
Há algum tempo venho me preparando para algo terrível: a probabilidade cada vez maior de meus ídolos falecerem gradativamente, à medida que o tempo vai passando. McCartney, Ringo, Pete Townsend, Van Morrison, Keith Richards, David Gilmour, Robert Plant, Jimmy Page, entre outros, estão adentrando os 70 anos de idade. Claro, mesmo que vivam muito e com saúde, as turnês vão rareando, a inspiração vai acabando e, mesmo que a gente saiba que a obra de todos eles - e muitos outros que se foram - são eternas até que se prove o contrário, a idéia de saber que eles não estão mais vivos, andando por aí me aflige. Talvez isso aconteça porque seja mais uma evidência de que o tempo vai passando mesmo que a gente não perceba sempre.
Com Teddy Pendergrass não foi assim. O homem faleceu ontem, vítima de câncer no intestino. Teddy faria 60 anos em março. Esse nativo da Filadélfia, amigos e amigas, foi um dos gigantes da soul music e responsável por algumas das mais belas gravações do chamado "philly soul". Teddy começou como integrante dos Blue Notes, grupo de doo-wop liderado por Harold Melvin. Pouco tempo depois, Melvin desfez o grupo e fundou o Harold Melvin And The Bluenotes, com Teddy dividindo os vocais com ele. Assinaram contrato com a Philadelphia International e deram início a uma das mais sólidas carreiras do início dos anos 70, quando a soul music se deparava com grandes mudanças sociais e estéticas, indo desde a adoção de discursos pacifistas (como feito por Marvin Gaye em 1971, através de seu sublime What's Going On) passando pela incorporação definitiva dos elementos psicodélicos nas produções de Norman Whitfield para os Temptations e no aparecimento de grupos como o Funkadelic de George Clinton e Eddie Hazel e no sucesso de discos como Stand e There's A Riot Going On, de Sly And The Family Stone.

O chamado "philly soul" modificou a forma de se fazer black music. A adoção de algumas levadas do jazz e a incorporação de grooves mais rápidos e classudos, concebida por gente sublime como Kenny Gamble e Leon Huff, desembocaria na disco music mais tarde. Os Bluenotes de Melvin foram cravando hits nas paradas americanas sucessivamente. Lindas músicas como "If You Don't Know Me By Now", "The Love I Lost", "I Miss You", entre outras, a maioria delas com os vocais de Teddy Pendergrass.
Sentindo-se desprestigiado, Teddy iniciaria uma sólida carreira a partir de 1976, lançando seu primeiro disco solo no ano seguinte. Os hits vieram naturalmente e canções como "The More I Get the More I Want" "Close the Door" "I Don't Love You Anymore", "Love TKO" e "Turn Off the Lights" chegaram ao primeiro lugar da parada de r&b americana.
Em 1982 Teddy sofreria um acidente automobilístico. Seu Rolls-Royce perdeu os freios e atingiu uma árvore em cheio. Após 45 minutos preso nas ferragens, Teddy perdeu os movimentos das pernas. Ainda assim ele apareceria ao vivo no Live Aid em 1985, cantando numa cadeira de rodas. Mesmo que sua voz tenha se mantido intacta, a carreira de Teddy nunca mais foi a mesma e ele gravaria cada vez menos, sobretudo nos anos 90, aposentando-se definitivamente em 2006.
A morte de Pendergrass é uma pequena tragédia para os amantes da soul music. Mesmo que muitos especialistas no gênero consigam enxergar virtudes no trabalho de novos artistas de soul como Erikah Badu, Mary J. Blige ou Alicia Keys, na minha modesta opinião, o charme e a alma estão na Velha Guarda. Mesmo assim, Teddy ainda era um jovem senhor e deixa um legado inestimável para a soul music. Se você não conhece o homem, corra atrás de discos como Teddy Pendergrass (1977), Life Is A Song Worth Singing (1978), TP (1980) e de uma boa coletânea dos singles de Harold Melvin And The Bluenotes. As altas esferas agradecem.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.