Edgard Piccoli e o Baile Do Simonal

Edgard Piccoli e o Baile Do Simonal

13.08.09 | por Cel | Categorias: Música

edgard

Vocês já devem ter reparado que estou muito relapso com este blog. A culpa, claro, é somente minha, ainda que as notícias e assuntos interessantes não sejam, perdoem o pleonasmo, interessantes o bastante para merecerem alguma opinião minha.

Sempre me pergunto se não é a crise dos quarenta se aproximando, se não é um excesso de má vontade da minha parte ou se não é um gradativo desinteresse para com a música. Você já notou o quão desinteressante está o cenário da música pop no Brasil e no mundo? Que saco é ler as manchetes importadas da Inglaterra e ver que um bando de indies chatos espera o lançamento de uma série de discos de artistas e bandas inócuos como se esperassem a chegada do messias. E cantam um ou outro single por um mês, como se entoassem a Marselhesa em Casablanca, para depois esquecerem tudo e esperar por mais e mais discos inócuos. Bem, aqui no Brasil há outros tiques mais irritantes e dois deles me pegaram pelo colarinho e me trouxeram até aqui, ao computador.

Na terça-feira, dia 11, eu esperava pela exibição do Cilada, no Multishow. Pra quem não sabe, Cilada é o humorístico estrelado, escrito e concebido por Bruno Mazzeo, filho de Chico Anysio e Alcione Mazzeo. O sujeito herdou uma boa parte do talento do pai para encarnar tipos distintos e coisa e tal. Não é do Cilada que quero falar, apesar de merecer elogios. Ao esperar pelo programa, acabei assistindo ao Edgard no Ar, atração anterior, que já estava nos seus finalmentes.

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Edgard Piccoli já trabalhou na MTV como VJ e hoje é estrela do Multishow, escolhido como uma espécie de Serginho Groisman mais jovem, para fazer o contato das Organizações Globo com a população mais jovem e supostamente esclarecida do país. Sim, aquele pessoal que faz faculdade, que vai a festas temáticas na Lapa, que tem noção que Caetano Veloso lançou Cê em 2006 e Zii e Zie neste ano. Ah, gente que também curte o rock nacional atual, mora? Que acha bandas como Forgotten Boys, Retrofoguetes, Moveis Coloniais de Acaju, Vanguart e coisas no gênero o máximo do rock'n'roll.

Minha paciência para isso já acabou há tempos, meus queridos. Mesmo assim, lá estava eu e meu enteado Gabriel, vendo, sem som, a performance dos Forgotten Boys. No final do programa, Edgard - que arranha uma guitarra e pensa que canta - chama as bandas ao palco para uma jam supostamente improvisada. Minha surpresa é grande ao ver que Lanny Gordin - o lendário guitarrista que tocou com tudo e todos nos anos 60 e 70 - está ali, no meio de Retrofoguetes e Forgotten Boys. Após aumentar o volume, percebo, estarrecido, que eles estão cantando "Sunshine Of Your Love", do Cream. Quer dizer, "cantando" não é o termo mais exato para definir o que eles faziam com o clássico blues rock do trio inglês. Eu pensei: "por que isso, meu Deus"? "Por que cantar Cream"? "Por que colocar o Lanny Gordin no palco como se fosse um mané qualquer"? "Será que escolheram essa música porque ela está na versão mais recente do Guitar Hero"? "Por que não ousam de verdade e tocam "Badge", que ninguém na platéia - e no palco - deve conhecer"? Enfim, Edgard e convidados, com Lanny Gordin de coadjuvante no palco, cantando Cream, não dá.

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Outro momento digno de registro aconteceu há pouco. Ao ler o Segundo Caderno, suplemento cultural do Globo, me deparo com a reportagem de João Pimentel sobre as gravações do DVD Baile do Simonal, no Vivo Rio. A foto de Mart'nália estampa a matéria, que divide a página inicial com o relato de outro show gravado para registro em DVD, dessa vez com Dona Ivone Lara. A sambista atemporal aparece ladeada por Caetano e Gil, nada mais justo. O bicho pegou mesmo com o tal Baile do Simonal.

Vejam bem, amigos. Eu não sou hipócrita a ponto de dizer que sempre conheci a história do Simonal, apenas sabia que o sujeito caíra em desgraça por conta de problemas com a ditadura militar, acusado de ser dedo-duro de colegas artistas. O documentário sobre Simonal, "Ninguém Sabe O Duro Que Dei", dirigido por Micael Langer, Calvito Leal e o Casseta Claudio Manoel, é um registro importante de uma parte da história da música popular totalmente esquecida por muitos. Quase todo mundo lembra, sabe ou ouviu falar dos Festivais da Canção, da Jovem Guarda e da Tropicália, mas não imaginava a dimensão da popularidade de Simonal. Até aí tudo bem, ainda que eu me pergunte se o filme teria a mesma visibilidade se Claudio Manoel não fosse um empregado da Globo Network. Isso não importa muito, vou até deixar minha teoria da conspiração de lado para clamar em indignação: Se a obra de Simonal é tão rica, importante, influente, marcante, digna de homenagens, por que esperaram o documentário ser feito, arrebanhar multidões para o cinema para, SÓ AGORA, lançarem um tributo ao cara? Cambada de oportunistas.

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E quem está no elenco? Os mesmos de sempre. Lá estão o rock gagá de Frejat, o rap canhestro e irritante de D2, o samba de branco rico de Maria Rita e Mart'nália, o funk zona sul e asséptico de Fernanda Abreu, o inexplicável Rogério Flausino, o arroz de festa Samuel Rosa, o horroroso e insuportável Seu Jorge, a hypada, jovem e esclarecida Orquestra Imperial e, claro, Caetano Veloso, como se fosse um magistrado qualquer a dar seu aval para a empreitada. Caramba, esse tipo de necrofilia sem riscos é hedionda, oportunista e vendida pela imprensa como um tardio tributo ao artista. Onde estava essa gente quando Simonal ainda estava vivo, em 2000 e eles já estourados nas paradas? Por que não chamaram o velho para participar em seus discos? Ou o convidaram para seus shows? Muito sintomática a ausência de Jorge Ben, parceiro de Simona, fornecedor de seu maior sucesso, "País Tropical".

Meu primeiro pensamento foi comparar essa pataquada com o Concert For George, registrado em 2004, por amigos do Beatle, todos unidos em torno de uma apresentação beneficente, executando canções das quais haviam participado ou eram afins. E George sempre foi low profile em sua escassa carreira solo, preferindo curtir carros de Fórmula 1 ou ficar em casa. Quando tentou voltar aos palcos em 1990, com a ajuda do amigo Clapton, que lhe emprestara banda e estrutura, George foi acometido de "stage fright", o tal "medo do palco" e abortou nas primeiras datas da turnê. O duplo Live In Japan saiu como registro desses shows e mostra um George sem pique e realmente acanhado.

Simonal, lá em cima, merecia ter sua discografia relançada de maneira digna, álbum por álbum, com notas explicativas, som remasterizado e coisa e tal. Ninguém deveria precisar de tributos picaretas como esse. Afinal, essa gente que esteve no palco ontem não sabe o duro que ele deu em vida. E não fizeram a menor questão de saber.

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Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/37072

Posts similares:
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Brothers Of Brazil
Lanny Gordin, superlativo

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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: zeca azevedo

Dá-lhes, CEL! Texto excelente, como sempre!

PermalinkPermalink 13.08.09 @ 14:15



Comentário de: Adriano Mello · http://www.coisapop.blogspot.com

Concordo em algumas coisas e discordo de outras como em relação ao Edgard...sempre que da assisto o programa dele (desde o anterior) e acho bacana a chance das bandas mostrarem seu trabalho, ja passaram por la Garotas Suecas, Curumin, Nação Zumbi, entre alguns que voce nao citou. Acho que o cara apesar de se achar um pouco, cumpre uma funcao bacana. Abs.

PermalinkPermalink 13.08.09 @ 20:54



Comentário de: Alan James

Opa!
Conheci seu blog hoje e achei um barato, está mesmo de parabéns, você escreve muito bem e gosto de suas opiniões.
Concordo plenamente com o que disse quanto ao tributo picareta.
Olha, o Simonal já teve os discos remasterizados sim, na caixa Wilson Simonal na Odeon, e ao que me parece, tinham cds com textos informativos, etc... Só que está fora de catálogo agora.
Tem alguns que ainda estão em catálogo, ou ficaram por pouco tempo mas remasterizados.
Abraço!

PermalinkPermalink 13.08.09 @ 21:53



Comentário de: Jose Henrique

Cara, tô com 36 anos e entendo seu enfado com as bandas novas.
Realmente, a tal de Vanguart e Movéis... são de doer. Fora do país eu já desisti há tempos.
Mas acho que trata-se da velha história do copo metade cheio e metade vazio, vc ver o que quer.
Por exemplo, temos boas novidades, tais como:
Guizado, Cidadão Instigado, Maquinado, Orquestra Imperial(não concordo contigo), Marcelo Camelo...
Vou fazer um teste para ver se está mesmo ranzinza.
Cel, vc gosta da Céu?
Se gosta, vá ouvir que melhora.
Senso crítico a vezes se confude com rabugice, eu bem sei.
Admiro o seu.

Um abraço

PermalinkPermalink 14.08.09 @ 03:13



Comentário de: Cel

Fala, José. Pois então, acho que estou ranzinza, mas também não tenho muita paciência para a Céu, mas gosto da Mariana Aydar. Curiosamente tenho encontrado nomes interessantes lá fora, como Mosquitos (banda com uma cantora brasileira, Juju Stulback e músicos americanos), Postmarks, The Bird And The Bee, o trabalho solo de Inara George (a "Bee" do Bird And The Bee), God Help The Girl, Nicole Atkins, The Poems, Sarah Shannon...
Ah, eu gostei muito do disco da Tiê. Já ouviu? A moça, além de linda, é bem talentosa.

PermalinkPermalink 14.08.09 @ 09:18



Comentário de: Jose Henrique

Cel, pô, eu acho a Céu a melhor das novatas.
Não é possível que não goste do novo cd dela - Vagarosa - escute com carinho e esqueça o famigerado hype da moça.
A Tiê eu ainda não ouvi, só vi - uma entrevista - e, gostei! :>)

PS: Sobre um dos posts anteriores, muito bacana o Flamengo com Andrade. Eu não curto o Flamengo pelo oba oba da imprensa, mas o Andrade dá simpatia ao Mengão.
Muito bom ver gente simples - no melhor sentido do termo - se dando bem.

Abraço.

PermalinkPermalink 14.08.09 @ 23:51



Comentário de: Alex L.C.

aqui

http://pinducasblog.blogspot.com/2009/07/edgard-no-ar-forgotten-boys.html#comments

tem mais uma opiniao sobre o nosso querido edgar... : P

PermalinkPermalink 17.08.09 @ 20:18



Comentário de: Bruno

Sempre tento convencer a patroa, sem o menor sucesso, de que a minha tara por listas de discos não tem a menor ligação com alguns casos de loucura na família. Argumento que talvez nunca tivesse ouvido o Surfer rosa ou qualquer disco do Pogues se não padecesse dessa incontrolável paixão por algo do tipo 'os 10 melhores discos que nunca foram citados em qualquer lista'.

Bom, antes que descubra o e-mail da patroa e mande uma mensagem atestando minha insanidade, estou escrevendo para dizer que, de saco cheio de procurar algo acerca dos melhores álbuns holandeses dos últimos anos, resolvi pesquisar algumas listinhas em português. Achei a chamada do seu blog legal, com os melhores e piores do pop nacional da última década, e resolvi conferir.

Já estou conferindo há várias horas, e acabei de abrir uma cerveja pra ver se o sono vem. Não precisasse ganhar o pão amanhã, ficaria a madrugada apreciando suas letras. Há um bom tempo não me interessava por textos fora do papel como o fiz hoje.

Perdão pela baboseira, mas precisava escrever parabenizando pela excelente qualidade das linhas e do cérebro de quem as escreve.

Vou continuar conferindo, e se der perturbo mais, com comentários pertinentes ao texto (acho que é essa a função dessa caixinha aqui, foi mal...).

Abraço, espero que continue na rede.

Bruno

Vitória (ES)

PermalinkPermalink 19.08.09 @ 02:31



Comentário de: Cel

Bruno, obrigado pelos elogios. A gente faz o que pode por aqui.

PermalinkPermalink 19.08.09 @ 11:19



Comentário de: Tiago Ribeiro

Concordo com quase tudo apenas que moveis coloniais de Acaju não acho ruim apesar do vocalista dançar feito um lesado e Orquestra Imperial eu acho bom. Eu queria saber Cel o que vc acha de dois discos de duas bandas destintas que sairam este ano: Tudo que eu sempre sonhei do Pullovers e No line on The Horizon do U2.
O primeiro acho um dos melhores discos do ano no Brasil, bem tocado com ótimas letras.
O segundo dividiu parte da crítica uns acharam maravilhoso e outros um dos piores discos que o U2 já lançou, fico com nenhum dos dois, sou fã do U2 mas acho este o acho este disco o mais fraco deles nesta década ele fica atrás do All That You Can't Leave Behind que acho muito bom apesar de alguns não concordar e também fica atras do How to Dismantle an Atomic Bomb. Queria saber sua opinião porque no Scream & yell está a maior discussão por causa deste disco.
Abraços.

PermalinkPermalink 21.08.09 @ 13:55



Comentário de: Cel

Fala Tiago, obrigado pelo comentário. Bem, eu já conheço os Pullovers desde 2006. Os caras são sensacionais mesmo, as letras e o approach das músicas me agrada demais. Está na minha listinha de melhores do ano.
O No Line On The Horizon é um disco normal do U2. Não é excelente como um Achtung Baby ou um Unforgetable Fire, nem é um horror como Pop. O que mais desaponta os fãs da banda - entre eles, eu - é que o disco não traz nada de novo ou reafirma o que já vinha sendo feito. Parece feito no piloto automático, com inserções de elementos tipícos da banda, aqui e ali. Mas não é um disco ruim, inaudivel. Só é decepcionante para quem achava que a banda vinha num bom caminho após os bons All That You Can't LEave Behind (um dos meus preferidos do catálogo da banda) e How To Dismantle An Atomic Bomb (que eu acho no mesmo nível deste No Line).
Abração.

PermalinkPermalink 21.08.09 @ 14:48



Comentário de: Tiago Ribeiro

Olá Cel sou eu novamente, já que vc falou neste programa do Multishow do Edgar eu gostaria de saber se você já assistiu o Programa da ESPN BRASIL chamado Pontapé Inicial, este programa é um dos meus favoritos pois tem músicos realmente bons que vão em alguns programas e falam muito sobre música,cinema além é claro de esportes em geral e o José Trajano tem uma opinião parecida com a sua sobre a música.
Ele fala que para a televisão brasileira só existe aqueles mesmos artistas de sempre, ou seja, cinco duplas sertanejas, quatro grupos de pagode,bandas de rock que acham que o Rock começou com o Strokes ou nirvana,etc.Recomendo bastante o programa.
Mais uma vez abraços.

PermalinkPermalink 21.08.09 @ 16:15



Comentário de: Cel

Não, Tiago, ainda não vi. Vou procurar me informar.
Tem texto novo, raivoso, sobre as mesmices.

PermalinkPermalink 21.08.09 @ 17:02



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Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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