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Responda rápido: o que têm em comum o Coronel Robert Shaw, o Tenente John Dunbar, o Capitão Nathan Algren e o cabo Jake Sully? Além de militares americanos, todos são personagens de um mesmo tipo de filme, o épico do arrependimento e do encontro com valores essenciais, perdidos há muito ou nunca achados.
Os militares acima, personagens de Tempo de Glória (1989, dirigido por Edward Zwick), Dança Com Lobos (1990, dirigido por Kevin Costner), O Último Samurai (2003, dirigido pelo mesmo Edward Zwick) e Avatar (2009, dirigido por James Cameron), são os protagonistas de seus respectivos filmes e encarnam um dilema psicológico sempre presente nas produções americanas do pós-comunismo. É mais ou menos uma equação matemática: sujeito torturado ou vitimado pelo passado vive depressão ou desilusão completa com a vida e acaba expiando seus pecados através da adoção de novos valores morais advindos do contato com grupos sociais estranhos ao seu. O resultado aparece na ajuda que ambos, militar torturado e grupo social estranho, vão prestar mutuamente, dando origem a uma nova realidade, também para ambos.
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Essa visão pretensamente sociológica é produto da minha exposição a Avatar, mais recente filme a tratar dessa situação. James Cameron, o roteirista e diretor do filme, esperou 10 anos para produzir Avatar, pois suas idéias para a tecnologia dos efeitos especiais ainda eram exorbitantes em 1999. Bem, em 2009 a estimativa dos valores para o filme dão conta de que ele tenha custado "só" 280 milhões de dólares, o que ainda o coloca no patamar das mais caras hiper-produções de todos os tempos.
Cameron é um cineasta de talento inegável. Dirigiu Titanic, filme no qual bateu records de indicações ao Oscar (14 ao todo) levando 11 estatuetas, dentre elas Melhor Filme e Melhor Diretor. Antes disso ele já fizera seu nome em produções que arrombaram bilheterias como Aliens - O Resgate (1986), O Exterminador do Futuro 2 (1991), True Lies (1994), entre outras, ou seja, James Cameron é sinônimo de grana para os estúdios de Hollywood. É um investimento seguro, sólido, de retorno garantido. Seu Avatar é uma bela realização e seria ainda melhor se não contivesse alguns dos clichês típicos de filme do militar arrependido.
Temos o militar superior durão e insensível, representando a truculência do papel que os EUA desempenham no mundo atual. O empresário/industrial sem escrúpulos, fazendo a presença da lógica capitalista selvagem dos dias atuais, na qual o próprio planeta e sua existência perdem a importância ante a possibilidade de fechar a torneira do lucro. Há o cientista/estudioso/sábio que dá sentido filosófico à busca do personagem principal, arrependido, em direção à redenção. E, finalmente, há o grupo social estranho, que pode ser representado por negros recrutados para o exército branco do século XIX (os "buffalo soldiers", que se recusaram a lutar contra índios americanos no avanço americano em busca do ouro do oeste); índios apache; samurais japoneses ou alienígenas azuis. Há uma preocupação em dotar os integrantes desse grupo estranho de sabedoria e temperança, virtudes que faltam aos vilões, que acabam traídos pelo protagonista atormentado. Na verdade, esse protagonista verá a si mesmo nos costumes e tradições "estranhas" do tal grupo social diferente.

Com Avatar, um produto da Era Obama, não é diferente. O cabo Jake Sully, fuzileiro paralítico, vai até Pandora, uma lua de um planeta gasoso enorme, parecido com Júpiter, participar do Programa Avatar. A idéia é fazer contato com a população nativa de Pandora, os Na'Vi, humanóides com aparência felina, que habitam as selvas pululantes de vida animal e vegetal. O ser humano, no entanto, não está lá para fazer contato com os Na'Vi, a idéia aqui é explorar minas de unobtanium, um mineral raríssimo na Terra e que existe abundantemente em Pandora. Para isso, claro, um processo de poluição e agressão ao meio-ambiente tem lugar, colocando em xeque a sobrevivência da vida no novo mundo. Há também uma visão em que a obtenção do lucro é o único objetivo, lembrando episódios históricos recentes (Guerra do Iraque) ou nem tanto (A conquista da América por Espanha e Portugal, dentro da lógica mercantilista do século XVI). Os tais avatares são corpos feitos em laboratório, resultado da mistura de DNA alienígena e humano, dando aos seus "pilotos" humanos a possibilidade de contato direto com os Na'Vi, principalmente porque o ar de Pandora é letal e a lua é extremamente inóspita para o homo sapiens.
Através do contato com os Na'Vi, Sully vai encontrar sentido para sua vida miserável, aprenderá valores esquecidos ou inexistentes e vai se identificar com o modo de vida que os nativos experimentam, culminando num final que você pode imaginar facilmente. O que torna Avatar uma experiência poderosa é a fusão dessa história manjada com as mais avançadas tecnologias de captação de movimentos, computação gráfica, filmagem digital, concepção visual, enfim, de tudo o que não costumava se relacionar diretamente com o cinema há alguns anos e que hoje se sobrepõe aos próprios atores e seu desempenho. Felizmente, Avatar tem um excelente elenco, no qual as atuações de Sigourney Weaver (Dra. Grace Augustine), Zoe Saldana (Neytiri) e Stephen Lang (Coronel Robert Quatrich) são o destaque. O protagonista, vivido por Sam Worthington, não vai além do esperado.
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Mais que o deslumbrante apelo visual, Avatar mostra um velho dilema humano e aponta o quanto é possível transgredir regras para atingir objetivos. Filmes desse tipo, o do militar arrependido, são, por definição, espetáculos em que o público se identifica com o que é "estranho", "diferente" e "exótico" mas que, em essência, deveria significar apenas "humano". Não pense que os estúdios não sabem disso, filmes desse tipo são poderosas ferramentas ideológicas e eles cumprem seu papel direitinho.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.