Olá, garotada!
Como vocês podem perceber, o nosso prestimoso blog deu uma acordadinha da hibernação em que se encontrava para fazer o que sabe de melhor: criar uma polemicazinha. Estamos num tempo em que o politicamente correto venceu, triunfou, adentrou Roma e fincou ali a sua bandeira bárbara. Não cutucamos mais nada nem ninguém.
Eu não sou assim. Sou um jornalista que não tem receio de escrever algumas coisas que poucos escrevem, não porque eu sou melhor do que meus colegas que estão por aí. Talvez seja porque eu sinta de forma não-profissional, portanto apaixonada e inconseqüente, a burrice se instalando e fixando moradia nesse nosso mundo.
Sendo assim, vou deixar vocês com dois textos meus sobre o Seu Jorge. O primeiro, logo abaixo, foi publicado no Portal Rock Press em 2005, por conta da fúria que a gravação de seu péssimo disco Aquatic Sessions despertou em quase todo o meio especializado. É um punhado de palavras fortes sobre nosso amigo Jorge.
O outro texto é do dia 2 de agosto desse ano. Motivado pela audição de outro trabalho de Jorge, dessa vez com o trio Almaz, no qual ele "interpreta" vários clássicos do cancioneiro pop nacional e internacional, quase do mesmo jeitinho que já fizera em 2005. Creiam, é outro punhado de palavras fortes sobre nosso herói.
Divirtam-se (ou não) e comentem com alegria no coração.
Beijos e abraços do CEL

Nós Somos Seu Jorge?
(2005)
Há um clichê hipócrita que diz que é melhor não falarmos mal das pessoas, que o esquecimento é a melhor maneira de deixar indesejados e desagradáveis, assim como biltres e pulhas, devidamente longe das nossas mentes. Isso deve ter sido formulado por algum filósofo grego cuca-fresca. Em certos momentos a nossa rede neural se conecta com o espírito da caverna e nossos instintos ancestrais vêm à tona. Mais ou menos isso eu pensei enquanto ouvia o novo disco de Seu Jorge, apenas com versões em português free form de clássicos de David Bowie.
A despeito da péssima qualidade das versões, todas apenas com o violão indigente e a voz monocórdica de Jorge, há um preocupante efeito dominó que culmina neste disco, cujo nome é Aquatic Sessions. Bem, ele tem esse nome porque Seu J. participou do filme A Vida Aquática De Steve Zissou, dirigido por Wes Anderson (cujo maior sucesso é o cult Os Excêntricos Tenenbaums). Nosso amigo participa do filme com o personagem Pelé Dos Santos e a trilha sonora traz cinco músicas de Bowie na voz de Seu Jorge. Coisas como "Rebel Rebel", "Starman", "Rock'N'Roll Suicide", clássicos apenas.
Se ele cantou clássicos de Bowie em português é porque havia gravado seu segundo disco solo, Cru, na França, cuja capital, Paris, é a cidade onde está situada a Favela Chic, uma casa de shows de brasileiros para francês ouvir e dançar. Deve ter sido mais fácil participar desse filme estando em Paris. Mas, se ele participou desse filme é porque já havia estrelado o épico enganoso Cidade De Deus. E se ele estava em Cidade De Deus, típico produto das indústrias Globo de entretenimento e lavadores de mente, é porque ele havia gravado um disco solo chamado Samba Esporte Fino, com uma visão Lapa do Rio de Janeiro.
Não a Lapa do início do século XX, mas a Lapa do início do século XXI, que se tornou um freak show cultural, reduto da inteligentzia de whisky com Red Bull e míope de espírito. A mesma Lapa que foi palco para alguns shows da antiga banda de Seu Jorge, o Farofa Carioca, que contava com malabaristas, palhaços, mambembes, mamulengos, saltimbancos e cracatoas, além da música.
É bom lembrar que o Farofa Carioca era um expoente do que se convencionou chamar de MPC - Música Popular Carioca, uma balela, na verdade. No mesmo bojo deste "movimento" estavam luminares como Pedro Luís E A Parede e Boato. Além de Moreno Veloso, Kassim, Domenico, Orquestra Imperial. Seu Jorge integrou a Orquestra Imperial. Fez clipe beijando a Fernanda Lima, gravou DVD sob o selo MTV Apresenta, participou do disco Ana e Jorge, ao lado de Ana Carolina, novamente compactuando com o esfacelamento de canções em inglês para monstros bizarros em português. Os agudos fora de tom em "É Isso Aí", versão dantesca para "The Blower's Daughter", de Damien Rice, são de Seu Jorge. E a música foi parar na trilha sonora da novela das oito, da Globo, claro.
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O que me irrita, além dessa onipresença do Seu Jorge na mídia mundial, é que ele é um produto gestado na classe média brasileira. Ele não é um fenômeno popularesco surgido no nordeste do país e devidamente pasteurizado. Ele é um autêntico artista com respaldo de um público que conta com relativo esclarecimento sobre música, cultura e mídia. Quem ouve Seu Jorge,
provavelmente não conhece Jorge Ben ou Tim Maia ou Cassiano. Não há nada que ele cante que não tenha sido feito melhor por esse trio genial. Mas Jorge não liga pra isso. E o mundo também não parece interessado.
Seu Jorge é o brasileiro que o mundo gosta. Negro, mas aculturado. Pobre (ele é de Belford Roxo, Baixada Fluminense) mas que se saiu bem na vida. Ator, cantor, interprete com suposto culhão e respaldo para se assenhorar de músicas que bandas como Placebo e Arcade Fire dariam todos seus instrumentos para gravar suas versões. Onde Seu Jorge não está? Até no Festival Coachella 2006 ele esteve. Ele pode ser você. Eu posso ser ele.
Na verdade, amigo leitor, chegamos a um ponto em que não há necessidade de conhecimento para respaldar um artista. Claro que muitos críticos, principalmente brasileiros, vão detestar as versões para a obra de Bowie, mas há muitos formadores de opinião em ação para contrabalançar essas opiniões. Seu Jorge pode ser um novo Macunaíma, sem graça e com DNA clonado. Seu Jorge pode ser uma nova e melhorada versão do Zé Carioca. Só que, dessa vez, nós é que somos seus criadores e não os Estados Unidos da Guerra Fria. Pensem nisso.
No Brasil nem todos os 160 milhões de habitantes têm a cara do Seu Jorge. Temos várias caras, não dá pra nos reduzir assim. E pense: quando alguém aparece lá fora suportado pelos símbolos da Globo, da MTV, acolhido em produções de Hollywood etc e tal, não dá pra não ficar de orelha em pé. Esse Jorge não é meu. Eu não conheço esse Jorge, eu não conheço essa gente.

Esse Jorge É Seu
(2010)
Mais um disco de Seu Jorge pode ser ouvido aqui e ali. Tremo só em pensar no retorno ou na permanente presença dele entre nós. Do disco e de Seu Jorge. Nada pode ser mais irritante, nefasto e infrutífero musicalmente que mais uma fileira de versões tacanhas e desnecessárias de canções de gente como Tim Maia, Kraftwerk, Michael Jackson, Jorge Ben, ou seja, artistas que têm obras admiráveis quase impossíveis de ganhar novo brilho por meio de releituras, seja de quem for.
Jorge, no entanto, insiste, respaldado pela existência de seu trabalho mais controverso, The Aquatic Sessions, lançado em 2005.
Você lembra, não é? Um punhado de canções da melhor fase da carreira de David Bowie vertidas para um português indigente, com um aval duvidoso do próprio Camaleão, dizendo em algumas notas do encarte do disco que nunca pensaria que suas músicas poderiam alcançar tamanha "dimensão de beleza". Tapem os ouvidos: Mr. Bowie, me desculpe, mas não f**e.
Essa é a grande celeuma da pós-modernidade. O conhecimento sobre tudo é superficial, falho, pálido, insuficiente. Neste caso específico, mesmo que eu tenha mandado David Bowie sifu, camaleonicamente lhe dou o benefício da dúvida, ou melhor, do hype. Em 2005, na esteira de Cidade de Deus, Jorge participou de Life Aquatic Of Steve Zissou, um filmeco modernóide, com elenco à feição dos indies, principalmente pela presença de Bill Murray. Como Pelé dos Santos, Seu Jorge aparecia com um violão cantando as tais versões de Bowie no filme. Imagino que isso tenha sido suficiente para que o artista pensasse que estava sendo homenageado por uma espécie de novo baluarte da MPB, um redentor, um homem do renascimento, um Pico Della Mirandola da música pop brazuca. Qual o quê, Mr. Bowie...

Seu Jorge é, me permitam dizer, um produto. Até aí morreu Neves, pois dentro da lógica capitalista que encampou a música e as artes em geral, tudo é um produto, de U2 e Rolling Stones a Fresno e Restart. A diferença está no público a quem tal mercadoria se destina, do mesmo jeito que donas de casa compram detergente e crianças querem danoninho de morango. Só que Jorge é um produto dos mais nefastos e que, mesmo em pleno 2010, com o triunfo - ainda que momentâneo - do neoliberalismo e do pensamento único, capaz de revirar estômagos nascidos em 1970, como eu.
Explico: mesmo que seja um clichê bobão do jornalismo, não dá pra comparar os artistas pop da década de 1970 com os da década seguinte e assim sucessivamente. É uma regra de proporcionalidade: quanto mais velho, menos contaminado pela poluição mental, verbal, monetária e desiludida. Quando mais recente, mais inserido na lógica do tal conhecimento superficial que mencionamos acima, mais volátil, menos esclarecido, menos autêntico, mais modernoso pela simples vontade de modernar, sem qualquer recheio, conteúdo ou estofo.

Seu Jorge é assim. Um pastel de vento com revestimento ideológico fornecido pela mídia acéfala que nasceu ontem e que curte ONG's, desenvolvimento sustentável, rodas de samba na Lapa após o expediente e que ama amar MPB e gente de raiz mesmo que nunca tenham ouvido um disco do Chico Buarque. O viés dessa gente surge, na melhor das hipóteses, na década de 1990.
E lá estava Seu Jorge, à frente do Farofa Carioca. O que era isso? Era um grupo de artistas esclarecidinhos, antropofágicos via mesada dos pais, pós-tropicalistas da PUC-Rio, numa onda de redescobrir o Brasil no fundo do copo de chopp do barzinho. Eu mesmo vi um show do Farofa na Lapa em 1997/98, comprei o primeiro disco deles após a apresentação, seduzido pela boa produção de "Moro no Brasil", "Bebel" ou "São Gonça". Cês sabem, o momento pós-show engana, mesmo que a apresentação tenha sido interessante, a música era um acessório naquele palco. É aí que entra mais um elemento do blend que é Seu Jorge: o teatro. Ele fazia parte do Tuerj, o Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Eu fazia parte da Uerj, terminei lá meu curso de jornalismo e lembro de vários cartazes de espetáculos da trupe do Teatro. Nunca vi nenhum pois, admitamos, teatro quase sempre é um chute no saco esquerdo.
De qualquer forma, o caráter nefasto de Seu Jorge parecia sob controle mesmo em seus dois primeiros discos solo, Samba Esporte Fino e Cru. Ainda que "Carolina", sua melhor canção, seja um decalque sem pudores do groove e da malemolência de gente como Bebeto ou Jorge Ben, dava pro gasto.
O problema veio, confesso, no disco de versões do Bowie. E se ampliou em ritmo de PG quando nosso herói se associou a outro produto intragável da prateleira em que se transformou a música brasileira mainstream: Ana Carolina. Aqui mesmo eu proponho algumas listas de piores e melhores discos nacionais e gringos e a presença de Ana e Jorge Ao Vivo e o tal disco Aquatic Sessions está garantida, tamanho o potencial de horror que ambos contém. O disco com Ana Carolina é igualmente intragável, no qual berros semi-guturais trituram o pouco talento autoral de ambos e culminam num esguicho do mais puro mal na versão (mais uma, veja você!) de "The Blower's Daughter", de Damian Rice, que se tornou conhecida por aqui através do filme Closer, do qual sonoriza a bela sequência de abertura.
Depois disso veio um novo disco autoral de Jorge, América Brasil. Daria pra livrar a cara de "Burguesinha" e "Mina do Condomínio" se elas não fossem imediatamente adotadas pelo populacho pseudoesclarecidinho como "músicas para o sambalanço". Sim, aquelas canções que você vê as pessoas ensaiarem passinhos de suposto samba, gente que nunca sambou, gente que jamais iria numa comunidade carente, gente que é burguesinha, minas de vários condomínios, todos juntos compondo uma horda que desembarca de um trem de zumbis para nos pegar. Não deu.
Agora, em pleno 2010, Jorge ressurge na sua mesma lógica de fazer covers. "Por que não fazer?" - ele deve ter pensado. "Me dei bem no primeiro disco" - ele deve ter concluido. "Sou malandrão" - ele deve ter constatado. E, voilá, aqui temos o novíssimo Seu Jorge e Almaz. Quem diabos é Almaz, então? É uma banda, boa, por sinal, formada por Lúcio Maia, Puppilo (guitarrista e baterista da Nação Zumbi, respectivamente) e Antônio Pinto (trilheiro de filmes como Cidade dos Homens), que tenta revestir com moldura melhor que o violão maltrapilho de Seu Jorge os horrorosos covers que ele escolheu para nos insultar.

Salta aos ouvidos, antes de tudo, a versão para "Das Model", do Kraftwerk. O inglês de Jorge é fraco, o clima sombrio é meio fake, a circunstância é irritante, porque eu duvido-de-ó-dó que Jorge tenha um único disco dos alemães em casa ou goste de coisas como "Autobahn", por exemplo. No mesmo esquema vem "Everybody Loves The Sunshine", de Roy Ayers. O groove elegante, jazzista e funky ao mesmo tempo, foi substituido por uma lenga-lenga muzak, na qual Jorge ousa imaginar-se um Barry White, emitindo vocais "de travesseiro", algo que é melhor nem se deter explicando muito. Outra canção que vai por água abaixo é "Rock With You", de Rod Temperton, famosa na voz de Michael Jackson. Tudo que é ritmo elegante, produção precisa de Quincy Jones e voz maviosa de Jackson no original, se perde numa maçaroca anti-melódica e maligna. No terreno nacional a coisa não melhora. "Cristina", de Tim Maia, aparece anêmica, ainda que Jorge ensaie alguns gritos mais fortes. O velho Sebastião Rodrigues Maia deve ter se irritado profundamente com o acinte. Ele, se estivesse vivo, riria da negritude de branco classe média que Jorge enverga.
Aliás, outro Jorge, o Ben, não escapa da sanha do Seu Jorge. "Errare Humanun Est", gema perdida de Tabua De Esmeralda, disco seminal de 1974, aparece flácida, revisitada por acaso, zero de sentimento, zero de compreensão da trip alquímica que Ben experimentava na época, ou seja, quase um número do Programa Raul Gil com boas guitarras.
O resultado final é menos dantesco que a violada com as canções de Bowie, mas não esconde a farsa, o falso parentesco, a pouca habilidade de levar o samba rock adiante. Quase um Marcelo D2, este, sim, o mestre da farsa musical black-brasileira.
Seu Jorge é isso, gente. É raso como uma bandeja. É pouco, é simplório e destinado para quem não se importa muito com a música por não conhecê-la ou não fazer qualquer questão disso.
Você tem coisa melhor para ouvir.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.