Avatar e os Militares Arrependidos

Avatar e os Militares Arrependidos

23.12.09 | por Cel | Categorias: Cinema

zoe

Responda rápido: o que têm em comum o Coronel Robert Shaw, o Tenente John Dunbar, o Capitão Nathan Algren e o cabo Jake Sully? Além de militares americanos, todos são personagens de um mesmo tipo de filme, o épico do arrependimento e do encontro com valores essenciais, perdidos há muito ou nunca achados.

Os militares acima, personagens de Tempo de Glória (1989, dirigido por Edward Zwick), Dança Com Lobos (1990, dirigido por Kevin Costner), O Último Samurai (2003, dirigido pelo mesmo Edward Zwick) e Avatar (2009, dirigido por James Cameron), são os protagonistas de seus respectivos filmes e encarnam um dilema psicológico sempre presente nas produções americanas do pós-comunismo. É mais ou menos uma equação matemática: sujeito torturado ou vitimado pelo passado vive depressão ou desilusão completa com a vida e acaba expiando seus pecados através da adoção de novos valores morais advindos do contato com grupos sociais estranhos ao seu. O resultado aparece na ajuda que ambos, militar torturado e grupo social estranho, vão prestar mutuamente, dando origem a uma nova realidade, também para ambos.

james, sig, zoe

Essa visão pretensamente sociológica é produto da minha exposição a Avatar, mais recente filme a tratar dessa situação. James Cameron, o roteirista e diretor do filme, esperou 10 anos para produzir Avatar, pois suas idéias para a tecnologia dos efeitos especiais ainda eram exorbitantes em 1999. Bem, em 2009 a estimativa dos valores para o filme dão conta de que ele tenha custado "só" 280 milhões de dólares, o que ainda o coloca no patamar das mais caras hiper-produções de todos os tempos.

Cameron é um cineasta de talento inegável. Dirigiu Titanic, filme no qual bateu records de indicações ao Oscar (14 ao todo) levando 11 estatuetas, dentre elas Melhor Filme e Melhor Diretor. Antes disso ele já fizera seu nome em produções que arrombaram bilheterias como Aliens - O Resgate (1986), O Exterminador do Futuro 2 (1991), True Lies (1994), entre outras, ou seja, James Cameron é sinônimo de grana para os estúdios de Hollywood. É um investimento seguro, sólido, de retorno garantido. Seu Avatar é uma bela realização e seria ainda melhor se não contivesse alguns dos clichês típicos de filme do militar arrependido.

Temos o militar superior durão e insensível, representando a truculência do papel que os EUA desempenham no mundo atual. O empresário/industrial sem escrúpulos, fazendo a presença da lógica capitalista selvagem dos dias atuais, na qual o próprio planeta e sua existência perdem a importância ante a possibilidade de fechar a torneira do lucro. Há o cientista/estudioso/sábio que dá sentido filosófico à busca do personagem principal, arrependido, em direção à redenção. E, finalmente, há o grupo social estranho, que pode ser representado por negros recrutados para o exército branco do século XIX (os "buffalo soldiers", que se recusaram a lutar contra índios americanos no avanço americano em busca do ouro do oeste); índios apache; samurais japoneses ou alienígenas azuis. Há uma preocupação em dotar os integrantes desse grupo estranho de sabedoria e temperança, virtudes que faltam aos vilões, que acabam traídos pelo protagonista atormentado. Na verdade, esse protagonista verá a si mesmo nos costumes e tradições "estranhas" do tal grupo social diferente.

avatar

Com Avatar, um produto da Era Obama, não é diferente. O cabo Jake Sully, fuzileiro paralítico, vai até Pandora, uma lua de um planeta gasoso enorme, parecido com Júpiter, participar do Programa Avatar. A idéia é fazer contato com a população nativa de Pandora, os Na'Vi, humanóides com aparência felina, que habitam as selvas pululantes de vida animal e vegetal. O ser humano, no entanto, não está lá para fazer contato com os Na'Vi, a idéia aqui é explorar minas de unobtanium, um mineral raríssimo na Terra e que existe abundantemente em Pandora. Para isso, claro, um processo de poluição e agressão ao meio-ambiente tem lugar, colocando em xeque a sobrevivência da vida no novo mundo. Há também uma visão em que a obtenção do lucro é o único objetivo, lembrando episódios históricos recentes (Guerra do Iraque) ou nem tanto (A conquista da América por Espanha e Portugal, dentro da lógica mercantilista do século XVI). Os tais avatares são corpos feitos em laboratório, resultado da mistura de DNA alienígena e humano, dando aos seus "pilotos" humanos a possibilidade de contato direto com os Na'Vi, principalmente porque o ar de Pandora é letal e a lua é extremamente inóspita para o homo sapiens.

Através do contato com os Na'Vi, Sully vai encontrar sentido para sua vida miserável, aprenderá valores esquecidos ou inexistentes e vai se identificar com o modo de vida que os nativos experimentam, culminando num final que você pode imaginar facilmente. O que torna Avatar uma experiência poderosa é a fusão dessa história manjada com as mais avançadas tecnologias de captação de movimentos, computação gráfica, filmagem digital, concepção visual, enfim, de tudo o que não costumava se relacionar diretamente com o cinema há alguns anos e que hoje se sobrepõe aos próprios atores e seu desempenho. Felizmente, Avatar tem um excelente elenco, no qual as atuações de Sigourney Weaver (Dra. Grace Augustine), Zoe Saldana (Neytiri) e Stephen Lang (Coronel Robert Quatrich) são o destaque. O protagonista, vivido por Sam Worthington, não vai além do esperado.

avatar poster

Mais que o deslumbrante apelo visual, Avatar mostra um velho dilema humano e aponta o quanto é possível transgredir regras para atingir objetivos. Filmes desse tipo, o do militar arrependido, são, por definição, espetáculos em que o público se identifica com o que é "estranho", "diferente" e "exótico" mas que, em essência, deveria significar apenas "humano". Não pense que os estúdios não sabem disso, filmes desse tipo são poderosas ferramentas ideológicas e eles cumprem seu papel direitinho.



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Comentários:


Comentário de: Cel

Pois é, Rennan. O filme é deslumbrante, seria muito melhor se os clichês fossem evitados, mas isso não diminui o resultado que o Camerão obteve. Deve ser complicado ser americano e ter idéias progressistas, né? Deve ter esse tipo de gente por lá, sem que resvale para a fossa oportunista das coisas. Eu acredito que o roteiro do Cameron é bem intencionado e realmente aborda as questões mais recentes advindas da poluição do planeta e o distanciamento que notamos em nós mesmos em relação ao que achamos "certo" e "humano".

Abração, rapaz.

PermalinkPermalink 23.12.09 @ 11:55



Comentário de: Marcelo Nobre

Excelente exposição do filme, CEL. Realmente, é muito difícil fugir dos clichês. Há sempre referência a algo já feito. Isso me faz lembrar de um artigo do Arthur Dapieve, de uns 12 anos atrás: a de que "não há mais pensamentos que já não tenham sido pensados antes". Ou sejá, não há mais o ineditismo. O jeito, é dar uma roupagem nova, no melhor estilo Lavoisier.

Com relação à discussão acima, sobre a uma suposta ideologia usada pelo Cameron no filme e suas interpretações, prefiro crer que ele procurou usar o cinema e seu poder para simplesmente mostrar o quanto o ser humano (não todos, claro) é estúpido com seu modo de vida altamente predatório e fundamentado na riqueza e na individualidade.

Abraço, CEL!

PermalinkPermalink 23.12.09 @ 14:17



Comentário de: Paulo Henrique

CEL, essa sua demora vai acabar nos matando cara, todo dia eu entro no seu blog e nada, até que enfim, mesmo que eu não tenha ido assistir Avatar, alias vai demorar moro no interior do Rio grande do Sul, achei certas criticas exageradas no sentido de fazê-lo um filme revolucionário e obra-prima, fiquei com um pé atrás, mas quando chegar aqui na minha cidade vou conferir.
Putz me esqueci que e em 3-d e parece que tem de ser em uma sala especial pra esse tipo de exibição

PermalinkPermalink 23.12.09 @ 15:56



Comentário de: Cel

Paulo e Marcelo, obrigado pelos comentários. Paulo, para seu deleite, ainda teremos alguns posts antes do ano novo. Temos mais listas para colocar, uma de filmes e outra de injustiçados, além das tradicionais de melhores do ano.
Há também uma idéia de texto para falar do novo álbum do Ed Motta. Espere e verás.
Abração.
CEL

PermalinkPermalink 23.12.09 @ 16:59



Comentário de: mayhume · http://74630-310

eu gostei

PermalinkPermalink 04.01.10 @ 16:19



Comentário de: Ana

Adorei o filme, mas quem não estudou Xamanismo não percebe parte da mensagem do filme.

PermalinkPermalink 10.01.10 @ 16:12



Comentário de: essays purchase · http://essaywritingservices.org/guarantees.php

So there's the way of coming revolution in movie sphere! I like to be involved on that.

PermalinkPermalink 12.04.10 @ 14:22



Comentário de: Loja Virtual dos Blogueiros · http://www.allblog.com.br/

muito bom o filme

PermalinkPermalink 10.09.10 @ 08:22



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Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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