
Vocês já devem ter reparado que estou muito relapso com este blog. A culpa, claro, é somente minha, ainda que as notícias e assuntos interessantes não sejam, perdoem o pleonasmo, interessantes o bastante para merecerem alguma opinião minha.
Sempre me pergunto se não é a crise dos quarenta se aproximando, se não é um excesso de má vontade da minha parte ou se não é um gradativo desinteresse para com a música. Você já notou o quão desinteressante está o cenário da música pop no Brasil e no mundo? Que saco é ler as manchetes importadas da Inglaterra e ver que um bando de indies chatos espera o lançamento de uma série de discos de artistas e bandas inócuos como se esperassem a chegada do messias. E cantam um ou outro single por um mês, como se entoassem a Marselhesa em Casablanca, para depois esquecerem tudo e esperar por mais e mais discos inócuos. Bem, aqui no Brasil há outros tiques mais irritantes e dois deles me pegaram pelo colarinho e me trouxeram até aqui, ao computador.
Na terça-feira, dia 11, eu esperava pela exibição do Cilada, no Multishow. Pra quem não sabe, Cilada é o humorístico estrelado, escrito e concebido por Bruno Mazzeo, filho de Chico Anysio e Alcione Mazzeo. O sujeito herdou uma boa parte do talento do pai para encarnar tipos distintos e coisa e tal. Não é do Cilada que quero falar, apesar de merecer elogios. Ao esperar pelo programa, acabei assistindo ao Edgard no Ar, atração anterior, que já estava nos seus finalmentes.

Edgard Piccoli já trabalhou na MTV como VJ e hoje é estrela do Multishow, escolhido como uma espécie de Serginho Groisman mais jovem, para fazer o contato das Organizações Globo com a população mais jovem e supostamente esclarecida do país. Sim, aquele pessoal que faz faculdade, que vai a festas temáticas na Lapa, que tem noção que Caetano Veloso lançou Cê em 2006 e Zii e Zie neste ano. Ah, gente que também curte o rock nacional atual, mora? Que acha bandas como Forgotten Boys, Retrofoguetes, Moveis Coloniais de Acaju, Vanguart e coisas no gênero o máximo do rock'n'roll.
Minha paciência para isso já acabou há tempos, meus queridos. Mesmo assim, lá estava eu e meu enteado Gabriel, vendo, sem som, a performance dos Forgotten Boys. No final do programa, Edgard - que arranha uma guitarra e pensa que canta - chama as bandas ao palco para uma jam supostamente improvisada. Minha surpresa é grande ao ver que Lanny Gordin - o lendário guitarrista que tocou com tudo e todos nos anos 60 e 70 - está ali, no meio de Retrofoguetes e Forgotten Boys. Após aumentar o volume, percebo, estarrecido, que eles estão cantando "Sunshine Of Your Love", do Cream. Quer dizer, "cantando" não é o termo mais exato para definir o que eles faziam com o clássico blues rock do trio inglês. Eu pensei: "por que isso, meu Deus"? "Por que cantar Cream"? "Por que colocar o Lanny Gordin no palco como se fosse um mané qualquer"? "Será que escolheram essa música porque ela está na versão mais recente do Guitar Hero"? "Por que não ousam de verdade e tocam "Badge", que ninguém na platéia - e no palco - deve conhecer"? Enfim, Edgard e convidados, com Lanny Gordin de coadjuvante no palco, cantando Cream, não dá.

Outro momento digno de registro aconteceu há pouco. Ao ler o Segundo Caderno, suplemento cultural do Globo, me deparo com a reportagem de João Pimentel sobre as gravações do DVD Baile do Simonal, no Vivo Rio. A foto de Mart'nália estampa a matéria, que divide a página inicial com o relato de outro show gravado para registro em DVD, dessa vez com Dona Ivone Lara. A sambista atemporal aparece ladeada por Caetano e Gil, nada mais justo. O bicho pegou mesmo com o tal Baile do Simonal.
Vejam bem, amigos. Eu não sou hipócrita a ponto de dizer que sempre conheci a história do Simonal, apenas sabia que o sujeito caíra em desgraça por conta de problemas com a ditadura militar, acusado de ser dedo-duro de colegas artistas. O documentário sobre Simonal, "Ninguém Sabe O Duro Que Dei", dirigido por Micael Langer, Calvito Leal e o Casseta Claudio Manoel, é um registro importante de uma parte da história da música popular totalmente esquecida por muitos. Quase todo mundo lembra, sabe ou ouviu falar dos Festivais da Canção, da Jovem Guarda e da Tropicália, mas não imaginava a dimensão da popularidade de Simonal. Até aí tudo bem, ainda que eu me pergunte se o filme teria a mesma visibilidade se Claudio Manoel não fosse um empregado da Globo Network. Isso não importa muito, vou até deixar minha teoria da conspiração de lado para clamar em indignação: Se a obra de Simonal é tão rica, importante, influente, marcante, digna de homenagens, por que esperaram o documentário ser feito, arrebanhar multidões para o cinema para, SÓ AGORA, lançarem um tributo ao cara? Cambada de oportunistas.

E quem está no elenco? Os mesmos de sempre. Lá estão o rock gagá de Frejat, o rap canhestro e irritante de D2, o samba de branco rico de Maria Rita e Mart'nália, o funk zona sul e asséptico de Fernanda Abreu, o inexplicável Rogério Flausino, o arroz de festa Samuel Rosa, o horroroso e insuportável Seu Jorge, a hypada, jovem e esclarecida Orquestra Imperial e, claro, Caetano Veloso, como se fosse um magistrado qualquer a dar seu aval para a empreitada. Caramba, esse tipo de necrofilia sem riscos é hedionda, oportunista e vendida pela imprensa como um tardio tributo ao artista. Onde estava essa gente quando Simonal ainda estava vivo, em 2000 e eles já estourados nas paradas? Por que não chamaram o velho para participar em seus discos? Ou o convidaram para seus shows? Muito sintomática a ausência de Jorge Ben, parceiro de Simona, fornecedor de seu maior sucesso, "País Tropical".
Meu primeiro pensamento foi comparar essa pataquada com o Concert For George, registrado em 2004, por amigos do Beatle, todos unidos em torno de uma apresentação beneficente, executando canções das quais haviam participado ou eram afins. E George sempre foi low profile em sua escassa carreira solo, preferindo curtir carros de Fórmula 1 ou ficar em casa. Quando tentou voltar aos palcos em 1990, com a ajuda do amigo Clapton, que lhe emprestara banda e estrutura, George foi acometido de "stage fright", o tal "medo do palco" e abortou nas primeiras datas da turnê. O duplo Live In Japan saiu como registro desses shows e mostra um George sem pique e realmente acanhado.
Simonal, lá em cima, merecia ter sua discografia relançada de maneira digna, álbum por álbum, com notas explicativas, som remasterizado e coisa e tal. Ninguém deveria precisar de tributos picaretas como esse. Afinal, essa gente que esteve no palco ontem não sabe o duro que ele deu em vida. E não fizeram a menor questão de saber.

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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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