Cabo de Guerra em 2009

Cabo de Guerra em 2009

30.12.09 | por Cel | Categorias: Cotidiano, Egotrip

uff

Em meio a tantas listas de melhores e piores discos e filmes de hoje, ontem e sempre, decidi dividir com vocês dois fatos que dominaram meu 2009 como se disputassem um cabo de guerra emocional. Mesmo que blogs sejam, em essência, diários pessoais expostos para o mundo, toda a contradição desse conceito não me impede de comentar esses eventos - extremamente pessoais - que me fizeram ver o mundo de forma mais ou menos diferente. Sei que isso faz parte da vida - no caso, ver o mundo com outros olhos à medida que o tempo passa - mas raramente nos damos conta do processo acontecendo. Chega de lenga-lenga e vamos aos assuntos.

Primeiramente o pior possível: quase perdi minha mãe no início deste ano. Para os filhos únicos, criados pela mãe e avós maternos, todos se desdobrando para preencher a figura paterna ausente, não ter sua mãe por perto é uma idéia perturbadora. E não se trata de qualquer fixação freudiana banal. Perdi avô e avó há tempos e ambos me fazem muita falta. Perdi uma segunda mãe muito querida e importante para mim em 2003. Por mais que minha esposa seja maravilhosa e presente em minha vida, esses espaços não podem e nem devem ser preenchidos por ela. São ausências que todo mundo tem que ter em suas vidas para - sim, ver o mundo de forma diferente. Quando precisei levar minha mãe para o Copa D'Or em 21/12/08 às pressas, tive medo de receber alguma ligação fatal pelo celular. Isso, no entanto, graças aos céus, nunca aconteceu.

Vítima de complicação respiratória séria, minha mãe permaneceu internada por 3 meses num vai e vem compreendendo quarto, UTI e unidade semiintensiva. Quando saiu de lá, tudo havia mudado. A distância entre a casa dela, em Copacabana, e a minha, em Niterói, não comportava mais a realidade dos fatos. Precisava de cuidados o tempo todo, fisioterapia, minha presença constante, enfim, ela precisava morar perto de mim e hoje está a cinco minutos de distância. É uma felicidade desejar feliz aniversário para minha mãe depois de tudo o que passou. E eu fiz isso no último dia 13 de dezembro, ainda que ela teime em detestar aniversários e se achar muito velha aos 71 anos de idade. Não importa, a sobrevida que conseguimos dar à ela garante um pouco de fôlego para quando, inevitavelmente, a vida seguir seu rumo natural. Aí, quem sabe escrevo um novo post por aqui sobre esse assunto. Por enquanto, o que era tristeza se transformou em uma forma distinta de felicidade, talvez sentida quando alguém volta da guerra ou algo assim. Confesso que ainda não havia experimentado tal emoção ao ver a Dona Helena sã e salva por aí.

O outro evento marcante de 2009 é extremamente feliz e trouxe, como diz a música, uma promessa de vida pro meu coração. Não, o sentido não é esse que você pode estar pensando, uma vez que meu coração desconhece outra senhora que não seja a que já habita grande parte de sua área construída. A promessa está na minha total realização em cursar a faculdade de História da Universidade Federal Fluminense.

Eu deveria ter feito isso em 1988, quando prestei meu primeiro vestibular. Precisei de 22 anos para ser fiel ao que mais gostava no colégio: História. Eu era bom aluno, meu professor Mauro Paixão me chamava ao quadro negro para continuar suas aulas no terceiro ano do segundo grau e isso não era motivo de vergonha ou desconforto para a turma. Era natural que eu escolhesse História para ser minha carreira, dar aulas, pesquisar, lecionar em universidades, enfim, abraçar a profissão de historiador. Que nada. Fiz oito períodos de Direito e concluí Jornalismo e sempre me perguntei por que não escolhi o que me era mais querido desde muito tempo. A coragem veio há pouco mais de um ano quando conversei com meu enteado Gabriel sobre uma matéria a ser estudada por ele para uma prova. Me surpreendi com minha explicação e com a facilidade que mencionei eventos históricos que havia estudado 20 anos antes e nunca mais depois disso. Pesquisei as formas de ingresso e vi que havia perdido a prova de aproveitamento de estudos para a UFF. Decidi então prestar o vestibular e passei para o segundo semestre de 2009. Perfeito. Se passasse para o primeiro, haveria um conflito irreversível com o primeiro evento desse post e não sei se poderia concatenar situações tão distintas.

Ao entrar em uma universidade aos 39 anos você percebe que há boas chances de ser o mais velho da turma e que a maioria dos professores. Vai enfrentar circunstâncias supostamente embaraçosas ao se enturmar com pessoas com vinte anos a menos que você e pressente que será uma daquelas figuras apagadas que sentarão na última fila e contemplarão as aulas burocraticamente. Que nada. O primeiro período - que se encerrou há uns quinze dias - me trouxe de volta uma forma juvenil de felicidade e de joie de vivre, ou seja, alegria de viver. Adotei e fui adotado por um grupo maravilhoso de pessoas, meus novos amigos para toda a vida, que não se sentem desconfortáveis em dividir textos e estudos para provas e trabalhos. Eles também não se sentem ao lado de um cara muito mais velho, mesmo porque rejuvenesci em sua presença e, talvez escaldado pelos eventos recentes da minha vida, percebi que há tempo pra tudo, até para uma nova formatura, um novo campo de trabalho, uma nova vida pra todos nós. E os excelentes professores que tive nesse primeiro período me deram uma lição mais importante que seus preciosos conhecimentos: que é possível renovar sua fé no ensino e ver a universidade como ambiente para formar profissionais preocupados com a sociedade e o mundo. É o que eu espero.

Deixo vocês com esse post sincero até demais e desejo a todos um 2010 marcante, cheio de coisas pra se lembrar. Meu 2009, que parecia ser cinzento e terrível, se encerra leve e pródigo em alegrias, que eu desejo em dobro para todo mundo.
Feliz 2010!



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Comentários:


Comentário de: Paulo Henrique

Parabens CEL, sou seu fan de carteirinha e esse post me deixou emocionado temos a mesma idade e eu tambem prtendo ingressar na faculdade nesse ano de 2010, estava com receios e você abriu minha cabeça, otimo 2010, pra você e sua familia, nos vemos em 2010

PermalinkPermalink 30.12.09 @ 15:15



Comentário de: José Henrique

Grande Cel, belo texto!
Sensível e perspicaz.

Um abraço e feliz 2010!

PermalinkPermalink 30.12.09 @ 15:16



Comentário de: Cel

Obrigado, Rennan, Paulo e José. É uma honra ser lido por vocês e, Mr. Rennan, meu caro amigo: a honra de estar na mesma sala do maior egiptólogo dos próximos tempos é toda minha!

PermalinkPermalink 30.12.09 @ 16:28



Comentário de: Ronie

Dizer o quê? Parabéns Cel, prá você, sua mãe e seus novos amigos. Feliz 2010. Quero mais textos e não se esqueça de reativar o "Um disco por dia".

PermalinkPermalink 04.01.10 @ 20:37



Comentário de: Maria

Eu também quero o "Um disco por dia" de volta!!!! :)

PermalinkPermalink 06.01.10 @ 18:22



Comentário de: Luciana Aguiar

Leio sempre seu blog mas hoje resolvi escrever.
Parabéns por 2009. Só vitórias.
Feliz 2010. Fico feliz por suas realizações. Bjs

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 14:36



Comentário de: Cel

Lu, sumida. Obrigado pelo carinho, em nome dos Holly Spirit's All Stars. :)

PermalinkPermalink 15.01.10 @ 14:51



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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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