
No mês de junho de 1989 eu trabalhava na Agência Copacabana da Caixa Econômica Federal. Na verdade, eu era estagiário da Caixa e adorava a rotina de trabalhar seis horas por dia e ganhar uma bolsa-salário simpática, algo que se configurou como o grande propulsor da minha mania perene de comprar e ouvir discos. No mesmo mês, bem longe de Copacabana, Kurt Cobain entrava no estúdio de Jack Endino para gravar o primeiro disco de sua banda, Nirvana. Ele passara um bom tempo tocando nas festinhas de Olympia e Aberdeen, ambas cidadezinhas próximas a Seattle, ao lado de seu parceiro Chris Novoselic. Finalmente Kurt conseguira os pouco mais de 600 dólares para gravar o primeiro disco de sua banda. Pausa.
Essas primeiras linhas do texto servem para situar você, leitor, no tempo e no espaço. Se eu, com meus 39 anos de idade, consigo lembrar do que fazia há 20 anos, talvez você, nascido depois - ou não - de 1989, tenha memórias diferentes, mitificadas ou tomadas emprestadas do senso comum. Mesmo porque é fácil glorificar uma banda de rock como o Nirvana, principalmente pelo que ela representou para a música pop. Não é exagero dizer que o trio formado por Cobain, Novoselic e DaveGrohl (que substituiu o baterista original, Chad Channing) arrombou a porta da festa mercantilista do pop/rock oitentista e trouxe uma realidade alternativa verdadeira para as mesas dos analistas de marketing daquele tempo. Se isso foi bom ou não, é irrelevante. Se pensarmos que as paradas mundiais estavam sob o controle de Bon Jovi, Vanilla Ice ou Milli Vanilli, ver um disco como Bleach subindo na preferência de mais gente do que o escopo das college radios americanas poderiam comportar é algo assustador. Mesmo assim, a porrada na lata do estabilishment mercantil fonográfico viria em 1991, com Nevermind. Mesmo que este viesse sob a chancela da DGC Records, uma gravadora major, seu impacto na cultura pop não pode
ser diminuido pelos cultores do novo cronológico a qualquer preço.

Dito isso, voltemos para Cobain entrando no estúdio com 600 doláres. Em 1989 o Nirvana não era mais do que três nerds desajustados. Esse tipo de gente, quase sempre, não adaptados a uma realidade, emputecidos por isso e cheios de frustrações e desejos inalcançáveis, são responsáveis por discos de rock com alma e verdade. Com o Nirvana não foi diferente e, depois de 20 anos, o resultado dessas gravações com Jack Endino retorna ao mercado com um tratamento "deluxe" promovido pela gravadora da banda na época, a Sub Pop. A edição comemorativa de Bleach traz o álbum remasterizado pelo próprio Jack Endino, mas, mesmo que o disco se apresente com uma sonoridade muito mais ampla e pesada que o abafado registro original, não dá pra fazer muitos milagres a partir de uma gravação chinfrim de 600 dólares num estúdio meia-boca. Endino soube tirar o proverbial leite de pedra ao repaginar Bleach para os anos 00, quase 10. O grande twist dessa edição, no entanto, é a inclusão de um show inteiro da banda, gravado em Portland, em fevereiro de 1990, quando o Nirvana excursionava pelos buracos das vizinhanças, promovendo 1Bleach. Isso é História, amiguinhos.
Se você é um fã da banda, sabe exatamente o valor que Bleach tem para o imaginário coletivo nirvânico. Mesmo porque, é muito legal ouvir o Nirvana como uma bandinha qualquer, lutando por um lugar ao sol, sem nem desconfiar que seu mix de metal e punk, acrescido da veia de compositor pop de Kurt Cobain, seria a válvula de escape de toda uma geração de músicos independentes que batalhavam no underground mais subterrâneo dos USA. Se você não é fã da banda, mas sabe do que se trata, essa versão turbinada de Bleach pode te levar a uma reavaliação de conceitos. Aqui estão presentes, com cara de novinhas, "About A Girl", "School", a supimpa cover de Shocking Blue em "Love Buzz, entre outras, num mosaico meio preto e branco, meio cinza, meio qualquer cor. Quando as faixas ao vivo entram, vemos o quanto a banda
acelera e coloca peso guitarrístico nas canções, algo que Endino quase não conseguiu pegar por 600 pratas em seu estúdio. As versões live da maioria das faixas do disco ganham a companhia de ilustres aparições de canções como "Sappy" (talvez a melhor música do Nirvana que quase ninguém conhece), "Molly's Lips" (uma cover dos escoceses do Vaselines) e composições que eram novinhas como "Been A Son" e "Dive" e que viriam a integrar a coletânea de raridades a ser lançada só em 1992, Incesticide, a reboque do estouro de Nevermind.

Bleach é o testamento de uma banda pós-adolescente, talvez símbolo de uma época que Cobain e seus amigos nunca mais tenham vivido. Mais ainda: uma lembrança de espontaneidade e sinceridade das quais a fama e a agenda o privaram até o dia em que ele resolveu acabar com tudo. Sentimentalismos à parte, este disco é um artefato totalmente livre de qualquer mesquinharia da indústria musical. Pode-se dizer que o tempo o preservou numa bolha protetora.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.