Anti-Jornalismo Musical

Anti-Jornalismo Musical

21.08.09 | por Cel | Categorias: Música

ronettes

Neste momento o Windows Media Player executa a sublime gravação de "I Wish I Never Saw The Sunshine", das Ronettes, produzida por Phil Spector. As técnicas de estúdio empreendidas por Spector estão presentes, configurando o que se chamou de "wall of sound", aquela sensação de que todos os instrumentos e vocais de apoio estão mixados juntos, em bloco, como se fossem mesmo uma parede sonora a envolver, dialogar ou sobrepor-se ao vocal. Aliás, quem canta é Ronnie Spector, que viria a casar com o famoso produtor.

Bem, o que quero dizer com esse ilustrativo parágrafo de abertura é que não consigo mais ouvir quase nada do que é feito hoje em dia. Não é implicância com este ou aquele artista, simplesmente caminho para um desinteresse absoluto em relação à produção musical mundial. Aliás, nada demais nisso, uma vez que a música pop repete e regurgita as mesmas influências há anos e eu me cansei de perceber que as novíssimas bandas da semana passada nada mais são do que simulacros ocos e pobres de coisas muito mais reais e belas, feitas há mais tempo.

Para uma pessoa que pretende viver às custas do jornalismo musical, a menos que ela seja uma integrante senior da redação das gloriosas revistas inglesas Mojo ou Uncut, gostar de coisas do passado e não se afinar com as últimas tendências de hoje é proverbial tiro no pé. Sendo assim, este brioso blog passará a praticar anti-jornalismo musical, desafiando as normas estabelecidas pela indústria midiática. Vou falar de velharias e criticar as novidades - claro, com todo o bom senso que imagino sempre ter tido ao longo dos tempos. Por exemplo: não tenho o menor interesse no lançamento de Humbug, o terceiro disco dos Arctic Monkeys e não entendo como gente da mesma idade que eu consegue se fascinar com isso. Compreendo - mas não aceito - que o som dos ingleses de Sheffield impressione quem desmamou ontem na arte de ouvir música, mas, uma olhadela mais atenta ao passado levará esse novato/a ao repertório dos Smiths, a pedra fundamental para a compreensão dos Monkeys e não se fala mais nisso. Sendo assim, meu raciocínio não comporta perder muito tempo com a banda se é possível reouvir as diatribes de Morrissey nos anos 80, ainda acrescidas de boa dose de memória afetiva. Os Smiths, diga-se de passagem, não eram originais, mas foram capazes de se apropriar de um monte de influências legais - de punk rock ao som dos chamados girls groups - como as Ronettes - e fazer algo novo.

smiths

Voltando ao meu Windows Media Player, que executa a bela versão de "This Guy's In Love With You", com Temptations e Supremes, gravada em 1968. A música, um dos carros-chefe do repertório de Burt Bacharach, foi composta em homenagem ao trompestista Herb Alpert e sua namorada na época. A versão entregue pelos dois maiores conjuntos da Motown na época, cheia de cordas, metais, vocais celestiais e soul é o que os americanos chamam de "ear-candy", ou seja, "doce para os ouvidos". Não sou capaz de encontrar nada feito hoje que se equipare ao resultado obtido nessas gravações dos anos 60 e 70.

Fiz um CD com 700 gB dessas canções para dar de presente aos queridos Cassiano e Elisa, copiei o conteudo e fiz uma lista de músicas para o aplicativo e não ouço outra coisa. Sai Crosby, Stills And Nash com "Our House" (composta por Nash para sua esposa na época - 1969 - Joni Mitchell) e entra Todd Rundgren com "I Saw The Light", faixa sublime de seu disco duplo Something/Anything, que trazia todas as sementes do melhor do que se chamaria de powerpop, inclusive com direito a solo de guitarra no mesmo timbre que George Harrison usava nos Beatles. Quem vem em seguida é o glorioso grupo de soul da Philadelphia, Harold Melvin And The Bluenotes, com "The Love I Lost", talvez um dos maiores colossos dos tempos pré-disco, com todos os predicados possíveis do estilo: groove aerodinâmico, orquestrações lindas, vocais abençoados.

supremes

Não tenho vontade de prestar atenção às novidades estando tão bem acompanhado e posso até padecer do problema maior de perder o bonde dos acontecimentos. Não me importo. Na minha lista de compras musicais, discos remasterizados dos Rolling Stones, álbuns de Carpenters, Dusty Springfield, tudo do período áureo da música pop, as décadas de 60/70, quando a repetição ainda não era problema. Pode ser uma fase, talvez não. Desde que começei a escrever sobre música, há 13 anos, conclamo quem me lê a refletir sobre a seguinte frase: o novo pode estar no passado. A novidade não tem nada a ver com a cronologia, principalmente porque, repito, nada feito hoje é novo, sob o ponto de vista do ineditismo. As verdadeiras novidades, os novos terrenos sendo visitados estavam nessa época. E em momentos mais adiante, talvez até o início da década de 1980. Depois, amigos, é uma constatação histórica a percepção da mesmice.

Se você quiser ler e conhecer coisas "novas", estarei aqui com certa frequência para te contar o que toca por essas bandas.



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Comentários:


Comentário de: Vini

Belo texto. "O novo está no passado" devia ser sorte do dia eterna de muita gente no orkut.

Parabéns.

PermalinkPermalink 21.08.09 @ 17:17



Comentário de: Jose Henrique

Há muito tempo que não me incomodo com o ano de lançamento dos discos que ouço.
Música boa é atemporal, um disco de 1960 que vc não conhece é tão novo quanto um de 2009.
Os astrólógos devem saber, mas alguma coisa aconteceu entre 1965 e 1975. É incrível o número de obras maravilhosas(no Brasil e fora dele) feitas nessa época.
Pra quem gosta de música, acho que o bacana é ir descobrindo coisas novas, não importando se foram feitas há 50 anos ou há 50 dias.
Por exemplo, só o ano passado é que vim a descobrir o som MARAVILHOSO do Al Green.
Tem nêgo que faz do novo profissão, é um emprego tão chato quanto quem faz do velho o mesmo.
Um ouvido pra cada um é que é o pulo do gato.

PS: Cel, tb comprei um remasterizado dos Stones(Some Girls), o novo da Céu(foda! Ouça, cara!) e um DVD do Lenine(In Citê;).
Ótimas aquisições.


PermalinkPermalink 22.08.09 @ 04:13



Comentário de: Cel

Grande Tiago, cara, comentários nunca incomodam. Sinta-se à vontade, sempre.

O relançamento do Unforgetable Fire é aguardado ansiosamente aqui em casa. Acho que eles farão o mesmo com toda a discografia e eu fico me perguntando como serão as edições duplas de Achtung Baby e Zooropa.

Uma lista de melhores da década feita pelo Pitchfork é algo que não pode ser levado a sério, meu caro. Mas eu vou dar uma olhada porque estou fechando mais duas listas: 50 piores e 50 melhores discos da década. Não vai sobrar pedra sobre pedra.

Abração.

PermalinkPermalink 22.08.09 @ 10:03



Comentário de: junior

CARO SEU CEL,TAMBEM ACHO QUE ESTOU CAMINHANDO PARA ESSE DESINTERESSE PELO NOVO,SEM REMÓRSO,NÃO SÓ SE TRATANDO DE MUSICA COMO PELO CINEMA TAMBEM (OQUE É ESSA ENXURRADA DE FILMES DE SUPER-HEROIS DE REVISTA MARVEL,COISA QUE ME INTERRESAVA QDO TINHA 8,9 ANOS E NÃO MAIS,E O PIOR A FILA DE MARMANJOS BABACAS NA FILA DO CINEMA ? ESSAS BANDAS NOVAS...ESSE ARCTIC MONKEYS E AQUELA LEVADA DE GUITARRA HORRIVEL E IRRITANTE DE UMA NOTA SÓ, DE QUASA TODAS SUAS MUSICAS...CADA VEZ MAIS ME INTERRESSO PELA MUSICA DE RORY GALLAGHER (BEM QUE VÇ PODERIA ESCREVER UM POST SOBRE ELE,TALENTOSISSIMO E SUBESTIMADO )STONES SAFRA 70,FACES,HUMBLE PIE E ETC...

PermalinkPermalink 26.08.09 @ 10:34



Comentário de: junior

MAS QUE INFERNO...ESCREVI "INTERESSA"DUAS VEZES COM DOIS "ERRES"NO COMENTARIO QUE ESCREVI...SORRY FOLKS...

PermalinkPermalink 27.08.09 @ 09:19



Comentário de: djonata

complicado isso. não sou ninguém pra julgar o amigo, mas eu discordo (?) disso que foi dito. confesso que a maioria das coisa que ouço e, de fato, amo, são da década de 80 pra trás, 70 até, ficaria melhor.

mas meus ouvidos não ligam pra velho ou novo, eu gosto do que é bom, nem que seja puro divertimento. o Humbug é um bom disco, aliás, sonoramente falando, é o mais maduro deles, menos indie, mais sóbrio, o produtor do queens of the stone age fez bem pros moleques. óbvio que não os comparo com o Led Zeppelin, nem os Stones, mas gosto sim, do som dos guris.

sem contar, que em 2009 mesmo, tivemos discos fantástiscos como os novos de Dylan e Young, bem como o novo Wilco e Derek The Trucks Band. honestamente, não vejo nada de errado com o novo, mesmo que ele seja "velho", como foi dito. nesse momento tô ouvindo "O Clube da Esquina", depois vou ouvir algo "novo", as coisas não são estanques. acho que isso é limitar-se, talvez, ou não, fica pra pensar.

um abraço, Cel. sempre excelente.

PermalinkPermalink 28.08.09 @ 00:11



Comentário de: Jose Henrique

O Junior deu a sugestão do Rory Gallagher, e eu dou do genial Roy Buchanan.
Esse merecia um blog, não um post.

PermalinkPermalink 28.08.09 @ 01:10



Comentário de: Allan Kern · http://literomania.wordpress.com

não é por acaso que as pérolas dos anos 60/70 soam tão frescas e revigorantes até hoje, enquanto a produção musical atual já soa batida após algumas poucas audições. naquela época (tão distante para alguém como eu, nascido no meio dos anos 80), o sucesso artístico era fundamental para que se conseguisse o retorno comercial. hoje em dia nós sabemos que o sucesso comercial pode acontecer devido a inúmeros motivos, enquanto o sucesso artístico é cada vez mais raro. e raso. a sina do ouvinte de música pop atual é ter memória de peixe, buscar sempre o mais recente e deixar de lado o que é decente. e quem quiser ter acesso ao som que tem aquela deliciosa espontaneidade que hoje praticamente inexiste, terá que ser um bom garimpeiro. coisa do mundo moderno, cada vez mais tomado por quantidade em vez de qualidade. é sempre bom ler tuas palavras, cel. um grande abraço.

PermalinkPermalink 01.09.09 @ 10:14



Comentário de: Maicon · http://metrolyrics.com.br

Bom, acho que, como posto em um comentário aqui, um ouvido pra cada época é o pulo do gato realmente. Claro que há muita coisa nada criativa sendo-nos empurrados ouvido adentro diariamente pela mídia, mas, também existem coisas novas e boas.

Só minha humilde opinião^^

PermalinkPermalink 05.09.09 @ 21:13



Comentário de: Marcos alves · http://www.marcos-alves.blogspot.com

Bom demais. Vida inteligente na blogosfera.

PermalinkPermalink 23.09.09 @ 10:41



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Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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