
Não se enganem: todo mundo que se arroga a escrever sobre música pop tem vários podres ocultos. São eles - os podres - que fazem dos críticos musicais seres humanos e não aquelas criaturas irreais que as pessoas tanto amam odiar. Pois bem, estava eu ouvindo outro dia a nova canção da Wanessa Camargo, "Fly", que conta com a participação do rapper fanfarrão Ja Rule. Eu pouco entendo sobre o rap cafetão de Snoop Dogg e congêneres (entre eles o próprio Rule) e não vou me deter buscado explicações para as mansões hollywoodianas que esses caras possuem, todas com torneiras de ouro, quadra de tênis, piscinas olímpicas climatizadas e frotas de Ferraris, Lamborghinis e BMW's nas garagens.
O que sei é que Wanessa deve ter realizado um velho sonho de infância. Ela, uma menina paulista oriunda das classes mais humildes do povo brasileiro, mas que teve a sorte de nascer numa família que enriqueceu graças ao sucesso de seu pai, Zezé Di Camargo, deve tudo o que "Fly" possui ao caminho que Mariah Carey pavimentou na década de 1990. Não só ela mas as Beyoncés, Rihannas e demais "divas" cantantes dos anos 00 devem tudo à Mariah Carey. Seja isso bom ou ruim.
E você deve estar se perguntando: o que eu tenho a ver com isso? Eu detesto Mariah Carey, odeio Wanessa Camargo e quero mais é saber dos novos lançamentos do Massive Attack (Heligoland, que sai em fevereiro) ou do Josh Rouse (El Turista, cantado em espanhol, que também sai no mês que vem) e fica esse sujeito escrevendo sobre essas broacas. Certo, certo, vamos às explicações. "Fly", de Wanessa e Ja Rule é uma boa canção, acredite. Deve ter custado caro chamar o rapper americano para colocar voz e "versos" na música de uma cantorinha tupiniquim, mas Wanessa não faz feio e coloca sua voz treinada na escola Mariah de trinados fininhos e quase-irritantes a serviço de uma batida moderna e de uma produção simpática, o que faz de "Fly" um bom exemplo do que qualquer cantorinha poderia fazer se tivesse a idade de Wanessa. Aliás, a filha do Zezé canta em perfeito inglês, fruto de seu tempo vivido na Flórida, USA. Até incluí "Fly" no meu top ten de canções de 2009. Acredite, por mais brega ou podres que eu possa ser/ter, isso não aconteceria facilmente.

Mas é de Mariah que quero falar. Eu gostava dela nos anos 90, principalmente no quesito estético. Filha de uma cantora de ópera irlandesa e de um engenheiro aeronáutico afro-venezuelano, Mariah é um remix de etnias e batia um bolão quando ostentava seu cabelo cacheado e um belo rostinho suburbano na década passada. Confesso que fiquei definitivamente encantado pela menina quando ela apareceu em 1993 cantando "Dreamlover", uma cançoneta animadinha, algo que era raro em sua carreira até então. O disco que trazia a canção, Music Box, era uma tentativa de Mariah diversificar seu espectro sonoro, uma vez que toda e qualquer aparição sua pré-1993 era cantando baladas derramadas como "Emotions" ou a cover de "I'll Be There", que alavancaram sua carreira em nível mundial. Não seria maldade dizer que o envolvimento amoroso dela com Tommy Mottola, executivo da Sony, contribuiu bastante para esse sucesso.
A idéia de Mottola era colocar Carey como uma menina americana ingênua e romântica, uma imagem que começou a mudar a partir de Music Box, deixando de ser quase solene e anacrônica para um estereótipo mais condizente com os anos 90. O clipe de "Dreamlover" traz Mariah num jardim, cantando e dançando com bailarinos street dance enquanto ela abusa das poses de menininha gatinha esperando que o novo namorado seja seu "amante dos sonhos". OK, é brega, eu sei.
Daydream (1995), o disco seguinte, trouxe outra canção bem legal: "Fantasy". Mesmo que toda a sua base seja surrupiada de "Genius Of Love", do Tom Tom Club, a voz de Mariah plana soberana diante da cama de beats pré-gravados. Ela aparece de patins no clipe, rolando num pier e depois com mais bailarinos street dance em meio a carrões tunados e demais símbolos americanos de felicidade material e realização adolescente. Com o fim do casório em 1997, Mariah soltou gradativamente sua franga e já apareceria mais sensual em "Honey", primeira canção de seu sexto disco, Butterfly.
Interessante notar que ela tornar-se-ia cada vez menos atraente, deixando seu canto de cisne (para mim, pelo menos) com "Heartbreaker", de 1999, faixa do trabalho posterior, Rainbow. Parece que Mottola, vinte anos mais velho e certamente um velhaco possessivo, colocava a moçoila na rédea curta e a obrigava a posar de ingênua mas essa engrenagem comportamental-mercadológica me cativava. Eu via Mariah passeando de partins e rindo na roda gigante e pensava: "poxa, eu queria ter uma garota assim". Presa fácil da máquina cultural-industrial que rege nosso mundo e que se consolidou definitivamente a partir da década de 1990.
Mariah hoje é uma versão flácida da Jessica Rabbit, meio maluca e já batendo na porta dos 40 anos espremida em vestidos tubinho curtíssimos. Em 1993, dançando pelo campo ao som de "Dreamlover" ou patinando no ritmo de "Fantasy", era uma gatinha encantadora. Como já dizia Nei Lisboa, "o tempo não tem dó de quem disfarça".
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.