Arquivos para: Setembro 2009

Muse Inspirador

22.09.09 | por Cel | Categorias: Música

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Desde que surgiu em 1997, o Muse sempre foi alvo de comparações. No início da carreira, quando produziu os dois primeiros discos, Showbiz e Origin Of Symmetry, a banda era uma espécie de Radiohead mais pop. A partir do terceiro trabalho, Absolution, o trio incorporou elementos de rock setentista que estavam em desuso na ordem do dia. Absolution, lançado em 2003, era coalhado de detalhes progressivos e nuances de hard-glam rock, levando o Muse a ser comparado com grupos como Queen.

O sucesso alcançado nesse terceiro disco levou a banda a Black Holes And Revelations, o quarto trabalho, no qual esses insights setentistas deixaram de ocupar o segundo plano para incorporarem-se definitivamente ao som da banda. Agora, ao lançar seu quinto disco de inéditas - descontando o registro ao vivo de HAARP - o trio comandado pelo multi-tarefas Matt Bellamy - que canta e toca piano como se fosse um Freddie Mercury e concebe melodias na guitarra que fariam frente ao trabalho de Brian May - atingiu o seu ápice. The Resistance é um disco monstruoso, enorme, acachapante, apesar de não ter um só elemento original em seu arcabouço.

A ambiência é totalmente diferente do que qualquer banda de rock está fazendo hoje em dia. O Muse não hesita em optar pelo exagero e descartar a estética punk requentada de "menos é mais", empreendida por gente como, digamos, o Arctic Monkeys. The Resistance é um mosaico de sons, citações, influências melodramáticas, afetações glam, tudo empacotado num formato de ópera-rock, como não se via há um bom tempo.

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Ao contrário de bandas que enveredam pela seara dos sons grandiosos e "progressivos", mas que procuram camuflar ou repaginar o estilo - como Mars Volta ou Porcupine Tree - o Muse abraça a solenidade, a pompa e a mitologia do disco conceitual, do exagero e se sai muito, muito bem. The Resistance tem cara de filme B de sci-fi, daqueles em que a sociedade é ditatorial, o governo é onipresente, o mundo é cinza, mas há alguém, um homem que se insurge e luta contra a opressão. Ou, talvez, o governo é aparentemente justo, o mundo é colorido - mas falso - e alguém, um homem, se insurge para desmascarar a armação. Você pode imaginar o que quiser, a música é feita como se o rock ainda estivesse em seus tempos ingênuos em que gerava mitos e acreditava nos maniqueísmos de "bom e mau" ou "certo e errado" para refletir a sociedade.

Como o rock é, a exemplo de toda arte, essencialmente, produto da realidade que a produz, o Muse quer mostrar uma mensagem bastante interessante: não há uniformidade, ao contrário do que pode parecer. As bandas de rock bem sucedidas não precisam se render ao formato "divulgação na internet-guitarras chupadas dos Strokes" para existir e obter sucesso de público e crítica.

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A abertura de The Resistance, com o single "Uprising", mostra que a possibilidade de fundir glam rock e technopop de grupos como Depeche Mode é elemento essencial para a banda. A levada sinuosa e dançante aponta para danças extra-terrestres num happy hour na cantina de Star Wars. A faixa-título, logo em seguida, já mostra que o clima mudou e pianos de europop oitentista emolduram o canto derramado de Bellamy numa levada que poderia ser classificada como uma fusão de Pet Shop Boys e Queen. "Undisclosed Desires", a terceira faixa, é uma abdução das batidas de um Timbaland para o mundo de Admirável Mundo Novo. A produção - a cargo da banda - amplia o tom de "Supermassive Black Hole" (faixa do disco anterior) e confirma a pista de dança como uma das muitas influências do Muse. "United States Of Eurasia" vem em seguida e desmancha as luzes da dança num tema obliterado de totalitarismo a la 1984, com citações explícitas ao Queen (que já experimentou tema semelhante em "Radio Ga-Ga"), sejam vocais ou guitarrísticas. Ao fim da canção, o Noturno de Chopin é tocado por Bellamy ao piano, em meio a efeitos especiais estranhos. "Guiding Light" dá continuidade à grandiosidade, dessa vez com instrumental baladeiro dos anos 80 e vocais se equilibrando entre o sentimento verdadeiro e a canastrice. O disco mergulha novamente no hard rock sinfônico em "Unnatural Selection" e segue assim pela faixa seguinte, "MK Ultra", para desaguar numa canção "piano driven", com batidas alegres, que poderiam ser um lado B esquecido de Let's Dance, de David Bowie. "I Belong To You", no entanto, é assaltada pela dramaticidade de um cabaret espacial e, em meio a clarinetes e oboés sintetizados, se transforma em "Mon Coeur S'Ouvre A Ta Voix".

As três últimas faixas de The Resistance formam uma suite progressiva clássica, com o sintomático nome de "Exogenesis Symphony", dividida em "Part I: Overture", "Part II: Cross Polinnation" e "Part III: Redemption", todas cheias de pianos apocalípticos, mitologia de heróis e ambiência de novelas de ficção científica.
Resumindo a ópera (rock): o Muse fez não só o seu melhor disco, como foi capaz de reafirmar sua capacidade de se valer de referências malditas e/ou ridicularizadas e torná-las verdadeiras novamente, sem parecer irônico ou blasé.

Num mundo em que as pessoas não têm quase noção de arte ou capacidade para desvincular a novidade da cronologia, entrar no clima de The Resistence é um convite para uma bela imersão num escapismo que parecia sepultado pelo pragmatismo e pelo politicamente correto. Bravo.

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O Professor de Música

10.09.09 | por Cel | Categorias: Música

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Eu nunca tive uma aula de música no colégio. Lembro de ter algo no gênero quando estava no maternal ou no CA, não sei ao certo. A partir de 1977, no entanto, eu não tive uma aula de música sequer. E eu acho que deveria ser obrigatório aprender música nas escolas do mundo, não só pela oportunidade de manter contato com uma forma tão bela de arte como pelo aspecto educacional, de nos dar mais e mais elementos para formarmos nossa personalidade e caráter. Certo? Sim.

Essa conversa sobre as aulas de música não surgiu do nada. Dois fatores recentes me levaram a essa consideração. A exibição de Mr.Holland - Adorável Professor há uns dias me levou novamente às lágrimas, dessa vez acompanhado por Maria, minha esposa, que nunca vira o filme com a atenção devida. Se você nunca viu, a história é mais ou menos essa: Richard Dreyfuss (que foi indicado ao Oscar pelo papel) é Glenn Holland, um compositor americano, fã de jazz e Beatles, que é obrigado a trabalhar como professor de música na América dos anos 60. Ele não lida bem com a idéia, pois, em sua visão, ensinar música seria um trabalho menos nobre do que compor sinfonias. Aliás, Holland passa o filme todo rascunhando uma tal de American Symphony, na qual pretende misturar tudo o que gosta de ouvir.

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Com o passar do tempo, Holland percebe que pode influenciar as pessoas positivamente através da docência, ele começa a gostar de seu trabalho, dedicando-se mais e mais. Até que chegam os anos 90, pragmáticos, frios e práticos, que levam o filme ao desfecho que não contarei aqui. Recomendo totalmente uma sessão de Mr.Holland em família, com a pessoa amada ou sozinho, para uma boa reflexão sobre um monte de coisas. Dê o desconto para o tique americano de provocar lágrimas e para a roupagem essencialmente ianque com que a trama é revestida. A música fala mais alto o tempo todo.

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O outro fator que me levou a querer aulas de música nas escolas foi o disco Innocence And Despair - The Langley Schools Music Project.
Imagine que você é um audiófilo qualquer que entra numa loja de Hoboken, Nova Jersey, atrás de alguma raridade e topa com um LP de uma escola primária do Canadá, gravado em 1976, mas, em vez de canções infantis, o track list traz "Space Oddity" (David Bowie), "Band On The Run" (Paul McCartney) ou "Help Me Rhonda" (Beach Boys). O tal audiófilo, Irwin Chusid, leva o disco para seus amigos do selo Bar None e tem início uma grande pesquisa para descobrir como aquilo havia sido feito.

A figura de Hans Fenger, o professor dos alunos, é logo identificada. Fenger, um guitarrista da noite de Vancouver, sobrevivia com seus pequenos shows em bares e buracos diversos da cidade canadense e de aulas em uma loja de instrumentos musicais. Descobre que sua namorada está grávida e percebe que precisa de um emprego mais estável para sustentar a família. Dois anos depois, já com o diploma de professor, Fenger é contratado para lecionar música em escolas do interior do estado canadense da Columbia Britânica.

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Ao contrário do que podemos pensar, o interior do Canadá pode parecer bastante com o interior do Brasil, por exemplo. Crianças chegando a cavalo para a aula, gente que mora em comunidades agrícolas sem qualquer contato com nada muito urbano, mas com vontade de aprender. E Hans, sem qualquer noção de método de ensino, descobre que as crianças têm um relativo conhecimento musical do que está tocando nas paradas de sucesso. Lembre-se, é 1976 e a pop music está em um momento bastante interessante.

O professor resolve gravar alguns ensaios, até que decide promover a gravação de um disco com os alunos cantando. A idéia dá ânimo à comunidade, que contribui para a gravação com algumas doações. Um amigo de Hans, Greg Finseth, traz um gravador de dois canais para o ginásio da escola no qual cerca de 60 crianças são colocadas. Só há dois microfones para a empreitada e Hans se encarrega de tocar guitarra e piano. Consegue alguns instrumentos percussivos, um xilofone, amplificadores de segunda mão e um baixo sem todas as cordas e dá início às gravações. Ele ainda faria isso no ano seguinte, 1977, com os mesmos resultados e mais um disco gravado.

A Bar None Records juntou o repertório dos dois álbuns e lançou um CD em 2001 com a íntegra das canções. Nas 19 interpretações há momentos emocionantes de sobra, principalmente pelo fato de que as vozes infantis, sem treino fake de programa de calouros a la Raul Gil, são as nossas vozes. Todos nós tivemos aquele timbre vacilante, a tal "inocência" e "desespero" que o título do CD traz, e fica fácil a identificação com os jovens cantores. Aliás, não há qualquer traço de profissionalismo nos registros, o que aproxima a experiência ainda mais da vida real e das nossas próprias reminiscências do que pode ser a compreensão da música por crianças entre 7 e 12 anos - a faixa etária para qual Hans Fenger lecionava na época.

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Eu já conhecia o disco desde seu lançamento, mas ao apresentá-lo para Maria há algum tempo, ele ganhou nova dimensão pessoal por conta da identificação imediata dela para com a obra, principalmente pelo fato de perceber nas intenções meio instintivas do professor de música, a vontade de transformar a vida das pessoas, no caso daquelas crianças que viviam nos canfundós do Canadá. Eu e ela, beirando os 40 anos, estamos com vontade de transformar vidas, as nossas e as de gente que nem conhecemos, pelo simples fato de ainda acreditarmos em coisas como bondade, alegria, conhecimento, valor à cultura e, sobretudo, por achar que as coisas, de um modo geral, vêm piorando com o passar do tempo. Achamos que há um triunfo preocupante do meio sobre a mensagem, que a produção cultural em geral está podre e que as pessoas estão perdidas no fast-forward do cotidiano, sem tempo para o que importa. Ouvir música por exemplo, a tal ponto que seja possível gravar crianças num ginásio canadense. Se você pensa da mesma forma, procure obter o disco. Recomendo a versão física, não apenas o mp3, pois o encarte é extremamente bem cuidado e rico em informação - algo que também está perdendo a importância por aí.

Track List:
1. Venus and Mars/Rock Show - Paul McCartney
2. Good Vibrations - Beach Boys
3. God Only Knows - Beach Boys
4. Space Oddity - David Bowie
5. The Long and Winding Road - Beatles
6. Band on the Run - Paul McCartney
7. I'm Into Something Good - Herman's Hermits
8. In My Room - Beach Boys
9. Saturday Night - Bay City Rollers
10. I Get Around - Beach Boys
11. Mandy - Barry Manilow
12. Help Me, Rhonda - Beach Boys
13. Desperado - Eagles
14. You're So Good to Me - Beach Boys
15. Sweet Caroline - Neil Diamond
16. To Know Him is to Love Him - Ronettes
17. Rhiannon - Fleetwood Mac
18. Wildfire - Michael Murphy
19. Calling Occupants of Interplanetary Craft - Carpenters



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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