
Há um bom tempo que eu não vejo um ano musical começar tão bem. Janeiro ainda não terminou e uma boa quantidade de discos lançados ou em vias de lançamento já livra a cara desse 2010. O panorama que 2009 sugeria era de uma estiagem criativa prolongada, talvez causada pela já tradicional mudança de padrões estéticos ou comportamentais que as décadas trazem. Só que 2009 não trouxe nada de novo, apenas aquelas novidades de praxe; novos celulares, novos notebooks, velhas notícias sobre coisas supostamente inéditas. Mais do mesmo, quer dizer.
Na música pop a coisa parecia caminhar na mesma direção. A indústria cultural ainda não encontrou quem possa substituir os Strokes numa suposta cabeça de ponte do "novo" rumo ao bolso e à mente da gurizada, que está cada vez mais desinformada, imersa na realidade efêmera provida pela música no computador ou, do outro lado da moeda, restrita apenas ao que toca na rádio, na novela ou na micareta/rave/baile funk habitual.
Esqueça esse panorama estéril. O ano já começou e traz trilha sonora diversificada e, sobretudo, boa. Sade, sim, ela mesma, retorna ao disco após 10 anos, com um inesperado álbum chamado Soldier Of Love. A cantora nigeriana e sua banda estão por aí desde 1984, quando lançaram seu primeiro disco, Diamond Life. O som que eles trazem 26 anos depois ainda é classudo, cool ou de bom gosto. Mais que isso: a música é moderna, totalmente século XXI, urbana, com arranjos que tangenciam o que o trip-hop tinha de mais aprazível, com cordas, metais, bateria e baixo sinuosos e pontuais presenças de guitarras ambientes. Os singles "Skin" e "Soldier Of Love" já estão pela rede e dão uma bela amostra do que Sade oferece.
O termo "trip-hop" não existiria se não fosse pelo Massive Attack. O grupo de estranhas criaturas de Bristol, Inglaterra, também está de volta nesse começo de ano, encerrando uma espera um pouco menor que a de Sade: sete anos. Heligoland é o quinto disco de material inédito do grupo, descontanto Collected (2006, um caprichado best of), Vs. Mad Professor (1995, na verdade um disco do jamaicano Mad Professor, no qual ele remexe em canções de Protection, que o Massive Attack lançara no mesmo ano) e Danny The Dog, trilha sonora meia-boca que eles fizeram para um filme com Jet Li. Sendo assim, Heligoland é o sucessor legítimo de 100th Window, lançado em 2003 e marca a volta de um dos sócios fundadores do Massive, Daddy G, que deixara a banda no início dos anos 2000. Com um time de convidados que vai de Damon Albarn (do Blur) a Horace Andy (velho cantor de reggae, habitué dos discos da banda), passando por Guy Garvey (vocalista do Elbow), Hope Sandoval, Tunde Adebimpe (do TV On The Radio) e Martina Topley-Bird, a própria "voz" do trip-hop, Heligoland já antecipava emoções desde o lançamento do single "Splitting The Atom", no fim de 2009. Essa canção e outras, como "Psyche", "Babel" e "Atlas Air" colocam o nome do Massive Attack de volta à ordem do dia.

Corinne Bailey Rae também debruçou-se sobre o cânon do trip-hop, deixando um pouco de seu approach jazzy ensolarado pra lá. Seu segundo disco, The Sea, vem para tentar repetir o sucesso de sua estréia, que emplacou hits como "Put Your Recods On" ou "Like A Star" no inconsciente coletivo de todos que resolveram descobrir o quanto cantoras de pop-soul-jazz podem ser legais, belas e apreciáveis, a reboque do sucesso que Joss Stone obteve no início da década. Corinne foi uma das que vieram em seguida, mas conseguiu imprimir personalidade. Seu registro lembra o de Skye Edwards, ex-vocalista do Morcheeba (formação inglesa noventista de trip-hop), que se aventurou em carreira solo e desapareceu na poeira dessa estrada triste. The Sea é etéreo, mais sutil e sombrio que seu antecessor e aponta para novas direções sem que algo do frescor vocal de Corinne se mantenha intacto.

O nome Fyfe Dangerfield te diz alguma coisa? Sim, ele mesmo, o vocalista do Guillemots. A banda não acabou, mas Fyfe lançou um disco disco solo que é extremamente superior a tudo que já fez antes. Se o som do Guillemots trazia um certo frescor pop a la Tears For Fears ou New Radicals, principalmente em sua estréia, Through The Windown Pane (2005), Fyfe ampliou essa idéia em seu supimpa Fly Yellow Moon. São dez canções, gravadas em cinco dias, cheias de ganchos pop, nas quais o piano é o instrumento que se sobressai. Dizer apenas isso do disco seria cometer uma brutal injustiça. Fyfe vai buscar inspiração em gente como Elton John e David Bowie para construir um painel sonoro que pode ser triste (como em "Barricades", um baladão ao piano), pungente (como em "High On The Tide", que lembra "This Is The Sea" dos Waterboys em espírito) e, sobretudo, alegre, como no single "She Needs Me", que mistura levada disco com cordas sintetizadas, num clima desajeitado de baile de branco. Sensacional é pouco.

Josh Rouse também está de volta. Diretamente de seu idílico rincão no antigo Al Andaluz, mais precisamente em Valencia, sul da Espanha, Josh resolveu se arriscar e gravar metade das canções de El Turista no idioma de seu novo país. Nada errado nisso, o rapaz tem a manha. O grande trunfo desse novo trabalho é a evolução musical que ele traz. Josh está bem longe do rapaz alt-country que surgiu no fim dos anos 90 e igualmente distante do meticuloso compositor pop de discos como Under The Cold Blue Stars (2002) ou 1972 (2004). Seu som hoje é uma mescla inextrincável de pop, jazz, levadas latinas de Paul Simon em 1971, trilhas de Vince Guaraldi para desenhos do Charlie Brown e melodias forjadas na escola Paddy McAloon de música, da qual também é aluno o aplicadíssimo norueguês Sondre Lerche. Josh Rouse é um pequeno e desenvolto mestre do pop, o qual muitos chamariam de retrô, mas que traz tamanha sutileza e delicadeza em suas composições atuais que chega a embaralhar a mente de quem tem uma visão restrita da música. El Turista deixa discos maravilhosos de Rouse como Subtitulo ou Nashville a léguas de distância em termos de sofisticação.

Chegando com a raspa do tacho, temos Ringo Starr e Peter Gabriel. O novo trabalho de Ringo, Y Not, que traz a participação de Paul McCartney e parcerias com Van Dyke Parks, não faz feio, pelo contrário. É mais um disco de Ringo contemplando sua idade e seu passado beatle, tudo pelo filtro pessoal-sentimental do ex-beatle brincalhão e simpático. Como se fosse uma espécie inglesa e bem menos rígida de um Clint Eastwood musical, Richard Starkey dá seqüência à temática de Liverpool 8, seu trabalho anterior e, mais que isso, reafirma um raro período prolífico em termos de composição e assunto, algo que ele nunca experimentou. Peter Gabriel, quem diria, um homem acima de qualquer suspeita, escorregou feio em seu Scratch My Back, um disco de covers interpretadas com orquestra e produção do experiente Bob Ezrin (Pink Floyd e Alice Cooper, entre outros). Com um repertório que traz desde "Heroes" (David Bowie e Brian Eno), "The Boy In The Bubble" (Paul Simon safra Graceland 1986), "Philadelphia (Neil Young) e não tem vergonha de homenagear novos grupos como Bon Iver ("Flume), Arcade Fire ("My Body Is A Cage") ou Elbow ("Mirrorball). O problema é que não há qualquer distinção entre os arranjos, poucas vezes uma orquestra foi tão subaproveitada numa gravação, deixando o registro vocal de Gabriel perdido no meio de um instrumental soturno e banal. Pena, pois discos de Peter Gabriel são eventos raros, o trabalho anterior dele, Up, veio à luz em 2002.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.