
Segunda-feira passada, dia 24/08, eu assisti à reprise do concurso de Miss Universo. A festa e toda a organização do Miss Universo estão a cargo do mega-multi trilionário americano Donald Trump, que levou toda a parafernália do pleito para as Bahamas, mais precisamente para seu novíssimo hotel no arquipélago caribenho. Uma olhadinha no site do concurso mostra que Trump e seu penteado aerodinâmico estão à frente dos concursos de Miss USA e Miss Teen USA. Nas Bahamas estiveram 84 jovens em busca do sonho de se tornar a Miss Universo 2009, sucedendo a venezuelana Diana Mendonza.
Quando eu estava na onanística idade de 13, 14 anos, me interessava em ver o concurso pela transmissão da TVS, atual SBT, desprezando as conotações afetadas e meio gays do ideário da Miss Universo para me concentrar exclusivamente nos atributos físicos das moçoilas, bastante interessantes. Naquele tempo, há cerca de 20 anos, as misses exibiam curvas interessantíssimas. O momento dos trajes de banho era o meu favorito. Hoje, não só a presença de um homem de negócios por trás da coisa bem como o próprio e proverbial afago do tempo mudaram quase tudo.

Então, estava eu vendo o desfile pela TNT e contemplando a dupla cafona de apresentadores, os jurados mequetrefes de sempre, as cenas das misses em locações paradisiácas, todas felizes, sorridentes, sem qualquer problema aparente em sua jovem existência, prontas para salvar o mundo da maldade e da mesquinharia do ser humano, passível de evanescer com um aceno de mão e um sorriso amarelo. Até que a Miss Bélgica adentrou a passarela.
Zeynep Sever, 19 anos, morena de fazer inveja ao nosso torrão natal, desfilou com elegância e simpatia. Um sorrisão anunciava a moça e um corpão anormalmente bem feito me fez acreditar na preservação do modelo de beleza feminino. Sim, porque as misses agora se tornaram primas-irmãs das top models, seguindo seu anoréxico padrão de beleza. Mulheres com rostos lindos e corpos esquálidos, beirando o estranhamento. Nada de bundas, pouco de peitos, o que, convenhamos, são o que interessa num concurso de beleza. Sei que muitos vão argumentar sobre a tal beleza interior, o que, penso, toda miss deve ter. A tal vontade e crença da salvação do mundo pelo simples fato de ser dona de beleza universal. Meu lado ogro detém a opinião que beleza interior é algo para ser apreciado apenas por cirurgiões, restando portanto, os contornos das meninas para serem admirados pelos pobres mortais.

A Miss Bélgica não foi a única a me impressionar. As misses Suécia (Renate Cerljen), Austrália (Rachael Finch) e México (Karla Carrillo), todas com 21 anos também mandaram muito bem, ficando a australiana com a terceira colocação. As outras, incluindo minha favorita belga, no máximo atingiram o top 15. Pesquisando um pouco mais sobre Zeynep Sever, me deparei com o fato da moça ter origens turcas, o que justificaria sua morenice e contornos levemente asiáticos e refleti sobre a mudança que o mundo vivencia. As misses Suiça e França, igualmente morenas, também não guardam nada do estereótipo europeu.
No fim das contas, Stefania Fernandez, outra representante da Venezuela, foi escolhida a mais bonita da noite, numa decisão questionável. A brasileira Larissa Costa nem se classificou entre as top 15. A torcida venezuelana, formada por aqueles tipos canastrões que habitam os cassinos - sejam eles na Europa, na América ou em qualquer lugar, balançaram sua bandeira tricolor como se ganhassem uma Copa do Mundo. Bem, talvez seja o único concurso que o país de Chavez tem favoritismo.

Longe dali, Zeynep Sever, 19 anos, a mulher mais bonita do país que inventou as batatas fritas (sim, não foram Estados Unidos ou França, crianças), devia amargurar uma considerável decepção. Pena, era a mais bonita da noite.
PS: a ordem das fotos mostra as misses Bélgica, México, Suécia e Austrália.
Neste momento o Windows Media Player executa a sublime gravação de "I Wish I Never Saw The Sunshine", das Ronettes, produzida por Phil Spector. As técnicas de estúdio empreendidas por Spector estão presentes, configurando o que se chamou de "wall of sound", aquela sensação de que todos os instrumentos e vocais de apoio estão mixados juntos, em bloco, como se fossem mesmo uma parede sonora a envolver, dialogar ou sobrepor-se ao vocal. Aliás, quem canta é Ronnie Spector, que viria a casar com o famoso produtor.
Bem, o que quero dizer com esse ilustrativo parágrafo de abertura é que não consigo mais ouvir quase nada do que é feito hoje em dia. Não é implicância com este ou aquele artista, simplesmente caminho para um desinteresse absoluto em relação à produção musical mundial. Aliás, nada demais nisso, uma vez que a música pop repete e regurgita as mesmas influências há anos e eu me cansei de perceber que as novíssimas bandas da semana passada nada mais são do que simulacros ocos e pobres de coisas muito mais reais e belas, feitas há mais tempo.
Para uma pessoa que pretende viver às custas do jornalismo musical, a menos que ela seja uma integrante senior da redação das gloriosas revistas inglesas Mojo ou Uncut, gostar de coisas do passado e não se afinar com as últimas tendências de hoje é proverbial tiro no pé. Sendo assim, este brioso blog passará a praticar anti-jornalismo musical, desafiando as normas estabelecidas pela indústria midiática. Vou falar de velharias e criticar as novidades - claro, com todo o bom senso que imagino sempre ter tido ao longo dos tempos. Por exemplo: não tenho o menor interesse no lançamento de Humbug, o terceiro disco dos Arctic Monkeys e não entendo como gente da mesma idade que eu consegue se fascinar com isso. Compreendo - mas não aceito - que o som dos ingleses de Sheffield impressione quem desmamou ontem na arte de ouvir música, mas, uma olhadela mais atenta ao passado levará esse novato/a ao repertório dos Smiths, a pedra fundamental para a compreensão dos Monkeys e não se fala mais nisso. Sendo assim, meu raciocínio não comporta perder muito tempo com a banda se é possível reouvir as diatribes de Morrissey nos anos 80, ainda acrescidas de boa dose de memória afetiva. Os Smiths, diga-se de passagem, não eram originais, mas foram capazes de se apropriar de um monte de influências legais - de punk rock ao som dos chamados girls groups - como as Ronettes - e fazer algo novo.

Voltando ao meu Windows Media Player, que executa a bela versão de "This Guy's In Love With You", com Temptations e Supremes, gravada em 1968. A música, um dos carros-chefe do repertório de Burt Bacharach, foi composta em homenagem ao trompestista Herb Alpert e sua namorada na época. A versão entregue pelos dois maiores conjuntos da Motown na época, cheia de cordas, metais, vocais celestiais e soul é o que os americanos chamam de "ear-candy", ou seja, "doce para os ouvidos". Não sou capaz de encontrar nada feito hoje que se equipare ao resultado obtido nessas gravações dos anos 60 e 70.
Fiz um CD com 700 gB dessas canções para dar de presente aos queridos Cassiano e Elisa, copiei o conteudo e fiz uma lista de músicas para o aplicativo e não ouço outra coisa. Sai Crosby, Stills And Nash com "Our House" (composta por Nash para sua esposa na época - 1969 - Joni Mitchell) e entra Todd Rundgren com "I Saw The Light", faixa sublime de seu disco duplo Something/Anything, que trazia todas as sementes do melhor do que se chamaria de powerpop, inclusive com direito a solo de guitarra no mesmo timbre que George Harrison usava nos Beatles. Quem vem em seguida é o glorioso grupo de soul da Philadelphia, Harold Melvin And The Bluenotes, com "The Love I Lost", talvez um dos maiores colossos dos tempos pré-disco, com todos os predicados possíveis do estilo: groove aerodinâmico, orquestrações lindas, vocais abençoados.

Não tenho vontade de prestar atenção às novidades estando tão bem acompanhado e posso até padecer do problema maior de perder o bonde dos acontecimentos. Não me importo. Na minha lista de compras musicais, discos remasterizados dos Rolling Stones, álbuns de Carpenters, Dusty Springfield, tudo do período áureo da música pop, as décadas de 60/70, quando a repetição ainda não era problema. Pode ser uma fase, talvez não. Desde que começei a escrever sobre música, há 13 anos, conclamo quem me lê a refletir sobre a seguinte frase: o novo pode estar no passado. A novidade não tem nada a ver com a cronologia, principalmente porque, repito, nada feito hoje é novo, sob o ponto de vista do ineditismo. As verdadeiras novidades, os novos terrenos sendo visitados estavam nessa época. E em momentos mais adiante, talvez até o início da década de 1980. Depois, amigos, é uma constatação histórica a percepção da mesmice.
Se você quiser ler e conhecer coisas "novas", estarei aqui com certa frequência para te contar o que toca por essas bandas.

Vocês já devem ter reparado que estou muito relapso com este blog. A culpa, claro, é somente minha, ainda que as notícias e assuntos interessantes não sejam, perdoem o pleonasmo, interessantes o bastante para merecerem alguma opinião minha.
Sempre me pergunto se não é a crise dos quarenta se aproximando, se não é um excesso de má vontade da minha parte ou se não é um gradativo desinteresse para com a música. Você já notou o quão desinteressante está o cenário da música pop no Brasil e no mundo? Que saco é ler as manchetes importadas da Inglaterra e ver que um bando de indies chatos espera o lançamento de uma série de discos de artistas e bandas inócuos como se esperassem a chegada do messias. E cantam um ou outro single por um mês, como se entoassem a Marselhesa em Casablanca, para depois esquecerem tudo e esperar por mais e mais discos inócuos. Bem, aqui no Brasil há outros tiques mais irritantes e dois deles me pegaram pelo colarinho e me trouxeram até aqui, ao computador.
Na terça-feira, dia 11, eu esperava pela exibição do Cilada, no Multishow. Pra quem não sabe, Cilada é o humorístico estrelado, escrito e concebido por Bruno Mazzeo, filho de Chico Anysio e Alcione Mazzeo. O sujeito herdou uma boa parte do talento do pai para encarnar tipos distintos e coisa e tal. Não é do Cilada que quero falar, apesar de merecer elogios. Ao esperar pelo programa, acabei assistindo ao Edgard no Ar, atração anterior, que já estava nos seus finalmentes.

Edgard Piccoli já trabalhou na MTV como VJ e hoje é estrela do Multishow, escolhido como uma espécie de Serginho Groisman mais jovem, para fazer o contato das Organizações Globo com a população mais jovem e supostamente esclarecida do país. Sim, aquele pessoal que faz faculdade, que vai a festas temáticas na Lapa, que tem noção que Caetano Veloso lançou Cê em 2006 e Zii e Zie neste ano. Ah, gente que também curte o rock nacional atual, mora? Que acha bandas como Forgotten Boys, Retrofoguetes, Moveis Coloniais de Acaju, Vanguart e coisas no gênero o máximo do rock'n'roll.
Minha paciência para isso já acabou há tempos, meus queridos. Mesmo assim, lá estava eu e meu enteado Gabriel, vendo, sem som, a performance dos Forgotten Boys. No final do programa, Edgard - que arranha uma guitarra e pensa que canta - chama as bandas ao palco para uma jam supostamente improvisada. Minha surpresa é grande ao ver que Lanny Gordin - o lendário guitarrista que tocou com tudo e todos nos anos 60 e 70 - está ali, no meio de Retrofoguetes e Forgotten Boys. Após aumentar o volume, percebo, estarrecido, que eles estão cantando "Sunshine Of Your Love", do Cream. Quer dizer, "cantando" não é o termo mais exato para definir o que eles faziam com o clássico blues rock do trio inglês. Eu pensei: "por que isso, meu Deus"? "Por que cantar Cream"? "Por que colocar o Lanny Gordin no palco como se fosse um mané qualquer"? "Será que escolheram essa música porque ela está na versão mais recente do Guitar Hero"? "Por que não ousam de verdade e tocam "Badge", que ninguém na platéia - e no palco - deve conhecer"? Enfim, Edgard e convidados, com Lanny Gordin de coadjuvante no palco, cantando Cream, não dá.

Outro momento digno de registro aconteceu há pouco. Ao ler o Segundo Caderno, suplemento cultural do Globo, me deparo com a reportagem de João Pimentel sobre as gravações do DVD Baile do Simonal, no Vivo Rio. A foto de Mart'nália estampa a matéria, que divide a página inicial com o relato de outro show gravado para registro em DVD, dessa vez com Dona Ivone Lara. A sambista atemporal aparece ladeada por Caetano e Gil, nada mais justo. O bicho pegou mesmo com o tal Baile do Simonal.
Vejam bem, amigos. Eu não sou hipócrita a ponto de dizer que sempre conheci a história do Simonal, apenas sabia que o sujeito caíra em desgraça por conta de problemas com a ditadura militar, acusado de ser dedo-duro de colegas artistas. O documentário sobre Simonal, "Ninguém Sabe O Duro Que Dei", dirigido por Micael Langer, Calvito Leal e o Casseta Claudio Manoel, é um registro importante de uma parte da história da música popular totalmente esquecida por muitos. Quase todo mundo lembra, sabe ou ouviu falar dos Festivais da Canção, da Jovem Guarda e da Tropicália, mas não imaginava a dimensão da popularidade de Simonal. Até aí tudo bem, ainda que eu me pergunte se o filme teria a mesma visibilidade se Claudio Manoel não fosse um empregado da Globo Network. Isso não importa muito, vou até deixar minha teoria da conspiração de lado para clamar em indignação: Se a obra de Simonal é tão rica, importante, influente, marcante, digna de homenagens, por que esperaram o documentário ser feito, arrebanhar multidões para o cinema para, SÓ AGORA, lançarem um tributo ao cara? Cambada de oportunistas.

E quem está no elenco? Os mesmos de sempre. Lá estão o rock gagá de Frejat, o rap canhestro e irritante de D2, o samba de branco rico de Maria Rita e Mart'nália, o funk zona sul e asséptico de Fernanda Abreu, o inexplicável Rogério Flausino, o arroz de festa Samuel Rosa, o horroroso e insuportável Seu Jorge, a hypada, jovem e esclarecida Orquestra Imperial e, claro, Caetano Veloso, como se fosse um magistrado qualquer a dar seu aval para a empreitada. Caramba, esse tipo de necrofilia sem riscos é hedionda, oportunista e vendida pela imprensa como um tardio tributo ao artista. Onde estava essa gente quando Simonal ainda estava vivo, em 2000 e eles já estourados nas paradas? Por que não chamaram o velho para participar em seus discos? Ou o convidaram para seus shows? Muito sintomática a ausência de Jorge Ben, parceiro de Simona, fornecedor de seu maior sucesso, "País Tropical".
Meu primeiro pensamento foi comparar essa pataquada com o Concert For George, registrado em 2004, por amigos do Beatle, todos unidos em torno de uma apresentação beneficente, executando canções das quais haviam participado ou eram afins. E George sempre foi low profile em sua escassa carreira solo, preferindo curtir carros de Fórmula 1 ou ficar em casa. Quando tentou voltar aos palcos em 1990, com a ajuda do amigo Clapton, que lhe emprestara banda e estrutura, George foi acometido de "stage fright", o tal "medo do palco" e abortou nas primeiras datas da turnê. O duplo Live In Japan saiu como registro desses shows e mostra um George sem pique e realmente acanhado.
Simonal, lá em cima, merecia ter sua discografia relançada de maneira digna, álbum por álbum, com notas explicativas, som remasterizado e coisa e tal. Ninguém deveria precisar de tributos picaretas como esse. Afinal, essa gente que esteve no palco ontem não sabe o duro que ele deu em vida. E não fizeram a menor questão de saber.

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.