
Amigos, antes de mais nada, desculpem-me pela demora. Não que seja frescura da parte do jornalista/blogueiro, mas, saibam todos, coluna dói pra c****! E, no meu caso, o capricho anatômico foi tamanho que fiquei impossibilitado de me sentar. Perdi dias preciosos de estudo e trabalho e quase toda a minha paciência, além, claro, da paciência da minha família, que me aturou com toda a rabugice do mundo por esses dias. Um detalhe: já fizeram ressonância magnética? É o mais próximo que um ser humano pode chegar de uma rave sem estar presente numa. O barulho dentro do túnel é impressionante, várias sequências de bate-estacas e ruídos eletrônicos, são ouvidos por dez looooongos minutos em que não é permitido qualquer movimento. Depois disso, a pessoa sai de lá meio atordoada, com tudo girando e vendo luzes que sobem e descem em velocidades diferentes. Um conselho: cuide bem da sua coluna. Você ainda vai me agradecer.
Enquanto o blog esteve parado, várias coisas interessantes aconteceram no mundo e me sinto mal por não ter emitido opinião pública sobre algumas delas. Pra não encher o saco com reminiscências - mais do que já faço por aqui - vou me deter sobre duas dessas cirscunstâncias: o Oscar e a morte de Alex Chilton.
Me espantou a vitória de Guerra ao Terror, pelos motivos errados. Se eu fosse capaz de determinar sozinho o vencedor do prêmio de Melhor Filme, escolheria Up, da turma da Pixar. O desenho não comporta termos como "fofo" ou "bonitinho". É uma fábula moderna sobre um monte de valores e me incomoda um pouco que coisas como amor, companheirismo, tolerância ou qualquer outra virtude, façam mais sentido num desenho animado que num filme com atores reais. De qualquer forma, desde os mais remotos tempos da Disney, os desenhos deles são responsáveis por lembrar adultos e crianças sobre essas coisas. Tudo bem, muita gente pode achar que Walt Disney era agente da Cia. E, além disso, a década de 90 trouxe o politicamente incorreto para a ordem do dia. Vieram Simpsons, Beavis e Butthead, capitaneando uma horda de cartuns sem qualquer moralismo. Poucos poderiam prever que, a exemplo de quase toda "reviravolta" estética a partir dos anos 90, o que é "inovador" acaba tornando-se perigosamente conservador e apático. Quer desenho mais sem graça atualmente do que os Simpsons? Ou South Park? O que eles trazem em 2010? Padecem do mesmo mal que vitimou a primeira geração de roqueiros, aqueles dos anos 50, com Bill Haley e Elvis à frente. Eram tão revolucionários e novos que funcionaram mais como referência para artistas futuros, no caso, Beatles e Stones, que encontraram um mundo mais adequado para levar adiante a fusão mulata que era o rock. Desenhos "sujos" são a regra, não a exceção. Todos eles levam a bizarria que era chocante em meados de 90 mas que é regra em 2010. Sei lá, se é a tua, caia dentro. Do contrário, fique com coisas como Pica-Pau, Tom & Jerry, Corrida Maluca e Esquadrilha Abutre, verdadeiras obras-primas dos estúdios Hanna-Barbera nos anos 60, exceto o Pica-Pau, do gênio Walter Lantz. Nada pode ser mais politicamente incorreto. Perto deles, a recorrente morte do Kenny, de South Park, é fichinha.

Sendo assim, voltando ao tema "Guerra Ao Terror". Filme discretamente patriótico, disfarçado sob um manto de independência e apuro técnico espontâneo, aborda - ou tenta abordar - a psiquê humana em tempos e terras adversas pela guerra. No caso da Guerra do Iraque, cenas muito mais impactantes foram fornecidas pelo mainstream Michael Moore e seu Farenheit 9/11, no qual soldados americanos aparecem escolhendo músicas de nu-metal para sonorizar a matança de militares e civis iraquianos no meio da noite. Filmes como O Franco Atirador ou Apocalipse Now são essencialmente mais contundentes e aterrorizantes, pelo simples fato de que os americanos perderam a parada no Vietnã. Foram enxotados de Saigon, tiveram que sair às pressas e até hoje não digeriram isso. No Iraque, além de arrasarem um país que nada tinha a lhes ameaçar, os USA mostraram ao mundo o quão impiedosos e mesquinhos poderiam ser e ainda, sob a conivência de seus fantochoes petrolíferos europeus, detonaram uma cidade que existia há milênios - Bagdá - com incomensuráveis tesouros da Humanidade saqueados e levados sabe Alá pra onde. O drama do sargento viciado na adrenalina que desarma bombas no meio de vizinhanças destruídas é um grande nada, pelo menos para mim.

Pois bem, passemos a Alex Chilton. Tristíssima e irreparável a sua perda para a música pop, mas é algo que merece uma reflexão sobre como podemos nos enganar sobre algumas coisas. Chilton foi um garoto de Memphis, Tennessee, tarado por rhythm & blues e soul. Montou uma banda chamada Box Tops e conseguiu emplacar um sucesso razoável, The Letter, no fim da década de 1960. A banda acabou, mas Chilton continuou fã dos ritmos negros até que conheceu um certo Chris Bell, que tinha uma outra banda, a Icewater. Esses caras - pensou Chilton - querem ser os Beatles. Bell era fã dos Fab Four e de quase tudo que vinha do Reino Unido. Formaram uma outra banda, chamando Jody Stephens para a bateria e
Andy Hummel para o baixo, após algumas formações intermediárias. A fusão beatles/soul contribuiu para a existência de um powerpop próximo da perfeição como mola mestra da sonoridade do Big Star. Aliás, o nome, diz o mito, veio de uma olhadela na janela do Ardent Studios em direção ao mercado da esquina, cuja estrelona luminosa varava a escuridão noturna. Pois bem, a alquimia entre Bell e Chilton durou um disco, o #1 Record, que foi um fracasso de vendas, talvez pelo fato da banda gravar pelo selo Stax, exclusivamente voltado para o soul, talvez pelo atrito que Bell e Chilton possuíam, muito mais pela incapacidade de Bell em lidar com a relativa fama adquirida por Alex desde os Box Tops. Que o primeiro trabalho do Big Star merecia sorte melhor ninguém duvida. Canções como "Thirteen", "The Ballad Of El Goodo", "Don't Lie To Me" ou "Back Seat Of My Car" são sublimes, mas talvez inadequadas para aquele 1972 tão turbulento, desiludido e triste.

Pois bem, Bell se mandou antes do segundo disco, Radio City, ser concluído e o Big Star permaneceu vivo, capenga e sem a mágica de antes, que era, justamente, a simbiose entre os dois líderes. Radio City é belo, inferior ao primeiro, e Third/Sister Lovers, o terceiro trabalho da banda, a rigor, um disco solo de Chilton, é estranhíssimo, junkie, totalmente influenciado pelo Velvet Underground e fiel ao momento péssimo que Chilton atravessava, agravado pela morte prematura de Bell, num desastre de automóvel. Somente em 1992 seria lançado I Am The Cosmos, o disco que Bell estava gravando na França.
Voltando a Chilton. O homem considerava o Big Star bem menos importante que nós, fãs da banda, influenciados pelo culto crescente ao primeiro disco surgido na década de 80/90, levado adiante por gente como Paul Westerberg, Peter Buck (REM) e bandas que se disseram influenciadas como Teenage Fanclub ou Posies. Chilton era um sujeito forjado na esteira de Dan Penn ou de um Chips Moman. Ele se sentia muito mais desenvolto em discos como Set, de 2000, no qual passeia por versões de sucessos da segunda divisão do soul pop americano. O toque de gênio, no entanto, está em toda parte: quando ele vai solar em "Never Found A Girl", há a inserção mágica da melodia de "A Summer Place", sucesso com a orquestra pop de Percy Faith no início da década de 1960. Seus discos solo são anárquicos, anti-pop, anti-facilidade, mais parecem declarações de insatisfação com o mundo, mas, por outro lado, são pequenos testemunhos de um artista fazendo o que estava com vontade.
A morte de Chilton é uma perda homérica para a música pop. Ele retomara o Big Star ao longo da década de 1990 com participação de integrantes dos Posies e gravara um disco inédito da banda, In Space, em 2005. Devia ser chato para um cara como Chilton ter que revisitar seu passado em shows para órfãos da geração X, carentes por um concerto do Big Star. Talvez tenham sido anos ruins para ele e os únicos momentos em que pareceu fazer algo pela força das circunstâncias e não por sua livre e espontânea vontade.
Estamos de volta. Textos na linha de produção, aguardem pela reflexão sobre o Pensamento Único, no próximo emaranhado de palavras. Será crucial para os rumos que o blog vai tomar daqui pra frente. Na verdade, nada que já não esteja por aqui, mas que merece ser revelado a todos os leitores que comungam dos meus pontos de vista.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.