
Desde que surgiu em 1997, o Muse sempre foi alvo de comparações. No início da carreira, quando produziu os dois primeiros discos, Showbiz e Origin Of Symmetry, a banda era uma espécie de Radiohead mais pop. A partir do terceiro trabalho, Absolution, o trio incorporou elementos de rock setentista que estavam em desuso na ordem do dia. Absolution, lançado em 2003, era coalhado de detalhes progressivos e nuances de hard-glam rock, levando o Muse a ser comparado com grupos como Queen.
O sucesso alcançado nesse terceiro disco levou a banda a Black Holes And Revelations, o quarto trabalho, no qual esses insights setentistas deixaram de ocupar o segundo plano para incorporarem-se definitivamente ao som da banda. Agora, ao lançar seu quinto disco de inéditas - descontando o registro ao vivo de HAARP - o trio comandado pelo multi-tarefas Matt Bellamy - que canta e toca piano como se fosse um Freddie Mercury e concebe melodias na guitarra que fariam frente ao trabalho de Brian May - atingiu o seu ápice. The Resistance é um disco monstruoso, enorme, acachapante, apesar de não ter um só elemento original em seu arcabouço.
A ambiência é totalmente diferente do que qualquer banda de rock está fazendo hoje em dia. O Muse não hesita em optar pelo exagero e descartar a estética punk requentada de "menos é mais", empreendida por gente como, digamos, o Arctic Monkeys. The Resistance é um mosaico de sons, citações, influências melodramáticas, afetações glam, tudo empacotado num formato de ópera-rock, como não se via há um bom tempo.
Ao contrário de bandas que enveredam pela seara dos sons grandiosos e "progressivos", mas que procuram camuflar ou repaginar o estilo - como Mars Volta ou Porcupine Tree - o Muse abraça a solenidade, a pompa e a mitologia do disco conceitual, do exagero e se sai muito, muito bem. The Resistance tem cara de filme B de sci-fi, daqueles em que a sociedade é ditatorial, o governo é onipresente, o mundo é cinza, mas há alguém, um homem que se insurge e luta contra a opressão. Ou, talvez, o governo é aparentemente justo, o mundo é colorido - mas falso - e alguém, um homem, se insurge para desmascarar a armação. Você pode imaginar o que quiser, a música é feita como se o rock ainda estivesse em seus tempos ingênuos em que gerava mitos e acreditava nos maniqueísmos de "bom e mau" ou "certo e errado" para refletir a sociedade.
Como o rock é, a exemplo de toda arte, essencialmente, produto da realidade que a produz, o Muse quer mostrar uma mensagem bastante interessante: não há uniformidade, ao contrário do que pode parecer. As bandas de rock bem sucedidas não precisam se render ao formato "divulgação na internet-guitarras chupadas dos Strokes" para existir e obter sucesso de público e crítica.

A abertura de The Resistance, com o single "Uprising", mostra que a possibilidade de fundir glam rock e technopop de grupos como Depeche Mode é elemento essencial para a banda. A levada sinuosa e dançante aponta para danças extra-terrestres num happy hour na cantina de Star Wars. A faixa-título, logo em seguida, já mostra que o clima mudou e pianos de europop oitentista emolduram o canto derramado de Bellamy numa levada que poderia ser classificada como uma fusão de Pet Shop Boys e Queen. "Undisclosed Desires", a terceira faixa, é uma abdução das batidas de um Timbaland para o mundo de Admirável Mundo Novo. A produção - a cargo da banda - amplia o tom de "Supermassive Black Hole" (faixa do disco anterior) e confirma a pista de dança como uma das muitas influências do Muse. "United States Of Eurasia" vem em seguida e desmancha as luzes da dança num tema obliterado de totalitarismo a la 1984, com citações explícitas ao Queen (que já experimentou tema semelhante em "Radio Ga-Ga"), sejam vocais ou guitarrísticas. Ao fim da canção, o Noturno de Chopin é tocado por Bellamy ao piano, em meio a efeitos especiais estranhos. "Guiding Light" dá continuidade à grandiosidade, dessa vez com instrumental baladeiro dos anos 80 e vocais se equilibrando entre o sentimento verdadeiro e a canastrice. O disco mergulha novamente no hard rock sinfônico em "Unnatural Selection" e segue assim pela faixa seguinte, "MK Ultra", para desaguar numa canção "piano driven", com batidas alegres, que poderiam ser um lado B esquecido de Let's Dance, de David Bowie. "I Belong To You", no entanto, é assaltada pela dramaticidade de um cabaret espacial e, em meio a clarinetes e oboés sintetizados, se transforma em "Mon Coeur S'Ouvre A Ta Voix".
As três últimas faixas de The Resistance formam uma suite progressiva clássica, com o sintomático nome de "Exogenesis Symphony", dividida em "Part I: Overture", "Part II: Cross Polinnation" e "Part III: Redemption", todas cheias de pianos apocalípticos, mitologia de heróis e ambiência de novelas de ficção científica.
Resumindo a ópera (rock): o Muse fez não só o seu melhor disco, como foi capaz de reafirmar sua capacidade de se valer de referências malditas e/ou ridicularizadas e torná-las verdadeiras novamente, sem parecer irônico ou blasé.
Num mundo em que as pessoas não têm quase noção de arte ou capacidade para desvincular a novidade da cronologia, entrar no clima de The Resistence é um convite para uma bela imersão num escapismo que parecia sepultado pelo pragmatismo e pelo politicamente correto. Bravo.

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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.