
Meus caros, aqui estamos para colocar a casa em ordem. Estou atrasado em relação ao prazo que eu mesmo dei para o retorno do Blog à sua atividade normal. Ficamos ausentes por pouco mais de um mês, quando o planejamento dava conta de cerca de 20 dias. Tudo bem, provarei pra todos que bons motivos levaram ao prolongamento das minhas merecidas férias. Leiam, portanto, esse textão para colocar o swing of things em ordem.
Viajei com a família para Portugal e Inglaterra. Visitamos duas cidades em cada país, todas muito diferentes e encantadoras. Dentre Lisboa, Porto, Londres e Liverpool, a capital portuguesa levou o título de favorita da casa. É simples, mas talvez só para quem já a conheça. Não há sujeira por lá, a sensação de se aproximar pelo alto, vendo os telhados dos prédios e casas, além da incontestável simpatia dos portugueses, aliado a um cosmopolistismo com cara de uma imensa e avançada cidade histórica mineira na Europa são fatores que credenciam Lisboa para um retorno assim que possível. Logo atrás vem Londres, que todos nós julgamos que seria o ápice de nosso tempo por lá. É legal, a sensação de você "estar no mundo" é grande, tamanho o melting pot de etnias que passeiam pela Oxford Street e pelas estações do Underground, conhecido aqui como Metrô. Porto e Liverpool vem depois, são cidades menores e folclóricas, cada uma a seu jeito. Foi minha primeira ida à Europa, após três viagens aos Estados Unidos. Viajar é sempre bom e o melhor de tudo é a saudável alienação que se instala. Esquecemos todos os problemas e (quase todas) as responsabilidades no Brasil. Igualmente boa é a sensação de chegar em casa e, finalmente, dormir um bom dia de sono.

Uma das grandes vantagens de estar em cidades como essas é experimentar alguns traços culturais que nos são meio estranhos. Dou um exemplo: ainda há gente comprando discos por lá e, claro, há lojas com ofertas legais e lançamentos pipocando. Sei muito bem que a indústria do disco está com as horas contadas, que mil formatos interativos vão aparecer e disponibilizar tudo fácil fácil pra todos, de Bangladesh a Foz do Iguaçu, mas, nada como a sensação de escolher discos numa prateleira, achá-los e riscar numa listinha. Em Lisboa encontramos uma FNAC simpática num bairro meio boêmio chamado Chiado. A loja, a exemplo das megastores francesas e suas irmãs paulistanas e cariocas, traz uma grande oferta de lançamentos que procuram ser plurais. Por exemplo, era possível comprar títulos do Depeche Mode na versão CD/DVD da Rhino inglesa por 12 euros. Menos que 30 reais. Fiquei por um bom tempo com o Music For The Masses, o Violator e o Songs Of Faith And Devotion nas mãos e os descartei. Em troca recebi doses cavalares de arrependimento. Em Londres o bicho pegou em forma de promoções das edições Deluxe a 12 libras, menos que 40 reais. De The Who a Housemartins. De Eric Clapton a Alan Parsons Project. Algumas dessas foram adquiridas sem piedade, entre elas, alguns discos favoritos de muito tempo como Solid Air, de John Martyn; Too-Rye-Aye, do Dexy's Midnight Runners e Sketches Of Spain, de mestre Miles Davis. Também vieram na bagagem The Who, Waterboys, Emerson, Lake And Palmer, Beatles remasterizados, Air, Madredeus e outros. Foram aquisições felizes.

Algo que me chamou a atenção tanto em Lisboa quanto em Londres foi a atenção dada ao último disco do A-Ha, Foot Of The Mountain. Isso nos leva a um outro assunto.
Eu pretendia fazer um texto em defesa do A-Ha desde antes da viagem. Acho que há um preconceito enorme em relação ao trabalho do trio noruguês e um equívoco tremendo em caracterizá-lo como "uma banda dos anos 80". Claro que os dois primeiros discos da banda. Hunting High And Low (1985) e o magnífico Scoundrel Days (1986) marcaram aquela década e o multiplatinado (ainda que um pouquinho inferior) Stay On These Roads (1988) serviu para cravar a imagem de rapazes bonitões e new romantics do A-Ha no imaginário dos eighties. Uma olhada atenta para o ano 2000 mostrará o primeiro disco da banda em 7 anos (o anterior fora o sombrio e subapreciado Memorial Beach em 1993), Minor Earth Major Sky. Ali, Morten Harket, Paul Waaktaar-Savoy e o tecladista Magne Furuholmen praticamente se reinventavam e mantinham intacta sua maneira de fazer música. Talvez a condição nórdica dos caras desse ao A-Ha uma certa emulação de fraseados clássicos e um bom gosto meio diferente dos ingleses, vá saber. Os lançamentos posteriores a esse trabalho, Lifelines (2002), Analogue (2005) e o novíssimo Foot Of The Moutain (2009) confirmam isso. A-ha é legal, ou melhor, era legal, uma vez que o trio anunciou o fim de suas atividades no ano que vem, após uma última turnê mundial. Aliás, quem quiser conferir a capacidade live do A-Ha deve correr atrás do duplo How Can I Sleep With Your Voice In My Head (2003), que traz a turnê de Lifelines, com belas releituras dos clássicos de antanho. A frase que dá nome ao disco é um verso de "The Swing Of Things", single menor do segundo disco do A-Ha. Ouçam sem preconceito pois a banda é melhor que todas as formações emuladoras de pós-punk inglês e britânico surgidas a reboque de Strokes e cia.

Falando em Strokes: o disco solo de Julian Casablancas já estava com posters no metrô londrino quando viemos embora. Não levei fé, apesar da imagem de Julian empunhando uma guitarra plugada num amplificador ser bastante convincente de que Phrazes For The Young, seu primeiro trabalho off-Strokes seria motivo de atenção.
Muito mais que isso: o disco é surpreendentemente legal e supera largamente todos os trabalhos paralelos de seus companheiros de Strokes. Em Phrazes For The Young, Casablancas, além de compor tudo, deixa um pouco de lado o seu cinismo strokiano e se mostra vulneravel a amor, tédio, desilusão, falta de esperança. A sonoridade oscila entre algo que tanto os Cars quanto o Television poderiam fazer se fossem formados por gente nascida em 1978 e há canções que superam tudo que os Strokes fizeram até agora. Ouça "Left And Right In The Dark", "Ludlow St." e "River Of Brakelights" e comprove.

Na pilha de "novos lançamentos a serem comentados" ainda está Raditude, o novo trabalho do Weezer. Uma leitura atenta a este blog revelará que este escriba é um grande simpatizante do rock nerd praticado por Rivers Cuomo e sua banda. Mantendo a tradição cromática de seus discos, o Weezer estampa uma capa "normalzinha" após trabalhos que tenham uma capa onde uma cor aparece como pano de fundo para a banda. Sendo assim, após o chamado "Red Album" do ano passado, surge Raditude, para a felicidade geral da nação. O que faz desse disco uma pequena delícia é a cuca fresca de Rivers Cuomo em relação ao mundo e sua reconciliação com o imaginário adolescente americano da virada dos anos 80/90, que sempre forneceu munição para suas letras e para a própria postura da banda. Um post antigo desse blog faz uma análise sobre o disco anterior do Weezer e constata que Cuomo esteve vivenciando uma bela crise da meia-idade, algo que parece totalmente superado em Raditude. Canções como "The Girl Got Hot" mostram que tudo passou e que o vocalista e líder da banda continua o mesmo, observando o mundo por trás de seus óculos nerdíssimos. Melhor pra nós. Raditude será lançado no Brasil ao longo desse mês de novembro.

Ainda na pilha de lançamentos está o novo disco de Norah Jones, Fall. Bem, Norah Jones é uma gatinha, além de talentosa e dona de uma bela voz aveludada e com uma capacidade para se equilibrar nas fronteiras que aproximam folk, blues e jazz. Neste novo disco, a moça resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer. Deixou o piano de lado, empunhou uma guitarra e resolveu chamar músicos diferentes, entre eles Joey Waronker, que colabora com o REM. Além disso, parcerias com Ryan Adams e Will Sheff, além da produção de Jacquire King, famoso por pilotar estúdios para o Modest Mouse e o Kings Of Leon, confirma uma singela guinada indie na carreira da moça que, para completar o upload, resolveu descobrir que é dona de uma sensualidade inocente que pode ser fatal. O primeiro single do disco, "Chasing Pirates", é um belo exemplo de como Norah soube proceder uma sutil reinvenção. Ela, Weezer e Casablancas estão credenciados para o Top 10 deste ano. É esperar para ver.

Dois discos bem importantes completam aniversários significativos e recebem edições de luxo, daquelas irresistíveis. Unforgettable Fire faz 25 anos e recebe um tratamento de gala, ganhando versão dupla, dupla com DVD e múltipla, com DVD, CD, LP, selo, fio de cabelo do Bono, areia do deserto de Los Angeles...Não é pra menos: este foi o disco que credenciou o U2 para o estrelato mundial. Se eles eram uma ótima aposta rock para a década de 1980 com o êxito de War (seu terceiro disco, lançado um ano antes), com Unforgettable Fire e a chegada de Brian Eno e Daniel Lanois para os cargos de produtor e engenheiro de som, o U2 foi capaz de criar um disco com uma sonoridade única e instigante, ao mesmo tempo rock e esparsa. Somando essa novidade a belas composições como "Pride" ou "Bad", o U2 saiu das paradas das college radios e programas de clipes para o Fantástico e para o quadro-negro da minha sala de aula no Colégio Santo Agostinho em pleno 1985, em meio ao boom roqueiro daquele início de ano. Unforgettable Fire, além de ser um discaço, é senhor de um lugar só seu no coração desse jornalista.
O outro disco a ser repaginado e receber louros é Space Oddity, de Mr. David Bowie. Esse é o trabalho que marca o início da persona camaleônica de Bowie, após este imprimir mudanças radicais em termos de approach e visão musical. Da produção de Tony Visconti e Gus Dudgeon (produtor de Elton John), vieram canções como "Janine", "Memories Of A Free Festival" e, sobretudo, a faixa-título, produzida apenas por Gus. Se Bowie parecia indeciso entre as sonoridades folk-progressivas que dominavam a Inglaterra de 1969, com este disco ele escolheu o caminho mais complicado: criou algo novo, que ganharia forma e seria reverenciado dali pra frente. Para os mais alvissareiros, "Space Oddity", a canção, traz a estréia de um dos mais famosos personagens de Bowie, o controverso Major Tom, que voltaria a aparecer 11 anos depois na letra de "Ashes To Ashes", do lancinante Scary Monsters. História sendo feita, amigos.

Mudando um pouco de assunto, mas ainda no âmbito das pequenas obras de arte que são históricas. Uma das minhas canções nacionais prediletas em todos os tempos pertence a Erasmo Carlos e chama-se "Largo da Segunda-Feira". É a faixa de abertura de seu disco mais confessional, o maravilhoso Sonhos e Memórias 1941/1972. Longe de ser o Tremendão da Jovem Guarda, Erasmo faz aqui uma viagem sentimental à sua infância e adolescência na Tijuca e se deixa levar pela famigerada crise dos 30 anos (ele tinha 31 anos então). Incapaz de resistir ao ideal hippie (traduzido no Brasil como uma vida tranquila no interior do país, principalmente por canções como "Casa No Campo"), Erasmo compôs "Meu Mar", na qual ele clama por um "lugar bem pertinho ao mar", cuja letra diz "quero um pileque de água de côco e da vida saber muito pouco, quero os olhos da minha janela e ter muitos filhos com ela", referindo-se à esposa Nara. É legal ver a alternância entre o lar idealizado pelo homem de 31 anos e sua saudade pelo lar que existia quando era menor. Bem, essa digressão serve para dizer que, finalmente, Erasmo Carlos recebe uma biografia, "Minha Fama de Mau". Não bastasse a felicidade de poder ler as histórias do "Carlos menos famoso", é o próprio que as escreve, num tom de conversa de bar. Tive a oportunidade de conhecer Erasmo pessoalmente - na verdade, eu o estava tietando - por conta do lançamento de seu último e bom disco, Rock'n'Roll, e ele parece ser ótima pessoa. Nem se importou em assinar todos os dez encartes de discos que levei para ele. Leiam o livro, conheçam o homem.

Erasmo Carlos ainda tem outras músicas que remetem à sua vida adolescente tijucana, a mais óbiva é justamente "Turma da Tijuca", que integra seu disco homônimo de 1984. Dessa época também é o sucesso "Close", que, supostamente, ele teria composto para o travesti Roberta Close. Lembro de vê-lo no Cassino do Chacrinha interpretando a canção e sobre o programa do Velho Guerreiro faço algumas considerações. O documentário Alô, Alô Terezinha, de Nélson Hoineff deve ser visto até por quem nunca ouviu falar em Abelardo Barbosa.
Eu tive oportunidade de ver o Cassino do Chacrinha entre os anos 1985 e 1988 e, a princípio o fazia por motivos onanísticos. As chacretes eram o principal atrativo do programa para o adolescente de 14 anos, num tempo em que não havia internet ou qualquer coisa que se assemelhasse à facilidade que a grande rede proporciona em termos de pornografia ou algo assim. Aliás, ver as chacretes não era pornografia para a maioria das pessoas. Para mim, entretanto, era a mais alta e celestial pornografia. Elas não seguiam um padrão de beleza, não tinham os corpos malhados e/ou magérrimos que estabeleceram os padrões de beleza atuais, tampouco usavam próteses de silicones ou mesmo faziam poses ginecológicas ao som de funks podres. Pelo contrário. As chacretes, mesmo que não economizassem em sensualidade, eram revestidas por uma aura de inacessibilidade, pelo menos para o solitário adolescente de 14 anos. Eu tinha minhas preferidas e a famigerada Rita Cadillac não figurava entre elas. Dançarinas como Cristina Azul, Maryângela, Chininha ou Erika Selvagem me atraíam muito mais. Aliás, imagino que eu tenha ido buscar algo da adolescência perdida em Alô, Alô Terezinha e, sim, encontrei. O filme é uma contundente lição de como o tempo pode passar para todos e me deu a sensação de ser um adulto de 39 anos. O adolescente de 14 ficou lá, trancado no quarto do passado, ao se deparar com as chacretes hoje, na meia-idade (ou mais velhas, no caso das mais veteranas), tentando levar a vida longe do glamour que tinham. Muitas reclamaram da maneira como o filme as trata, principalmente por insinuar que muitas faziam programa ou namoravam artistas famosos. Talvez o mais triste seja limitar as mulheres que dançavam ao status de chacrete. O documentário é interessantíssimo e nos faz pensar no que aconteceu à televisão brasileira após a morte daquele sujeito que jogava verduras, legumes e bacalhaus na audiência e que debochava da feiúra dos calouros. O "politicamente correto" nem pensava em existir naqueles tempos e homossexuais, feios e desafinados eram detonados em rede nacional, em plena época da ditadura militar. Enfim, o tempo passou, amigos.

Fechando esse textão com mais duas recomendações cinematográficas: Distrito 9 e Adventureland. O primeiro estreiou antes da viagem e eu não deixei de conferí-lo assim que voltei. Longe do bom mocismo sociológico que muita gente diz ter visto no filme, Distrito 9 - uma ficção científica sobre alienígenas que habitam uma favela em Johannesburgo - é uma paulada na lata. E incomoda demais pela brutalidade que salta da tela. No elenco não há ninguém conhecido e a presença de Peter Jackson na produção garante um rigor estético implacável, ainda que eu não seja exatamente um fã da trilogia de Senhor dos Anéis. Adventureland foi minha distração no vôo de volta de Londres. Na minha concepção, sono, avião e noite não se misturam e eu passei quase a totalidade do vôo (9 horas!) acordado em busca de distração. Revi "Anjos e Demônios" e "Wolverine" e resolvi apostar no filme que dizia ter sua história ambientada no ano de 1987. James Brennan (Jesse Eisenberg) é um adolescente meio nerd que pretende visitar a Europa mas vê sua intenção fracassando por conta dos problemas financeiros enfrentados pelos pais. Sendo assim, James precisa ficar em casa e trabalhar no verão, caso queira continuar sonhando com uma viagem ao velho continente. Ele encontra esse emprego em Adventureland, um parque de diversões meio decadente, no qual ele vai conhecer pessoas interessantes e alguns picaretas. No primeiro time estão Joel (Martin Starr) e a lindinha Em (vivida pela badaladinha Kristen Stewart, que se credencia ao posto de Meg Ryan dark pela participação em Twilight e Lua Nova), por quem se apaixona. É o ponto de partida para um simpático filme sobre coming of ages, dirigido por Greg Mottola, responsável pelo excelente Superbad em 2007. Aqui temos a revisitação de alguns ícones oitentistas, entre ele uma prática que se perdeu no tempo - a troca de fitas cassete entre pessoas apaixonadas. A trilha sonora traz Lou Reed (de quem Brennan é fã), Replacements, Crowded House, The Outfield, The Cure, músicas originais do Yo La Tengo, além de uma canção que desencadeou um processo sério de reavaliação do INXS, "Don't Change". Essa é uma música do terceiro disco da banda australiana, Shabooh Shobaah, gravado em 1983, bem antes dos sujeitos atingirem o mega-estrelato - algo que só viria com o sexto disco, Kick, em 1987. Para quem vê o INXS como uma banda fanfarrona (é uma espécie de Aerosmith pós-punk, alternando ótimos e péssimos momentos, além de demonstrar uma queda para a canastrice equivalente), recomendo audições desse terceiro disco.

A prometida lista de 60 melhores discos entre 1999 e 2009 está no prelo. Até o fim da semana virá ao ar. Talvez vocês gostem, talvez não e isso será muito legal. Até.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.