dedicando-se mais e mais. Até que chegam os anos 90, pragmáticos, frios e práticos, que levam o filme ao desfecho que não contarei aqui. Recomendo totalmente uma sessão de Mr.Holland em família, com a pessoa amada ou sozinho, para uma boa reflexão sobre um monte de coisas. Dê o desconto para o tique americano de provocar lágrimas e para a roupagem essencialmente ianque com que a trama é revestida. A música fala mais alto o tempo todo.

jack

O outro fator que me levou a querer aulas de música nas escolas foi o disco Innocence And Despair - The Langley Schools Music Project.
Imagine que você é um audiófilo qualquer que entra numa loja de Hoboken, Nova Jersey, atrás de alguma raridade e topa com um LP de uma escola primária do Canadá, gravado em 1976, mas, em vez de canções infantis, o track list traz "Space Oddity" (David Bowie), "Band On The Run" (Paul McCartney) ou "Help Me Rhonda" (Beach Boys). O tal audiófilo, Irwin Chusid, leva o disco para seus amigos do selo Bar None e tem início uma grande pesquisa para descobrir como aquilo havia sido feito.

A figura de Hans Fenger, o professor dos alunos, é logo identificada. Fenger, um guitarrista da noite de Vancouver, sobrevivia com seus pequenos shows em bares e buracos diversos da cidade canadense e de aulas em uma loja de instrumentos musicais. Descobre que sua namorada está grávida e percebe que precisa de um emprego mais estável para sustentar a família. Dois anos depois, já com o diploma de professor, Fenger é contratado para lecionar música em escolas do interior do estado canadense da Columbia Britânica.

hans

Ao contrário do que podemos pensar, o interior do Canadá pode parecer bastante com o interior do Brasil, por exemplo. Crianças chegando a cavalo para a aula, gente que mora em comunidades agrícolas sem qualquer contato com nada muito urbano, mas com vontade de aprender. E Hans, sem qualquer noção de método de ensino, descobre que as crianças têm um relativo conhecimento musical do que está tocando nas paradas de sucesso. Lembre-se, é 1976 e a pop music está em um momento bastante interessante.

O professor resolve gravar alguns ensaios, até que decide promover a gravação de um disco com os alunos cantando. A idéia dá ânimo à comunidade, que contribui para a gravação com algumas doações. Um amigo de Hans, Greg Finseth, traz um gravador de dois canais para o ginásio da escola no qual cerca de 60 crianças são colocadas. Só há dois microfones para a empreitada e Hans se encarrega de tocar guitarra e piano. Consegue alguns instrumentos percussivos, um xilofone, amplificadores de segunda mão e um baixo sem todas as cordas e dá início às gravações. Ele ainda faria isso no ano seguinte, 1977, com os mesmos resultados e mais um disco gravado.

A Bar None Records juntou o repertório dos dois álbuns e lançou um CD em 2001 com a íntegra das canções. Nas 19 interpretações há momentos emocionantes de sobra, principalmente pelo fato de que as vozes infantis, sem treino fake de programa de calouros a la Raul Gil, são as nossas vozes. Todos nós tivemos aquele timbre vacilante, a tal "inocência" e "desespero" que o título do CD traz, e fica fácil a identificação com os jovens cantores. Aliás, não há qualquer traço de profissionalismo nos registros, o que aproxima a experiência ainda mais da vida real e das nossas próprias reminiscências do que pode ser a compreensão da música por crianças entre 7 e 12 anos - a faixa etária para qual Hans Fenger lecionava na época.

langley

Eu já conhecia o disco desde seu lançamento, mas ao apresentá-lo para Maria há algum tempo, ele ganhou nova dimensão pessoal por conta da identificação imediata dela para com a obra, principalmente pelo fato de perceber nas intenções meio instintivas do professor de música, a vontade de transformar a vida das pessoas, no caso daquelas crianças que viviam nos canfundós do Canadá. Eu e ela, beirando os 40 anos, estamos com vontade de transformar vidas, as nossas e as de gente que nem conhecemos, pelo simples fato de ainda acreditarmos em coisas como bondade, alegria, conhecimento, valor à cultura e, sobretudo, por achar que as coisas, de um modo geral, vêm piorando com o passar do tempo. Achamos que há um triunfo preocupante do meio sobre a mensagem, que a produção cultural em geral está podre e que as pessoas estão perdidas no fast-forward do cotidiano, sem tempo para o que importa. Ouvir música por exemplo, a tal ponto que seja possível gravar crianças num ginásio canadense. Se você pensa da mesma forma, procure obter o disco. Recomendo a versão física, não apenas o mp3, pois o encarte é extremamente bem cuidado e rico em informação - algo que também está perdendo a importância por aí.

Track List:
1. Venus and Mars/Rock Show - Paul McCartney
2. Good Vibrations - Beach Boys
3. God Only Knows - Beach Boys
4. Space Oddity - David Bowie
5. The Long and Winding Road - Beatles
6. Band on the Run - Paul McCartney
7. I'm Into Something Good - Herman's Hermits
8. In My Room - Beach Boys
9. Saturday Night - Bay City Rollers
10. I Get Around - Beach Boys
11. Mandy - Barry Manilow
12. Help Me, Rhonda - Beach Boys
13. Desperado - Eagles
14. You're So Good to Me - Beach Boys
15. Sweet Caroline - Neil Diamond
16. To Know Him is to Love Him - Ronettes
17. Rhiannon - Fleetwood Mac
18. Wildfire - Michael Murphy
19. Calling Occupants of Interplanetary Craft - Carpenters

:: Próxima página >>



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

| Next >

Novembro 2009
DomSegTerQuaQuiSexSab
<< <   
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930     

cerebro1

powered by b2evolution free blog software


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]