Desabafo de Ano Novo

Desabafo de Ano Novo

29.12.10 | por Cel | Categorias: A, Música

Pois então, chegamos a mais um 29 de dezembro. Observando o arquivo do blog, vejo que postei, há exatos 364 dias, um texto otimista sobre 2010, no qual falava de algumas realizações do ano anterior, além do grande sobressalto vivido por conta de problemas de saúde da minha mãe.
Aqui estamos novamente, no mesmo ponto da órbita e quase nada mudou. Dona Helena é forte, mas está internada há um bom tempo, por conta do agravamento de sua condição. É complicado um cotidiano em que idas ao hospital estão incluídas. Quem passou por isso, sabe do que estou falando. 2010 não foi o ano feliz que estávamos esperando por aqui.
A vida é assim, composta por anos bons e ruins. E mornos. São aqueles que parecem ter durado dez dias, nada fica na lembrança. Sendo assim, por menos legal que 2010 tenha sido, ele trouxe lembranças legais para o meu arquivo de imagens, cheiros e sons. Isso não impede a percepção de algumas coisas - que vou tentar listar abaixo - que fazem a gente ter certeza de que o mundo como o conhecemos caminha a passos largos para a hecatombe nuclear, como diria o amigo Sergio Martins. Vamos a elas:

erros de portugues

- Tolerância total com erros de Português em todos os lugares.

Sim, antigamente a gente usava o jornal e a televisão como referências para o que estava certo em termos de escrita. Hoje a situação é quase inversa. Nunca vi tantos erros de grafia (não eram equívocos de digitação) e concordância na imprensa e, pior ainda, no cotidiano. Na universidade em que estudo, vi verdadeiros assaltos à gramática - como diria Herbert Viana. "Menas", "seje", "trago" (em vez de "trazido"), um festival de absurdos. Enquanto a humanidade descobre toneladas ou terabites de informação a cada mês, o mundo (pelo menos aqui, mas não imagino que seja diferente nos outros países) esquece como se escreve. Pior que isso: onde estão as pessoas para corrigir esses erros? Dá a sensação aterradora de que houve um apocalipse linguístico e o idioma que você falava/escrevia há pouco tempo, sofreu uma mutação pobre e involutiva. Ninguém corrige ninguém por conta do politicamente correto. Ora pois. Falaremos e escreveremos errado mas seremos todos "cidadões". Beleza.

cleo pires

- Celebridades como Fiuk na crista da onda.

Pelo "crista da onda", dá pra notar que tenho 40 anos, certo? Pois bem, eu já pude ver um monte de celebridades lamentáveis ao longo dos tempos, mas poucas ou nenhuma tão vazia como o filho do Fábio Jr. Veja, há uma teoria minha não publicada, que diz que toda mulher, sem exceção, gosta do Fábio Jr. Se você é mulher e diz "não" para isso, é porque não se conhece totalmente, precisa fazer um soul searching. Mas o Fiuk é de lascar. O que é ele? Líder do Hori, uma dessas bandas emo que embotam o cérebro da nossa juventude. E o que ele pensa? O que ele quer da vida? Quem ele é? Gente como o Fiuk, peruas sertanejas e/ou axezeiras baianas e ex-BBB's fazem a delícia de nossa mídia de fofocas. Todo mundo rico, todo mundo burro, gerando cultura (??) para as nossas massas serem mais e mais manobradas facilmente, com direção hidráulica e câmera no pára-choque traseiro (tem hífen aqui?).

pop sucks

- Meu desinteresse para com a música pop.

Quem me lê sabe que sou um cara que tem má vontade para com o presente da música. E é isso mesmo, eu assumo essa minha faceta "conservadora" e, ao contrário dos clichês e das receitas de bolo jornalísticas, acho que é indispensável ao crítico de música o conhecimento do passado para não cometer enganos na emissão de opinião sobre música pop. Dito isso, é o que mais se vê hoje, equívocos cometidos por jornalistas "especializados" sobre o que se ouve. Tanta burrice já se escreveu que a própria música pop já foi afetada, ou melhor, contaminada. Ou será que a música pop que contaminou a imprensa musical? Não importa. Nunca, nunca mesmo, a produção foi tão horrenda, pobre, pífia. Há, claro, as exceções de praxe, mas que não conseguem mais do que me despertar a lembrança imediata de artistas que as inspiraram (como Bruce Springsteen para o Gaslight Anthem, Beach Boys para o Beach House ou Blind Faith e Led Zeppelin para o Black Keys) ou, pior, a vontade imediata de ouvir os originais e largar os "novos" artistas. Aqui no Brasil, a escassez de boas coisas ou melhor, a abundância de coisas ruins, me deixou reduzido a um grupo muito pequeno de artistas que não recebe um acréscimo há um bom tempo. O autor do melhor disco nacional de 2010, Marcelo Jeneci, já colabora com um monte de gente boa há um bom tempo. Sua estréia em disco só comprovou o que, de alguma maneira inconsciente, já era sabido. No mais, combato o lixão musical atual, seja ele assumido ou incensado pelos formadores de opinião de hoje, com minhas escavações na década de 1970, a mais rica do pop. É um manancial inesgotável de artistas e canções. Estou satisfeito por lá e não pretendo sair, a não ser por obrigação profissional.

modern sound

- Fechamento da Modern Sound.

A crônica de uma morte anunciada, para fazer minhas as palavras de Gabriel Garcia Marquez. A maior loja de discos da cidade, mal gerenciada há mais de uma década, praticando preços abusivos e irreais, alheia às mudanças no consumo de música, tinha que fechar. O engraçado foi ver a comoção geral das pessoas por conta disso, como se fossem vorazes compradores da loja na atualidade. A Modern Sound perdeu o diferencial positivo há um bom tempo: a novidade. Mesmo que palavras como "tradição" sejam mais usadas para referência a ela, talvez por conta de sua história, a loja já teve a capacidade de oferecer discos importados cerca de uma semana após o lançamento no exterior. Vejam, isso era em 1999/2000. Comprei discos como Summerteeth, do Wilco, na Modern Sound, importado, pouco depois de sair lá fora. Como eles conseguiam isso? Seja o que for, se perdeu ao longo da década 00. Setores como jazz e progressivo (cujos públicos gastam dinheiro com discos e não pretendem parar tão cedo) poderiam ser incentivados e expandidos à medida em que o rock se tornava alvo cada vez maior de downloads na Internet. Qual o quê. Criaram um bistrô para consumo de lanchinhos pequeno-burgueses e shows de MPB (esses sim, que valiam a pena) e foram deixando os discos de lado. Poderiam ter incrementado o setor de DVD's, poderiam ter feito um site legal na Grande Rede para levar o nome da loja para o além-mar, poderiam ter baixado os preços, feito promoções, queimões de natal, ano novo, sei lá, mas nada fizeram. Ficaram vendo a banda passar e cobrando cerca de 35 reais por um disco feito no Brasil. Lamento por conta de amigos que trabalhavam na loja e pelo fato de, mesmo não sendo competitiva ou atrativa hoje em dia, a Modern Sound não existir mais. Até a incluí como uma das paisagens cariocas visitadas em meu romance "Vestido de Flor", escrito em 2006, no qual o personagem principal adentra a loja para comprar um exemplar do Clube da Esquina. Pena.

copadisco

Ainda sobre o fechamento de lojas de disco: estava eu outro dia na Tracks, voluntariosa lojinha situada na Gávea e participei do que há de melhor em ambientes como esse: conversa sobre música. Discutiu-se qual o melhor disco do Bruce Springsteen, falou-se sobre lançamentos ingleses de caixas com cinco CD's a preço de banana (sério, 9 libras por cinco discos de bandas como Earth Wind And Fire, Bread, Isley Brothers ou artistas como Donny Hathaway ou Aretha Franklin é quase uma pechincha) e eu saí de lá com a alma lavada. Talvez a pior perda para os compradores de disco seja representada pelo fim desses ambientes de conversa sobre música. A internet, por mais que congregue, aglutine, facilite e proporcione, não é suficiente ou substituta do in loco. Pena, novamente.

Bem, chega de mau humor, né? Que 2011 seja muito mais legal que esse 2010, que se salvou pela UFF e pela presença inquebrantável da minha família ao meu lado.

Beijos pra todos, nos vemos na semana que vem.



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Comentários:


Comentário de: Cel

Vocês não acharam que eu colocaria uma foto do Fiuk, né? Fiquemos com a irmã do rapaz.

PermalinkPermalink 29.12.10 @ 16:00



Comentário de: zeca azevedo

CEL, você é O CARA! Texto sensacional, de novo. Está tudo ótimo, mas um dos pontos altos foi a inclusão da imagem da Cléo Pires no lugar da latinha chata do Fiuk, rsrsrsrs. E essas caixinhas com 5 CDs da Warner/Rhino? Já tenho um estoque aqui, rsrsrsrs. As que estão vindo pra mim agora: uma da Aretha com os discos dela dos 80 e 90 e uma do sensacional Boz Scaggs! Pena que eu não estava aí com vocês na loja pra batwer esse papo, mas faço muito isso aqui em Porto Alegre.

Feliz 2011, CEL, você merece tudo de bom! E que sua mãe fique bem!

PermalinkPermalink 29.12.10 @ 21:06



Comentário de: Zé Henrique

Fala, Cel, sobre erros de português tenho a seguinte conduta. Se vejo que a pessoa teve chance de estudar, não resisto e zombo na cara. Outro dia uma jornalista(rsrsrs) mandou um email pra mim: "Nessa ceara é assim mesmo..." Eu devolvi perguntando se a família dela era do Ceará, se era alguma homenagem e tal.
Pô, se não sabe não inventa. Vai no simples.
É como aquele cozinheiro gaiato do canal Brasil que diz: " Fugindo de um tubarão não vai nadar borboleta, né? Vai no crawl." rsrsrs
Agora, se vejo que é gente que não teve estudo - não é questão de ser policamente correto(argh). É que se não teve. Como cobrar? - não reclamo.
Estamos falando de erros crassos, porque errinhos quase todo mundo comete.
Rapaz, por que pegou o Fiuk pra Cristo?
Ele não é pior do que Luan Santana, Restart. NXzero...
Quanto a música pop atual, achei esse ano atipicamente fraco. Agora, se for comparar aos anos 70 fica ruim pra qualquer um.
Cara, o final dos anos 60 e o começo dos 70 houve, COM CERTEZA, alguma confluência de astros. Não é possível! É muita coisa de alto nível!
Tb chafurdo bastante por lá, amigo.

PS: Saúde e paz pra sua mãe e um ótimo 2011 pra vc.

Abraço


PermalinkPermalink 30.12.10 @ 03:19



Comentário de: Zé Henrique

Nem acho a Cléo esse balaio todo, mas essa foto está mesmo linda.
Saudade dos textos do Zeca(sobre soul, funky, rock...) lá no finado(?) Rockpress.
Me lembro quando vc respondia perguntas lá, uma vez respondeu uma minha sobre o Funkadelic.
Foi minha porta de entrada pra essa banda maravilhosa!

Abraço

PermalinkPermalink 30.12.10 @ 03:26



Comentário de: ana paula

Esse blog realmente é fantástico! Fico impressionada com a sua coerência e propriedade. Estava conversando com dois amigos anteontem exatamente sobre esses pontos.
Eu fico muito triste (sinceramente) em constatar que a tecnologia é utilizada de forma tão canhestra pelos pseudo-seres de hoje. O mundo de informação a que temos acesso é incrível, mas totalmente desprezado. Acho um absurdo e não aceito tanta burrice e idiotice brotando das pessoas.
Celebridades. Pois é, antes tinhamos artistas, autores, criadores, grandes personalidades que de alguma forma contribuiram com algo concreto para a humanidade. Hoje temos...o nada, o vazio, a mediocridade. Sinto que minhas noites de insônia carregadas de livros, filmes e música para tentar adquirir o mínimo de cultura e exercitar o cérebro, devem parecer experimentos bizarros para os fãs dos BBBs da vida. Que lástima! Eu também tenho uma boa vontade inacreditável e interesse em procurar novos nomes, mas...a situação está terrível. O que é menos intragável, na verdade, é releitura dos anos 70 e 80. Chegam mesmo a produzir música como se estivéssemos em 1982. Cadê a criatividade dessa gente?
Quanto a Modern Sound, disse tudo. Preços abusivos e irreais e muuuito mal administrada. Fica a nostalgia dos importados comprados nos anos 90.
Espero de verdade que 2011 seja bem melhor que esse ano que termina. Vou puxar o fio de otimismo que me resta e desejar que seu texto de 29 de dezembro de 2011 seja bem diferente. Grande beijo.

PermalinkPermalink 30.12.10 @ 03:35



Comentário de: Cel

Amigos, muito obrigado pelos elogios e pela força em relação à saúde da minha mãe. Espero que mais e melhores textos otimistas venham por aí e, acima de tudo, um ano bem mais legal.

PermalinkPermalink 30.12.10 @ 07:47



Comentário de: Cel

Fala, José. Bem, eu escolhi o Fiuk por conta da anuência que a mídia confere a ele, principalmente por conta dele ser filho do Fábio Jr e haver um plano maligno por trás disso tudo. Luan Santana, NX Zero, Cine e demais figuras patéticas não são menos irritantes, claro, mas não estamparam suas caroças no Fantástico em horário nobre ou duetaram com o pai no Faustão. O Fiuk é produto com o selo Globo de "qualidade", portanto, potencialmente bem mais nocivo e de maior alcance. Por isso ele foi "escolhido". Ah, quanto à irmã do rapaz, eu diria que ela não é essa Coca-Cola toda, mas tem grandes momentos.

PermalinkPermalink 30.12.10 @ 08:26



Comentário de: Zé Henrique

Ahh, saquei Cel.
Quem é mais bombado pela Globo o Fiuk ou a
Maria Gadú?
Me lembrei que ela gosta da Sandy, quem
nem vc. rsrsrs

Saúde & Som

PermalinkPermalink 31.12.10 @ 18:03



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Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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