
O telefone tocou no meio da década de 1990. Meu amigo Léo Salomão me ligava para falar do Blur. Se a memória não falha, eu falava de Counting Crows, mais precisamente de "Mr. Jones', a canção que tornou a banda de Adam Duritz conhecida naqueles tempos.
Nada demais, eu e Léo estávamos resenhando discos num caderno - lembre-se, era o meio da década passada, computadores ainda eram bem raros - e já contávamos com um bom acervo. Eu faria a resenha dos Counting Crows, ele escreveria sobre o novo disco do Blur, Parklife. Léo estava entusiasmado e me disse ao telefone:
- Ouve essa música aqui, você vai gostar. Ele colocou o telefone na saída do som no Grajaú e eu ouvi os acordes beatlemaníacos de "End Of A Century" em Copacabana. Realmente, uma bela canção.
O Blur é um dos caminhos mais fáceis para a Uerj 1994/95. Lembro de um monte de coisas e sinto falta de várias pessoas. Este texto, porém, não pretende ser nostálgico dessa forma, principalmente porque quero falar do presente, mais precisamente do lançamento hoje do filme No Distance Left To Run, que conta a história do Blur desde sua formação na virada da década de 1980/90 até o meio do ano passado, quando a banda londrina lotou o Hyde Park nos dias 2 e 3 de julho com dois shows antológicos, que iniciaram uma turnê de reunião. O filme será lançado depois em formato de DVD duplo. Posso dizer que tenho uma história com o Blur. Não só por pequenos fatos como o diálogo com Léo no telefone, a vigília pela chegada do sucessor de Parklife (The Great Escape) no balcão da extinta Spider, em Ipanema ou mesmo pela aquisição do segundo disco da banda, Modern Life Is Rubbish com vales-refeição num camelô da rua Pedro Lessa, no Centro do Rio, numa tarde qualquer do mesmo meio de década de 1990.

Uma pequena digressão se faz necessária: engraçado como somos compelidos a sentir nostalgia e nossa memória seletiva se encarrega de nos livrar do mal, amém. A década de 1990 será lembrada como o momento em que a faceta mais cruel do capitalismo deu as caras no mundo, após conquistas obtidas desde a década de 1950. O chamado "estado de bem-estar" era engolido pelas linhas de montagem do Sudeste Asiático, pela Guerra da Bósnia, pela falsa globalização, pela opressão da liberdade de opinião, pela chegada do "politicamente correto" e do pensamento único. Tudo que eu lembro é dos backing vocals de "End Of A Century" e de seu simpático verso "and your mind gets dirty as you get closer to thirty". Ok, voltemos ao Blur.
A banda lança, além do filme e sua versão posterior em DVD, dois discos duplos, contendo a íntegra dos shows no Hyde Park. Aqui no Brasil só teremos o lançamento do volume dedicado ao dia 02 de julho. Na Inglaterra há a chance de adquirir os dois discos como um eficaz souvenir do evento, principalmente porque o Blur teve seu melhor momento em 1993-97. Mesmo que Damon Albarn, Grahan Coxon, Alex James e James Rowntree ainda sejam capazes de entreter uma platéia gigantesca, a magia, como se diz por aí, se perdeu.

O período em que o Blur era o rei da cocada preta corresponde ao surgimento do Britpop, levado adiante pelo próprio quarteto. A história nos mostra que a Inglaterra foi dominada pelo grunge até que o segundo disco do Blur trouxe de volta o orgulho de cantar com sotaque cockney, de meter o cacete na Rainha, falar mal do governo e destilar humor negro em toda circunstância possível. Mais: trouxe de volta a vontade de revisitar Beatles e Stones, dar um alô para o Who, redescobrir o Kinks e tirar a poeira dos velhos discos do Small Faces. Isso, sob uma visão novinha e antenada com o mundo noventista, foi o Britpop, o segundo "movimento" numa década que ainda traria o estouro do techno quase simultaneamente à tomada da Ilha pelas novas bandas surgidas a partir daí e por gente que já batalhava nos clubinhos e buracos pestilentos atrás de alguma coisa. Vieram Charlatans, Ride, Cast, Bluetones, Pulp, Primal Scream, Radiohead e, claro, Oasis e Blur.
Modern Life Is Rubbish (1993), Parklife (1994), The Great Escape (1995) e Blur (1997) estariam numa suposta lista de 20 trabalhos mais importantes do Britpop e não seria nenhum exagero colocá-los em tamanho grau de importância. Tanto o primeiro disco da banda - Leisure (1991) - como os subsequentes ao quarteto dourado, 13 (1999) e Think Tank (2003) são menos interessantes e servem apenas para completistas caçadores de obscuridades. Melhor negócio é adquirir uma das coletâneas, Best Of Blur ou Midlife - A Beginner's Guide To Blur e buscar as canções que se salvam destes discos, como "There's No Other Way", "She's So High", "Coffee And TV" ou "Tender".
Os shows do Hyde Park me fazem refletir sobre a passagem do tempo. Façamos as contas sobre um detalhe em particular. Damon Albarn, o vocalista e rosto da banda, nasceu em 1968 e gravou "End Of A Century" em 1994. O tal versinho mencionado no início do texto reflete sobre a chegada da meia-idade, aquela época nebulosa da qual nos apercebemos quando ela já chegou em nossas vidas. Albarn e sua idéia de que as "mentes ficam mais pervertidas quando chegamos mais perto dos trinta" fazia sentido nos seus 26 anos de idade. O que teria ele pensado ao cantar a mesma canção para milhares de londrinos em pleno verão no Hemisfério Norte 15 anos depois, aos 41 anos? Nunca é demais lembrar que Damon participou do Gorillaz desde 2000, emprestou seu vocal anasalado e arrastado para várias canções do grupo "virtual" bem como no posterior combo The Good, The Bad And The Queen e sempre buscou caminhos distintos do roteiro de banda criada em escola de arte que o Blur possui. Portanto, a ironia de antanho teria se transformado numa discreta e melancólica crônica de que o tempo passa, nos leva embora e nos traz de volta completamente modificados? Ou isso é neura de quem leva a música pop muito a sério?

O que importa é que o Blur lança no mercado uma dose maciça de nostalgia de bom gosto, que vai fazer as pessoas pessoas. As que estão "closer to forty", como eu, especialmente se deleitarão, apesar das reflexões sobre o tempo insistirem em dar as caras.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.