Neste momento o Windows Media Player executa a sublime gravação de "I Wish I Never Saw The Sunshine", das Ronettes, produzida por Phil Spector. As técnicas de estúdio empreendidas por Spector estão presentes, configurando o que se chamou de "wall of sound", aquela sensação de que todos os instrumentos e vocais de apoio estão mixados juntos, em bloco, como se fossem mesmo uma parede sonora a envolver, dialogar ou sobrepor-se ao vocal. Aliás, quem canta é Ronnie Spector, que viria a casar com o famoso produtor.
Bem, o que quero dizer com esse ilustrativo parágrafo de abertura é que não consigo mais ouvir quase nada do que é feito hoje em dia. Não é implicância com este ou aquele artista, simplesmente caminho para um desinteresse absoluto em relação à produção musical mundial. Aliás, nada demais nisso, uma vez que a música pop repete e regurgita as mesmas influências há anos e eu me cansei de perceber que as novíssimas bandas da semana passada nada mais são do que simulacros ocos e pobres de coisas muito mais reais e belas, feitas há mais tempo.
Para uma pessoa que pretende viver às custas do jornalismo musical, a menos que ela seja uma integrante senior da redação das gloriosas revistas inglesas Mojo ou Uncut, gostar de coisas do passado e não se afinar com as últimas tendências de hoje é proverbial tiro no pé. Sendo assim, este brioso blog passará a praticar anti-jornalismo musical, desafiando as normas estabelecidas pela indústria midiática. Vou falar de velharias e criticar as novidades - claro, com todo o bom senso que imagino sempre ter tido ao longo dos tempos. Por exemplo: não tenho o menor interesse no lançamento de Humbug, o terceiro disco dos Arctic Monkeys e não entendo como gente da mesma idade que eu consegue se fascinar com isso. Compreendo - mas não aceito - que o som dos ingleses de Sheffield impressione quem desmamou ontem na arte de ouvir música, mas, uma olhadela mais atenta ao passado levará esse novato/a ao repertório dos Smiths, a pedra fundamental para a compreensão dos Monkeys e não se fala mais nisso. Sendo assim, meu raciocínio não comporta perder muito tempo com a banda se é possível reouvir as diatribes de Morrissey nos anos 80, ainda acrescidas de boa dose de memória afetiva. Os Smiths, diga-se de passagem, não eram originais, mas foram capazes de se apropriar de um monte de influências legais - de punk rock ao som dos chamados girls groups - como as Ronettes - e fazer algo novo.

Voltando ao meu Windows Media Player, que executa a bela versão de "This Guy's In Love With You", com Temptations e Supremes, gravada em 1968. A música, um dos carros-chefe do repertório de Burt Bacharach, foi composta em homenagem ao trompestista Herb Alpert e sua namorada na época. A versão entregue pelos dois maiores conjuntos da Motown na época, cheia de cordas, metais, vocais celestiais e soul é o que os americanos chamam de "ear-candy", ou seja, "doce para os ouvidos". Não sou capaz de encontrar nada feito hoje que se equipare ao resultado obtido nessas gravações dos anos 60 e 70.
Fiz um CD com 700 gB dessas canções para dar de presente aos queridos Cassiano e Elisa, copiei o conteudo e fiz uma lista de músicas para o aplicativo e não ouço outra coisa. Sai Crosby, Stills And Nash com "Our House" (composta por Nash para sua esposa na época - 1969 - Joni Mitchell) e entra Todd Rundgren com "I Saw The Light", faixa sublime de seu disco duplo Something/Anything, que trazia todas as sementes do melhor do que se chamaria de powerpop, inclusive com direito a solo de guitarra no mesmo timbre que George Harrison usava nos Beatles. Quem vem em seguida é o glorioso grupo de soul da Philadelphia, Harold Melvin And The Bluenotes, com "The Love I Lost", talvez um dos maiores colossos dos tempos pré-disco, com todos os predicados possíveis do estilo: groove aerodinâmico, orquestrações lindas, vocais abençoados.

Não tenho vontade de prestar atenção às novidades estando tão bem acompanhado e posso até padecer do problema maior de perder o bonde dos acontecimentos. Não me importo. Na minha lista de compras musicais, discos remasterizados dos Rolling Stones, álbuns de Carpenters, Dusty Springfield, tudo do período áureo da música pop, as décadas de 60/70, quando a repetição ainda não era problema. Pode ser uma fase, talvez não. Desde que começei a escrever sobre música, há 13 anos, conclamo quem me lê a refletir sobre a seguinte frase: o novo pode estar no passado. A novidade não tem nada a ver com a cronologia, principalmente porque, repito, nada feito hoje é novo, sob o ponto de vista do ineditismo. As verdadeiras novidades, os novos terrenos sendo visitados estavam nessa época. E em momentos mais adiante, talvez até o início da década de 1980. Depois, amigos, é uma constatação histórica a percepção da mesmice.
Se você quiser ler e conhecer coisas "novas", estarei aqui com certa frequência para te contar o que toca por essas bandas.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.