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Paralamas do Crítico Musical

30.06.09 | por Cel | Categorias: Música

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O crítico musical é uma criatura assaz irritante, devo admitir. Em muitas circunstâncias, sua capacidade de criticar e emitir opiniões é um mistério para os fãs de música. As pessoas ficam pensando: quem é esse sujeito para falar mal do meu artista favorito? E elas não estão completamente equivocadas em questionar a legitimidade do crítico musical. E talvez daquele que emite opiniões sobre cinema, artes, futebol, enfim, quase tudo.

Estão certas essas pessoas quando dizem que o conhecimento do crítico é fundamentado em opíniões estritamente pessoais e que estas nunca ficam totalmente pra trás na carreira do escriba. Sim, quando a gente começa a emitir opiniões para um público leitor, o fazemos baseados totalmente naquilo que achamos valioso e que gostamos. Daí, convém se informar, exercitar a isenção, compreender diferenças e ter cuidado com o que escreve. Também é indicado, claro, conhecer música, ouvir música, ler sobre música, o objeto da crítica. O que mais vemos é crítico musical que não entende nada de música, falando besteiras e fundamentando suas opiniões em informações incompletas e/ou erradas.

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Talvez dentre todas as atribuições do crítico, a isenção seja a mais importante. Não podemos simplesmente detonar um artista porque não gostamos dele e, pior, não podemos sempre elogiar algo que uma banda ou cantor ou cantora faz porque, simplesmente, gostamos dela desde sempre. Quando não conseguimos ser isentos, a crítica sai viciada, tendenciosa, rasa.

Estive no Canecão, na noite de 27 de junho para ver o segundo show carioca dos Paralamas do Sucesso, lançando seu novo disco, Brasil Afora. Fiquei tão emocionado com a apresentação que não me considero isento para criticá-la e resolvi esmiuçar isso aqui, para quem quiser ou se interessar em ver como funciona esse processo misterioso.

Antes de mais nada, convém explicar algumas coisas. Músicas dos Paralamas do Sucesso fazem parte da minha vida desde muito, muito tempo. Eu tinha 13 anos quando ouvi "Vital E Sua Moto" nas ondas do rádio carioca do início da década de 1980. Também me lembro de ver a banda dublando essa música no programa do Chacrinha. Depois vieram os clipes de "Óculos" (música com a qual me sacaneavam no Colégio, devido aos meus perenes quatro olhos) e "Meu Erro", o Rock In Rio (que vi pela televisão) e o primeiro show que vi na vida: Paralamas do Sucesso no Canecão. Era 1986.

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Quem lê esse blog ou me conhece já deve saber que eu sou um animal sentimental e nostálgico e que tenho uma série de caixinhas guardadas na minha memória com eventos e momentos importantes que me trouxeram até aqui. Os Paralamas estão numa dessas caixas, devidamente protegidos do cotidiano, imortalizados em lembranças que permanecem vivas por onde quer que eu vá. Portanto, vê-los em 2009, 23 anos depois de vê-los pela primeira vez ao vivo é um exercício e tanto para a minha canceriana maneira de ver a vida.

Antes de mais nada, ver Herbert Vianna numa cadeira de rodas é um tiro nessas caixinhas de memória. É uma invasão do imponderável na minha vã organização de coisas. É deixar o hoje entrar no ontem, justamente na porta em que eu monto guarda para isso nunca acontecer. Já havia visto Herbert ao vivo depois de seu acidente quase fatal, no show do Police, no fim do ano passado. Foi, como os americanos dizem, "bittersweet", agridoce, confuso, muito pelo total espírito esportivo dele em trocar a letra de "Óculos" de "atrás dessa lente também bate um coração" para "em cima dessas rodas também bate um coração". Minha esposa chorou, eu também, também pela idéia de vê-los ali, tocando com a banda que os inspirou, com a qual foram comparados e ironizados, taxados de "clones do Police". Estavam ali, orgulhosos, no maior estádio de futebol do nosso mundo, donos de uma sonoridade muito mais diversa e rica do que a banda inglesa. Lembro que eu estava nas primeiras filas da pista do Canecão em 1986 e cheguei a tocar no joelho do Herbert quando ele se aproximou da beira do palco, dançando e solando para as massas. Em 2009, nada disso.

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Mesmo que o show desse espaço para umas quatro músicas do novo trabalho - todas fraquinhas, bobinhas, sem sal - a idéia clara era fazer um greatest hits turbinado. Algumas canções pouco tocadas como "Pólvora" ou "Rio Severino" estiveram presentes, ao lado de clássicos inconstestáveis do porte de "A Novidade", "Lourinha Bombril", "Perplexo", "Ela Disse Adeus", "Alagados" e, claro, "Meu Erro", "Romance Ideal" e "Vital e Sua Moto", essa última tocada no bis, como de hábito. Confesso que essas três últimas me fizeram chorar baixinho, só para mim, no escuro da casa noturna tão familiar a mim nessa vida de shows, músicas e críticas. Me lembrei de tudo que aconteceu desde que essas músicas foram compostas, em 1983 e 1984, e como a vida mudou de lá pra cá. Entretanto, lá estava eu, diante delas, deles, como uma variável que não muda, em meio a tanto caos e teorias de ordem.

Escrever sobre música pop desde 1995 me fez perceber que a década de 1980 foi um período pobre em termos de criatividade. Ela perde para as décadas de 1970, 1960 e até para a de 1990, mas sempre será o meu berço musical. É como se os Paralamas fossem meus tios, irmãos, colegas de colégio, estão um pouco acima e mais à direita do meu peito.

Diante de tanta emoção e bandeira, o crítico de música se recolheu à sua insignificância e o fã de música, querendo trilhas sonoras para sua vida tomou conta, como se, no dia seguinte, tivesse que acordar às seis da manhã, tomar um copo de Nescau e embarcar no velho Integração Metrô-Ônibus L-22, para enfrentar o primeiro tempo de aula no Santo Agostinho.

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Depois desse texto, o crítico, cínico, gelado e que não bate palmas em shows (tremenda babaquice, mas uma unanimidade tácita entre essa classe) assume de volta o seu lugar.



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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