O Professor de Música

O Professor de Música

10.09.09 | por Cel | Categorias: Música

holland

Eu nunca tive uma aula de música no colégio. Lembro de ter algo no gênero quando estava no maternal ou no CA, não sei ao certo. A partir de 1977, no entanto, eu não tive uma aula de música sequer. E eu acho que deveria ser obrigatório aprender música nas escolas do mundo, não só pela oportunidade de manter contato com uma forma tão bela de arte como pelo aspecto educacional, de nos dar mais e mais elementos para formarmos nossa personalidade e caráter. Certo? Sim.

Essa conversa sobre as aulas de música não surgiu do nada. Dois fatores recentes me levaram a essa consideração. A exibição de Mr.Holland - Adorável Professor há uns dias me levou novamente às lágrimas, dessa vez acompanhado por Maria, minha esposa, que nunca vira o filme com a atenção devida. Se você nunca viu, a história é mais ou menos essa: Richard Dreyfuss (que foi indicado ao Oscar pelo papel) é Glenn Holland, um compositor americano, fã de jazz e Beatles, que é obrigado a trabalhar como professor de música na América dos anos 60. Ele não lida bem com a idéia, pois, em sua visão, ensinar música seria um trabalho menos nobre do que compor sinfonias. Aliás, Holland passa o filme todo rascunhando uma tal de American Symphony, na qual pretende misturar tudo o que gosta de ouvir.

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Com o passar do tempo, Holland percebe que pode influenciar as pessoas positivamente através da docência, ele começa a gostar de seu trabalho, dedicando-se mais e mais. Até que chegam os anos 90, pragmáticos, frios e práticos, que levam o filme ao desfecho que não contarei aqui. Recomendo totalmente uma sessão de Mr.Holland em família, com a pessoa amada ou sozinho, para uma boa reflexão sobre um monte de coisas. Dê o desconto para o tique americano de provocar lágrimas e para a roupagem essencialmente ianque com que a trama é revestida. A música fala mais alto o tempo todo.

jack

O outro fator que me levou a querer aulas de música nas escolas foi o disco Innocence And Despair - The Langley Schools Music Project.
Imagine que você é um audiófilo qualquer que entra numa loja de Hoboken, Nova Jersey, atrás de alguma raridade e topa com um LP de uma escola primária do Canadá, gravado em 1976, mas, em vez de canções infantis, o track list traz "Space Oddity" (David Bowie), "Band On The Run" (Paul McCartney) ou "Help Me Rhonda" (Beach Boys). O tal audiófilo, Irwin Chusid, leva o disco para seus amigos do selo Bar None e tem início uma grande pesquisa para descobrir como aquilo havia sido feito.

A figura de Hans Fenger, o professor dos alunos, é logo identificada. Fenger, um guitarrista da noite de Vancouver, sobrevivia com seus pequenos shows em bares e buracos diversos da cidade canadense e de aulas em uma loja de instrumentos musicais. Descobre que sua namorada está grávida e percebe que precisa de um emprego mais estável para sustentar a família. Dois anos depois, já com o diploma de professor, Fenger é contratado para lecionar música em escolas do interior do estado canadense da Columbia Britânica.

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Ao contrário do que podemos pensar, o interior do Canadá pode parecer bastante com o interior do Brasil, por exemplo. Crianças chegando a cavalo para a aula, gente que mora em comunidades agrícolas sem qualquer contato com nada muito urbano, mas com vontade de aprender. E Hans, sem qualquer noção de método de ensino, descobre que as crianças têm um relativo conhecimento musical do que está tocando nas paradas de sucesso. Lembre-se, é 1976 e a pop music está em um momento bastante interessante.

O professor resolve gravar alguns ensaios, até que decide promover a gravação de um disco com os alunos cantando. A idéia dá ânimo à comunidade, que contribui para a gravação com algumas doações. Um amigo de Hans, Greg Finseth, traz um gravador de dois canais para o ginásio da escola no qual cerca de 60 crianças são colocadas. Só há dois microfones para a empreitada e Hans se encarrega de tocar guitarra e piano. Consegue alguns instrumentos percussivos, um xilofone, amplificadores de segunda mão e um baixo sem todas as cordas e dá início às gravações. Ele ainda faria isso no ano seguinte, 1977, com os mesmos resultados e mais um disco gravado.

A Bar None Records juntou o repertório dos dois álbuns e lançou um CD em 2001 com a íntegra das canções. Nas 19 interpretações há momentos emocionantes de sobra, principalmente pelo fato de que as vozes infantis, sem treino fake de programa de calouros a la Raul Gil, são as nossas vozes. Todos nós tivemos aquele timbre vacilante, a tal "inocência" e "desespero" que o título do CD traz, e fica fácil a identificação com os jovens cantores. Aliás, não há qualquer traço de profissionalismo nos registros, o que aproxima a experiência ainda mais da vida real e das nossas próprias reminiscências do que pode ser a compreensão da música por crianças entre 7 e 12 anos - a faixa etária para qual Hans Fenger lecionava na época.

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Eu já conhecia o disco desde seu lançamento, mas ao apresentá-lo para Maria há algum tempo, ele ganhou nova dimensão pessoal por conta da identificação imediata dela para com a obra, principalmente pelo fato de perceber nas intenções meio instintivas do professor de música, a vontade de transformar a vida das pessoas, no caso daquelas crianças que viviam nos canfundós do Canadá. Eu e ela, beirando os 40 anos, estamos com vontade de transformar vidas, as nossas e as de gente que nem conhecemos, pelo simples fato de ainda acreditarmos em coisas como bondade, alegria, conhecimento, valor à cultura e, sobretudo, por achar que as coisas, de um modo geral, vêm piorando com o passar do tempo. Achamos que há um triunfo preocupante do meio sobre a mensagem, que a produção cultural em geral está podre e que as pessoas estão perdidas no fast-forward do cotidiano, sem tempo para o que importa. Ouvir música por exemplo, a tal ponto que seja possível gravar crianças num ginásio canadense. Se você pensa da mesma forma, procure obter o disco. Recomendo a versão física, não apenas o mp3, pois o encarte é extremamente bem cuidado e rico em informação - algo que também está perdendo a importância por aí.

Track List:
1. Venus and Mars/Rock Show - Paul McCartney
2. Good Vibrations - Beach Boys
3. God Only Knows - Beach Boys
4. Space Oddity - David Bowie
5. The Long and Winding Road - Beatles
6. Band on the Run - Paul McCartney
7. I'm Into Something Good - Herman's Hermits
8. In My Room - Beach Boys
9. Saturday Night - Bay City Rollers
10. I Get Around - Beach Boys
11. Mandy - Barry Manilow
12. Help Me, Rhonda - Beach Boys
13. Desperado - Eagles
14. You're So Good to Me - Beach Boys
15. Sweet Caroline - Neil Diamond
16. To Know Him is to Love Him - Ronettes
17. Rhiannon - Fleetwood Mac
18. Wildfire - Michael Murphy
19. Calling Occupants of Interplanetary Craft - Carpenters



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Comentários:


Comentário de: Cel

Obrigado pelos elogios, Tiago. Olha, eu até acho que este 2009 trouxe alguns discos interessantes. Temos bons trabalhos de Bob Dylan e Neil Young, lançamentos de Smokey Robinson, Maxwell, Bruce Springsteen, o duo francês Phoenix, Jarvis Cocker...
Boas coisas nacionais também como a Tiê, o Dois em Um, o segundo disco de Mariana Aydar, Luisa Mandou um Beijo, o novo do Pullovers...
Dê uma procurada que você vai gostar de alguma coisa.
Os remasters dos Beatles? Estou esperando a chegada da caixa na semana que vem. Mal posso esperar para ouvir o Abbey Road remasterizado.

Abração.

PermalinkPermalink 10.09.09 @ 16:29



Comentário de: Ronie

Confesso que virei fã de seus textos. Apesar de você fazer parte da urubuzada.

PermalinkPermalink 10.09.09 @ 20:12



Comentário de: Jose Henrique

As coisas não estão piorando, cara.
É que a mídia só enfoca desgraças...
Me lembrei de um lance.
No fim do ano passado(retrasado?) tava jantando e vendo o Jornal Nacional(coisa rara, não vejo essa coisa), quando o casal vinte de lá anunciou uma reportagem sobre os fatos mais marcantes que as pessoas lembravam que tinham acontecido durante o ano.
Pois bem, houve uns 5/6 respostas e TODAS foram fatos negativos. Algum caso de corrupção, algum caso de violência...
O que me levou a comentar com meu pai, que tb estava assistindo. Ora, eles só passam desgraças, o povo só pode então lembrar de coisas ruins!
Sem querer ser Poliana, bicho, longe disso. Mas, o copo tá metade cheio, sempre esteve.
Se bem que, aí no teu Rio de Janeiro.
O Funk virou patrimônio cultural!!! hauaauauhaua

PS: Se eu tivesse sido perguntado pela reportagem do JN, teria respondido que o que mais me marcou no ano foi o menino de 8 anos chamado Riquelme(sim, em homenagem ao crack argentino), que vestido de Super-Homem entrou numa casa, vizinha a sua, em chamas pra salvar um bebê.
Acho que só foi notícia porque o moleque tava vestido de Super-Homem. :>)

Um abraço

PermalinkPermalink 11.09.09 @ 04:49



Comentário de: Jose Henrique

Ahhh, cara, esqueci.
Já que o assunto é música nas escolas.
Paul Maccartney certa vez falou que ninguém pode ser considerado alfabetizado musicalmente se não ouviu Pet Sounds dos Beach Boys.
Eu concordo!

PermalinkPermalink 11.09.09 @ 04:52



Comentário de: Vanessa Marcos

Olá CEL td bem ???

Sou estudante de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi. Este semestre faremos o perfil de Roger Moreira( vocalista do Ultraje a Rigor) e suas composições em forma de documentário, e queriamos um crítico musical para falar sobre as músicas dele.

Será que o senhor teria disponibilidade para dar um depoimento para o nosso documentário ???

Grata pela atenção e aguardo resposta.

PermalinkPermalink 11.09.09 @ 12:24



Comentário de: Cel

Ô, Vanessa, o Senhor está no céu. Não no CEL. Dã.

Já mandei e-mail para você.

Beijos,
CEL

PermalinkPermalink 11.09.09 @ 14:12



Comentário de: Eunice Serdeira

Olhei o filme,e adorei aconselho todos olharem.

PermalinkPermalink 06.12.09 @ 23:30



Comentário de: Giselly Louchard

Me tire uma duvida ,wild fire de Michael Martin Murphey foi regravado por uma banda dos anos 70 ou 80 ,gostaria de saber qual o nome dessa banda,pois já revirei toda a internet e não encontrei nada!

PermalinkPermalink 07.04.10 @ 14:09



Comentário de: Cel

Vou procurar também, Giselly e posto aqui se descobrir algo.

PermalinkPermalink 07.04.10 @ 17:42



Comentário de: Luiza !

Oiee ! Cel ! gostei muito de texto !!
mas to akii !! por que quero seguir uma
carreira de musica, para da aular ou
coisa assim sei lá... tenhu 17 anos e penso em
entrar na facul ano q vem já ! mais to com
muitas duvidas !! e gostaria de batre um papo
com vc !! sei q podes m ajudar !!
meu email está aii ! se puder m ajudar
entre em contato !! Brigadinha

PermalinkPermalink 29.05.10 @ 12:53



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Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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