
Beyoncé Knowles faz turnê em terras brasileiras nesse momento. Passou por Florianópolis, Rio, São Paulo e Salvador. Parece que a moça ficará para o Carnaval, passando na capital baiana os dias de folia momesca. Por onde passou arrebatou multidões, encantou fãs de todos os tipos, gravou clipes, visitou pontos turísticos, até apareceu na sacada do Hotel Fasano em Ipanema como se estivesse num churrasco na laje. Ela é simpática, linda, tem corpo escultural e disputa um trono de musa pop mundial que pode estar vago desde que Britney Spears enfiou o pé na jaca. Sinceramente? Eu preferia mil vezes uma turnê da Rihanna.
Vou explicar, calma. Beyoncé, a despeito das coreografias rebolativas e beleza indiscutível, é uma cantora...chata. Ainda bem (ou não) que o mundo do entretenimento pop há muito deixou de priorizar a música. Se Beyoncé fosse feiosa, mesmo tendo todo o aparato de produção e o comando do maridão Jay-Z na composição-execução de seus discos, sua passagem pelo país seria pouco notada, principalmente porque, nada restaria além da beleza da moça e suas coreografias para entreter o povão. Eu sei muito bem que ela fez sucesso como figura central do trio Destiny's Child (que era por demais...chato) e que seus discos solo, gravados a partir de 2003, Dangerously In Love, B'Day e I Am...Sasha Fierce, não seguram a onda numa pista de dança por muito tempo. Eu sei, talvez Beyoncé não queira apenas fazer as pessoas dançarem, ela tem voz e sensibilidade suficientes para tornar dignas baladas e canções mais contemplativas sobre o amor e suas diferentes faces. E sua aspiração ao Olimpo do pop mundial passa, necessariamente, pelo estabelecimento de uma persona politicamente correta, quase casta, contraditoriamente sensual. Suas aparições em filmes são risíveis, nenhuma interpretação cinematográfica se salva da caricatura, seja em Austin Powers Goldmember ou no lacrimoso Dreamgirls, este, certamente, um dos filmes mais entediantes de todos os tempos.

O último disco da moça, I Am...Yours, gravado ao vivo em Las Vegas, é totalmente enquadrado no modelo "esta é minha vida". Ela canta baladas que ouvia quando era criança em Houston, Texas e aproveita para conversar com a platéia sobre como foi complicado começar a cantar e o quanto de dificuldade passou até chegar onde chegou. Sobram também versões live de his como "Crazy In Love", "Halo", "Single Ladies (Put A Ring On It). Claro, o êxito no périplo de Beyoncé rumo à fama não aconteceu por acaso e neste mundo manipulado e atrelado ao lucro, ela é um poderoso produto de entretenimento, destinado a sonorizar as tardes das adolescentes do planeta com o mais diluído exemplo de música pop calcada no que se convencionou chamar de r&b, sigla essa que já abrigou o trabalho de gênios como Ray Charles e que deveria ser usada com mais respeito pela mídia.
Robyn Rihanna Fenty, por sua vez, é uma delícia, em várias conotações. Imagino uma vida complicada e sem esperanças para a menina, natural de Saint Michael, Barbados, um lugar difícil de entrar no mapa de qualquer tipo de sucesso artístico. Após o habitual périplo em concursos de beleza e grupos musicais na infância, Rihanna foi descoberta em 2005, aos 17 aninhos, quando um certo Evan Rogers passava férias em Saint Michael. Após ser apresentado à Rihanna, Rogers, que produzira sucessos de Kelly Clarkson, Christina Aguilera, Jessica Simpson, entre outras, viu nela, além de uma beleza pouco convencional, talento para gravar um disco. Algumas demos chegaram aos ouvidos de - imagine - Jay-Z, que topou contratar a jovem para o tradicional selo Def Jam. "Pon de Replay" foi o hit que puxou seu primeiro disco, Music Of The Sun.

Tudo bem, o início de carreira de Rihanna foi...chato. O fato de ser uma jovem e bela moça nascida no Caribe fez com que basicamente baladas e cançonetas híbridas de ritmos daquela região com beats genéricos povoassem o primeiro disco, ainda que "Pon de Replay" tenha chegado ao segundo lugar da parada americana, abalando o reinado de medalhões como Mariah Carey. O segundo trabalho, A Girl Like Me, lançado em 2006, já daria mostras de indiscutível inteligência pop. "SOS", o primeiro single, trazia samples massivos de "Tainted Love", sucesso do duo eletropop inglês Soft Cell. Em "Break It Off", Rihanna dueta com Sean Paul (assim como Beyoncé fizera em "Crazy In Love" em 2003) e não faz feio no convincente reggae "Kisses Don't Lie", mostrando assim, uma paleta maior de cores em seu espectro pop.

O terceiro disco de Rihanna seria o chamado breakthrough album. Em Gone Girl Gone Bad tudo funciona perfeitamente, em todos os sentidos. Deixando o sol caribenho pra trás e adentrando a grande metrópole, Rihanna mergulha nos beats e vozerio do hip-hop sob a égide do onipresente Jay-Z (aliás, o Jay-Z não se parece com um atendente de farmácia? Eu acho), que produz o disco e dueta no irresistível primeiro single "Umbrella", que chegou a ganhar versão dos galeses do Manic Street Preachers, naquele esquema "odiamos essa música boba, mas adoramos tocá-la". "Shut Up And Drive" repetia o flerte com o pop eletrônico inglês oitentista, dessa vez pegando emprestado de "Blue Monday", do New Order. Além disso, canções feitas cientificamente para grudar na mente são enfileiradas no disco, vide "Don't Stop The Music", que pega emprestado o aceno que Michael Jackson fez a "Soul Makossa", de Manu Dibango, em "Wanna Be Starting Something", hit do multi-platinado Thriller. Com essa dupla referência, Rihanna tornou-se definitivamente conhecida mundialmente e outros sucessos ainda viriam, caso de "Disturbia", "Take A Bow" e a colaboração com os branquelos do Maroon 5 em "If I Never See Your Face Again". Ao contrário do modelito enquadrado de Beyoncé, Rihanna não tem receio de mudar seu visual, variando penteados, usando roupas ultra-excêntricas e transmitindo uma genuína sensualidade que quase resvala para a vulgaridade mas é intencionalmente simples e explícita, num approach que não compromete a necessidade de algo ficar subentendido. Por exemplo, se a menina aparece em roupas provocantes nos clipes, cheios de caras e bocas, nada fica explícito demais, sem que Rihanna precise se valer só disso em sua música.
O último disco dela, Rated R, é ainda mais complexo. Após o episódio em que ela foi alvo de violência por parte do rapper Chris Brown - com quem tinha um relacionamento amoroso - Rihanna decidiu partir para o contra-ataque. Longe de ser um mero disco de vingança contra o ex-amante, Rated R é um trabalho que mostra um flerte com o lado depressivo da vida, nada muito profundo. lento ou triste, apenas obsessivo e raivoso. O primeiro single, "Russian Roulette", co-escrito com Ne-Yo, dá a noção exata do que ela pretende, o que é corroborado por outras canções como "G4L" e "Rude Boy".

Resenhei para a Rolling Stone Brasil os dois últimos discos de Beyoncé e Rihanna e os comparei da seguinte forma: enquanto I Am ... Yours, o tal registro ao vivo em Las Vegas, é uma retrospectiva formal de sua carreira diante de uma platéia de engravatados, Rated R é um passo ousado para uma artista que tem o que dizer para seu público, muito mais do que simplesmente: "dance", "pule", "dê", "beije". E que é musicalmente e visualmente muito mais atraente.
Rihanna é melhor que Beyoncé e tenho dito.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.