
Atualmente escrever sobre música é um certo luxo, levando em conta minhas prioridades. Não dá, entretanto, para me omitir sobre a vindoura experiência de ver um show de Paul McCartney em terras brasileiras. No meu caso específico, rever, pois estive no Maracanã em 1990 nas duas apresentações do ex-Beatle, divulgando o então recém-lançado disco Flowers In The Dirt. Era um outro tempo, seguindo a lógica de que não há nada mais antigo que o passado recente.
Ver Macca novamente, 20 anos depois, em São Paulo, ao lado da minha família e alguns amigos é a maior mágica que esses eventos podem trazer. Além da música, da experiência, do canto e, sobretudo, do choro, Paul, como se fosse um Cometa de Haley, reaparece por aqui, talvez acenando a um outro tempo nosso - e dele - nos forçando a rever, reavaliar, renascer. Mesmo que você nunca tenha visto um show desse jovem senhor de 68 anos, o sentido de estar lá não é avaliar banda, qualidade de som ou de imagens, mas se permitir, por cerca de três horas, pertencer a uma coletividade de gente que experimentou, viveu, amou, perdeu e ganhou ao longo de cinco décadas de Beatles e de seu consequente legado. Eles estiveram presentes durante a totalidade de nossas vidas e fazer parte disso é inevitável, até para quem prefere Stones, Who ou Velvet Underground. Ver Paul num palco é receber um carimbo de que está tudo bem, apesar de tudo e que há esperança no fim do túnel, que talvez nem seja tão comprido como aparenta. Ou, quem sabe, confirmar felicidade, realizações e o happy ever after talvez prometido lá atrás, na nossa long and winding road.
Não é exagero de um fã confesso. O que coube a Paul McCartney, além de ser o mais talentoso compositor pop de todos os tempos (afirmação sem medo de erro), foi assumir a função de mensageiro de sentimentos e portador de um reservatório de momentos breves ou nem tanto, que nos definem. Pense no signficado de um show de Roberto Carlos para uma grande parcela da população brasileira e multiplique por mil, acrescentando a faceta Peter Pan do rock'n'roll a essa comparação e você terá uma idéia da coisa.

O último lançamento de Paul, o CD/DVD Good Evening New York City, dá pistas do que o show reserva. Há o reencontro generoso com canções dos Beatles que Paul não costumava apresentar ao vivo até 2002, como "A Day In The Life" (que desagua em "Give Peace A Chance", primeiro hit solo de John Lennon), "Something", "Day Tripper", "I've Just Seen A Face", além de canções dos Wings meio deixadas de lado, caso de "Rock Show/Venus And Mars", "Let'em In", "Mrs. Vanderbilt" e "1985", por exemplo. Aliás, as pazes espirituais com Lennon parecem verdadeiras, principalmente pela inclusão da cortante "Here Today", composta em 1981 para o disco Tug Of War. Essa música é, provalmente, a mais bela homenagem feita ao beatle morto, mais que "All Those Years Ago" (de George Harrison) ou "Empty Garden" (de Elton John), só para mencionar outras duas belas rendições.
Fora esses detalhes, o esbalde é certo em "Band On The Run", "Get Back", "Live And Let Die", "Helter Skelter" e, pessoalmente, "All My Loving". Essa última, incluída no segundo disco dos Beatles, de 1963, With The Beatles, é o protótipo de canção pop perfeita. São precisos dois minutos e oito segundos de perfeição melódica, com refrão perfeito, letra linda, bateria pipocante e guitarrinhas que dialogam harmoniosamente até desembocar num solo de uns dez segundos, sublime, bolado por George Harrison num de seus muitos momentos de iluminação total. Aliás, "All My Loving" é o momento mais emocionante do DVD Back In The U.S, que documenta o retorno de Paul aos USA em 2002, após muito tempo sem dar as caras por lá. Quando essa música é executada por sua enxutíssima banda e pelas imagens da Beatlemania na América sessentista, a reação do público é sintomática. Crianças, jovens, velhos, senhoras, todos são a mesma pessoa e as feições chorosas de um senhor na faixa de 50/60 anos aparecem por segundos perto do fim da música, dando conta de que ele está vendo um filme passando diante de seus olhos (veja aqui). Provavelvemente um filme no qual ele é o ator principal. Todo mundo tem um desses desde a mais tenra idade, certo? Paul nos obriga a ver esse filme durante seu show e empresta sua pena para fornecer a trilha sonora. É assim que é.

Nos vemos lá, então? São Paulo, dia 21 de novembro, 21:30h em ponto. Talvez seja a última chance de ver esse senhor com saúde e disposição suficientes para mantê-lo num palco dessa magnitude.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.