O Weezer Quarentão

O Weezer Quarentão

29.09.10 | por Cel | Categorias: Música

hurley

Alguém aí era nascido quando o clipe de "Buddy Holly" entrou na programação da MTV? Era 1994, há precisos 16 anos. Quando Rivers Cuomo deu sua cara nerd a tapa para o mundo, ele tinha apenas 24 anos incompletos e sua nerdice, aliada à espontaneidade com que se valia de referências distintas do que as bandas grunge perseguiam, deu ao Weezer um lugar de destaque no coração dos mais, digamos, introspectivos fãs de rock, quando soltou seu disco homônimo de estréia, chamado pelos convertidos de Blue Album.

Sabemos que rock sempre foi sobre sexo, tédio, revolta e diversão, não necessariamente nessa ordem, e querer isso de uma banda deveria ser obrigatório e regulamentado pela Convenção de Genebra. Pois bem, em meio a tanta revolta de Pearl Jam, Alice In Chains, Nirvana e todos os pós-grunges que vieram no caminho, o Weezer manteve-se íntegro o suficiente para desfrutar de um certo crédito na praça.

Assim foi com o lançamento de todos os sete discos que sucederam o disco azul inicial. Interessante lembrar que, dos oito discos que a banda soltou até agora, apenas dois são da década de 1990, levando a crer que Weezer vem num ritmo de lançamento de um novo trabalho a cada ano e meio. A prolificidade recente, com a chegada do Red Album (2008), de Raditude (2009) e agora Hurley (2010), nos faz pensar que Rivers Cuomo tem um monte de coisas para dizer.

O que faz muito fã de primeira leva do Weezer torcer o nariz para esses discos recentes - e mesmo para tudo que foi feito a partir do quarto trabalho, Maladroit (2002) - é uma suposta perda de consistência nas letras ou uma frouxidão instrumental rumo ao pop. Pior: a leva nefasta de bandas "emo" americanas que clamaram a influência do Weezer em seu cânon ao fim da década de 1990, adentrando os anos 00. Ficou complicado declarar seu amor pela nerdice e inocência da banda, a não ser como nostalgia de tempos idos e melhores, aquele velho mecanismo auto-reciclador de identidades que usamos quando queremos lembrar de nós mesmos e o fazemos através de bandas, filmes, sabores, e demais engramas de memória.

Rivers Cuomo pode até ter um quarto cheio de posters do Kiss ou uma estante de bonecos articulados de Star Wars ou G.I Joe, lutando sobre pilhas de edições velhuscas de quadrinhos dos X-Men, mas, por Deus, o sujeito tem quarenta anos de idade e não pode pensar mais como um nerd espinhento de 20 e poucos anos. Acreditem, meninos e meninas, vocês vão entender isso quando atingirem a marca etária das quatro décadas. Simplesmente fica complicado não se desencantar com o mundo e tornar-se cético sobre vários assuntos.

Dentro dessa lógica, eu até acho que Hurley, o novo disco, é uma proverbial lufada de vento musical. É um disco legal, cheio de segredos ocultos, climas subentidos e boas canções.
Se você é um cara que espera um disco revolucionário do Weezer, desencante-se porque eles nunca quiseram nada parecido, nem no início da carreira. Hurley é um álbum de manutenção de status, de reafirmação e de cuca fresca.

rivers

Há um monte de colaboradores por aqui. Temos Ryan Adams co-escrevendo "Run Away", uma das grandes canções do disco, com versos tristes e clima mais ainda, com Rivers balbuciando, em meio à tradicional muralha de guitarras (entre elas, do próprio Ryan), que "Sometimes I wish I was a house at the end of the block and you could smash all my windows with the throw of a rock". Isso não é romantismo? Isso não é quase adolescente para um quarentão? "Smart Girls", composta com o ex-No Doubt Tony Kanal, poderia ser tema de As Gostosas e os Geeks e deve ser uma beleza ao vivo, com toda a pulação a que se tem direito. O instrumental poderia ser de uma canção dos Killers, o que não atrapalha nem um pouco o conjunto da obra. Curiosamente, as duas canções que Cuomo compôs sozinho, "Memories" e "Unspoken" são as de temática mais simples e dão conta de problemas como a supracitada nostalgia - dessa vez olhando para a própria banda - e o desejo de ir embora, emoldurado por violão, flautas e cordas em "Unspoken", de melodia doce e bonita.

O caminho prossegue até a chegada do ápice do disco com "Hang On", parceria com Rick Nowels, colaborador de Gregg Alexander na emblemática "You Get What You Give", dos New Radicals. Aqui Rivers se lança sobre aquela clássica situação de se apaixonar por uma amiga e não saber como lidar com isso. Só que, dessa vez, ele não se resigna diante das circunstância e a letra soa como um ousado manifesto de intenções e quase uma antecipação do que vai acontecer, tamanha é a certeza de que tudo vai dar certo, talvez por perceber que os maiores amores requerem, necessariamente, amizade e conhecimento.

Muita gente implica com a cover para "Viva La Vida", do Coldplay, que aparece na versão deluxe de Hurley. Nada pode ser menos cool do que verter alguma canção da banda de Chris Martin, ainda mais se for de um jeito tão supostamente fiel. A primeira estrofe da letra, no entanto, nos afasta da ironia weezeriana tradicional que poderia ser o motivo principal: "I used to rule the world, seas would rise when I gave the word, now in the morning and I sleep alone, sweep the streets I used to own". É um aceno tão poderoso ao passado, dentro do contexto da banda, que nem o "gracias, amigos", que Cuomo solta para a platéia ao fim da canção, apaga o travo amargo que ela pode causar. O que no Coldplay é solenidade fake, no Weezer é uma espécie de auto-private joke.

weezer

Hurley, com a foto bonachona do ator Joey Garcia, lembrando a todos de seu personagem na série Lost, é um disco de paz e amor para jovens senhores e isso não é, de forma alguma, uma crítica negativa. É um entendimento agridoce de quem, por ironia, tem a mesmíssima idade de Cuomo e que, como ele, já viu um monte de coisas irem e virem de 1994 pra cá.



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Comentários:


Comentário de: André

Que belo texto. Não achei Ratitude e o 'Red Album' grandes coisas, mas gostei bastante de Hurley. E este ano ainda teremos o lançamento da versão deluxe de Pinkerton... nada mal.

PermalinkPermalink 06.10.10 @ 19:01



Comentário de: Ricardo

Gostei do texto também! E do disco, uma coisa que me aborrece é todo cd novo do Weezer o povo que fica cobrando um novo blue/pinkerton. Ok, são grandes discos, mas de outra época... Acho que eles são bem coerentes com a carreira deles.

Abs

PermalinkPermalink 11.10.10 @ 21:06



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Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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