
Hoje chorei de saudade da minha mãe. Uma saudade aguda, enorme, maior que a vida. Ela faleceu no dia 8 de agosto, vítima de agravamento de problemas respiratórios causados por 45 anos de cigarro. Engraçado que eu ainda não tinha passado por um desses momentos de choro soluçante por conta de sua ausência, de tão aliviado que estava - e estou - pelo fim de seu sofrimento. Ela, uma pessoa tão independente, durona, forte, estava dependendo demais de muita gente para fazer coisas básicas e simples do cotidiano e já havia perdido para a doença um monte de pequenos prazeres terrenos. Foi uma luta injusta, mas nós resistimos bravamente. Aqui vai a nota mental, meninos e meninas: não fumem. A menos que queiram isso para vocês. There's no alternative.
Eu não sei se alguém que está lendo essas linhas já não tem sua mãe por perto. Eu não tive o meu pai, mas tive um staff de pessoas para cumprir um mix de papéis paternos, no caso, meus avós maternos e minha segunda mãe, que ajudou a me criar. Sendo assim, não dei por falta do meu pai e acho que não tive qualquer sequela social ou psicológica por conta de sua ausência. Mas minha mãe foi minha companheira de estrada até agora, Tigre e Cachorro, Sagitário e Câncer, Helena e Carlos Eduardo (como ela me chamava quando estava prestes a me dar uma bronca). É uma sensação aterradora e imensamente solitária saber que não deve haver mais ninguém no mundo muito interessado se você se alimentou ou está agasalhado. No caso da Dona Helena, sua recomendação favorita era pedir que eu atravessasse a rua no sinal, por conta de um atropelamento que sofri lá em 1988. E eu, apesar de tudo que me dizia para não levar em conta algo tão trivial, sempre atravessei no lugar certo.
No dia de sua morte eu chorei pelo choque do já esperado, nunca completamente esperado até que se tenha a notícia. Mas estava incomodado por não ter chorado até agora o tanto que minha mãe merecia. Até que percebi a provável impossibilidade em demonstrar dessa forma o quanto ela faz falta. Sendo assim, movido por música que sou, não procurei ouvir nada que fosse me fazer sofrer ainda mais, a tal da auto-comiseração. Até que hoje me deparei com uma das minhas músicas mais queridas de todos os tempos, "So Far Away", de Carole King. As lágrimas vieram como se abrissem os diques de uma represa. com força, sem qualquer possibilidade de evitar.

A idéia de encarar a vida sem alguém é um desafio dos mais pungentes. A gente passa por isso de forma mais corriqueira sob a forma de romances interrompidos, relacionamentos amorosos que vâo à falência e achamos que essa dor pode ser a maior de todas, muito porque nossos pais assumem papel coadjuvante em nossas vidas à medida que nos tornamos senhores de nossos narizes. Eles estão sempre presentes, não se enganem, mesmo que vocês não precisem lidar com dois anos e meio de enfrentamento contra uma doença respiratória. No meu caso, esse período serviu como uma longuíssima e sutil despedida entre ela e eu, a ponto de existir poucos traços do que minha mãe mais representava quando de seus últimos dias.
A letra de "So Far Away", canção do mais belo disco de Carole King, Tapestry, de 1971, é uma metáfora para a derrocada dos ideais hippies dos anos 60. O amor livre se fora, a liberdade era impossível, você havia mudado o mundo e ele voltara à estaca zero, bem diante dos seus olhos. O Vietnã ainda estava lá, o medo da URSS também. E a cultura, transformada para sempre, mais por conta do surgimento de uma indústria cultural que conspurcaria tudo que veria pela frente em pouco mais de duas décadas, do que pela sua vontade. Todo mundo marchara, lutara, talvez morrera para que a conjuntura enquadrasse a todos no esquema emprego-dinheiro-casa-pra-sustentar e esse trinômio pesasse mais que os ideais defendidos anos antes. Sendo assim, dá pra pensar em Carole King, uma das maiores compositoras da história da música pop (são dela várias canções douradas como "Locomotion", "It's Too Late", "You've Got A Friend", "Will You Love Me Tomorrow", "Up On The Roof") usando a figura do amor que se foi para falar dos ideais perdidos e de como a vida seria melhor com eles por perto. Isso fica claro no verso: "I sure do hope the road don't come to own me, There's so many dreams I've yet to find" (Eu espero que a estrada não acabe em mim, há tantos sonhos que eu tenho que encontrar). Não dá? Claro que sim.

Não sei se minha mãe gostava dessa canção. Hoje ela só faz sentido como hino de saudade pura e simples e todo esse parágrafo acadêmico me parece sem qualquer significado. Mas uma lição ficou disso tudo: eu estou vivo e tenho que honrar isso. Tenho uma esposa linda, um garotão que é o mais próximo de um filho que eu poderia querer e eles estão do meu lado para o que der e vier. Se não fosse por eles, creiam, tudo seria praticamente impossível. Perdoem o texto triste, logo eu volto com meu habitual mau humor.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.